segunda-feira, 24 de março de 2014

Negro, Macumba e Futebol

Um livro histórico para a literatura esportiva brasileira. Nem tanto pelo conteúdo, hoje, amplamente estudado e pesquisado nas melhores universidades brasileiras, mas pelo pioneirismo que representa.

“Negro, Macumba e Futebol” (Editora Perspectiva), foi escrito por Anatol Rosenfeld, um dos grandes intelectuais brasileiros, filósofo, ensaísta e crítico de origem germânica, em uma época que o futebol nas “academias” era tratado com total descaso.

Anatol Rosenfeld “quebrou barreiras”, com os ensaios escritos sobre futebol, na Alemanha, e publicados um ano após sua morte, em 1974, em uma revista brasileira.

Literatura na Arquibancada reproduz abaixo, as apresentações dos organizadores da obra, além de algumas importantes explicações de seu tradutor. No final, um capítulo importante das reflexões de Anatol Rosenfeld sobre o futebol brasileiro.

Negro, Macumba e Futebol

Apresentação
Por Jacó Guinsburg e Abílio Tavares

Encontram-se reunidos neste volume três estudos publicados por Anatol H. Rosenfeld no anuário Staden Jahrbuch, do Instituto Hans Staden, em 1954, 55 e 56, respectivamente.
O autor escreveu estes trabalhos em alemão e dois deles são inéditos em português. O terceiro, “Futebol no Brasil”, foi vertido por Modesto Carone e estampado na revista Argumento em 1974, logo após a morte do autor.

A conjugação destes três estudos em um único volume oferecerá ao leitor não só análises pertinentes dos assuntos focalizados – escritas menos à guisa de desenvolvimentos científicos do que de apanhados de conjunto – como uma ideia da sólida bagagem sociológica, antropológica e política que sustentava as incursões crítico-estéticas de Anatol H. Rosenfeld no território cultural brasileiro.

O futebol no Brasil
Por Modesto Carone

Anatol Rosenfeld afirmou, certa vez, que o futebol foi sua porta de acesso à cultura brasileira, na qual se integrou de corpo e alma, legando-lhe uma obra valiosa de crítico e ensaísta. Um documento dessa generosa afeição ao futebol é este trabalho publicado em alemão, no ano de 1956, no Anuário do Instituto Hans Staden (Staden-Jahrbuch) sob o título Das Fussballspiel in Brasilien. Mas o ensaio não se resolve apenas em testemunho de afeição, pois a garra do crítico cultural está presente em toda parte, embora sempre repassada de compreensão e simpatia pelos figurantes anônimos ou consagrados do espetáculo brasileiro.

Os dados que Rosenfeld apresenta são, evidentemente, datados (não se deve esquecer, também, que se dirigia a leitores alemães que não tem a vivência brasileira do futebol), mas as interpretações penetrantes que lhes dá, bem como as relações que estabelece entre essa forma de diversão popular e outros fenômenos culturais canonizados pela erudição do Ocidente, revelam uma atualidade e uma perspicácia que tornam sua publicação em português não só oportuna como até mesmo necessária. Quanto à tradução, é útil que se diga que, na medida do possível, procuramos manter fidelidade não só ao espírito como também à letra do texto, para fazermos um mínimo de justiça às qualidades excepcionais de estilista em alemão e português que o humanista imprimiu a todos os seus escritos.

Macumba
Por Anatol Rosenfeld

Arte Jogo dos Astecas
As relações do jogo com a dança, com a festa e a esfera do culto (no sentido mais amplo da palavra) não são nada de novo – pelo contrário, são antiquíssimas. Falar no sentido religioso dos Jogos Olímpicos gregos seria supérfluo. O mesmo vale para os jogos e prélios medievais e, em grau mais alto ainda, para os jogos de bola centro-americanos dos astecas, nos quais a bola, como símbolo cósmico do sol, tornou-se motivo da luta entre representantes do dia e da noite, em tribos mais ao norte também símbolo da virilidade e da fecundidade, na medida em que ela precisava atravessar voando um anel semelhante a um gol.

O futebol brasileiro sem dúvida faz parte de uma evolução moderna de caráter inteiramente profano. Sente-se, contudo, sua secreta tendência a ritualizar-se, sua orientação para esferas de sentido que parecem não lhe caber. Isso não é de se estranhar onde são mobilizadas paixões tão profundas, onde tanta coisa “está em jogo” e onde a deusa Fortuna tem uma influência tão decisiva.

Para uma imensa torcida, a vitória de seu time, que se transmite para o grupo inteiro, significa um triunfo coletivo, um incremento da honra e do poder e, ao mesmo tempo, uma revelação do curso feliz das coisas. Um jogo de dados superior – como porventura o jogam os deuses da Índia –, o resultado de um grande jogo quase se parece a uma sentença de Deus, que já antes se anunciara muitas vezes na disputa.

Assim, pois, o grande jogo torna-se objeto de um cerimonioso coro alternado das seitas, que se manifestam, quase como outrora nas festas de Demeter e Dionisio, em cantos “iâmbicos” de escárnio e zombaria; se um grupo ganhou, faz parte do ritual da torcida gozar a derrota da outra, que dias a fio ostenta a “cabeça inchada”, e dar vazão a esse gozo em refrões. Participar desse jogo da torcida é obrigação séria do cidadão integral, a não ser que ele mesmo se excluísse da comunidade – um indivíduo “consagrado à morte” no seu total isolamento. Só envergonhado se pode admitir – se se pertence a esta ou aquela seita – que se é um completo pagão nesse domínio.

Quando se considera a imensa carga de sentimento que se irradia da torcida para os times, entende-se que eles busquem abrigo em esferas sobrenaturais, para se certificarem da estimulação benévola, num lugar onde tanta coisa depende do “acaso” ou da “sorte” (forças manifestamente míticas) ou para que “caiba” ao adversário o desfavor de forças demoníacas. O sincretismo das entidades invocadas é característico. Os mesmos jogadores que suplicam a vitória a Nossa Senhora da Vitória, São Jorge, Santa Barbara ou – quando são de cor – São Borja, São Damião ou São Cipriano; que antes do jogo, fazem promessas na igreja e o sinal-da-cruz quando entram em campo, realizam, ao mesmo tempo, gestos mágicos que influenciam magneticamente a bola, batem nas traves e traçam linhas misteriosas para fechar o gol (para mantê-lo “virgem” – citação de Sérgio Milliet, “Futebólia”, em O Sal da Crítica, SP, 1941). Embebem de água a chuteira (“meu santo está com sede!”) ou lavam os pés, em banhos de ervas que lhes são prescritas por pais-de-santo, após o que atiram o líquido no campo do adversário, para prejudicá-lo. Às vezes equipes inteiras, antes que o jogo comece, são objeto de rezas e defumações.

A visita a pais-de-santo é frequente, e muitas vezes ocorre que diretores do clube empreendem a peregrinação juntamente com seus jogadores. O América do Rio, que tinha de sair vitorioso de uma luta com o Vasco, fez um despacho especial, que consistia em farinha de mandioca torrada, óleo de dendê, três charutos, três moedas, um galo preto, uma pitada de sal e três velas: duas para ficarem ardendo numa encruzilhada perto da sede do Vasco, ao lado do festim de satanás, uma para permanecer no despacho. Se este fosse aberto no dia do jogo – mesmo por um vira-latas – então o diabo iria meter a mão no jogo e o América venceria infalivelmente o encontro.  Um negro do clube – um dos maiores do Rio – foi nomeado oficialmente pai-de-santo de uma seleção que viajou para Montevidéu, para lá travar a luta pela Taça Rio Branco.

Assim sucedeu muitas vezes que o branco, empenhado em “esclarecer” psicologicamente o negro, por seu turno foi “escurecido” psicologicamente por este (“choque de retorno”, como chamou Arthur Ramos).

Sobre Anatol Roselfeld:
Nasceu em Berlim, em 28 de agosto de 1912 e morreu em São Paulo, no dia 11 de dezembro de 1973. Estudou na Universidade Humboldt de Berlim (1930-1934) filosofia, teoria literária e história (com especialização em Letras Alemãs), tendo sido aluno de Nicolai Hartmann e Eduard Spranger (Filosofia), Max Dessoir (Estética), Julius Petersen (Teoria da Literatura) e outros. Interrompeu o preparo da tese de doutorado em 1935 pela perseguição nazista. Chegou ao Brasil em 1937, trabalhando como colono de fazenda e caixeiro-viajante e somente em 1945 iniciando atividades de jornalista (tradutor, redator, repórter e articulista). Colaborou inicialmente para periódicos em língua alemã e a seguir escreveu com regularidade para vários jornais (Correio Paulistano", "Jornal de São Paulo", "Estado de S. Paulo), bem como revistas brasileiras e alemãs ("Revista Brasileira de Filosofia", "Iris", "Staden Jahrbuch" etc.), produzindo ensaios nas áreas de estética, teoria literária, teatro, fotografia, cinema e filosofia.
Editor da secção de letras germânicas do Suplemento Literário de "O Estado de S. Paulo", escreveu numerosos ensaios sobre literatura, filosofia, cinema e teatro. Publicou escritos sobre Schopenhauer, Goethe e Schiller nas décadas de 1960 e 1970. Coordenou a coleção de estética (O Pensamento Estético), publicada pela editora Herder, tendo escrito prefácios sobre Schopenhauer, Goethe e Schiller. Foi membro do Conselho Editorial da Editora Perspectiva (São Paulo), que é responsável pela publicação de suas obras. Pronunciou inúmeras conferências e deu vários cursos no Rio de Janeiro e em São Paulo, principalmente sobre filosofia e interpretação literária. Seus escritos e palestras influenciaram importantes teóricos e críticos de teatro no Brasil. Lecionou estética teatral na Escola de Arte Dramática (São Paulo) (1962-1967) e no departamento de Arte Cênicas da ECA-USP. Também deu aulas de estética na Escola Superior de Cinema São Luiz (São Paulo). (Fonte: Wikipédia)


Um comentário:

  1. Saravá.
    Axé!
    Tudo a ver...
    Só falta o meu Urubu ser campeão!.
    Beijo.

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