quarta-feira, 12 de março de 2014

Milton Leite e o livro das seleções

Qualquer livro que ouse escolher “o melhor” sempre irá gerar polêmica. Imagine se o tema for seleção brasileira. O craque do jornalismo e narrador Milton Leite não se escondeu. Em seu “As melhores seleções brasileiras de todos os tempos” (Editora Contexto, 2010) foi atrás de entrevistas exclusivas para desvendar episódios ocorridos nas grandes conquistas brasileiras nas Copas de 1958, 1962, 1970, 1982, 1994 e 2002. O livro lançado em 2010, chega agora, em 2014, com novo formato, revelando detalhes importantes na história do Brasil em Copas do Mundo.

Literatura na Arquibancada recomenda também a leitura da entrevista especial feita com Milton Leite sobre sua carreira no jornalismo esportivo 


O melhor futebol do mundo
Por Milton Leite

Desde nossa derrota na final de 1950 – o “Maracanazo” –, o Brasil mudou muito. É quase outro país este que ganhou o direito de receber outra vez uma Copa do Mundo, a de 2014. População quatro vezes maior, economia fortalecida, menos gente na linha de pobreza, importância no cenário mundial... Parecemos próximos de realizar o sonho de “nação do futuro”. O Brasil conquistou, inclusive, a possibilidade de gastar bilhões com a construção de estádios, 12 novos Maracanãs, que lá no meio do século XX foi a única grande obra pública para receber o evento. Outros tempos.

No futebol, o crescimento foi ainda mais radical e o país ganhou incontestável status de primeiro mundo da bola: sete finais de mundiais, cinco taças erguidas, alguns dos maiores craques da história, clubes que ganharam fama internacional e, principalmente, admiração de todos que acompanham o esporte mais popular do planeta. A maior derrota da história foi também o ponto de partida para a era das conquistas.

Estamos mais confiantes no nosso futebol, não apenas pelos resultados dos últimos 50 anos, mas especialmente pela convincente conquista da Copa das Confederações em 2013, teste para a estrutura montada e ensaio para a torcida, orgulhosa de ter em casa a sua seleção de história tão rica. Afinal, dois técnicos campeões do mundo (Luiz Felipe Scolari e Carlos Alberto Parreira) foram chamados para comandar a campanha. E se já tivemos Pelé, Garrincha, Didi, Tostão, Rivellino, Zico, Sócrates, Romário, Ronaldo, Rivaldo encantando o mundo, na nova edição brasileira do Mundial, Neymar recebeu a missão de ser o virtuose.

Ao receber no quintal de casa as melhores seleções e os grandes jogadores, fica mais instigante olhar para o passado e perceber como a excelência verde e amarela com a bola nos pés foi construída. Essa ideia deu origem ao trabalho que você encontrará nas páginas deste livro. Retratar as principais representantes da seleção mais vencedora do futebol. Em outras palavras, responder à pergunta: quais foram as melhores formações que a equipe brasileira já teve?

À primeira vista, parece fácil, por tudo que já foi dito nas primeiras linhas desta introdução. No entanto, buscar excelência em meio ao que já é considerado a elite da modalidade escancara muitas e difíceis possibilidades.

Mas para um apaixonado por futebol, o trabalho mostrou-se delicioso. Voltar às vitórias catárticas de 1958 e 2002, sonhar novamente com os gols feitos – e até os não feitos – da perfeita equipe de 1970 e ainda recuperar o econômico time de 1994 e também aquele de 1982, com qualidade de campeão, mas que não conseguiu a taça.

Entretanto, quando o título começa com “melhor” ou “melhores”, é claro que a obra remete a escolhas, comparações. Sentir-se Feola, Aymoré Moreira, Zagallo, Parreira, Felipão tem seus encantos e desafios. O primeiro passo da nossa “comissão técnica” foi restringir o universo de escolhas às equipes que disputaram Copas do Mundo, o principal evento. A partir daí, basicamente foram adotados dois critérios: conquistas e qualidade técnica, que nem sempre caminham juntas quando o assunto é futebol.

Das seis seleções retratadas no livro, pelo menos duas, em minha opinião, conseguiram unir o futebol bonito, de alta qualidade, à conquista do título. As equipes de 1958 e de 1970 foram campeãs jogando um futebol irrepreensível. O time de 1962 era praticamente o mesmo de quatro anos antes, mas, envelhecido, não teve o mesmo brilhantismo, como os próprios integrantes daquele grupo deixam claro no capítulo que trata da vitória no Chile. Se as taças de 1994 e 2002 não foram conseguidas com futebol espetacular, ganharam e somaram ao país os cinco títulos. Também contaram com participações decisivas de craques como Romário, Bebeto, Taffarel, Ronaldo, Rivaldo e Marcos, só para ficar nos principais.

No entanto, nem todo grande time consegue vencer, entrando para a história pela qualidade apresentada em campo. Por isso, a seleção de 1982, derrotada na Espanha, tem um capítulo a ela dedicado – questão sempre polêmica, já que para muitos torcedores e especialistas time bom é o que vence. Nesse capítulo entra em ação, também, minha memória afetiva. Tive o privilégio de conhecer boa parte dos jogadores daquele grupo. Ele era formado por craques dentro e fora de campo.

Provavelmente essa não será a única polêmica a surgir nas próximas páginas. Sempre haverá quem reclame da presença ou ausência desta ou daquela equipe, pelas mais diversas razões. Eu mesmo sinto falta de uma: a vice-campeã de 1950, no Maracanã. Não ficou com o título, mas entraria facilmente pelo critério de qualidade técnica. Só que, em debates com os editores do livro, concluímos que não poderíamos abrir um trabalho sobre as melhores seleções justamente com o maior fracasso do nosso futebol. Porque se aquele era um timaço, também pesa contra ele o fato de ter perdido em casa, diante de um público de 200 mil pessoas, quando era favoritíssimo.

Escolhas feitas, começava a segunda fase: recolher o material. Foram muitas entrevistas, muitas histórias, muita conversa com essa gente que fez do futebol brasileiro o mais respeitado e vitorioso do mundo em todos os tempos. Das mensagens curtas e valiosas de Ronaldo e Pelé, passando por longas conversas com Carlos Alberto Parreira e Zagallo, contei com a participação direta ou indireta de várias gerações de craques com as mais diversas características. E dos mais diferentes pontos do planeta.

Numa manhã qualquer lá estava eu abrindo minhas mensagens eletrônicas. Uma delas vinha de Moscou e pedia desculpas pela demora em responder algumas perguntas formuladas dias antes.

– Meu Deus, o Zico me pedindo desculpas!!! – foi minha reação.

Eu já estava feliz só de ter conseguido o e-mail do Galinho e poder mandar as perguntas. Ele concordar em responder era a consagração.

E um dos maiores jogadores que vi atuar ainda me pedia desculpas???!!!

A viagem pelo Brasil de primeiro mundo, que é o futebol das nossas seleções brasileiras, me proporcionou coisas assim.

Agora convido você a embarcar neste passeio por este país internacional que está nas páginas seguintes. Se existe uma área em que os brasileiros se sentem cidadãos de um país desenvolvido, essa área é o futebol. E se você duvida, faça o teste: vá ao exterior e conte que é brasileiro.

Os jogadores citados por qualquer estrangeiro podem até variar, mas certamente você ouvirá algum nome familiar, pois o futebol brasileiro é referência corrente nos mais diferentes cantos do globo.

* * * *

Por fim, antes de a bola rolar, agradeço a alguns dos maiores jogadores e técnicos brasileiros que pessoalmente, por telefone ou por mensagens eletrônicas generosamente concederam entrevistas: Djalma Santos, Zagallo, Pelé, Tostão, Carlos Alberto Torres, Zico, Falcão, Júnior, Batista, Carlos Alberto Parreira, Bebeto, Mauro Silva, Cafu, Marcos e Ronaldo. Há muitos outros depoimentos, retirados de programas de televisão, entrevistas a jornais e portais de internet, além de biografias publicadas em livros.

Espero que você se divirta lendo como eu me diverti escrevendo!

1958
Suécia
Organização ganha a primeira Copa (trecho)
Por Milton Leite

Paulo Machado de Carvalho com a bola da final de 1958.
Como conquistar uma Copa do Mundo? Essa era a pergunta que os brasileiros se faziam às vésperas da disputa na Suécia, em 1958. Nem jogando em casa, em 1950, diante de 200 mil pessoas no Maracanã, a vitória tinha acontecido. Em 1954, na Suíça, outro fiasco. Não bastava ter craques como Pelé, Garrincha, Didi, Gilmar, Djalma Santos... A resposta veio com o empresário e dirigente Paulo Machado de Carvalho: planejamento, organização, trabalho em equipe e treinamento. Foi essa união de talento com a bola nos pés e um plano competente que levou a seleção brasileira a acabar com todos os fantasmas e conquistar pela primeira vez a Taça Jules Rimet.

O luto de 1950 ainda pesava sobre o futebol nacional na Copa da Suíça, na qual, mais uma vez, faltou um projeto mais profissional.

Djalma Santos estava lá e lembra bem como era o relacionamento com os dirigentes:

– Eles nem ficavam com a gente. E quando vinham era para falar de patriotismo, de bandeira nacional. Uma coisa constrangedora, eles ficavam falando de Nossa Senhora – conta ele. Na Suíça, teve um jogo contra a Iugoslávia que podíamos empatar para conseguir a classificação. Mas os dirigentes não conheciam o regulamento e diziam que precisávamos ganhar. Jogamos com tudo, lutamos muito, saímos exaustos e cabisbaixos com o empate. E só no vestiário descobrimos que o time tinha se classificado.

Depois daquele Mundial de 1954, no qual foi dirigido por Zezé Moreira, o Brasil não fez mais nenhum jogo naquele ano. Em tempo de atividade bem menos intensa, a seleção brasileira atuou em apenas quatro partidas em 1955: duas contra o Chile e duas contra o Paraguai, na disputa das Taças Bernardo O’Higgins e Oswaldo Cruz, respectivamente. Em cada jogo, um técnico diferente: o próprio Zezé Moreira, Flávio Costa (técnico em 1950), Vicente Feola e Oswaldo Brandão. Este último continuou no cargo no começo de 1956, na disputa da Copa América, no Uruguai, terminando na terceira colocação.

Logo depois, no Campeonato Pan-Americano, o país foi representado por um combinado de jogadores gaúchos, com a direção de Tetê. Na sequência, uma série de amistosos, agora tendo Flávio Costa no banco de reservas. Ele permaneceu até o final do ano, disputando inclusive a Taça do Atlântico (contra o Uruguai) e mais uma Oswaldo Cruz (contra o Paraguai). O ano de 1957 começou com a volta de Brandão ao comando, na disputa de mais uma Copa América, desta vez no Peru (Brasil em segundo, atrás da Argentina). Foi com ele também a classificação para a Copa do Mundo. Numa época ainda de poucos interessados em ir ao Mundial, a seleção brasileira só teve que eliminar o Peru (1 a 1, em Lima; 1 a 0, no Maracanã, com desempenho técnico sofrível). Logo depois, Oswaldo Brandão deu lugar a Sylvio Pirillo, que trabalhou em dois jogos com a Argentina (Copa Roca) e em dois amistosos com Portugal. No final do ano, dois jogos contra o Chile, mas aí a equipe era formada por atletas pouco conhecidos e com Pedrinho como técnico.

Em resumo, em três anos, a seleção brasileira teve sete técnicos, alguns mais de uma vez, dezenas de jogadores, muitas formações e nenhum rumo. Recém-eleito presidente da Confederação Brasileira de Desportos (CBD), João Havelange resolveu agir. Convocou Paulo Machado de Carvalho, poderoso empresário do ramo das comunicações e vice na diretoria da entidade, e entregou a ele o comando da equipe, nos seguintes termos, de acordo com a reportagem publicada pelo Jornal da Tarde em agosto de 2008, quando da comemoração dos 50 anos da conquista da Suécia: “Olha, doutor Paulo [pediu Havelange] preciso de uma seleção que faça o povo esquecer a de 1950, uma seleção vitoriosa, um time campeão. E porque eu preciso de tudo isso é que o quero como seu chefe. Arme tudo como quiser. Com carta branca.” Com a ajuda de alguns jornalistas, surgiu o Plano Paulo Machado de Carvalho e formou-se a comissão técnica que inauguraria na seleção o trabalho em equipe, em que nenhuma decisão seria tomada isoladamente ou por uma pessoa apenas. Djalma Santos diz que, a partir dali, a relação entre comissão técnica, jogadores e dirigentes mudou: “Com o doutor Paulo havia diálogo, era possível trocar ideias, os dirigentes tinham confiança nos jogadores e nós neles”.

O trabalho realizado para a Copa de 1958 passou para a história como o primeiro no nível profissional e organizado. E é verdade. Mas também é verdade que foi um projeto emergencial, já que o técnico foi anunciado no começo de março de 1958, apenas três meses antes da competição, e os jogadores convocados começaram a trabalhar em abril – bons tempos em que a equipe podia ficar reunida dois meses, apenas treinando e fazendo amistosos para se preparar para a Copa do Mundo. O anúncio do nome de Vicente Feola não deixou de surpreender.

– Para os jogadores não foi surpresa – conta Djalma Santos.

Nós conhecíamos o trabalho dele no São Paulo. Mas, para a seleção, as pessoas esperavam por alguém mais conhecido, o Flávio Costa, o Zezé Moreira. Acho que foi bom, o Feola era chegado num diálogo, era tranquilo, passava muita confiança aos jogadores.

Bellini, Feola e Gilmar, Copa 1958.
Zagallo também tem boas lembranças do jeito de Vicente Feola dirigir a equipe:

– Era um cara simples, não era de inventar. Ele procurava aproveitar as características dos jogadores. Para mim isso foi excelente, porque eu jogava de maneira diferente do Pepe e do Canhoteiro. Eu era um jogador de 100 metros, fazendo aquele vai e vem, ajudando na marcação e na armação, já era assim no Flamengo. Pepe e Canhoteiro eram as duas forças para irem à Copa, mas eu acabei conquistando o lugar por jogar de outro jeito.

Aliás, na lembrança do ponta-esquerda de 1958 ainda está muito presente o momento em que a sua convocação foi definida:

– O Flamengo fez um jogo contra o Botafogo, no Maracanã. Antes da partida, o preparador físico Paulo Amaral (do Botafogo e da seleção) me disse: “A comissão da seleção está toda aí. Vieram ver você jogar”. Eu fui bem, o Flamengo ganhou de 3 a 0 e acabei convocado. Na seleção, houve até uma transformação do esquema da equipe, que passou de 1-4-2-4 para 1-4-3-3.

Feola era próximo de Paulo Machado de Carvalho, que além de ser proprietário de emissoras de rádio e TV (Record), havia ocupado vários cargos diretivos no São Paulo e tinha sido presidente da Federação Paulista de Futebol. No mesmo São Paulo, Feola foi técnico em diversas oportunidades, além de exercer cargos administrativos como gerente e supervisor – posição que ocupava naquele ano de 1958, com Bela Gutman como técnico.

Amígdalas e dentes extraídos

Além de Feola e Paulo Machado de Carvalho, Paulo Amaral (preparador físico), Hilton Gosling (médico) e Carlos Nascimento (supervisor) formavam o núcleo de decisões da seleção. Foram convocados 33 jogadores para o início da preparação, que incluiu também, de maneira inédita, um completo levantamento da saúde e da condição física dos atletas: muitos dentes foram arrancados, amígdalas extraídas, infecções debeladas. O período de treinamentos aconteceu em Poços de Caldas e Araxá (MG) e durou 40 dias, inicialmente com uma preocupação grande com a preparação física, comandada por Paulo Amaral, que às vezes se empolgava e exagerava na dose dos exercícios. “O Paulo Amaral queria dar treinos fortes demais. Mas até sobre essa questão era possível conversar. Tanto que falamos com o Feola, com o Paulo Amaral e ele diminuiu a intensidade”, lembra Djalma Santos.

Um jogador de cada posição seria cortado, por isso mesmo a disputa era intensa para ficar no grupo e para ganhar um lugar na equipe titular, como aconteceu entre Pepe, Canhoteiro e Zagallo. Didi x Moacir; Nilton Santos x Oreco; Pelé x Dida; Garrincha x Joel eram as principais. Na luta pela ponta-esquerda, os favoritos eram Pepe e Canhoteiro, dribladores, agressivos, finalizadores. “Naquele período, eu parei de ler jornais, ouvir rádios, porque só se falava de Pepe e Canhoteiro. Tudo aquilo me serviu de motivação para trabalhar mais, me dedicar para ficar com a vaga”, conta Zagallo.

Garrincha, que seria um dos destaques do Brasil na Copa, não era ainda uma unanimidade e esteve ameaçado até de não ir para a Suécia. Como relata o jornalista e escritor Ruy Castro no livro Estrela Solitária – um brasileiro chamado Garrincha, a seleção ainda não havia encontrado um substituto para Julinho Botelho, desde que ele foi jogar na Fiorentina, no futebol italiano. A saudade era tanta que, no começo de 1958, João Havelange chegou a enviar uma carta para Botelho, convidando-o para ir à Copa. Ele nem precisaria vir ao Brasil para os treinos, poderia se juntar ao grupo nos amistosos finais que seriam disputados na Itália. Naquela época, as seleções não costumavam convocar atletas que atuassem em outros países, portanto, seria aberta uma exceção pela importância de Julinho.

Julinho Botelho
Mas, numa atitude rara e estranha para os padrões do século XXI, Julinho descartou a possibilidade. Disse que não seria justo ocupar na seleção a vaga de um atleta que atuava no futebol nacional – ele já havia recusado, da mesma forma, um convite para se naturalizar para ser convocado pela seleção italiana. Julinho disputara a Copa de 1954, mas naquele tempo o regulamento permitia ao jogador defender seleções de diferentes países, mesmo em Copas, desde que se naturalizasse.

Os primeiros testes de jogo daquela seleção aconteceram em abril. Contra o Paraguai foram disputadas as duas partidas válidas pela Taça Oswaldo Cruz (confronto anual que ocorria entre as duas seleções). O Brasil goleou no Maracanã por 5 a 1 e empatou no Pacaembu, 0 a 0. No jogo de São Paulo, houve muita violência por parte dos paraguaios e o primeiro susto, porque Didi saiu de campo com uma suspeita de fratura, não confirmada depois.

Apesar de o Plano Paulo Machado de Carvalho ser apontado como o grande responsável pelo sucesso daquela seleção, é preciso lembrar que, ainda na gestão anterior da CBD, em 1957, com Silvio Pacheco como presidente, algumas iniciativas inéditas já haviam sido tomadas, como enviar o médico Hilton Gosling para conhecer os locais de jogos e para escolher a concentração do time, assim como designar o “espião” Ernesto Santos para percorrer vários países e mapear os futuros e prováveis adversários no Mundial. Foram disputados ainda dois amistosos com vitórias sobre a Bulgária.

E o último teste em território nacional foi um desastrado confronto contra o Corinthians, no Pacaembu. O Brasil enfrentou um clima hostil da torcida do clube paulista, irritada pela não convocação do grande ídolo da equipe, Luizinho, o Pequeno Polegar. O jogo foi muito viril, apesar da goleada de 5 a 0 da seleção. Num dos lances mais fortes, o zagueiro Ari Clemente acertou com muita violência o jovem Pelé, com apenas 17 anos. Ele chegou a pedir para ser desligado do grupo que seguiria para a Europa, mas o médico Hilton Gosling garantiu que havia tempo para recuperação.

– Ao contrário do que muita gente pensava, que seria muita responsabilidade para um garoto de 17 anos, na verdade aquilo era um sonho para mim. O peso estava todo nas costas dos jogadores mais experientes como Gilmar, Bellini, Zito, Nilton Santos. Eu me sentia orgulhoso de ser o mais jovem a disputar uma Copa do Mundo – conta Pelé.

Ele lembra, ainda, do episódio em que o psicólogo João Carvalhaes avaliou os atletas e relatou ao técnico Vicente Feola que a jovem revelação não suportaria a pressão da competição. Os mesmos exames também reprovaram Garrincha. Para sorte do futebol brasileiro e mundial, a comissão técnica resolveu ignorar os resultados.

Pelé quase fora

Na Europa, a seleção brasileira fez uma escala na Itália, para os dois últimos amistosos preparatórios, contra Fiorentina e Internazionale. O primeiro jogo teria sido o responsável pela ausência de Garrincha na escalação da equipe titular nos dois primeiros jogos da Copa. “O Garrincha fez aquelas jogadas dele, a comissão técnica chegou à conclusão de que ele não estava preparado para jogar uma Copa do Mundo. Depois perceberam que ele deveria jogar”, afirma Djalma Santos. Ele se refere ao quarto gol da goleada brasileira contra a Fiorentina. Mané Garrincha driblou vários adversários, passou pelo goleiro e com o gol escancarado, preferiu não finalizar e esperou pela volta de um zagueiro já batido, tornou a driblá-lo para depois entrar caminhando com a bola dentro das redes. A atitude irritou muito todos os jogadores e a comissão técnica. O grupo temia que ele fizesse algo semelhante no Mundial. Como se verá a seguir, no relato de Ruy Castro, ele ficou fora dos primeiros jogos da Copa por questões táticas e não pela brincadeira contra a Fiorentina.

Naquela passagem pela Itália, Zagallo também teve a confirmação de que seguiria para a Suécia, apesar de no último treino, ainda no Brasil, haver sofrido um corte num dedo da mão e precisar levar vários pontos (13, ele garante!).

– Naquele tempo, não havia substituições. Por isso, alguns jogadores de linha sempre treinavam no gol para a eventualidade de o goleiro ser expulso ou se machucar. Eu e o Pelé treinamos no gol e numa defesa eu acabei cortando o dedo. Cheguei a pedir para não ir, mas no último jogo na Itália, consegui jogar, marquei um gol e fui para a Copa.

Havia na comissão técnica quem considerasse que não valia a pena levar Pelé para a Suécia, porque ele ainda se recuperava da contusão sofrida no amistoso contra o Corinthians. Chegaram a discutir a possibilidade de chamar para a vaga Almir, que estava na Europa numa excursão com o Vasco. Almir estava entre os 33 que treinaram na fase inicial. O médico Hilton Gosling foi quem garantiu Pelé.

O Brasil chegou à Suécia exatamente uma semana antes da estreia e estava entre os três favoritos na bolsa de apostas de Londres. Mas, de acordo com Djalma Santos, entre os brasileiros, não era bem assim: “Nós não estávamos entre as principais seleções, a embaixada brasileira nem mandou alguém nos esperar no aeroporto, porque eles achavam que ia chegar uma turma de bagunceiros, que perderia logo de cara”. Zagallo concorda: “Nos treinos nós percebíamos que a coisa ia caminhar bem, mas chegamos lá como zebras, éramos os peixes fora d’água, até porque caímos no grupo mais difícil da primeira fase”.

O primeiro contato com a população do país anfitrião está gravado na memória de Pelé: “O que mais me chamou a atenção foi o choque de culturas. Lembro, por exemplo, daquelas meninas loiras tocando meu cabelo e passando a mão pelo meu rosto para sentir a minha pele”. Negros como Pelé fizeram muito sucesso com as suecas.

Sobre o autor:
Milton Leite é jornalista profissional desde 1978. Atuou em rádios e jornais de Jundiaí no início da carreira, antes de transferir-se para São Paulo, onde trabalhou nos jornais O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde. Foi apresentador de programa de variedades na Rádio Jovem Pan AM e diretor de redação da Rádio Eldorado AM. Como narrador esportivo atuou durante 10 anos na ESPN-Brasil e desde 2005 é contratado do Sportv/TV Globo. Esteve nas Copas do Mundo de 1998 e 2006 e nas Olimpíadas de 2000, 2004 e 2008.

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