terça-feira, 18 de março de 2014

Itinerário da derrota

Pena que nos jornais esportivos brasileiros a crônica tenha praticamente desaparecido. Raros são os cronistas que ainda escrevem e quando escrevem, o problema é o espaço, mesmo com ferramentas poderosas como os blogs, na internet.

Ele continua em atividade e segue sendo um mestre da crônica esportiva brasileira. Já escreveu vários livros, um deles, a biografia do atual técnico da seleção brasileira, Luiz Felipe Scolari (“Felipão, a alma do penta” – Ed. ZH Publicações, 2002). Mas no distante ano de 1992, Ruy Carlos Ostermann teve suas crônicas reunidas e publicada em livro: “Itinerário da derrota – Crônica de cinco Copas do Mundo sem Pelé” (Ed. Artes e Ofícios – Organização Ricardo Russo).

Ruy Carlos Ostermann, "o Professor".
Desde o tricampeonato mundial no México, em 1970 o Brasil não conquistava uma Copa. Em cada uma das competições, Ruy Carlos Ostermann, conhecido por todos como “o professor”, estava lá, como cronista diário, jornalista de primeiríssima linha, no rádio, no jornal ou na TV.

Literatura na Arquibancada resgata abaixo os textos de apresentação e sobre o autor, além de duas crônicas que demonstram como, quando bem trabalhadas, são eternas.

Sobre o autor
Por Tabajara Ruas

A inteligência é um fenômeno dinâmico e o futebol sua metáfora. Duas equipes inteligentes em confronto poderão traçar um emaranhado de ideias e imagens geométricas com tantas nuances quanto um Matisse (Ruy Carlos Ostermann talvez vislumbre algo mais fluido, mais amplo e vulnerável, mais dialético: A Bachiana nº 5, por exemplo). Ou nada disso. Todos sabem que a essência de um espetáculo é a sua tensão e, seu fundamento, a maneira de chegar a essa tensão.

O futebol tem um recurso simples: coloca, frente a frente, onze homens determinados a impor sua vontade a outros onze. Durante duas décadas essa arte centenária encontrou nos campos brasileiros seus melhores atores. Foi a era de Pelé, o Rei. Essa era teve um cronista digno da grandeza que testemunhava. Ruy Carlos Ostermann foi e é o maior cronista esportivo brasileiro não só por saber ver com agudeza e isenção. E nem pela curva da frase, pelo topázio da palavra acariciada, pela concisão ou pelo delírio, mas pela qualidade de seu cotidiano exercício de estética e ética. Eram bons anos para o futebol, mas não para o país. A ditadura preparava o abismo de hoje, destruindo valores essenciais da convivência social, tão necessários atualmente como emprego, saúde, educação, moeda estável, craques.

Como tudo neste país, a crônica esportiva também se deteriorou, tornando-se aborrecida pela falta de ideias e de ética, pelo clubismo primário e pelo fanatismo torpe. As crônicas de Ruy Carlos Ostermann resistem. Límpidas, acossadas às vezes por furacões de conceitos, outras vezes dando rodopios, buscando longamente a brecha, dispersiva e brilhante como o meio campo da Seleção de 82, Espanha, as crônicas de Ruy perseveram no rigor profissional que exige a atividade pública. É um cronista de opinião clara, sim, senhor, mas o pensamento oposto, o dissidente, o contrário tem lugar nas entrelinhas do seu texto.

Nas crônicas de Ruy está (explicado, intuído, evocado) o passe de Dorinho, a retranca de Galego, a arrancada de Renato, mas está o jacarandá visto da janela do carro, a sedutora ambiguidade das mulheres, o prazer de abrir um livro de poemas, a silenciosa comoção de quando se apagam as luzes e tem início o filme de Bergman. Crônicas são efêmeras, é verdade. Apenas o grande cronista possui o dom de criar impressões e imagens que voltam à nossa memória, esparsas, de surpresa, como volta, algumas vezes, por exemplo, um amigo perdido, uma paisagem de infância, aquela defesa do Banks na cabeçada de Pelé.

Sobre o livro
Por Ricardo Russo

Era tempo.

Fui alimentado com farinha e futebol. Época de pouca liberdade e um ditador. Ou melhor, ditadora soberana nas esquinas do milagre, do ame-o ou deixe-o. Ela, a bola. Branca feiticeira em nossos sonhos adolescentes de espinhas e “peladas”. Nos intervalos, Érico, Machado, Dyonélio e filme de Kung-Fu.

E o futebol tinha que ser assim também; literatura e arte. As crônicas de Ruy juntavam os ingredientes (talvez porque um comentarista-filósofo, ou um filósofo-comentarista?). Não queríamos o jogo seco do campo, mas a palavra certa para explicá-lo. Desejávamos, sim, a paixão, mas sem a parcialidade fácil. Uma paixão como instrumento de arte. Um homem apenas apaixonado jamais será fiel. E a fidelidade à mecânica do jogo, ao atleta brilhante, à bola delicada, ou à jogada viril. Esta é a fidelidade do Ruy. Mas o professor forçava-nos a recortes de jornais, a pastas e arquivos, com o que o espaço diminuía mais e mais. Até que surgiu essa ideia. Um alívio para estantes e prateleiras.

Então me vejo entre estes recortes amarelados, incumbido da responsável tarefa de escandir, garimpar textos. Extrair do passado do futebol (e, portanto, também o meu passado) toda a gema superior. Recordo Guilhermino César, dizia que o pesquisador, enfim, deve ter coragem de abandonar coisas ótimas em detrimento do objetivo da pesquisa. Árduo, professor Guilhermino.

Este cronista não é apenas um escrevinhador (sic) de futebol. Dizem que, às vezes, usa o esporte como meio. Se, depois da derrota doída para a França, o amigo procurar uma crônica redentora, falando de táticas e erros técnicos, encontrará um professor distraído entre comidas, viagens ou plantas. É uma maneira de encarar a dor. Portanto, não espere um livro comum, nem poderia sê-lo.

Não escolhemos, simplesmente, crônicas. O material exigia mais – uma leitura que recuperasse o texto, sim, mas também a sensibilidade do comentarista diante do fato. Desse modo, há uma subleitura feita a partir do fracionamento do texto, da reordenação dos acontecimentos. Assim pensamos que há de se enriquecer o verbo do escritor.

Aqui vamos recompor os mundiais fracassados, a era Pós-Pelé, a derrota. Articulando partes de textos, prenúncios do comentarista, afirmações comprovadas com o tempo. É a história em que, tenho certeza, mergulharemos no passado refletido. Mas não poderia ser apenas um. Desse modo, os textos selecionados, em breve, comporão mais dois outros volumes. O segundo da série falará de atletas, juízes e historinhas. E a trilogia se completará com literatura pura; viagens, gastronomia, passeios em Porto Alegre ou Madri. Circunstâncias gerais que o olho agudo do cronista percebe. Enfim, matéria para todos os palatos.

Ora, são mais de vinte anos de trabalho diário.

Era tempo.

                                                                              * 

                                                
Literatura na Arquibancada destaca duas crônicas selecionadas no capítulo “Antecedentes”, publicadas no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, em 19/03/1978, ou seja, antes de a Copa do Mundo de 1978, disputada na Argentina, ter começado, e outra do dia 09/06/1978, quando o Brasil já havia realizado dois jogos, dois empates em 0 a 0 contra Suécia e Espanha, com atuações muito criticadas pela imprensa e torcedores. E como bem observou o organizador Ricardo Russo, Ruy antecipa um dos problemas brasileiros durante a campanha brasileira naquele mundial, a dependência do camisa 10 Rivelino e a soberba do técnico Coutinho. Além de, na segunda crônica, “detonar” as opções criadas pelo treinador para tentar mudar o desempenho da equipe na competição.

Antecedentes
Por Ruy Carlos Ostermann

O último treino da Seleção não teve Rivelino e foi mais rápido, informam os observadores. Alguns tratam de explicar: foi porque sem Rivelino todos tiveram que trabalhar mais e, assim, acabaram se movimentando mais. Em parte é verdade, mas eu prefiro pensar que a Seleção joga demais nas costas de Rivelino. Até porque ele gosta, lhe faz bem, justifica seu ego de estrela. E também porque não há outro talentoso e imaginativo para fazer como ele na seleção. Coutinho, se já sabia desta dependência da seleção, deveria ter acendido um liquinho e saído pelo país a perguntar por um substituto para Rivelino. O leitor dirá, com a sabedoria de quem já ouviu esta história antes, que não existe um substituto para Rivelino. O treino da sexta-feira dá uma pista.

Rivelino não treinou, foi poupado. O que fez Coutinho? Chamou Batista, deu-lhe a tarefa de Cerezzo. Chamou Cerezzo, deu-lhe a responsabilidade de ser Rivelino. E, no mais, tudo bem. Quer dizer, na seleção o substituto de Rivelino é Toninho Cerezo. Nem discuto se está certo, concluo apenas que talvez não haja outra solução. Rivelino é uma espécie em acelerada extinção. Centraliza o jogo, para o fluxo do time, dispara o passe, inverte as direções. E pede bola. Assim era Gérson na seleção de 70. Foi Danilo Alvim em 50, Didi em 58 e 62. Não foi ninguém em 66. Deveria ter sido Rivelino em 74. Como se vê, uma questão antiga, de barba branca, obras completas encadernadas na estante, muito respeito no futebol. Aliás, entre as novidades semânticas de Coutinho está esta velharia do dono do time. Intacta, com vinhetas art-nouveau, caindo da linha tipográfica dos últimos enunciados teóricos da Granja Comary.


                                                                              *       

Chicão, em lance contra a Argentina, COPA 1978.
            
Agora se sabe: o campo piorou de Janeiro para Junho, os europeus não repararam na mesma coisa e até se aproveitaram disto, o jogo da seleção deve ser considerado artístico, milimétrico e inadequado para uma Copa do Mundo nestas condições precárias de campo, a atitude dos zagueiros europeus é a pior possível com relação aos frágeis atacantes brasileiros. Por estas razões absolutamente surpreendentes e inesperadas, a seleção deve mudar de jogo e de jogadores. Antes de mais nada, a questão agora é ficar de pé diante dos europeus. E o jogo bonito, mas inadequado para a Copa da Argentina, será substituído pelo grosseiro jogo aéreo e será feito por jogadores pesados e possivelmente também grosseiros.

Em linhas gerais este é o resumo da entrevista coletiva dada por Coutinho, ontem à tarde, na Villa Marista, diante de um grupo de repórteres de rádio simplesmente desorientados com a possibilidade de que o técnico viesse a dizer uma rigorosa novidade.

Coutinho já decidiu quem vai entrar no time. Suponho que ainda não decidiu quem tirar. De qualquer modo, anunciou que já sabe e que vai primeiro falar com os jogadores. Só depois, e na hora do jogo, anunciará quem sai, quem entra. Se devem ser grosseiros, não é difícil identificá-los. Chicão pode ser um deles.

Usa bigodes, faz a barba de dois em dois dias, deixa cair a calça do abrigo e enrola a sobra abaixo da barriga, bate na bola como se desse um tapa em criança e calça 44. Joga duro, é desapiedado na frente dos zagueiros. É um lenhador da Geórgia. Roberto é outro. Tem dente de ouro, chuta de canela, dribla com o joelho, cabeceia com a nuca, sorri como se tivesse uma dentadura de aço que impedisse os lábios superiores de um movimento uniforme e dedicado de reposição.

Um terceiro pode ser Jorge Mendonça. É de São Paulo, joga no Palmeiras e, se não é grosso, poderia ser pelo tamanho.

O problema é que esse critério de aproveitamento biométrico dos jogadores foi recém-inaugurado na seleção. Passamos do atelier para a serraria.

Nota do Literatura na Arquibancada: Ruy acertou em dois casos. Jorge Mendonça e Roberto foram titulares. E Chicão entrou no segundo tempo, no lugar de Toninho Cerezzo. O Brasil ganhou da Áustria, com o magro placar de 1 a 0, garantindo passagem para as oitavas-de-final da Copa.


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