sexta-feira, 7 de março de 2014

A história do Futebol Feminino no Brasil


Na terra onde temos o privilégio de ter o rei e a rainha do futebol mundial, Pelé e Marta, a diferença entre ambos é gigantesca. Apesar de termos a melhor jogadora do mundo eleita diversas vezes pela Fifa, a situação das meninas no futebol brasileiro é, e sempre foi, praticamente um caos.

Como se não bastasse o preconceito histórico contra as mulheres praticando futebol, as meninas brasileiras sofrem com a falta de apoio e, principalmente, estrutura. E como será que toda essa história começou?

É o que nos conta Laércio Becker, do Paraná, colaborador do site
www.campeoesdofutebol.com.br em uma reportagem especial sobre as origens do futebol feminino no Brasil publicado originalmente no referido site. 

O texto é parte do livro escrito por Laércio, "Do fundo do baú", também disponível gratuitamente no mesmo site.



Primeiros jogos de futebol feminino
Por Laércio Becker

Se a prática do futebol já era motivo de polêmica (ver o artigo “Contra o football”, no site www.campeoesdofutebol.com.br), maior ainda seria a do futebol feminino. 
(Jorge Knijnik e Esdras Vasconcelos reclamam do termo “futebol feminino”, dizendo que, a rigor, o futebol é um só. Mesmo assim, vamos utilizá-lo, respeitosamente, por se tratar de expressão consagrada.)

Desde o século XIX, esportes já eram praticados pelas mulheres. 

Joaquim Manuel de Macedo, o famoso autor de A moreninha, chegou a fazer o seguinte comentário, na imprensa (depois republicado nas Memórias da Rua do Ouvidor, de 1878): “Ainda bem que a ginástica já entra seriamente no sistema de educação pública, e na província do Rio de Janeiro adotou-se até a ginástica apropriada para o sexo feminino na escola normal”

E, antes que alguém achasse que fazia ironia, declarou: “Eu reconheço a conveniência e aplaudo a aplicação do ensino da ginástica”

Aliás, devemos reconhecer em Macedo um entusiasta dos exercícios físicos em geral, tanto que, em 1863, pedia a instituição das regatas no Rio de Janeiro (Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro).

Mas e o futebol feminino?


A dissertação de Mestrado em Educação Física de Eriberto Moura, pela Unicamp, é sobre as relações que há entre lazer, esporte e gênero. Só que a vasta pesquisa de periódicos de época que ela o obrigou a fazer acabou revelando alguns dados sobre qual seria a primeira partida de futebol feminino no Brasil.

Nessa pesquisa, descobriu pistas de jogos entre mulheres entre 1908 e 1909. Mas o que entrou para a história foi um jogo que em tese seria disputado entre homens e mulheres em 25.01.1913, num evento beneficente para construção de um hospital da Cruz Vermelha para crianças pobres – que foi inaugurado em 1917. Atendendo ao discurso dos médicos de então, que pregavam que as pessoas praticassem esportes, os jornais divulgavam o evento anunciando que “as mulheres podem até jogar futebol”. Só que, nas edições dos dias seguintes, foi informado que a “Madame Lili” da escalação era, na realidade, um homem com vestido, peruca e maquiagem. Na verdade, o time “feminino” era formado por jogadores do Sport Club Americano, campeão paulista daquele ano, vestidos de mulher, misturados a “senhoritas da sociedade”.

Time fut. feminino. Foto A Plateia, 28/01/1913. Crédito: Arquivo do Estado de SP.
Outro jogo de interesse histórico ocorreu em 1921, entre senhoritas dos bairros Tremembé e Cantareira, na zona norte de São Paulo. Essa partida foi noticiada pelo jornal A Gazeta como uma atração “curiosa”, quando não “cômica”, em meio às festas juninas. Isso porque, naquele tempo, as mulheres tinham um papel secundário no esporte em geral e no futebol em particular. Em geral, limitavam-se à torcida e a concursos de madrinhas de clubes. Em campo, no máximo, davam o pontapé inicial ou disputavam tiros livres.

Equipe do RJ, década de 50. Crédito: Arq. do Estado de SP.
Na realidade, apesar dos avanços, havia muita resistência de setores mais conservadores da sociedade contra o futebol feminino. Basta observar que até mesmo Coelho Neto, apesar de ser um grande defensor do futebol (como se vê no artigo “Contra o football”, no site www.campeoesdofutebol.com.br), escreveu o seguinte, na imprensa, em 1926: “Certamente ninguém exigirá da mulher que jogue o football ou o rugby, que esmurre antagonistas com o guante de boxe, que arremesse barras de ferro, que se engalfinhe em luta romana. Há exercícios que lhe não são próprios e que lhe seriam prejudiciais, não só à beleza como à saúde e até a sujeitariam ao ridículo”.

Para se ter uma idéia da resistência masculina, segundo Antonio Carlos Nogueira de Oliveira (o “Leivinha”), a primeira partida de futebol feminino em São João da Boa Vista (SP) mereceu excomunhão da Igreja Católica, pelo Padre Antonio David. Isso em 1952!

                                    Equipe do Colégio Santo André, em São João da Boa Vista.
                                                            Crédito: www.leivinha.com.br

Pde Antonio David, S. João da Boa Vista. Crédito: www.leivinha.com.br
Muito diferente foi a atitude do Monsenhor Severino, em Campos dos Goitacazes (RJ). Para angariar fundos para o Orfanato São José, ele organizou os primeiros jogos de futebol feminino na cidade, em 06.08.1931. As moçoilas representaram os três principais clubes locais: Americano, Goitacaz e Rio Branco. Conta Nilo Terra Arêas que Monsenhor Severino, no entanto, teve de enfrentar grande resistência de muitos pais austeros que consideravam o futebol um jogo “pecaminoso”. Resultado: suas filhas foram jogar às escondidas...

Léa Campos, 1ª árbitra no Brasil.
Salvo engano, em 03.11.1940 ocorreu o que me parece ter sido a primeira arbitragem feminina no futebol brasileiro. Foi em Petrópolis, conforme informação de Gabriel Kopke Fróes (apud Paulo Ferreira). Naquele dia, o Serrano FC organizou um festival em que a partida principal foi um jogo de futebol feminino de duas equipes cariocas e a preliminar foi um jogo entre marmanjos do Serrano e do America. Nessa preliminar, como o árbitro se indispôs com ambas as equipes (incrível, era um amistoso...), a jogadora Margarida Soares assumiu o apito e levou o jogo até o fim, sem novas reclamações (muitos anos depois, em vez de “a Margarida”, a arbitragem brasileira contou com “o Margarida”, Jorge José Emiliano dos Santos). Depois, ainda participou da partida principal, na qual ainda teve fôlego para entusiasmar a torcida com suas “formidáveis escapadas e correção nas fintas e arremates”, segundo a Tribuna de Petrópolis. (Segundo Poli e Carmona, a primeira árbitra brasileira a ser reconhecida pela Fifa foi Léa Campos, em 1971.)

Parece que foi de 1959 o primeiro jogo interestadual de futebol feminino: uma partida beneficente entre vedetes cariocas e paulistas.

Time feminino do Araguari A.C, uma das primeiras do país.
Em 14.04.1941, o Decreto-lei nº 3.199, em seu art. 54, dispunha que “às mulheres não se permitirão a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza”. Esse artigo foi regulamentado em 1965 pelo Conselho Nacional de Desportos (CND), cuja Deliberação nº 7 dizia que: “não é permitida a prática feminina de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, futebol de praia, pólo, halterofilismo e baseball”.

Quando surgiu o primeiro clube de futebol feminino? No remo, o primeiro clube feminino foi o Grupo de Regatas Feminino, da pequena Ilha da Pombeba, na Baía da Guanabara. Fundado em 1901, disputou uma regata com remadoras do Club Cajuense e fechou as portas, devido ao preconceito que sofreram (cf. Victor Andrade de Melo e Penna Marinho).

Jogo futebol feminino, na Bahia, 1956.

Quanto ao futebol feminino, uma exposição virtual do Arquivo Público do Estado de São Paulo (www.arquivoestado.sp.gov.br) afirma que os primeiros clubes foram fundados na década de 1940, no Rio de Janeiro, como o Cassino Realengo, o SC Brasileiro e o Eva FC. No entanto, há notícia de um clube feminino de futebol fundado antes disso, em 1924, em Belém, com o sugestivo nome de Bloco das Palmeiras – cf. Revista A Semana, de 16.11.1924, apud Magalhães. Tudo indica que foi mesmo o primeiro.

Alex Leonardos chama atenção para um clube fundado em 1965 (ou seja, justamente no ano da proibição do futebol feminino pelo CND): o Canarinhos FC – nome escolhido em virtude do uniforme comprado: camisas amarelas com detalhes em verde. Tudo começou quando, em certo domingo, um grupo de moças da Vila Pan-Americana, na Ilha do Governador, resolveu promover uma “pelada” só de mulheres (vestidas, é claro). O sucesso do evento fez com que, semanas depois, fosse fundado o clube. O detalhe é que, no estatuto, os pais das jogadoras constavam como diretores, mas eram apenas “laranjas” – segundo Alex Leonardos, para “resguardar a imagem das garotas e dar um caráter bem familiar ao clube”. Dos tombos e trombadas iniciais, o clube evoluiu para o sucesso, a ponto de receber convites para apresentações em outras cidades.

Equipe feminina do Canarinhos FC. Crédito: acervo Jaime Moraes.
Por falta de times adversários, inicialmente, o Canarinhos tinha que levar seus dois quadros para jogarem entre si. Depois, alguns outros times foram surgindo nos bairros da Saúde, Penha e Campo Grande, além de outras cidades como Leopoldina (MG) e Campinas (SP). Infelizmente, porém, o Canarinhos encerrou as atividades em 1968. Onze anos depois, a proibição oficial do futebol feminino foi finalmente revogada, pela Deliberação nº 10/1979 do CND.

Por fim, segundo Márcia Morel e José Geraldo Salles, o EC Radar, do Rio de Janeiro, foi o primeiro clube de futebol feminino a excursionar pelos EUA e América do Sul, em 1982.

Sobre Láercio Becker:
É de Curitiba, no Paraná. Autor do livro: 
"Do fundo do baú - Primórdios no futebol brasileiro" (Editora Campeões do Futebol, 2011). Também acessível online, pelo link:

3 comentários:

  1. O futebol no Brasil ainda é lembrado como coisa de homem, contudo se você for aos EUA podemos verificar que lá é totalmente diferente. No Brasil é visto pela maioria como preconceito e ainda podemos ver que no Brasil ainda não tem um mercado bom para o futebol feminino às jogadoras da seleção em sua maioria jogam no exterior porque no Brasil não tem oportunidades.

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  2. É, e depois que elas entraram pra valer no âmbito do futebol, considerado masculino, nos deu muitas glorias.
    Parabéns as mulheres do nosso país varonil, Brasil, sil, sil...
    Abraço

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  3. Espalhei!
    Passei na Arquibancada...
    Beijo.

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