segunda-feira, 10 de março de 2014

50 anos por dentro do Futebol

Viver mais de meio século nos bastidores do futebol não é para qualquer um. Pouco “badalado” entre os treinadores brasileiros que fizeram história no nosso futebol, o professor Teixeira quis deixar um legado, em livro, sobre essa sua longa trajetória.

“50 anos por dentro do futebol – Histórias e bastidores” (Phorte Editora, 2010) é livro obrigatório para aqueles que querem conhecer os bastidores do comando técnico de um clube ou seleção de futebol. E nada melhor do que as histórias vividas pelo professor Teixeira, que, em fevereiro de 2010, completou 51 anos no futebol. Seus números são incríveis: 6 vezes campeão e 1 vice, atuando em 14 clubes no Brasil, 5 no exterior e 11 seleções paulistas e brasileiras de várias categorias, exercendo os cargos de preparador físico e auxiliar técnico. 16 vezes campeão e 7 vice, como treinador. 4 vezes campeão e 3 vice, como supervisor e coordenador técnico. E ainda, participação em 362 jogos internacionais, sendo 90 de seleções.

Mais do que “números”, a história do professor Teixeira no mundo do futebol merece ser conferida. Literatura na Arquibancada destaca abaixo a introdução da obra além de um capítulo muito especial sobre o trabalho que ele desenvolveu no Corinthians, como técnico, logo após a quebra do jejum de 22 anos sem títulos (em 1977). Trabalho que envolveu a contratação de um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos. Os bastidores da contratação de Sócrates são incríveis.

Introdução
Por Prof. José Teixeira

Prof. Teixeira ao lado de Vicente Feola.
Há cinquenta anos venho trabalhando no futebol profissional e ocupando diversas funções nessa área, ao início da minha carreira, como preparador físico e técnico das equipes de aspirantes e, posteriormente, como técnico de equipes profissionais, em vinte clubes pequenos e grandes, no Brasil e no exterior, em jogos com seleções paulistas e representativas do Brasil, tanto de juniores quanto de infantis, com seleções paulistas profissionais e como auxiliar de Cláudio Coutinho, na seleção nacional, além de comandar a seleção feminina de futebol que representou o Brasil na Copa da Paz, na Coreia, totalizando o número considerável de noventa participações em seleções, além de muitas centenas de jogos com os diversos clubes em que trabalhei, como também das passagens por importantes clubes da Colômbia, da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos, do Peru e do Japão.

Exerci os cargos de supervisor e coordenador técnico, em clubes e seleções, conseguindo uma grande experiência prática durante a minha vida profissional, que sempre foi embasada nos aspectos científicos do treinamento desportivo, na pesquisa, no controle estatístico, na formação da indispensável infraestrutura dos clubes e, principalmente, na valorização e no aperfeiçoamento de todos os componentes do grupo de trabalho.

Prof. Teixeira, ao lado de Brandão, técnico do Corinthians.
Quantos fatos importantíssimos acontecem nos bastidores, nos vestiários, durante os treinamentos, as concentrações e as viagens e, principalmente, nas reuniões ocorridas antes dos jogos e nos intervalos e que não chegam ao conhecimento do grande público e dos interessados em conhecer essas nuanças específicas do futebol as quais somente alguns privilegiados tiveram a oportunidade de presenciar, participar delas ou provocá-las, para que algumas acontecessem e fossem utilizadas em prol de uma melhoria da equipe durante as partidas.

Este livro conta inúmeras dessas situações, com clareza, objetividade e, principalmente, com o escopo de informar os que poderão utilizar essas informações como parâmetros para feitos idênticos por outros profissionais.

Não posso deixar passar esta importante oportunidade, como agradecimento ao próprio futebol: a de poder transmitir estes conhecimentos e estas experiências para todos aqueles que pretendem trabalhar ou que já estejam atuando no futebol.

Com a finalidade de que todos tomem conhecimento dessa vivência, faço esta publicação com a satisfação de passar ao público em geral e aos desportistas especializados no futebol esse acervo, esperando e desejando sinceramente que toda essa cultura por mim adquirida seja de utilidade para facilitar aos que tem interesse de participar dessa importante e complexa área desportiva profissional, com o objetivo de colaborar para um desenvolvimento ainda maior do futebol brasileiro.

A indispensável presença de Sócrates 
para o novo esquema tático
Por Prof. José Teixeira

Durante o treinamento físico que estava sendo realizado pela manhã do dia 8 de agosto de 1978, no Parque São Jorge, recebi um recado do nosso prestativo Caldeirão, misto de porteiro e segurança, dizendo que o presidente Vicente Matheus queria falar comigo assim que terminasse o treinamento.

Ao final das atividades, dirigi-me à sua sala, cumprimentando-o normalmente, quando ele respondeu, praticamente balbuciando: “Vamos”.

Saímos da sala e subimos na sua Mercedes esportiva de cor prata, de placa 777, saindo do Parque São Jorge, com destino ao centro da cidade, quando eu perguntei: “Posso saber aonde vamos?”.

E ele respondeu: “Vamos contratar o volante que você pediu”.

O Corinthians tentou contratar o jogador Batista, do Internacional, de Porto Alegre, como já foi explicado anteriormente, porém, como a negociação não se concretizou, continuamos a procurar outro para a posição.

“Quem é o jogador?” – perguntei.
A resposta foi rápida e entusiasmada: “Chicão, do São Paulo F.C”.
“O senhor não pode contratar o Chicão.” – respondi com convicção.

O presidente parou a sua Mercedes em plena Marginal e, dirigindo-se a mim com a voz alterada, perguntou: “Eu não entendo, você diz que a equipe precisa de um bom jogador para a posição de volante, e quando eu consigo um de nível de seleção, você diz que não serve! Eu já acertei tudo com o Dr. Galvão (Dr. Antonio Leme Nunes Galvão, presidente do São Paulo).

“O que o senhor acertou com ele?” – continuei.
“Vou trazer o Chicão, pagar 2 milhões de cruzeiros (US$ 165.000,00) e dar o passe de Cláudio Mineiro.”
“O senhor não pode fazer isso porque vai montar o time do São Paulo.”
“Como?” – perguntou, irritado.

E eu, calmamente fui explicando toda a situação: “O presidente do São Paulo, Dr. Galvão, já acertou com o presidente Benedini, do Botafogo, de Ribeirão Preto, a contratação do meio de campo Sócrates e do zagueiro Ney. Se o senhor der o Cláudio Mineiro, vai montar o time do São Paulo. Onde está o Chicão?” – perguntei. E sem esperar uma resposta, afirmei: “Ele está na cidade de Salto, fazendo tratamento de uma dor no ciático.”, já que era a informação que corria nos meios esportivos. Continuei: “Vamos trazer um jogador que o São Paulo não está usando por motivo físico e vamos dar a eles três jogadores que deverão ser muito úteis”.

O presidente Vicente Matheus, dentro da sua simplicidade e alta inteligência, entendendo a inesperada e desagradável situação, perguntou: “O que eu faço agora, se já acertei tudo com ele? Estamos indo lá para almoçar com o Dr. Galvão e definir o negócio.”, completou, meio sem jeito, já que era homem de uma palavra só.

“Nós vamos lá e o senhor diz a ele que o técnico do Corinthians não quer o Chicão.”

O presidente Vicente Matheus, com o seu carro Mercedes-Benz em movimento, seguiu em silêncio para a Rua Boa Vista, no centro de São Paulo, onde, no restaurante do Jóquei Clube, aconteceria a marcada reunião.

Chegando ao local, o presidente Matheus, dirigindo-se a mim, disse: “Espera aqui. Eu vou lá em cima falar com ele e já volto”.

Voltou quinze minutos depois, e sem falar nada, seguimos na direção do Parque São Jorge. Como ele não falava nada, já que estava constrangido, perguntei: “O que aconteceu?”.
“Falei para ele que o técnico do Corinthians não tinha aprovado a contratação do jogador Chicão. Ficou muito nervoso, e eu quebrei uma negociação que já estava apalavrada, coisa que não gosto de fazer, mas se for para o bem do Corinthians, está bem.”

Sempre colocava o interesse do Corinthians em primeiro lugar, e imagino como deve ter sido difícil para ele voltar atrás em uma negociação já iniciada. Seguimos até o Parque São Jorge, praticamente, em silêncio. Lá chegando, disse que eu precisava conversar sobre novas contratações, e marcamos em sua residência, já que, nesse dia 8 de agosto, não haveria treino à tarde.

No horário combinado, lá estava eu em sua casa na Rua Maria Eleonora, 133, próximo do clube. Aconteceu uma reunião informal, com a presença da sua esposa, Dona Marlene Matheus, e ele, novamente, manifestou o desconforto pelo acontecido com o Dr. Galvão. Outra vez, expliquei o assunto muito mais detalhado e tive o apoio de Dona Marlene, que afirmou: “Vicente, se foi bom para o Corinthians, também foi bom para você”. Essas sábias palavras acalmaram o presidente.

Reiniciado o assunto sobre contratações, analisamos os nomes já contratados e os dos que subiram dos juniores para o elenco profissional, quando eu disse ao presidente: “O senhor tem de contratar o jogador Sócrates, do Botafogo de Ribeirão Preto”. “Mas ele já está apalavrado com o São Paulo”, respondeu. “Porém, ele ainda não foi contratado”, afirmei, “e os 3 milhões de cruzeiros que o Botafogo está pedindo pelo Sócrates e pelo Ney, o Corinthians também pode pagar”.

Essa colocação fez o presidente ficar indeciso. Continuei: “O Corinthians precisa do Sócrates, para ser a peça principal do novo esquema tático que deveremos colocar em prática na equipe titular”.

Peguei o telefone e liguei para o presidente Benedini, do Botafogo, dizendo que o presidente Vicente Matheus queria falar com ele. Após os cumprimentos iniciais, o presidente Matheus simplesmente disse: “Amanhã estarei aí em Ribeirão Preto, para falar sobre a contratação do Sócrates”. “Ele está praticamente acertado com o São Paulo”, foi a resposta do presidente do Botafogo. O Sr. Vicente Matheus continuou: “Mas amanhã estarei aí e conversaremos pessoalmente”, e desligou o telefone.

Soubemos depois que o presidente do Botafogo entrou em contato com o Dr. Galvão, expondo a conversa com o presidente do Corinthians, ao que o Dr. Galvão teria dito: “Se o presidente Vicente Matheus for realmente a Ribeirão Preto, pela liberação do Sócrates, peça 6 milhões de cruzeiros que ele desiste, por ser um valor fora da nossa realidade”.

No dia seguinte, o presidente do Corinthians, em companhia do vice, Izidoro Matheus, e dos diretores de futebol, Leonel Marconi e Orlando Monteiro Alves, lá estavam e se encontraram, no lugar combinado, com o presidente do Botafogo. Posteriormente, chamaram Sócrates para participar da reunião. O preço inicial pedido pela liberação do jogador foi de 6 milhões de cruzeiros. O presidente Matheus ficou negociando até altas horas da noite, conseguindo a sua liberação.

Voltou com Sócrates, pagando “somente”, Cr$ 5.860.000,00. “Não paguei os 6 milhões pedidos”, gabava-se ele. O extraordinário jogador Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Oliveira, médico e meio de campo do Botafogo, foi, até aquela data, a transferência de valor mais elevado acontecida no Brasil, aproximadamente 351 mil dólares. Soube depois, pelo próprio Dr. Galvão, desse e de outros detalhes sobre aquela transferência, em um jantar que fizemos, com a presença de sua esposa, na cidade de Guadalajara, no México, durante a Copa de 1986.

Durante os nossos levantamentos e análises em anos anteriores ao título de 1977, observamos que o time corintiano tinha um rendimento altamente positivo quando o “centroavante” estava em uma fase favorável e fazendo muito gols. Assim foi na época de Baltazar, na década de 1950, e depois, a situação se repetiria, com Flávio, Ney, Servílio, Sílvio, Mirandinha e Geraldão, o último “centroavante” que se sagrou campeão recentemente, depois de 22 anos...

Por que Sócrates seria importante no novo esquema tático?

Após muita análise dos estudos da forma de jogar da equipe do Corinthians, através dos tempos, chegamos à conclusão de que haveria a necessidade da aplicação de um esquema tático para diversificar as oportunidades de conclusão ao gol dos adversários, e isso só seria possível com a contratação de jogadores com características técnicas diferentes das utilizadas normalmente pela equipe até agora. Por isso, necessitávamos de um jogador com as características técnicas de Sócrates, que jogaria de atacante, com espaço para criar e concluir, para formar uma dupla de pontas de lança com Palhinha, outro jogador com as mesmas características de inteligência e habilidade, rápidos para pensar e executar e liberados da luta pela posse da bola, contando com os dois ponteiros, Vaguinho e Romeu, bem abertos, para jogarem nas costas dos laterais ou atraírem os zagueiros centrais para os lados do campo e contando com um marcador implacável no meio de campo, que seria Martin Taborda.

Seria formada a base do elenco profissional com os seguintes jogadores: Jairo ou Solito, para o gol; Zé Maria, Luiz Cláudio, Wladimir e Cláudio Mineiro, para as laterais; Mauro, Amaral, Zé Eduardo e Djalma, para a defesa; Martin Taborda, Biro-Biro, Basílio e Wagner Basílio, para o meio de campo; Vaguinho, Piter, Palhinha, Ruy Rey, Sócrates, Romeu, Wilsinho, além dos jovens Solitinho, Nobre, Pley, Ned, Rodolfo e Rubinho, totalizando 27 jogadores.

Estávamos certos! Felizmente, o presidente Vicente Matheus acreditou na proposta de reformulação do elenco de jogadores. Esse grupo serviu de base, por muito tempo, para grandes exibições, e a nova forma de aplicação tática foi a responsável também por grandes conquistas e importantes títulos. Sócrates passou então a jogar como falso centroavante, usando a camisa de número 9, a mesma que também usou por muito tempo na seleção brasileira.

Sobre o autor:
José de Souza Teixeira realizou na USP os cursos de Educação Física, Técnico Desportivo de Futebol, Administração e Gerência Desportiva, e Biomecânica, além de Oratória e Relações Públicas. Possui, ainda, mais de 30 atualizações em várias áreas do esporte. Foi diretor, organizador e professor de 23 cursos oficiais sobre futebol, sendo 14 no Brasil e 9 no exterior, e participou de 145 palestras e conferências sobre assuntos relacionados ao melhor rendimento técnico, educacional e social dos profissionais do futebol. É autor do livro A história de um tabu que durou 22 anos.

3 comentários:

  1. Anônimo19:57

    Caro autor, parabéns pelo blog! Reúne muitas informações e histórias do esporte.
    Procurei pelo seu contato, e-mail, nome, mas não consegui. Tenho alguns materiais raros que possam ser de seu interesse para o blog, ou do interesse de algum colecionador. Não tenho os meios necessários para divulgar, então acredito que seu blog possa ser o caminho. Possuo o álbum da seleção brasileira de 1958, bem como o Almanaque da FPF de 1957, Álbum de figurinhas varzeanas do ABC, um livro chamado "História do Futebol em Santo André", etc.
    Qualquer coisa, meu e-mail é eduardo.falasca@gmail.com

    Grande abraço,

    Eduardo.

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    1. Eduardo. Meu e-mail é andreribeiro2050@gmail.com. Seu material pode ser interessante para o pessoal de um grupo do qual faço parte, o MEMOFUT. Pesquisadores e amantes do futebol que colecionam raridades. abs e obrigado pelos comentários sobre o Literatura na Arquibancada.

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  2. Ola André!

    Recentemente o meu pai, Prof. José Teixeira, completou 82 anos com muita saúde e uma memória pra la de eficiente!

    Ele continua com os seus dois livros à venda:

    - A HISTÓRIA DE UM TABU QUE DUROU 22 ANOS,
    Sobre o título de 1977 do Corinthians!

    - 50 ANOS POR DENTRO DO FUTEBOL,
    Que parte da obra está na sua página.

    Caso haja interesse de algum amigo internauta, só fazer o pedido pelo jrbrasil66@hotmail.com

    Obrigado pelo apoio e divulgação!

    Abç!
    Junior Teixeira

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