segunda-feira, 24 de março de 2014

Negro, Macumba e Futebol

Um livro histórico para a literatura esportiva brasileira. Nem tanto pelo conteúdo, hoje, amplamente estudado e pesquisado nas melhores universidades brasileiras, mas pelo pioneirismo que representa.

“Negro, Macumba e Futebol” (Editora Perspectiva), foi escrito por Anatol Rosenfeld, um dos grandes intelectuais brasileiros, filósofo, ensaísta e crítico de origem germânica, em uma época que o futebol nas “academias” era tratado com total descaso.

Anatol Rosenfeld “quebrou barreiras”, com os ensaios escritos sobre futebol, na Alemanha, e publicados um ano após sua morte, em 1974, em uma revista brasileira.

Literatura na Arquibancada reproduz abaixo, as apresentações dos organizadores da obra, além de algumas importantes explicações de seu tradutor. No final, um capítulo importante das reflexões de Anatol Rosenfeld sobre o futebol brasileiro.

Negro, Macumba e Futebol

Apresentação
Por Jacó Guinsburg e Abílio Tavares

Encontram-se reunidos neste volume três estudos publicados por Anatol H. Rosenfeld no anuário Staden Jahrbuch, do Instituto Hans Staden, em 1954, 55 e 56, respectivamente.
O autor escreveu estes trabalhos em alemão e dois deles são inéditos em português. O terceiro, “Futebol no Brasil”, foi vertido por Modesto Carone e estampado na revista Argumento em 1974, logo após a morte do autor.

A conjugação destes três estudos em um único volume oferecerá ao leitor não só análises pertinentes dos assuntos focalizados – escritas menos à guisa de desenvolvimentos científicos do que de apanhados de conjunto – como uma ideia da sólida bagagem sociológica, antropológica e política que sustentava as incursões crítico-estéticas de Anatol H. Rosenfeld no território cultural brasileiro.

O futebol no Brasil
Por Modesto Carone

Anatol Rosenfeld afirmou, certa vez, que o futebol foi sua porta de acesso à cultura brasileira, na qual se integrou de corpo e alma, legando-lhe uma obra valiosa de crítico e ensaísta. Um documento dessa generosa afeição ao futebol é este trabalho publicado em alemão, no ano de 1956, no Anuário do Instituto Hans Staden (Staden-Jahrbuch) sob o título Das Fussballspiel in Brasilien. Mas o ensaio não se resolve apenas em testemunho de afeição, pois a garra do crítico cultural está presente em toda parte, embora sempre repassada de compreensão e simpatia pelos figurantes anônimos ou consagrados do espetáculo brasileiro.

Os dados que Rosenfeld apresenta são, evidentemente, datados (não se deve esquecer, também, que se dirigia a leitores alemães que não tem a vivência brasileira do futebol), mas as interpretações penetrantes que lhes dá, bem como as relações que estabelece entre essa forma de diversão popular e outros fenômenos culturais canonizados pela erudição do Ocidente, revelam uma atualidade e uma perspicácia que tornam sua publicação em português não só oportuna como até mesmo necessária. Quanto à tradução, é útil que se diga que, na medida do possível, procuramos manter fidelidade não só ao espírito como também à letra do texto, para fazermos um mínimo de justiça às qualidades excepcionais de estilista em alemão e português que o humanista imprimiu a todos os seus escritos.

Macumba
Por Anatol Rosenfeld

Arte Jogo dos Astecas
As relações do jogo com a dança, com a festa e a esfera do culto (no sentido mais amplo da palavra) não são nada de novo – pelo contrário, são antiquíssimas. Falar no sentido religioso dos Jogos Olímpicos gregos seria supérfluo. O mesmo vale para os jogos e prélios medievais e, em grau mais alto ainda, para os jogos de bola centro-americanos dos astecas, nos quais a bola, como símbolo cósmico do sol, tornou-se motivo da luta entre representantes do dia e da noite, em tribos mais ao norte também símbolo da virilidade e da fecundidade, na medida em que ela precisava atravessar voando um anel semelhante a um gol.

O futebol brasileiro sem dúvida faz parte de uma evolução moderna de caráter inteiramente profano. Sente-se, contudo, sua secreta tendência a ritualizar-se, sua orientação para esferas de sentido que parecem não lhe caber. Isso não é de se estranhar onde são mobilizadas paixões tão profundas, onde tanta coisa “está em jogo” e onde a deusa Fortuna tem uma influência tão decisiva.

Para uma imensa torcida, a vitória de seu time, que se transmite para o grupo inteiro, significa um triunfo coletivo, um incremento da honra e do poder e, ao mesmo tempo, uma revelação do curso feliz das coisas. Um jogo de dados superior – como porventura o jogam os deuses da Índia –, o resultado de um grande jogo quase se parece a uma sentença de Deus, que já antes se anunciara muitas vezes na disputa.

Assim, pois, o grande jogo torna-se objeto de um cerimonioso coro alternado das seitas, que se manifestam, quase como outrora nas festas de Demeter e Dionisio, em cantos “iâmbicos” de escárnio e zombaria; se um grupo ganhou, faz parte do ritual da torcida gozar a derrota da outra, que dias a fio ostenta a “cabeça inchada”, e dar vazão a esse gozo em refrões. Participar desse jogo da torcida é obrigação séria do cidadão integral, a não ser que ele mesmo se excluísse da comunidade – um indivíduo “consagrado à morte” no seu total isolamento. Só envergonhado se pode admitir – se se pertence a esta ou aquela seita – que se é um completo pagão nesse domínio.

Quando se considera a imensa carga de sentimento que se irradia da torcida para os times, entende-se que eles busquem abrigo em esferas sobrenaturais, para se certificarem da estimulação benévola, num lugar onde tanta coisa depende do “acaso” ou da “sorte” (forças manifestamente míticas) ou para que “caiba” ao adversário o desfavor de forças demoníacas. O sincretismo das entidades invocadas é característico. Os mesmos jogadores que suplicam a vitória a Nossa Senhora da Vitória, São Jorge, Santa Barbara ou – quando são de cor – São Borja, São Damião ou São Cipriano; que antes do jogo, fazem promessas na igreja e o sinal-da-cruz quando entram em campo, realizam, ao mesmo tempo, gestos mágicos que influenciam magneticamente a bola, batem nas traves e traçam linhas misteriosas para fechar o gol (para mantê-lo “virgem” – citação de Sérgio Milliet, “Futebólia”, em O Sal da Crítica, SP, 1941). Embebem de água a chuteira (“meu santo está com sede!”) ou lavam os pés, em banhos de ervas que lhes são prescritas por pais-de-santo, após o que atiram o líquido no campo do adversário, para prejudicá-lo. Às vezes equipes inteiras, antes que o jogo comece, são objeto de rezas e defumações.

A visita a pais-de-santo é frequente, e muitas vezes ocorre que diretores do clube empreendem a peregrinação juntamente com seus jogadores. O América do Rio, que tinha de sair vitorioso de uma luta com o Vasco, fez um despacho especial, que consistia em farinha de mandioca torrada, óleo de dendê, três charutos, três moedas, um galo preto, uma pitada de sal e três velas: duas para ficarem ardendo numa encruzilhada perto da sede do Vasco, ao lado do festim de satanás, uma para permanecer no despacho. Se este fosse aberto no dia do jogo – mesmo por um vira-latas – então o diabo iria meter a mão no jogo e o América venceria infalivelmente o encontro.  Um negro do clube – um dos maiores do Rio – foi nomeado oficialmente pai-de-santo de uma seleção que viajou para Montevidéu, para lá travar a luta pela Taça Rio Branco.

Assim sucedeu muitas vezes que o branco, empenhado em “esclarecer” psicologicamente o negro, por seu turno foi “escurecido” psicologicamente por este (“choque de retorno”, como chamou Arthur Ramos).

Sobre Anatol Roselfeld:
Nasceu em Berlim, em 28 de agosto de 1912 e morreu em São Paulo, no dia 11 de dezembro de 1973. Estudou na Universidade Humboldt de Berlim (1930-1934) filosofia, teoria literária e história (com especialização em Letras Alemãs), tendo sido aluno de Nicolai Hartmann e Eduard Spranger (Filosofia), Max Dessoir (Estética), Julius Petersen (Teoria da Literatura) e outros. Interrompeu o preparo da tese de doutorado em 1935 pela perseguição nazista. Chegou ao Brasil em 1937, trabalhando como colono de fazenda e caixeiro-viajante e somente em 1945 iniciando atividades de jornalista (tradutor, redator, repórter e articulista). Colaborou inicialmente para periódicos em língua alemã e a seguir escreveu com regularidade para vários jornais (Correio Paulistano", "Jornal de São Paulo", "Estado de S. Paulo), bem como revistas brasileiras e alemãs ("Revista Brasileira de Filosofia", "Iris", "Staden Jahrbuch" etc.), produzindo ensaios nas áreas de estética, teoria literária, teatro, fotografia, cinema e filosofia.
Editor da secção de letras germânicas do Suplemento Literário de "O Estado de S. Paulo", escreveu numerosos ensaios sobre literatura, filosofia, cinema e teatro. Publicou escritos sobre Schopenhauer, Goethe e Schiller nas décadas de 1960 e 1970. Coordenou a coleção de estética (O Pensamento Estético), publicada pela editora Herder, tendo escrito prefácios sobre Schopenhauer, Goethe e Schiller. Foi membro do Conselho Editorial da Editora Perspectiva (São Paulo), que é responsável pela publicação de suas obras. Pronunciou inúmeras conferências e deu vários cursos no Rio de Janeiro e em São Paulo, principalmente sobre filosofia e interpretação literária. Seus escritos e palestras influenciaram importantes teóricos e críticos de teatro no Brasil. Lecionou estética teatral na Escola de Arte Dramática (São Paulo) (1962-1967) e no departamento de Arte Cênicas da ECA-USP. Também deu aulas de estética na Escola Superior de Cinema São Luiz (São Paulo). (Fonte: Wikipédia)


quinta-feira, 20 de março de 2014

Joel Rufino: História Política do Futebol Brasileiro



Um dos maiores historiadores do país, Joel Rufino dos Santos, deu à literatura esportiva um dos livros mais importantes, fundamental para aqueles que querem conhecer as raízes do nosso futebol, especialmente pesquisadores, jornalistas e estudiosos do tema.
História Política do Futebol Brasileiro” (Editora Brasiliense, 1981) é, portanto, leitura obrigatória. O autor mostra logo no prefácio que é apaixonado pelo tema futebol, não apenas pelas histórias geradas, mas também pelo folclore e lendas geradas por ele: “Este livro é dedicado a Mão de Vaca, único goleiro vesgo da História do Brasil, que, no falecido campo do Tomás Coelho F.C., se especializou em defender pênaltis em tardes de domingo. E a Paulo César Lima, que conhece o poder da bola”.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo dois trechos da obra. Primeiro a introdução. E logo a seguir, um dos capítulos batizado por “Juventude” (referente ao período que o futebol atravessou em sua história). Tanto na introdução como neste capítulo, Joel Rufino dos Santos destaca a importância de um dos craques do futebol brasileiro no contexto da “história política” do futebol brasileiro, tema da obra. Trata-se de Fausto, apelidado de “A Maravilha Negra”, que morreu precocemente, aos 34 anos, no ano de 1939. Portanto, em 28 de março de 2014, são 75 anos de sua morte.

Introdução
Por Joel Rufino dos Santos

Dori Kruschner
Certa manhã de fevereiro de 1937, desembarcou, todo lampeiro, na Praça Mauá, Rio de Janeiro, o técnico húngaro Dori Kruschner. Vinha precedido, naturalmente, do enorme prestígio que sempre cerca, no Brasil, os técnicos de qualquer coisa. (Alguns anos antes, por exemplo, um geólogo americano, Mr. Oppenheim, levantara tremenda polêmica no país, ao afirmar, categoricamente, que não tínhamos petróleo.) Dia seguinte já estava exibindo na Gávea, o boné quadriculado, o apito na boca, as pernas de leite.

Nossos times arrumavam-se em campo ainda como no tempo de Charles Miller: goleiro – dois zagueiros – três médios – cinco atacantes. Kruschener vinha trazer uma outra arrumação, considerada superior, o WM: goleiro – três zagueiros – dois médios – dois meias – três atacantes. Trazia, além disso, o individual, ginástica puxada, sem bola. E a medicine-ball. O Feiticeiro de Viena, embora ele fosse de Budapeste, ia atualizar o nosso futebol.

Naquele primeiro treino, ele escalou um negrão alto e magro de zagueiro, para jogar entre os outros dois. Sua função principal era marcar o centroavante adversário. O negrão torceu o nariz mas não disse nada. Quinze minutos de treino, tinha-se mandado dezenas de vezes ao ataque, como sempre fizeram os centro-médios brasileiros. O húngaro parava o ensaio, o negrão se mandava de novo. O cartola José Padilha se invocou. Enquanto fosse o presidente do Flamengo aquele moleque não vestiria mais a camisa rubro-negra! O jogador levou a questão à Primeira Vara Cível, pedindo passe livre. Perdeu.

Meses a fio, comparecia ao escritório do cartola. Não era recebido. Os amigos pediram por ele: afinal, se tratava da melhor bola do país. “Só se pedir penico. E publicamente”, respondia o dirigente. Um dia, os jornais apareceram com uma estranha carta: “rogando ao muito digno técnico de futebol do Flamengo a grande gentileza de desfazer, perante o Sr. Padilha, o mal-entendido”...E cocoreco, cocoreco, bico de pato. A maior humilhação a que um jogador de futebol já foi submetido neste país. Arriava as calças.

Quando saiu a convocação para a seleção da Copa do Mundo de 1938, ele estava tuberculoso. Ninguém falou na carta, nem da doença. Muito menos na relação entre as duas. No primeiro individual de 1939, o crioulo teve uma hemoptise.

– Você tem de se internar – diziam os amigos.

– Ainda não – ele respondia. – Quero mostrar que sou mais eu. E gringo nenhum, de fala difícil, é melhor do que o papai.

– O futebol evoluiu – insistiam. – A nova lei do impedimento acabou com o centro-médio.

Ele, que sempre tinha respostas prontas, baixava a cabeça.

Manhã de 28 de março de 1939. Um sanatório perdido nos cafundós de Minas. A irmã bate na sala do diretor para avisar que o 301 morreu. O diretor assume um ar de critério e pergunta:

– Sabe quem era aquele crioulo?

– ...

– Era...Era a Maravilha Negra.

É difícil encontrar um brasileiro que não tenha a sua história de futebol. Meu pai, por exemplo, contava que viu Lelé arrancar as balizas do velho campo do Madureira com um petardo da zona do agrião. Eu prefiro esta, de Fausto dos Santos, a Maravilha Negra, embora seja uma história triste. É que nela está o retrato de corpo inteiro do nosso futebol: a arte popular em luta contra os sistemas de jogo importados.

Quando a Maravilha Negra morreu, 1939, o futebol atingia, no Brasil, a sua idade adulta. Estava definitivamente popularizado e profissionalizado. Durante os vinte anos seguintes viveu, então, o seu apogeu, para declinar – talvez – em seguida. (“Talvez” porque ninguém, exceto as ciganas, pode adiantar o futuro.)

Assim, na primeira parte deste livro, vou mostrar como e por que o brasileiro começou a jogar futebol – entre 1894 e 1920.

Na segunda, mostrarei como e por que o futebol se popularizou, virando uma profissão – mais ou menos entre 1920 e 1940 – passando por uma transição que sacrificou a muitos, e, em especial, a este gigante que foi Fausto.

Na terceira parte retratarei o apogeu do nosso futebol – de 1940 a 1960. E, finalmente, na última seção do livro, buscarei, junto com o leitor, as razões da crise atual.

Como nas melhores novelas policiais é esta uma história de sangue, amor e subversão numa trama diabólica.


Juventude

Um pretinho do Maranhão foi o pai dos centros-médios brasileiros

“Fausto trabalha como um escravo. É possível que todos os center-halves brasileiros trabalhem como escravos? Será por isso que todos eles são negros?” Será por isso que todos eles são negros?” Isto está escrito, no El Diluvio, um jornal de Madri, no ano de 1931.
Quem foi o maior craque do Brasil?

Cada qual tem a sua resposta. O mais seguro, porém, é responder à mineira: depende. 

Cada época teve o seu maior, aquele que desequilibrava jogo. Na época do amadorismo, foi Fried, disparado. 

Na fase de transição do amadorismo para o regime profissional – adotado em todo o país no ano de 1933 – foi um preto maranhense que deslumbrou o Brasil, a Europa e o Rio da Prata. 

Fausto dos Santos, a Maravilha Negra. 

Fausto, com a camisa do Barcelona
Sabemos muito pouco da sua infância: nasceu no interior do Maranhão, numa família paupérrima, no ano de 1905. O futebol mal tinha se firmado no Rio e em São Paulo e o pretinho alto e bem equilibrado já chutava uma bola de bexiga numa fazenda de Codó. Em 1926, jogava nos amadores do Bangu, time de fábrica da Capital Federal, já impressionando pelas qualidades que desenvolveu depois: o controle da bola, a visão de jogo, a elegância e a garra com que disputava uma partida, do começo ao fim. Em 1927, transferiu-se para o Vasco da Gama, primeiro time brasileiro a aceitar crioulos no seu plantel. Iniciava, sem saber, a sua via crucis.

Por que via crucis? Fausto sempre jogou futebol com raiva. Ia na bola como num prato de comida. Jogava sério e encarava o futebol como meio de escapar à pobreza, ganhar dinheiro para poder desfrutar a vida em gafieiras e rendez-vous, muita cachaça e violão. Os críticos chamavam-no de tudo – mercenário, acomplexado, exibido – as mesmas acusações que fizeram depois, em outras épocas, a Zizinho, a Jair, a Didi, e, hoje em dia, a Paulo César.

Só não o chamavam de ingênuo. Fausto nunca confiou em cartolas. Nem teve ilusões sobre a discriminação racial, que no seu tempo já era ostensiva. Não alisava o cabelo. Não frequentava a alta sociedade, embora por curto tempo andasse com o bolso recheado e o retrato diariamente nos jornais. Quando tentavam feri-lo dava o troco na hora, ganhando a fama de rebelde, mas também o respeito dos que jogavam com ele.

Fausto gozou da máxima popularidade permitida a um artista, antes do advento do rádio. Até mesmo Fried, que fora longe demais, ficou em segundo plano, pois Fausto se exibiu para plateias muito maiores, no Brasil e exterior. A diferença maior entre os dois estava, porém, naquilo que ambos pensavam de si próprios. Fried encarava o futebol como status, Fausto como profissão. Ele foi, com efeito, o primeiro proletário consciente do nosso futebol.

Das conversas com sua mãe, e com os amigos – o incrível Jaguaré da Saúde, Tinoco, Russinho –, das muitas entrevistas que dava, sempre de cara amarrada, se deduz que todo seu esforço era para viver do futebol – não se promover através dele, mas viver dele. Tal esforço, numa fase carregada ainda de preconceito contra o jogador profissional, sobretudo o de origem pobre, consumiu-o.

A carga era, de fato, pesada. De amador – e nunca lhe pagaram a metade do que valia – queria passar a profissional; da várzea, queria passar a estrela internacional – e todos os seus contratos no exterior foram rescindidos dramaticamente, no Uruguai, na Espanha, na Suíça; de “carregador de piano”, no modesto Bangu, quis passar a primeira estrela do Vasco e do Flamengo – e a cartolagem, certa feita, chegou a impedi-lo de jogar, acionando, para consumar a arbitrariedade, até mesmo o Departamento de Censura Federal.

O conflito com Kruschner, técnico húngaro de enorme prestígio nos anos 30, que o empurrou para a humilhação e o sacrifício, ficou como exemplo do massacre a que estão sujeitos os que não se submetem – mas são fracos, e isolados, para resistir. Formalmente, o técnico estrangeiro tinha razão: a nova lei do impedimento, editada em 1925, matara o centro-médio. A questão, porém, era de fundo: arte popular contra sistemas importados de jogo. As poucas vozes que então se ergueram para aprofundar o problema foram abafadas por um velho e arraigado preconceito da nossa crônica esportiva: o de que futebol nada tem a ver com política.

Nos dois últimos anos de vida, Fausto criou a escola de centro-médios brasileiros: matada no peito, passadas elegantes, cabeça em pé, passe perfeito a qualquer distância. O meio de campo se tornou depois dele – e ainda é, cinquenta anos depois – a posição do “cobra” do time.

A cada jogo, precisava provar que aquela inovação do WM era má. Terminava o primeiro tempo botando os bofes pela boca, e não aguentava o segundo. Ou invertia, poupando-se no primeiro para deslanchar no segundo. Adiantava? Não. Os críticos se enchiam mais de razão: Kruschner é que estava certo. O futebol tinha de evoluir. Em todo o país, começou a se jogar no WM.

Diante da realidade, o menino preto de Codó, que um dia pusera a Europa de joelhos, mais parecia um guerrilheiro desarmado.

Sobre o autor:
Joel Rufino dos Santos é carioca nascido em Cascadura, subúrbio do Rio de Janeiro. Historiador, Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ. Foi professor da Graduação e da Pós-Graduação nas Faculdades de Letras e Comunicação da UFRJ. Foi co-autor de um dos marcos da historiografia do Brasil com o livro História Nova do Brasil. Foi preso político na ditadura e escreveu de dentro do presídio cartas a seu filho Nelson a fim de explicá-lo de que não tinha feito nada de errado. Num misto de poesia, história, realidade e ficção, Joel Rufino faz florescer sua literatura para crianças. As cartas foram publicadas em 2000 no livro Quando voltei tive uma surpresa. Foi com seus textos infantojuvenis que recebeu dois prêmios Jabutis e duas indicações ao Prêmio Hans Christian Andersen (Dinamarca), considerado o prêmio Nobel da literatura infantil e juvenil. Em uma fase grande de sua vida, militou em prol dos negros e da visibilidade da cultura popular brasileira. Sempre a favor dos menos abastecidos, como ele foi, aceitava com simpatia os cargos públicos que possibilitavam lutar a favor da cultura afrobrasileira. Morreu em setembro de 2015.

quarta-feira, 19 de março de 2014

A biografia de Oswaldo Brandão

Um dos maiores técnicos do futebol brasileiro, pouco lembrado e reverenciado, injustamente, recebe, finalmente, uma belíssima biografia: “Oswaldo Brandão – Libertador corintiano, Herói palmeirense” (Editora Contexto).

Oswaldo Brandão, para aqueles que conviveram com ele, dentro e fora dos gramados, era muito mais do que um simples técnico. Um ser humano incrível.

Ficou marcado para sempre na história do futebol brasileiro como o técnico que conseguiu livrar o Corinthians do longo jejum de 22 anos sem um título, no ano de 1977. Mas Brandão representa muito mais do que essa conquista, que chega a parecer simples para um profissional com tanta vivência no futebol.

Maurício Noriega acertou em cheio na escolha. O livro foi escrito com alma, porque “Nori”, como é conhecido e tratado pelos amigos, tinha razões pra lá de pessoais com o personagem biografado. Seu pai, um dos maiores jornalistas esportivos do país, Luiz Noriega, era muito amigo de Brandão. Nori “abraçou” a produção da obra quase como uma “missão”. Gol de letra. Brandão ficará agradecido, com certeza. Luiz Noriega, idem. E Nori, segue o caminho de ambos. Vale também conferir reportagem especial feita com o autor, Maurício Noriega, aqui no Literatura na Arquibancada (http://www.literaturanaarquibancada.com/2012/03/mauricio-noriega-paixao-pelo-jornalismo.html )

Sinopse (da editora):

Paizão, descobridor de talentos, disciplinador, Oswaldo Brandão foi um dos maiores técnicos do futebol brasileiro do século XX. Ganhou inúmeros títulos e marcou especialmente a trajetória dos grandes rivais paulistas Corinthians e Palmeiras. Foi o técnico que mais vezes comandou ambos os times. Pelo Palmeiras, conquistou três campeonatos brasileiros e quatro paulistas e liderou a equipe na fase áurea da chamada “academia de futebol”. No Corinthians, ganhou dois paulistas, sendo que um deles (de 1977) encerrou um dramático jejum de 23 anos.

Também atuou na Argentina e no Uruguai e teve passagem de destaque pela seleção brasileira, embora nunca tenha ido a uma Copa do Mundo. Com a narrativa brilhante do jornalista e comentarista esportivo Maurício Noriega, entramos no mundo pessoal e profissional deste personagem marcante na crônica esportiva do país.

Capítulo de abertura
Por Maurício Noriega

13/10/1977

Uma multidão invadiu o gramado do estádio do Morumbi. Fazia apenas alguns segundos que o Corinthians tinha sido campeão paulista, após vinte e dois anos e alguns meses de jejum.

Histeria coletiva, choro, gente percorrendo de joelhos o campo de jogo, pagando promessas. O repórter Carlos Eduardo Leite, o Dudu, da TV Cultura de São Paulo, aproximasse de José de Souza Teixeira, auxiliar técnico do Corinthians. Microfone em riste, ele percebe Teixeira inabalável, apenas observando.

Não vai comemorar, Teixeira? – pergunta.

Eu sabia que seríamos campeões – respondeu, com o olhar fixo em uma cena em particular.

A poucos metros dali, um senhor algo grisalho, de sorriso e bigode fartos, era carregado por uma procissão. Parecia que o povo conduzia o altar de um santo, agradecendo uma graça recebida. 

Aquela imagem do Brandão sendo carregado pelo povo está na minha memória. Eu fiquei em pé, em cima da cobertura do banco de reservas, olhando tudo aquilo. Os policiais tinham levado o troféu embora, esconderam dos torcedores.

Mas eles não queriam o troféu, queriam o Brandão – recorda Teixeira.

Naquela noite fria de 13 de outubro de 1977, Oswaldo Brandão estava cumprindo sua maior missão. Espírita kardecista, ele ainda demoraria 12 anos para desencarnar, como dizem os adeptos da doutrina.

Eu me guardo. Choro pra dentro – dizia aos repórteres.

Mas, naquela noite, milhões viram Brandão chorar, ao vivo e pela TV. Um paletó azul-escuro que cobria um suéter azul-celeste sobre uma camisa social branca se destacava no mar de gente que escondia o verde do gramado. Parecia flutuar acima deles. Todos queriam tocá-lo. Vestindo o paletó estava Brandão.

E ele chorava.

Trinta anos tinham passado desde que Brandão trocara a função de jogador de futebol pela de técnico. Foi em 1947 que ele assumiu o time principal do Palmeiras. Pouco antes tinha deixado de jogar, por causa de uma contusão no joelho direito.

Com a bola nos pés, foi ora lateral-direito, ora centroavante. Chutava forte. Com os jogadores nas mãos, tornara-se um dos maiores técnicos de futebol do Brasil. Fez sucesso na América do Sul. Foi campeão no Brasil, no Uruguai e na Argentina. Até mesmo na seleção brasileira, que classificou para a Copa do Mundo de 1958 e dirigiu por algumas vezes, dando a primeira oportunidade a muitos futuros craques. Em três décadas tinha deixado sua marca.

Embora colecionasse títulos de torneios mais importantes, Brandão passaria a ser lembrado para sempre, a partir daquela noite, como o técnico que tinha libertado o povo corintiano da escravidão de gozações e humilhações dos adversários.

O roteiro parecia de cinema. O Corinthians havia sido campeão pela última vez, em 1954, com Brandão como treinador da equipe no jogo decisivo contra o Palmeiras. E foi no comando do grande rival histórico do Corinthians que, em 1974, o treinador prolongou o sofrimento alvinegro, vencendo o título paulista daquela temporada, derrotando a equipe da Fiel e, ironia do destino, cravando seu nome também como o maior treinador da história do alviverde Palestra Itália.

Aquele senhor de 61 anos em nada lembrava o jovem que deixara a cidade de Taquara, no Rio Grande do Sul, para ganhar a vida como jogador de futebol e, quem sabe, evitar o destino previsível da maioria de seus companheiros de infância, o de seguir os passos dos pais e trabalhar na indústria ferroviária.

Até chegar ao título de 1977, provavelmente o mais marcante de sua carreira, Brandão tinha acumulado a experiência de jogador mediano no Sul, com passagens por Internacional e Grêmio, e uma breve carreira no Palestra Itália.

Assumiu como técnico do Palmeiras para quebrar um galho em 1945. Retornou como técnico de fato dois anos mais tarde, e só deixaria o futebol em 1989, quando desencarnou (como espiritualista, ele evitava o termo morte).

Marcou gerações de torcedores e influenciou profundamente jogadores e treinadores com quem trabalhou. 

Inclusive alguns que nem sequer o conheceram, mas que imitam seus gestos, métodos e até mesmo algumas de suas frases.

Poucos olhos viram a vida e o futebol como os de Oswaldo Brandão.

Sobre o autor:
Maurício Noriega, paulista de Jaú, cidadão de Bariri, é jornalista formado pela Faculdade Cásper Líbero de São Paulo e mestrando em Jornalismo Digital pelo Instituto Internacional de Ciências Sociais. Em mais de 25 anos de carreira, trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Diário Popular, A Gazeta Esportiva e Lance!, e na Rádio Bandeirantes. Organizou ainda a operação editorial brasileira do portal esportivo internacional SportsJÁ! Participou de diversas coberturas internacionais, entre elas Jogos Olímpicos, Jogos Pan-americanos, Copa América, Eurocopa, Copa do Mundo, GPs de Fórmula 1, Atletismo e Mundiais de Vôlei e Basquete. Desde 2002 é comentarista e apresentador do canal SporTV, com passagem pelo jornal Bom Dia São Paulo, da Rede Globo. Ganhou por cinco vezes (2005, 2006, 2007, 2010 e 2011) o prêmio Ford/Aceesp de melhor comentarista esportivo. Pela Editora Contexto publicou o livro "Os 11 maiores técnicos do futebol brasileiro".