sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O Rio corre para o Maracanã

Sessenta e quatro anos depois, o Brasil volta a ser o país sede de uma Copa do Mundo. Não há dúvida que até o pontapé inicial (e também durante todos os jogos da equipe brasileira) o “fantasma” da derrota em pleno Maracanã, em 1950, para o Uruguai, será exaustivamente relembrado.

Na literatura esportiva, pena que um livro espetacular sobre aquele mundial esteja esgotado e só encontrado em sebos. “O Rio corre para o Maracanã” (Editora FGV, 1998 – há uma versão na editora em eBook http://www.editora.fgv.br/?sub=produto&id=527 ), de Gisella de Araújo Moura, mestre em história social pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, é leitura obrigatória e fonte inesgotável para torcedores, jornalistas e pesquisadores.

Como disse o técnico da seleção brasileira, Flávio Costa: “O dia 16 de julho de 1950 ficou marcado no calendário brasileiro como o Dia da Derrota. Mas o tempo se encarregou de mostrar que, nesse dia, o Brasil nasceu para o mundo como expressão do futebol mundial”.

A historiadora Gisella Moura, com narrativa agradável e instigante, apresenta um dos capítulos mais importantes da história do futebol brasileiro, um momento-chave para a construção de uma imagem do Brasil como país empreendedor, vitorioso e bem-sucedido. Mas a realidade foi outra e parte dos sonhos de uma geração de brasileiros foi frustrada.

Introdução
Por Gisella de Araújo Moura

Sábado, 17 de junho de 1950. O Rio de Janeiro amanheceu orgulhoso. Um dia antes o presidente Dutra e o prefeito Mendes de Morais haviam participado da cerimônia oficial de inauguração do Estádio Municipal. A cidade, que antes lamentava a falta de instalações confortáveis para abrigar os fãs do futebol, agora podia até se gabar de possuir o maior estádio do mundo!

Uma grande festa ocorrera naquela sexta-feira. Milhares de pessoas dirigiram-se para o “Colosso do Derby”. A entrega do estádio ao público foi festejada com uma partida entre as seleções de novos do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Situada no centro geométrico do Rio, a praça de esportes teve seus portões franqueados aos torcedores e recebeu mais de 100 mil pessoas. Didi, jovem jogador do Fluminense e futuro criador da folha-seca, marcou o primeiro gol no “maior do mundo” – um chute da entrada da área, a meia altura, que surpreendeu totalmente o goleiro adversário. O jogo foi ganho pelos paulistas por 2 x 1.

Construído em menos de dois anos, o estádio ainda estava inacabado, mas sua magnitude impressionou a todos que lá compareceram. Com moderna concepção arquitetônica e capacidade para 155 mil pessoas, o “gigante de concreto” serviria de palco para as principais partidas da IV Copa do Mundo. O jogo daquela sexta-feira fora apenas uma prévia do que estava por vir.

Realizada entre os dias 24 de junho e 16 de julho de 1950, a Copa do Mundo fez convergir para o Brasil todos os focos do esporte mundial, representando uma grande propaganda para o país. A cidade do Rio de Janeiro – à época Distrito Federal – foi o principal cenário do certame e, por cerca de um mês, mobilizou-se para o torneio. Estima-se que aproximadamente 200 mil pessoas tenham estado presentes no último jogo do campeonato, entre Brasil e Uruguai. Um número assustador, considerando-se que o Rio de Janeiro tinha na época cerca de 2 milhões de habitantes.

A IV Copa do Mundo continua sendo até hoje o mais importante evento esportivo mundial realizado no Brasil. A decisão de patrociná-lo não atendeu apenas aos interesses particulares do esporte; muitos outros elementos entraram em jogo naquele momento, como a projeção de uma imagem do Brasil, particularmente da cidade do Rio de Janeiro, e a busca de uma identidade nacional através do futebol. O estádio do Maracanã – atualmente um dos principais cartões-postais da cidade e um dos lugares mais visitados por turistas nacionais e estrangeiros – foi construído especificamente para a Copa. A imprensa carioca e nacional noticiou amplamente o campeonato, sendo o número de pessoas que compareceu ao Maracanã para assistir às partidas do escrete brasileiro bastante significativo.

Num mundo em que, como alerta Pierre Nora, os lugares de história são substituídos por lugares de memória, destacando-se eventos, monumentos e comemorações como loci privilegiados de produção de determinadas memórias coletivas, a realização da IV Copa do Mundo no Brasil é um fato extremamente rico em matizes simbólicos. Durante muitos anos o país pretendera sediar um campeonato mundial de futebol. Garantido o privilégio, o Rio de Janeiro tratou de se preparar para a Copa. O grande desafio era dotar a capital federal de um estádio digno do campeonato e, por isso, não se pouparam esforços para a construí-lo. O torneio representava a organização de um grande evento e para ele foi especialmente construído um espetacular monumento arquitetônico – o gigante de concreto, no dizer dos cronistas da época. O estádio serviria de cenário para a primeira vitória brasileira num campeonato mundial e perpetuaria a memória de um país empreendedor e bem-sucedido!

Iniciado o torneio, o Brasil viveu instantes de apreensão quanto à qualidade de seu futebol. Pouco a pouco, porém, foi-se solidificando a crença no favoritismo brasileiro, ratificada pelos sensacionais desempenhos da seleção. Nossos rapazes jogavam um futebol-arte, bailavam, sambavam com a bola nos pés e encantavam o mundo com suas maravilhosas exibições. A torcida carioca compreendia a importância do que estava acontecendo e unia-se ao escrete, atuando como o 12º jogador, garantindo a vitória sobre os adversários. Cada conquista nacional afirmava as características positivas do povo brasileiro, criativo e genial, e reforçava sentimentos coletivos.

Para a última partida, organizou-se antecipadamente uma grande festa. O dia 16 de julho de 1950 estava reservado para a concretização de um importante acontecimento nacional – o país inteiro lembraria dessa data como a da conquista de nosso primeiro título mundial de futebol. Contrariando, porém, todas as expectativas, o Brasil foi derrotado pelo Uruguai por 2 x 1, deixando escapar a consagração de seu futebol. O revés abateu profundamente a população, que buscou explicações para o ocorrido. Durante o desenrolar da Copa do Mundo, o futebol tornara-se o assunto mais importante da cidade e um motivo de orgulho. Os triunfos da seleção brasileira eram comemorados com muito entusiasmo e a derrota na última partida foi vivenciada como o sepultamento de um grande sonho. Se o campeonato mundial não concretizou o sonho de vitória, serviu, todavia, para fortalecer os laços entre a população carioca e o futebol, que garantiu seu lugar de esporte nacional e meio de expressão da virtuosidade brasileira.

O Brasil é o único país a ter participado de todos os campeonatos mundiais de futebol, ligando-se sua história em alguns momentos às performances de nossas seleções nesses eventos. A participação nas copas do mundo – e sobretudo as vitórias – reforçou a identidade nacional brasileira, atuando o futebol nessas ocasiões como o elemento propiciador da união nacional, capaz de aglutinar em torno de um time nossas diversidades regionais.

No caso da Copa de 1950, o país passava por um momento especial. O mundo acabara de sair de uma grande guerra e achava-se dividido, polarizado. O Brasil precisava encontrar seu lugar nesse mundo. Buscando o progresso e o crescimento econômico, o país investia também na conquista de sua integração nacional – requisito básico para garantir o desenvolvimento, como aponta a socióloga americana Janet Lever.

Numa sociedade hierárquica e desigual como a nossa, em que, a despeito da ideologia do igualitarismo burguês, as diferenças permanecem acentuadas e o respeito à lei só é esperado daqueles que não se encontram acima dela, conquistar uma identidade nacional é extremamente complicado. De acordo com os trabalhos de José Murilo de Carvalho e Roberto Da Matta, percebemos que as fontes de identidade nacional no Brasil não são as instituições centrais da ordem social, e sim manifestações culturais como o carnaval, as festas e o futebol.

Originariamente um esporte inglês praticado apenas pelas elites, o futebol chegou ao Brasil em fins do século XIX, popularizando-se rapidamente. Jogo coletivo, que prescinde de materiais específicos, não exige dos praticantes um padrão físico especial e é jogado com os pés – o que significa um alto grau de imponderabilidade –, o futebol difundiu-se rapidamente em nossas terras tropicais. Nos grandes centros urbanos surgidos nos primeiros anos do século XX, o futebol tornou-se o esporte capaz de propiciar à população a criação de alguns laços comunitários e, a partir daí, seu papel integrador não parou de crescer. Até mesmo as autoridades, que a princípio olhavam com certo receio as manifestações suscitadas pelos jogos de futebol, pouco a pouco passaram a estimular e a incentivar esses momentos de catarse e de união nacional (segundo Sevcenko, Washington Luís foi o primeiro presidente a perceber as possibilidades propiciadas pelo futebol para se obter a união nacional).

Campeonatos municipais, estaduais, internacionais – cada um desses eventos cria oportunidades de se explorar sentimentos de união popular. As participações brasileiras nas copas do mundo consolidam a integração nacional. Nesses momentos, a população tem acesso aos símbolos nacionais – à bandeira, ao hino, às cores do país –, participando de um verdadeiro ritual cívico. Como afirma Roberto Da Matta, foi através do futebol que, no Brasil, conseguimos somar Estado nacional e sociedade.

O objetivo central deste livro é examinar o contexto em que foi realizada a IV Copa do Mundo, relacionando-o ao projeto de difundir o futebol no Brasil, particularmente n a cidade do Rio de Janeiro, e de incorporá-lo como um dos traços mais característicos da cultura brasileira. A realização do campeonato mundial será analisada como um momento particularmente importante de afirmação da identidade nacional brasileira através do futebol.

A imprensa carioca fez uma ampla cobertura da IV Copa do Mundo. As reportagens e crônicas publicadas em alguns dos maiores jornais da cidade entre maio de 1947 e agosto de 1950 constituem um rico material de análise para o historiador. Jornalistas, literatos, intelectuais católicos, dirigentes esportivos ocuparam espaço na imprensa, registrando sua contribuição acerca do grande evento realizado no Rio de Janeiro. Pessoas de formação e posicionamento político os mais diversos expressaram suas opiniões sobre o torneio, o que denota sua importância. Ainda que nem todos estivessem satisfeitos com a mobilização provocada pela Copa, era impossível não tecer comentários sobre o assunto.

Margarida de Souza Neves ressalta as possibilidades de se fazer da crônica objeto da história, assinalando a leitura subjetiva que cada cronista faz dos fatos e expondo simultaneamente o “espírito do tempo”. Com suas particularidades, a crônica ensina ao historiador a atentar para os fatos cotidianos, para as coisas miúdas, para indícios aparentemente sem importância. Segundo a autora, “não são muitas as fontes em que o historiador encontrará com tanta transparência as sensibilidades, os sentimentos, as paixões do momento e tudo aquilo que permite identificar o rosto humano da história. Os jornais constroem o cenário da IV Copa do Mundo, repleto de sentimentos e expectativas, e é nesse cenário que este livro se fundamenta.


Um comentário:

  1. Belo título.
    O rio Maracanã, que corre no entorno, e o Templo Maracanã.
    Maravilha!
    Vou comprar o e-book.
    Valeu, mesmo.
    Beijo.

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