quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Max Gehringer: Almanaque dos Mundiais

Quem está acostumado a vê-lo falando na TV Globo, ouvindo seus comentários na rádio CBN, ou ainda lendo textos sobre o mercado de trabalho e o mundo empresarial, não consegue imaginá-lo como um pesquisador de primeiríssima linha do futebol. Mais ainda quando o tema é Copa do Mundo. Esse é Max Gehringer. Apaixonado e grande conhecedor da história do futebol, ele lançou em 2010 um livro que, agora, com a disputa do mundial no Brasil, tem leitura obrigatória, para profissionais e leitores comuns.

O estilo e o conteúdo do “Almanaque dos Mundiais” (Editora Globo)? O texto de uma das orelhas da obra é certeiro na resposta: “Sem abandonar a verve irônica que o consagrou, Max Gehringer revela em minúcias momentos marcantes de nossa Seleção, a história dos grandes craques e do mais esquecido dos pernas de pau. Vitórias e derrotas dos que tiveram a sorte de participar da história dos Mundiais.”

Max Gehringer não é um “curioso” no tema. Herdou do pai, quando tinha apenas 15 anos, um acervo de revistas e jornais que foi (e continua a ser) enriquecido a cada ano. As curiosidades espalhadas ao longo do Almanaque revelam bem o estilo de Max que conhecemos no seu dia a dia como consultor do mundo dos negócios: “Você sabia que em 1982 o Brasil enfrentou o Brazil? É, Alan Brazil, atacante da Seleção da Escócia, adversária da Seleção Canarinho. Ou que o atacante brasileiro Denilson é o jogador que mais vezes entrou no decorrer das partidas em toda a história das Copas do Mundo? Você sabe o nome do narrador da primeira partida da Seleção com transmissão direta pelo rádio para todo o país? E em que condições ele narrou essa partida?”

Esses são alguns poucos exemplos. Mas como tudo isso surgiu? Confira no texto de apresentação abaixo assinado por Max Gehringer.

Apresentação
Por Max Gehringer

“Detalhista, meu pai registrou no verso desta foto o local e a data em que ela foi batida: ‘Posto 6, junho 17, 1950’. O Posto 6 de Copacabana era o local onde meu pai se dedicava com afinco ao único esporte no qual demonstrou alguma competência, segundo ele mesmo: a peteca, que ele segura na mão direita. Horas depois, naquela tarde de 17 de junho, meu pai faria parte de um extasiado aglomerado humano que viu o primeiro jogo realizado no Maracanã, então chamado apenas de Estádio Municipal – um amistoso entre jovens promessas do Rio e de São Paulo. Entre elas Didi, pelo Rio, e Djalma Santos, por São Paulo.

Os trinta dias seguintes alvoroçariam o Rio. Só se falava na Copa do Mundo e em mais nada. Mas meu pai não participou da euforia generalizada. Mecânico da Central do Brasil, ele foi mandado a serviço a Piratininga, no interior de São Paulo. Quando regressou, encontrou o Rio fervilhando. O Brasil já tinha vencido a Iugoslávia e massacrado a Suécia e a Espanha, e só faltava atropelar o Uruguai para conquistar o título de campeão mundial.

Os ingressos para o grande jogo, porém, já estavam esgotados desde a antevéspera.
Das muitas histórias que eu ouvi sobre o dia 16 de julho de 1950, a de meu pai é a mais singular. Ele dizia que Brasil x Uruguai era o jogo que havia reunido o maior número de mentirosos na história do futebol – cerca de 3 milhões deles. Porque qualquer pessoa num raio de 100 Km do Maracanã passou a jurar que esteve no estádio naquela tarde de domingo. A história de meu pai era outra. Ao meio-dia, depois de clarear as ideias com meia dúzia de cervejas, ele e seus colegas de peteca decidiram ‘dar um jeito’ de se enfiar no Maracanã. Comentava-se que muita gente tinha conseguido entrar sem pagar nos jogos contra Espanha e Suécia, porque o estádio não estava inteiramente concluído e as brechas eram muitas. Não custava tentar.

E lá foram eles. Mas não só eles. Milhares de torcedores tiveram a mesma ideia. Quando meu pai subiu a rampa, encontrou os portões trancados e um compacto bando de gente grudado neles, tentando convencer os seguranças a liberar a entrada. Enquanto os infrutíferos apelos prosseguiam, mais uma imensidão de torcedores foi se juntando na rampa, até formar um bolo que não permitia que alguém se movesse para a frente ou para trás. E meu pai ficou ali, engaiolado no enorme sanduíche humano.

O jogo começou às três da tarde. Não existiam radinhos portáteis, e o serviço de alto-falantes do Maracanã apenas informava o andamento do jogo Suécia x Espanha, disputado no Pacaembu. Na rampa, ninguém sabia o que estava acontecendo ali mesmo, a 100 m de distância. Uma hora depois, o Maracanã explodiu como se fosse desabar. O Brasil tinha marcado um gol. ‘Ademir’, foi a mensagem passada de um para outro, e todo mundo acreditou. Só no dia seguinte meu pai saberia que o gol tinha sido de Friaça.

Como nenhuma outra manifestação vinha das arquibancadas lotadas, e os seguranças já tinham abandonado seus postos para acompanhar o jogo, só restou ao povão da rampa fixar os olhos em seus relógios. O jogo terminaria às quinze para as cinco, e o Brasil só precisava do empate. Já não havia nenhuma dúvida, éramos os campeões do mundo. À medida que os ponteiros se aproximavam do minuto decisivo, uma euforia mística tomou conta da rampa. Gente pulando, se abraçando, comemorando e chorando, num contraste absoluto com o que ocorria lá dentro, nas arquibancadas. O Uruguai tinha virado o jogo e quem estava ali fora não sabia.

Quando os portões se abriram e uma massa silenciosa começou a sair do campo de cabeça baixa e olhos vermelhos, meu pai ainda demorou um pouco até entender a tragédia que acabara de se abater sobre o Rio. Nos anos seguintes, ele me contaria essa história dezenas de vezes e sempre com o mesmo epílogo. Ele se considerava um dos poucos privilegiados que comemoraram o título de campeão mundial de 1950. Foi muito melhor ter ficado lá fora.

Essa fábula urbana, de um torcedor tão feliz quanto desinformado, foi que me despertou o interesse pelas Copas. Nelas, há dramas e alegrias que transcendem o futebol em si. A Copa é um acontecimento único, em que uma simples falha de um goleiro pode representar a perda de quatro anos de trabalho. E uma vitória consegue mudar os humores de uma nação inteira. Desde criança, passei a colecionar material sobre Copas. Este livro traz algumas das histórias, reais ou inventadas, que fizeram a grandeza do maior evento esportivo do planeta.”

Algumas curiosidades apresentadas por Max Gehringer no Almanaque:

Copa 1930

“Dirigente de futebol ainda não tinha esse nome no Brasil de 1930. Os cartolas de então eram chamados, tanto pela imprensa quanto pelos jogadores, de “paredro”, um termo que resistiu até o início da década de 1950. A palavra significava “protetor”. Já o apelido “cartola” surgiu em 7 de janeiro de 1917. O Dublin de Montevidéu, um dos clubes que disputavam o Campeonato Uruguaio, fez uma sequência de quatro amistosos no Rio de Janeiro. O terceiro deles foi contra um combinado de cariocas e paulistas, no campo do Botafogo. A partida terminou em 0 a 0, mas os “paredros” do Dublin roubaram a cena. Tendo à frente seu presidente, Juan Barbat, eles entraram em campo para saudar os torcedores, vestindo fraques e usando vistosas cartolas de um palmo e meio de altura.”

Copa 1966

“A torcida soviética na Inglaterra só era maior que a da Coreia do Norte. O governo soviético concedera autorização para apenas duzentos camaradas-torcedores viajarem. Entre eles, a esposa do goleiro Yashin, Valentina.”

Copa 1970

“O Uruguai disputou a Copa sem o lateral-direito Pablo Forlán, 23 anos, titular da seleção desde 1967. Em abril de 1970, o São Paulo ofereceu ao Nacional 80 mil dólares pelo passe de Forlán, mas com a condição de que o jogador se apresentasse imediatamente. Como receberia cerca de 30 mil dólares na negociação, Forlán concordou com a transação que o tirou da Copa.”



Copa 1986

“Das 24 equipes participantes da Copa, o Canadá era a que tinha a pior cotação nas casas de apostas de Londres (mil por um). Além disso, o Canadá era o único país sem torcedores na Copa. Nem os familiares dos jogadores se animaram a ir ao México.”



Sobre o autor:
Max Gehringer tem um programa diário na rádio CBN desde 2004. É comentarista do programa Fantástico, da TV Globo, e articulista da revista Época, da Editora Globo. É também escritor, conferencista e cartunista – atividades que adotou depois de uma longa carreira como executivo, durante a qual dirigiu grandes empresas no Brasil e no exterior.
Seu pai costumava guardar jornais e revistas. Essa coleção herdada aos 15 anos foi sendo aumentada ao longo das décadas por conta própria. É dela a base do material que deu origem a este almanaque.


Um comentário:

  1. Olá!
    Gostaria de compartilhar que Max Gehringer acaba de lançar uma coleção de e-books sobre todas as Copas. "A grande história dos mundiais" – coleção em 7 volumes com quase 4.000 páginas ao todo – está disponível em todas as ebook stores: amazon, apple, google play, iba, livraria Cultura e Saraiva, por apenas R$ 5,90 cada.

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