quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Zico e Ronaldo nas passarelas do samba

Em ano de Copa do Mundo, e, sobretudo, no Brasil, o Carnaval não poderia deixar o futebol de fora da folia. Em 2014, dois super craques do futebol mundial, Zico e Ronaldo Fenômeno, são os homenageados da Imperatriz Leopoldinense e da Gaviões da Fiel, respectivamente. Zico, que recusara diversos convites de outras escolas, dessa vez decidiu aceitar a homenagem. Ronaldo, fenômeno de curta passagem pelo Corinthians, terá sua trajetória de vida reverenciada no sambódromo paulistano.

Há ainda o samba-enredo da Leandro de Itaquera, tradicional escola de samba paulistana, que optou por falar da realização da Copa do Mundo, no Brasil. Curiosamente, a escola da Zona Leste de São Paulo teve de obter autorização da Fifa para poder desfilar com um samba que tinha a expressão “Copa do Mundo”, segundo a entidade, marca registrada e que exige tal “autorização”.

Para os leitores deste espaço, fica a apresentação das letras que irão para os sambódromos. Flamengo e Corinthians, as duas maiores torcidas do Brasil, representadas nos sambódromos pré-Copa.

E para você, leitor, que quer conhecer as ligações entre Futebol e Carnaval, vale a pena acessar a série especial do Literatura na Arquibancada no link http://www.literaturanaarquibancada.com/2013/02/carnaval-e-futebol.html










Homenagem a Zico

Samba-enredo:
“Arthur X – O reino do Galinho de Ouro na corte da Imperatriz”

A letra do samba:


O dia chegou!
Em meus olhos, a felicidade.
Te fiz poesia, pra matar a saudade…
Imperatriz vai me levar
A um reino encantado,
Um menino a sonhar…
Cresceu driblando o destino,
Venceu as barreiras da vida…
Fardado nas cores da nação,
Armado de raça e paixão,
Nos pés, o poder!
Vencer, vencer, vencer!

“Oô”, o povo cantava…
Domingo, um show no gramado!
Com seus cavaleiros, Arthur se tornava
O “Rei do Templo Sagrado”!

Caminhando mundo afora…
O seu passaporte, a bola!
Da Europa ao Oriente,
Grande “Deus do Sol Nascente”,
Outros reinos conquistou…
À sua pátria amada, então, voltou.
Hoje, mais do que nunca é o seu dia,
Vamos brindar com alegria,
Trazer de volta a emoção.
Com toda humildade, vem ser coroado,
Vestir o meu manto verde, branco e dourado!
Quem dera te ver por mais um minuto,
Na arquibancada, todo mundo canta junto:

Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe ô
O show começou!
Dá-lhe, dá-lhe, dá-lhe ô
Um canto de amor!
Imperatriz me faz reviver…
Zico faz mais um pra gente ver!



 
Homenagem a Ronaldo Fenômeno

Samba-enredo:
“R9 – O voo real do Fenômeno”

A letra do samba:

Sonhar é fantástico!
O menino então sonhou
Um ser alado, iluminado
Abençoado de amor

Fascinado pela bola
Também quis brincar o carnaval
Foi crescendo… e com talento genial
Viu do rio de janeiro
O “belo horizonte” aproximar
Um orgulho brasileiro
Pro velho mundo admirar

Bateu asas e voou (voou, voou)
O “menino passarinho” se transformou
Consagrado no cenário mundial
Ronaldo, fenomenal!

Mas, nos campos nem tudo são flores
Ferido, supera a dor
Levanta e vence a batalha
Com fé e esperança voltou
E assim abraçado à vitória
Com um “bando de loucos”
Constrói “uma história”
Hoje vale ouro a sua imagem
Reluz em tudo que conduz
Meu samba! uma singela homenagem
Exprime a paixão de uma “nação”
Ao som da bateria ritimão
Vem cantar comigo este refrão

Quando a galera gritar: é gol!
A rede balança… é show!
Um voo real, da terra ao céu
“Mais um gavião pra fiel”


Samba-enredo Leandro de Itaquera:
“Ginga Brasil, Futebol é Raça. Em 2014 a Copa do Mundo começa aqui.”

A letra do samba:

Vai na Ginga Brasil, joga com o coração
Mostra para o mundo seu talento natural
Um dom abençoado pelos deuses
Revela um toque genial
Fruto de um país miscigenado
Puro sentimento que não tem explicação
Levo a alegria, por onde eu passo
Guerreiro, ousado, malandro de fato
No sol ou na chuva, no campo ou na rua…é emoção!
Desde criança, fiz da bola um brinquedo, uma grande paixão!

Solta o grito da garganta… olé
Pra frente Brasil, Com a bola no pé
E a galera se agita, Na palma da mão
Ao som da batucada do leão

Num toque de classe aqui chegou
Charles Miller o esporte consagrou
Tocou para o povo, driblou a nobreza
A felicidade venceu tristeza
E dos Heróis se fez Pelé, a realeza!
Brasil, Penta Campeão
Futebol é emoção, hoje a Copa é aqui!

Chegou a Escola da massa, da gente que canta com raça
Que luta por nosso país!
Na Zona Leste, Vermelho e Branco é raiz!

Itaquera vai tremer… Eu quero ver
O povo delirar, se arrepiar
O show começa aqui, com muito samba no pé
Sou brasileiro, sou Leandro e tenho fé




terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Futebol Brasil Memória

A Copa do Mundo no Brasil está chegando e conhecer nossa própria história dentro do futebol é quase obrigação. E um livro importante da literatura esportiva “Futebol Brasil Memória – De Oscar Cox a Leônidas da Silva” (Editora Senac, 2006), cumpre magistralmente bem essa necessidade.

Claudio Nogueira, experiente jornalista esportivo, fez um recorte na história do futebol brasileiro optando por um dos períodos mais ricos em termos de informação que ajudam a compreender essa verdadeira paixão brasileira chamada futebol. As três primeiras décadas do século 20, considerada a fase “romântica” do futebol brasileiro, revelam como o futebol se transformou em símbolo de identidade nacional.

Sinopse (da editora):

O futebol é uma paixão nacional que integra as pessoas. Disso ninguém duvida. No Brasil, ele abrange rituais, ídolos adorados, fervorosos torcedores que comemoram um gol, um título de clube popular ou da seleção brasileira na Copa do Mundo. Esse fenômeno globalizado tem uma importância fundamental para a nossa sociedade, e é uma diversão indiscutível e um meio de se praticar uma competição honesta, na qual um time fraco pode enfrentar um mais forte e ter a possibilidade de ganhar. Esta obra faz uma volta no tempo e situa o futebol em um contexto social e político, desde seu surgimento, em 1897, até a década de 1930. Por isso, contribui significativamente para que o público entenda os primórdios desse esporte e sua importância.

Apresentação
Por Claudio Nogueira

Quando e como se originou a paixão do brasileiro pelo esporte que veio importado da Inglaterra? Essa indagação deve ter passado pela cabeça de todos os brasileiros que amam o futebol. Indagação que envolve um quê de mistério: ao falar do Campeonato Estadual do Rio de Janeiro, que completou cem anos este ano (2006), a intenção é tentar desvendar esse enigma.

Mas o livro não se limitará a isso.

A obra nasceu de uma vontade e de uma constatação. Da vontade de trazer à tona um dos capítulos mais curiosos e saborosos da história social do país, que é o desenvolvimento do futebol no Brasil e especificamente no Rio de Janeiro. E da constatação de que os cariocas amam demais o futebol, mas sabem pouco sobre o surgimento, no Rio, do enorme fenômeno social em que esse esporte se converteu.

O começo não foi fácil, nem linear. Foi abrupto, polêmico e expressou conflitos e divisões existentes nas sociedades brasileira e carioca da época. Zona Sul e subúrbio; brancos e negros; elites e classes operárias; ricos e trabalhadores; amadores e profissionais. Todos, de alguma forma, foram atores nesse teatro de formação do futebol carioca. Será que alguns desses conflitos não duram até hoje?

O futebol chegou ao Brasil e ao Rio, especificamente, nas malas de jovens estudantes da elite, que haviam estudado na Europa, como um presente que se traz para pessoas amigas. Mas o povo se apropriou dele, e ao mesmo tempo em que os analfabetos e os pobres invadiram os campos e as arquibancadas dos clubes elegantes, foi tomando gosto e se apaixonando por esse esporte até então estranho, no qual os homens traçavam planos e estratégias para fazer com que uma bola impulsionada pelos pés invadisse as redes adversárias. Mais ou menos como o povo pobre, trabalhador e negro invadiu – como penetra – as festas da elite, dos ricos e dos brancos que jogavam futebol no final do século XIX e começo do século XX.

O objetivo deste livro não é o de contar campeonato por campeonato, mas o de narrar como ocorreu o processo de chegada, da aceitação, do desenvolvimento e de popularização do futebol no Rio.

Oscar Cox
Foi escolhido um período para tratar do tema. Do fim do século XIX, quando o carioca Oscar Cox trouxe as primeiras bolas de futebol e o livro de regras, até 1937, quando terminam as divisões entre ligas rivais que existiam na cidade e o futebol carioca se unifica na chamada pacificação. Paralelamente, vão ser enfocados aspectos da vida política, musical, literária, social e econômica de um Brasil em transformação, entre o período pós-Abolição e o Governo Vargas. E todos esses aspectos serão povoados por personagens de época, os jogadores, os torcedores, gente que viveu o período abordado pelo livro.

O futebol era tema de debate. Em 1921, por exemplo, o escritor Graciliano Ramos, vaticinava: “O futebol não pega, tenham a certeza.” Também no início dos anos 1920, Lima Barreto fundou a “Liga contra o Football”. Com argumentos contundentes: “É o primado da ignorância e da imbecilidade.” Não faltaram, porém, os defensores do novo esporte, como o escritor Coelho Neto, um ardoroso torcedor do Fluminense. Em estrofes de um antigo hino do clube, ele demonstrava sua admiração pelo esporte: “Assim nas lutas se congraça / Em torno de um ideal viril / A gente moça, a nova raça / Do nosso Brasil.”

O foco central do livro é mostrar que quando o futebol chegou ao Brasil o mundo da cultura vivia a chamada Belle Époque, que influenciou a moda, o comportamento, a arquitetura e a literatura. Tomando-se por base esse eixo entre a Belle Époque e o futebol, o trabalho é desenvolvido. Em meio a um cenário de sofisticação e bom gosto, o novo esporte foi se tornando pouco a pouco uma parte da própria cultura do Brasil, entendendo-se tal conceito não como quantidade de conhecimentos, mas como a maneira pela qual um povo expressa suas crenças, valores e modo de ver e de viver a vida. Hoje seria praticamente impensável falar em cultura brasileira sem citar o futebol como um de seus principais elementos.

Também no fim do século XIX e início do XX, o Rio passou por uma série de transformações em seu cenário urbano. Foi nesse terreno que o futebol fincou suas raízes.

O futebol foi conquistando multidões no Rio e no país, graças a grandes craques e a equipes cuja popularidade é capaz de lotar estádios. Detalhar essa transformação – de uma modalidade praticada por uma minoria para um fenômeno de massas – é uma das fortes intenções do livro.

Os apaixonados por estatísticas e apostas terão à disposição listas de campeões estaduais, de taças Guanabara, taças Rio, além dos títulos mais importantes dos mais vitoriosos clubes do Rio e do país.


Sobre o autor:


 
Claudio da Silva Nogueira trabalha há 19 anos no jornal O Globo, 13 dos quais na reportagem esportiva. Na Editoria de Esportes, participou de várias coberturas esportivas, entre elas: Mundial de Futebol Júnior, no Qatar, em 1995; Mundial de Natação em Piscina Curta, no Rio, em 1995; várias edições do GP do Brasil de Fórmula 1, em São Paulo; quatro GPs de Fórmula Mundial do Rio; diversas edições do GP do Brasil do Mundial de Motovelocidade, no Rio; Mundial de Basquete, nos Estados Unidos, em 2002; Jogos Pan-americanos de 1999, no Canadá, e de 2003, na República Dominicana, e Olimpíadas de Atenas de 2004. É também autor de "Zeros à Direita - Marketing e Mídia no Esporte" (iVentura, 2010) e Os dez mais do Vasco da Gama, em parceria com Rodrigo Taves, é o seu primeiro livro pela (Maquinária Editora, 2011).


sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O Rio corre para o Maracanã

Sessenta e quatro anos depois, o Brasil volta a ser o país sede de uma Copa do Mundo. Não há dúvida que até o pontapé inicial (e também durante todos os jogos da equipe brasileira) o “fantasma” da derrota em pleno Maracanã, em 1950, para o Uruguai, será exaustivamente relembrado.

Na literatura esportiva, pena que um livro espetacular sobre aquele mundial esteja esgotado e só encontrado em sebos. “O Rio corre para o Maracanã” (Editora FGV, 1998 – há uma versão na editora em eBook http://www.editora.fgv.br/?sub=produto&id=527 ), de Gisella de Araújo Moura, mestre em história social pelo Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, é leitura obrigatória e fonte inesgotável para torcedores, jornalistas e pesquisadores.

Como disse o técnico da seleção brasileira, Flávio Costa: “O dia 16 de julho de 1950 ficou marcado no calendário brasileiro como o Dia da Derrota. Mas o tempo se encarregou de mostrar que, nesse dia, o Brasil nasceu para o mundo como expressão do futebol mundial”.

A historiadora Gisella Moura, com narrativa agradável e instigante, apresenta um dos capítulos mais importantes da história do futebol brasileiro, um momento-chave para a construção de uma imagem do Brasil como país empreendedor, vitorioso e bem-sucedido. Mas a realidade foi outra e parte dos sonhos de uma geração de brasileiros foi frustrada.

Introdução
Por Gisella de Araújo Moura

Sábado, 17 de junho de 1950. O Rio de Janeiro amanheceu orgulhoso. Um dia antes o presidente Dutra e o prefeito Mendes de Morais haviam participado da cerimônia oficial de inauguração do Estádio Municipal. A cidade, que antes lamentava a falta de instalações confortáveis para abrigar os fãs do futebol, agora podia até se gabar de possuir o maior estádio do mundo!

Uma grande festa ocorrera naquela sexta-feira. Milhares de pessoas dirigiram-se para o “Colosso do Derby”. A entrega do estádio ao público foi festejada com uma partida entre as seleções de novos do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Situada no centro geométrico do Rio, a praça de esportes teve seus portões franqueados aos torcedores e recebeu mais de 100 mil pessoas. Didi, jovem jogador do Fluminense e futuro criador da folha-seca, marcou o primeiro gol no “maior do mundo” – um chute da entrada da área, a meia altura, que surpreendeu totalmente o goleiro adversário. O jogo foi ganho pelos paulistas por 2 x 1.

Construído em menos de dois anos, o estádio ainda estava inacabado, mas sua magnitude impressionou a todos que lá compareceram. Com moderna concepção arquitetônica e capacidade para 155 mil pessoas, o “gigante de concreto” serviria de palco para as principais partidas da IV Copa do Mundo. O jogo daquela sexta-feira fora apenas uma prévia do que estava por vir.

Realizada entre os dias 24 de junho e 16 de julho de 1950, a Copa do Mundo fez convergir para o Brasil todos os focos do esporte mundial, representando uma grande propaganda para o país. A cidade do Rio de Janeiro – à época Distrito Federal – foi o principal cenário do certame e, por cerca de um mês, mobilizou-se para o torneio. Estima-se que aproximadamente 200 mil pessoas tenham estado presentes no último jogo do campeonato, entre Brasil e Uruguai. Um número assustador, considerando-se que o Rio de Janeiro tinha na época cerca de 2 milhões de habitantes.

A IV Copa do Mundo continua sendo até hoje o mais importante evento esportivo mundial realizado no Brasil. A decisão de patrociná-lo não atendeu apenas aos interesses particulares do esporte; muitos outros elementos entraram em jogo naquele momento, como a projeção de uma imagem do Brasil, particularmente da cidade do Rio de Janeiro, e a busca de uma identidade nacional através do futebol. O estádio do Maracanã – atualmente um dos principais cartões-postais da cidade e um dos lugares mais visitados por turistas nacionais e estrangeiros – foi construído especificamente para a Copa. A imprensa carioca e nacional noticiou amplamente o campeonato, sendo o número de pessoas que compareceu ao Maracanã para assistir às partidas do escrete brasileiro bastante significativo.

Num mundo em que, como alerta Pierre Nora, os lugares de história são substituídos por lugares de memória, destacando-se eventos, monumentos e comemorações como loci privilegiados de produção de determinadas memórias coletivas, a realização da IV Copa do Mundo no Brasil é um fato extremamente rico em matizes simbólicos. Durante muitos anos o país pretendera sediar um campeonato mundial de futebol. Garantido o privilégio, o Rio de Janeiro tratou de se preparar para a Copa. O grande desafio era dotar a capital federal de um estádio digno do campeonato e, por isso, não se pouparam esforços para a construí-lo. O torneio representava a organização de um grande evento e para ele foi especialmente construído um espetacular monumento arquitetônico – o gigante de concreto, no dizer dos cronistas da época. O estádio serviria de cenário para a primeira vitória brasileira num campeonato mundial e perpetuaria a memória de um país empreendedor e bem-sucedido!

Iniciado o torneio, o Brasil viveu instantes de apreensão quanto à qualidade de seu futebol. Pouco a pouco, porém, foi-se solidificando a crença no favoritismo brasileiro, ratificada pelos sensacionais desempenhos da seleção. Nossos rapazes jogavam um futebol-arte, bailavam, sambavam com a bola nos pés e encantavam o mundo com suas maravilhosas exibições. A torcida carioca compreendia a importância do que estava acontecendo e unia-se ao escrete, atuando como o 12º jogador, garantindo a vitória sobre os adversários. Cada conquista nacional afirmava as características positivas do povo brasileiro, criativo e genial, e reforçava sentimentos coletivos.

Para a última partida, organizou-se antecipadamente uma grande festa. O dia 16 de julho de 1950 estava reservado para a concretização de um importante acontecimento nacional – o país inteiro lembraria dessa data como a da conquista de nosso primeiro título mundial de futebol. Contrariando, porém, todas as expectativas, o Brasil foi derrotado pelo Uruguai por 2 x 1, deixando escapar a consagração de seu futebol. O revés abateu profundamente a população, que buscou explicações para o ocorrido. Durante o desenrolar da Copa do Mundo, o futebol tornara-se o assunto mais importante da cidade e um motivo de orgulho. Os triunfos da seleção brasileira eram comemorados com muito entusiasmo e a derrota na última partida foi vivenciada como o sepultamento de um grande sonho. Se o campeonato mundial não concretizou o sonho de vitória, serviu, todavia, para fortalecer os laços entre a população carioca e o futebol, que garantiu seu lugar de esporte nacional e meio de expressão da virtuosidade brasileira.

O Brasil é o único país a ter participado de todos os campeonatos mundiais de futebol, ligando-se sua história em alguns momentos às performances de nossas seleções nesses eventos. A participação nas copas do mundo – e sobretudo as vitórias – reforçou a identidade nacional brasileira, atuando o futebol nessas ocasiões como o elemento propiciador da união nacional, capaz de aglutinar em torno de um time nossas diversidades regionais.

No caso da Copa de 1950, o país passava por um momento especial. O mundo acabara de sair de uma grande guerra e achava-se dividido, polarizado. O Brasil precisava encontrar seu lugar nesse mundo. Buscando o progresso e o crescimento econômico, o país investia também na conquista de sua integração nacional – requisito básico para garantir o desenvolvimento, como aponta a socióloga americana Janet Lever.

Numa sociedade hierárquica e desigual como a nossa, em que, a despeito da ideologia do igualitarismo burguês, as diferenças permanecem acentuadas e o respeito à lei só é esperado daqueles que não se encontram acima dela, conquistar uma identidade nacional é extremamente complicado. De acordo com os trabalhos de José Murilo de Carvalho e Roberto Da Matta, percebemos que as fontes de identidade nacional no Brasil não são as instituições centrais da ordem social, e sim manifestações culturais como o carnaval, as festas e o futebol.

Originariamente um esporte inglês praticado apenas pelas elites, o futebol chegou ao Brasil em fins do século XIX, popularizando-se rapidamente. Jogo coletivo, que prescinde de materiais específicos, não exige dos praticantes um padrão físico especial e é jogado com os pés – o que significa um alto grau de imponderabilidade –, o futebol difundiu-se rapidamente em nossas terras tropicais. Nos grandes centros urbanos surgidos nos primeiros anos do século XX, o futebol tornou-se o esporte capaz de propiciar à população a criação de alguns laços comunitários e, a partir daí, seu papel integrador não parou de crescer. Até mesmo as autoridades, que a princípio olhavam com certo receio as manifestações suscitadas pelos jogos de futebol, pouco a pouco passaram a estimular e a incentivar esses momentos de catarse e de união nacional (segundo Sevcenko, Washington Luís foi o primeiro presidente a perceber as possibilidades propiciadas pelo futebol para se obter a união nacional).

Campeonatos municipais, estaduais, internacionais – cada um desses eventos cria oportunidades de se explorar sentimentos de união popular. As participações brasileiras nas copas do mundo consolidam a integração nacional. Nesses momentos, a população tem acesso aos símbolos nacionais – à bandeira, ao hino, às cores do país –, participando de um verdadeiro ritual cívico. Como afirma Roberto Da Matta, foi através do futebol que, no Brasil, conseguimos somar Estado nacional e sociedade.

O objetivo central deste livro é examinar o contexto em que foi realizada a IV Copa do Mundo, relacionando-o ao projeto de difundir o futebol no Brasil, particularmente n a cidade do Rio de Janeiro, e de incorporá-lo como um dos traços mais característicos da cultura brasileira. A realização do campeonato mundial será analisada como um momento particularmente importante de afirmação da identidade nacional brasileira através do futebol.

A imprensa carioca fez uma ampla cobertura da IV Copa do Mundo. As reportagens e crônicas publicadas em alguns dos maiores jornais da cidade entre maio de 1947 e agosto de 1950 constituem um rico material de análise para o historiador. Jornalistas, literatos, intelectuais católicos, dirigentes esportivos ocuparam espaço na imprensa, registrando sua contribuição acerca do grande evento realizado no Rio de Janeiro. Pessoas de formação e posicionamento político os mais diversos expressaram suas opiniões sobre o torneio, o que denota sua importância. Ainda que nem todos estivessem satisfeitos com a mobilização provocada pela Copa, era impossível não tecer comentários sobre o assunto.

Margarida de Souza Neves ressalta as possibilidades de se fazer da crônica objeto da história, assinalando a leitura subjetiva que cada cronista faz dos fatos e expondo simultaneamente o “espírito do tempo”. Com suas particularidades, a crônica ensina ao historiador a atentar para os fatos cotidianos, para as coisas miúdas, para indícios aparentemente sem importância. Segundo a autora, “não são muitas as fontes em que o historiador encontrará com tanta transparência as sensibilidades, os sentimentos, as paixões do momento e tudo aquilo que permite identificar o rosto humano da história. Os jornais constroem o cenário da IV Copa do Mundo, repleto de sentimentos e expectativas, e é nesse cenário que este livro se fundamenta.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

O mundo das Copas

No mundo informatizado, pesquisar ficou muito fácil. Ainda assim, há um “mundo de informações” que ferramentas como Google ou qualquer outro site de pesquisa consiga revelar. É esse o principal mérito do jornalista Lycio Vellozo e sua Enciclopédia, “O Mundo das Copas – As curiosidades, os momentos históricos e os principais lances do maior espetáculo do esporte mundial” (Leya e Lua de Papel, 2010), como comprova o texto de apresentação da obra: “Há várias publicações sobre o tema. Cada uma com sua versão particularizada, seja sobre a atuação do Brasil, sobre determinada Copa, ou apenas com curiosidades. Por isso, poucas trazem um enfoque global daquele que é considerado o maior torneio do planeta.”

Um projeto magnífico, que consumiu seis anos de pesquisa e desenvolvimento. Quase 2 quilos de pura informação sobre futebol. Um livro diferente das demais enciclopédias, com quantidade surpreendente de detalhes.

Você confere abaixo o prefácio da obra, assinado pelo craque Tostão, além de algumas seções interessantes, como o curioso título, “cenas insólitas”, e várias curiosidades, tradicionais em livros do gênero, mas com conteúdo irreverente e interessante. E para quem quiser conferir muitas das informações encontradas no livro, pode acessar o blog criado pelo autor, http://www.omundodascopas.com.br/ .

O maior espetáculo esportivo da Terra
Por Tostão

Todos os livros, enciclopédias, que contam histórias da Copa do Mundo, trazem detalhes das partidas, das seleções, dos jogadores, das substituições, dos resultados, dos técnicos e de tantas outras informações. São livros para serem consultados, colecionados, utilizados como fontes de pesquisa.

Hoje, todas essas informações podem ser encontradas, com mais rapidez, na internet. Seria, então, o fim das enciclopédias? Claro que não, como não haverá o fim dos livros, desde que as enciclopédias mostrem algo diferente, além do prazer de folhear um livro, sentir seu cheiro e outras coisas subjetivas, que estão em nossa imaginação, em nossa memória, principalmente n as das pessoas de outras gerações.

É o que tenta mostrar a enciclopédia O mundo das Copas, do jornalista Lycio Vellozo Ribas. O livro mostra detalhes de detalhes sobre todas as informações, além de comentários técnicos e táticos, ilustrações coloridas (feitas pelo autor) e análises de cada jogo. São mais de 700 partidas.

Como diversas Copas do Mundo aconteceram em épocas em que não havia a preocupação de se guardar informações precisas, muitas coisas se perderam ao longo do tempo. As análises das Copas mais recentes são muito mais detalhadas.

Portugal x União Soviética, decisão 3º lugar, Copa 1966.
O livro, utilizando a tecnologia atual de pesquisa, além das histórias que são passadas de geração para geração, tem a preocupação, de resgatar coisas que nunca foram noticiadas ou que se perderam. Ao ver o filme de uma antiga Copa, podem-se tirar do jogo milhões de informações, estatísticas, que nunca tinham sido relatadas.

Muitas lendas sobre as Copas podem também ser desmentidas. A história é feita dessa maneira. Verdades se tornam mentiras, e mentiras se tornam verdades.

A Copa do Mundo é o maior espetáculo esportivo da Terra. O livro conta tudo, ou quase tudo. A vida não é feita só de informações, mas também de imaginação. Vocês vão adorar.

Cenas Insólitas

1930 – Iugoslávia 4 x 0 Bolívia

Diante da Iugoslávia, os 11 jogadores bolivianos entraram, cada um, com uma letra na camisa. A ideia era formar a frase “viva Uruguay”. Para quê? Para conquistar a torcida uruguaia. Porém, um dos jogadores que usava uma letra “U” atrasou-se e, na foto oficial, o que se lê é “Viva Urugay”. Nos anos 1930, não houve problema. Se fosse hoje, com a polêmica em torno dos homossexuais...

1950 – Brasil 2 x 0 Iugoslávia

A Iugoslávia entra em campo com apenas 10 jogadores para enfrentar o Brasil, no Maracanã. Motivo? O centromédio Mitic bateu a cabeça em uma barra de ferro na escada de acesso ao campo e abriu um belo corte na testa. A barra era resto da construção do estádio, ainda não totalmente acabada. Ele só entrou em campo com 10 minutos decorridos – e a cabeça toda enfaixada.

1978 – França 3 x 1 Hungria

Dois adversários com camisas da mesma cor era algo relativamente normal até os anos 1950. Conseguiria a Fifa acabar com isso? A entidade achava que sim – pelo menos até 1978, quando França e Hungria entraram em campo com camisas brancas. Os franceses perderam um sorteio e tiveram que usar uma camisa com listras verticais em verde e branco, emprestadas por um time argentino.

1994 – Bulgária 1 x 1 México

O jogo estava empatado em 1 a 1 quando o mexicano Bernal, após cortar uma bola pelo alto, apoiou-se na rede e fez desabar a barra que a sustenta. O que fazer? Para sorte do jogo, os norte-americanos tinham traves de reserva e trocaram a baliza em rápidos 8 minutos. O empate persistiu e o jogo foi para os pênaltis – curiosamente, batidos na trave trocada.

Dez Cabeludos

(Breiner, Caniggia, Gullit, Rodax, Valderrama, Nakata, Lalas, Ronaldo, Hagi e Beckham)

Breitner

Polêmico, o alemão sempre usou cabelo comprido e costeletas, como determinava a moda dos anos 1970. Na Copa de 1974, porém, houve um exagero: ele quase parecia um leão, de tanto pelo na cabeça.

Gullit

Ninguém popularizou mais o cabelo rastafári que o holandês. Ele já era adepto do estilo bem antes da Copa de 1990, sua primeira – e única – na carreira. Depois disso, muitos passaram a imitá-lo.

Lalas

No começo dos anos 1990, o estilo grunge – cabelo comprido cortado com certo estilo e cavanhaque – imperava entre os roqueiros. O ruivo zagueiro-roqueiro dos EUA foi o exemplo típico

Hagi

O “Maradona dos Cárpatos” sempre usou um corte comportado e nunca exagerou nas cores. Isso até a Romênia derrotar a Inglaterra, em 1998. Para comemorar, ele – e a equipe toda – pintou o cabelo de amarelo.




 
Curiosidades

Copa 1974

Maluco Beleza

O atacante César “Maluco”, do Palmeiras, reserva na seleção, quase causou um acidente pouco antes do jogo com o Zaire. Quando os jogadores africanos desciam pela escada rolante do estádio, César apertou o botão que invertia o sentido para “subida”.

Salvos

Pouco antes da Copa, a seleção do Uruguai viajou para a Indonésia e para a Austrália, para disputar amistosos preparatórios. Uma mudança de planos fez com que a delegação decidisse partir à noite, o que levou ao cancelamento das reservas feitas anteriormente. O avião que seguiu sem a equipe caiu e matou 107 pessoas.



Copa 1982

Querida, encolhi a trave

Os travessões do estádio Ramon Sanchez Pizjuan, em Sevilha, estava, 2,5 cm abaixo dos 2,44 m estipulados pelas regras do futebol. O estádio recebeu Brasil x União Soviética, em 14 de junho, e o erro foi descoberto no dia seguinte por um ex-goleiro iugoslavo. O estádio só voltou à ativa nas semifinais, ao abrigar Alemanha x França – com as traves já corrigidas.

Copa 1998

Bilhete bleu

O treinador Carlos Alberto Parreira, que comandava a Arábia Saudita, tornou-se o primeiro a ser demitido durante uma Copa. Ele levou o bilhete azul após a goleada de 4 a 0 sofrida diante da França. A ocasião criou um precedente. Ainda durante a Copa, os coreanos despediram Bum Kum Cha (após a derrota de 5 a 0 para a Holanda) e o polonês Henryk Kasperczak foi dispensado do comando da Tunísia, depois de ver o time cair diante da Colômbia (1 a 0);

Foi com medo de avião

O holandês Bergkamp se pela de medo de voar de avião. Por isso, não acompanhava a delegação nos traslados. Enquanto a equipe voava de cidade em cidade, ele seguia de carro com um assessor da comissão técnica.

Copa 2002

Plantão de polícia

Muitas seleções não tiveram climas tranquilos na Ásia. Os suecos Mellberg e Ljungberg trocaram sopapos em um treino. O argentino Veron incitou e ofendeu os ingleses antes do confronto entre ambos na Copa – o detalhe é que ele jogava no Manchester United, da Inglaterra. E o senegalês Fadiga tentou roubar um colar em uma loja na Coreia do Sul. Foi flagrado pelas câmeras do circuito interno.

Sobre o autor:
Lycio Vellozo Ribas é publicitário e jornalista, formado pela Universidade Federal do Paraná. Trabalha com esportes desde 1998, ano em que começou a trabalhar no Jornal do Estado, em Curitiba. Como profissional de jornalismo, viu de perto as Copas de 1998, 2002 e 2006. Mas a carreira como pesquisador de futebol começou mesmo em 1982. De porte de um álbum de figurinhas, ele acompanhou o Mundial daquele ano – e , assim como milhões de brasileiro, sentiu-se órfão de uma seleção que jogava bonito, mas não levou o título. Ali, começou a busca por informações sobre aquele que é o maior espetáculo da Terra. Aos 14 anos. Redigiu e diagramou um livro sobre Copas do Mundo numa máquina de escrever – originais que não foram publicados, mas que serviram de ponto de partida para a atual obra. A admiração por futebol também lhe rendeu outra paixão: a coleção de camisas. Raridades como a da Alemanha de 1954, a da União Soviética de 1982 e a do Brasil de 1990 ajudaram a ilustrar este livro.