quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Tesourinha: um drible no racismo

Uma biografia publicada nos tempos em que a literatura esportiva ainda engatinhava. Uma pena encontrá-la apenas em sebos. “Tesourinha”, de autoria do professor de Comunicação na Unisinos, Sérgio Endler, foi publicado pela editora Tchê!, em 1984, como parte da coleção “Esses Gaúchos”, comemorativa do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha. Um livro relativamente “pequeno” para uma biografia (98 pgs, formato bolso), mas riquíssima em detalhes sobre o personagem escolhido.

Osmar Fortes Barcellos, mais conhecido como Tesourinha (Porto Alegre, 3/12/1921-17/06/1979) foi um dos grandes jogadores da história do futebol brasileiro esquecido pelo tempo. Mas com enorme importância para essa mesma história, como diz o texto de apresentação da obra: “De repente, no meio da sociedade racista do Rio Grande do Sul, um craque negro. Que fazer? O Grêmio não teve jeito: escalou em seu time – até então composto exclusivamente de brancos e, no máximo, de “morenos claros” – o primeiro atleta “de cor” de sua história. Mas Tesourinha, um ponta-direita incrível, já tinha brilhado no Inter (no tempo do Rolo Compressor), no Vasco da Gama (primeiro campeão do Maracanã) e, sobretudo, na seleção brasileira (até hoje o gaúcho que mais a defendeu). Este livro conta isso e muito mais, porque Tesourinha, com seus dribles maravilhosos, conquistou seu lugar na memória do futebol brasileiro”.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo alguns trechos da obra.

Fragmentos do período de Tesourinha no Internacional e seus primeiros passos no futebol:


“O craque de futebol é sempre um ser solitário que, contudo, concretiza-se como personagem somente inserido no coletivo. É como parte integrante do time de futebol que o grande jogador de bola revela todo conhecimento adquirido. Difícil é determinar em que momento nasce o craque. É melhor, no caso, ressaltar a necessidade prática constante. Um grande jogador precisa “comer a bola”, desde menino. Somente a alta técnica e controle de bola persistente permitem, num jogo qualquer, o grande lance, a improvisação, o toque genial. De resto, é necessária alguma capacidade nata, individual, própria do homem que bem aprende. Nenhum craque pode ser fabricado em laboratório. Embora, sabe-se, o homem possa ser treinado até para matar seu semelhante.

Tesourinha herdou da Colônia Africana o amor pelo futebol. Primeiro, fez do jogo de bola seu maior lazer e fonte lúdica. Depois, sua profissão. A cada jogo punha em prática todo um repertório adquirido nos campos da várzea e na observação dos jogadores já consagrados. Assim, do Grêmio Santanense, campeão gaúcho em 37, guardou a disciplina técnica e tática desenvolvida pelo treinador Ricardo Diaz. Também jamais esqueceu a decisão em 36, entre Inter e Rio Grande, quando Fruto terminou o jogo com a cabeça toda vermelha de sangue. A bola mudando de cor a cada toque de Fruto, sempre um leão dentro da área. Salvador, do Inter, não resistira ao choque com o defensor do Rio Grande e abandonara o jogo. No final, Rio Grande campeão do Estado, Fruto vai e beija a bola. Tesourinha, na assistência, guarda pra si a lição do heroísmo e mística em torno das grandes decisões. No momento em que inicia no Inter, Tesourinha lembra também de Patesco. Talvez por isso, embora ambidestro, prefere a ponta-esquerda. Somente a volta do titular Carlitos da Seleção Gaúcha força Tesourinha a jogar na direita. Para saber de bola, é preciso conhecer todo o universo que a cerca. E Tesourinha sabe disso.”

(...)

“...No seu primeiro contrato com o Inter, Tesourinha recebera autorização para comprar diariamente um quilo de carne e dois litros de leite na conta do clube. Tesourinha não esquece aquela iniciativa do médico do Inter, doutor Gildo Russovski, indicando certo armazém na rua Silveiro.


Aos poucos, sem jamais ser robusto, Tesourinha ganha corpo. Mostra boa resistência física. É atleta veloz, tem boa impulsão, dá dribles desconcertantes. A todos impressiona seu ótimo senso de colocação em campo. Tem um “rush” esplendido, ao mesmo tempo em que é um jogador cerebral. Sabe sair jogando tanto para a esquerda quanto para a direita. Complementa suas jogadas com bom chute. Quando dribla para dentro, puxando a bola com a direita e imediatamente disparando um tiro de perna esquerda, dificilmente o goleiro impede o gol.
                                                                             *
Ao findar 1942, o Inter já é tricampeão do Estado e da cidade. Em 40 e 41, ganha os títulos com apenas uma derrota em cada temporada. Em 42, sagra-se campeão estadual sem perder jogo algum. Tesourinha e seus companheiros de Rolo Compressor avassalam. Marcam 108 gols na temporada, estabelecendo recorde nacional. Tesourinha contribui com vinte gols do total.
Algo incomoda Tesourinha como lambada de tento (cadarço de couro que servia de fecho para a bola de futebol). Tesourinha assinara seu segundo contrato onde comprometia-se a ficar no Inter por mais cinco anos. O salário: trezentos mil réis. Mas o problema está na complementação do negócio. O clube prometera uma casa para Tesourinha. E a casa tardava a aparecer.

Certo dia, Tesourinha toma uma atitude radical. Ou ganha a casa logo, ou ele quer o contrato de volta. Ama seu clube, mas palavra é palavra.”

(...)

Terça-feira, dia de treino no Internacional. Tesourinha põe a perna sobre o banco de madeira. Puxa bem o cadarço da chuteira. Passa os cordões em torno de toda a planta do pé. Depois, também em volta da canela. É preciso muita firmeza, mesmo em simples treino coletivo. O técnico, certamente, organizará um jogo recreativo do time dos brancos contra os pretos.
O presidente do Inter, em 43, é Abelardo Jaques Noronha. Juntamente com Ildo Meneghetti, ele toma a decisão de resolver logo a questão da casa de Tesourinha, garantida em contrato. Um funcionário do clube avisa Tesourinha, antes de iniciar o treino, ainda no vestiário.

A Prefeitura, por aqueles dias, põe em leilão um bom terreno na rua Silveira, no Menino Deus. Com a aprovação do jogador, o clube arremata o terreno. Ali, mandará construir a primeira casa de Tesourinha, ganha com o futebol. Ali, perto do Estádio dos Eucaliptos, o Inter guardará sua fera maior. Naquela casa da rua Silveira, 372, Tesourinha viverá os melhores dias de sua vida.”

Trecho do 5º capítulo, “Racismo driblado”, quando Tesourinha retorna ao futebol gaúcho, depois de jogar pelo Vasco da Gama:


“...Num belo sábado de janeiro, Tesourinha desembarca em Porto Alegre. Seu último contrato com o Vasco findara em dezembro último. Ele tem um único grande desejo, encerrar a carreira no Internacional. Aos trinta anos, Tesourinha é saudado no Sul como grande craque que volta. Logo o Cruzeiro mostra-se interessado em levá-lo para a Montanha.

Tesourinha e sua família passam a residir no hotel São Luís. Sem jogar, praticamente, há três meses, Tesourinha começa a treinar na velha Chácara das Camélias, junto com os jogadores do Nacional. Ainda durante o mês de fevereiro, começam a circular pela cidade boatos da futura ida de Tesourinha para o Grêmio.

Em 1952, é prefeito de Porto Alegre um grande colorado, doutor Ildo Meneghetti. O mesmo homem cuja carreira política tivera integral apoio de Tesourinha, com o então craque do Rolo Compressor saindo à rua para angariar votos ao futuro vereador.

Um grande amigo de Tesourinha, seu ex-colega no Inter, tenta recoloca-lo nos Eucaliptos. Alfeu, o grande zagueiro do Rolo. Infelizmente para Tesourinha, a reação à ideia de Alfeu é muito forte. José Pinheiro Borba, um colorado doente, ainda cheio de mágoa pela ida de Tesourinha para o Vasco, dá a sentença: “Aqui ele não joga mais”. O sotaque português de Borba, ao desferir a frase dramática, tem o aval de toda a diretoria do Inter. Para Tesourinha, aquela era sua segunda grande desgraça futebolística. A primeira havia sido ter ficado de fora da Copa do Mundo, por lesão. Resta-lhe, contudo, o enorme apreço de seus colegas. Inclusive no Nacional, onde segue treinando.

Aproxima-se mais um Carnaval. E Tesourinha, como sempre, está com o pé que é um leque. Satélite Prontidão, Marcílio Dias, Floresta Aurora, em cada sociedade do povo de sua raça Tesourinha diz presente. Sempre retribuindo com carinho a enorme simpatia que despertava. Quando a música parava um instante, Tesourinha pensava, cantando baixinho velho sucesso do Carnaval: “Sem reinado e sem coroa/ sem castelo e sem rainha/ afinal que rei sou eu?”.

Longe dos salões, passado mais um Carnaval, vive-se a mistificação das relações sociais. Evita-se solucionar as contradições básicas. Num país de capitalismo dependente, o Estado mantém sua hegemonia, contrapondo à burguesia a figura do boêmio, estabelecendo uma falsa oposição entre os dois. Corporifica-se intensamente a ideologia do “self made man”. Algo como “quem trabalhar, terá o Reino da Terra”. Vargas, no poder, tenta mobilizar as massas e retornar ao período de expansão industrial. Mas, o eixo das decisões fundamentais passa longe do poder popular. E nem Vargas conseguiria por a mão sobre esta força cujo cérebro reside no exterior.



                                                                             *
Toca o telefone no escritório do presidente Saturnino Vanzeloti. É Luiz Assunção, representante do Grêmio no Rio. Ele comunica que entre o clube gaúcho e Vasco da Gama está tudo certo para a venda de Tesourinha.

Dias antes, descansando com a família num hotel em Belém Novo, Tesourinha já assinara seu contrato com o Grêmio Porto-alegrense. Na verdade, o “namoro” começara num belo dia de sol, quando Tesourinha atravessava a Praça da Alfandega e fora abordado pelo técnico Aparício Viana e Silva. Ali, naquele momento, Tesourinha começava a entrar no Grêmio. O treinador convencera Tesourinha a ir até o escritório do presidente Vanzeloti ouvir seus planos. Lá, o presidente gremista explica que necessita contratar um jogador negro de larga fama e popularidade para derrubar com o preconceito de cor no Grêmio. O nome forte o suficiente para pôr abaixo o preconceito racial é justamente o de Tesourinha.
                                                                               *
Dia 4 de março de 1952. Tesourinha veste calmamente seu novo uniforme. Depois dirige-se para o gramado. E, pela primeira vez, um jogador negro aparece vestindo a camiseta titular do Grêmio. O bom público nas sociais da Baixada aplaude seu novo contratado. É apenas um dia de treino. Mas é também uma data histórica para o futebol gaúcho.

Tesourinha, 1º a esquerda, agachado.

Tesourinha chegara a Baixada acompanhado do dirigente Renato Souza e pelo sempre amigo Alfeu. Logo recebe os cumprimentos do técnico do Grêmio, e seu treinador na Seleção Gaúcha, Telêmaco Frazão de Lima. Em nome dos jogadores do Grêmio, Geada dá as boas-vindas a Tesourinha.

Ele faz um treino brilhante, armando boas jogadas, mostrando seus dribles rápidos e marcando um gol na vitória dos titulares por 5 x 0.

Caía por terra um preconceito estúpido, infelizmente vigente por meio século no Grêmio Porto-alegrense. Mesmo assim, dois dias após o primeiro treinamento de Tesourinha na Baixada, a diretoria do Grêmio publica nota explicativa da contratação do seu primeiro profissional negro.

Sobre o autor:

Sergio Francisco Endler, 57 anos, é professor há 26 anos da Unisinos, recorde de tempo da instituição nos cursos da área de Comunicação. Bacharel pela UFRGS e doutor pela Unisinos, com tese sobre a antiga Rádio Continental. Tem passagens pelo jornal Zero Hora, Correio do Povo, Rádio da Universidade, Rádio Gaúcha onde trabalhou com o tema futebol, entre 1979 e 1984.







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