segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Atletas do Brasil Olímpico


Os Jogos Olímpicos, Rio 2016, estão logo aí. Pode parecer distante, pois há uma Copa do Mundo de Futebol neste ano. Mas, quebrando a longa e péssima tradição brasileira de deixar tudo para “ontem”, a professora e doutora Katia Rubio acaba de lançar mais um entre tantos livros sobre o tal “Brasil Olímpico”: “Atletas do Brasil Olímpico” (Editora Kazuá).

Incansável na defesa dos atletas deste país, Katia Rubio reúne em papel um pouco, mas muito pouco da gigantesca pesquisa que desenvolve junto aos atletas brasileiros que um dia participaram da competição esportiva mais importante do planeta.

Não é à toa que o prefaciador do livro tenha escrito que esse trabalho custou à autora: “sangue, suor e lágrimas”. É a mais pura verdade. Logo a seguir, o texto de apresentação da obra.

Prefácio
Por Juca Kfouri


Katia Rubio ataca novamente.

No bom sentido, é claro.

Rubio ataca as falsas ideias no mundo do esporte e revela o que há por trás das inúmeras confusões que o obscurecem.

A nobreza do amadorismo, a ganância do doping, o preconceito contra as mulheres, a frustração da derrota, a convivência diária, muitas vezes sem fim, com a dor. E apresenta uma pesquisa soberba, digna das melhores artesãs, para jogar luz num universo que todos imaginamos compreender, muita vezes apenas tangenciando a superfície, incapazes de mergulhar fundo em suas nuances.

Rubio escolheu desde sempre o caminho mais difícil.

Em vez da proteção dos poderosos, optou pela independência intelectual, imprescindível para se tornar das pesquisadoras mais respeitadas do país.

O monumental trabalho que apresenta aqui neste formidável "Atletas do Brasil Olímpico" custou, sem demagogia, sangue, suor e lágrimas.


Razão pela qual lhe confere não uma, mas todas as medalhas de ouro a que pode fazer jus, com a vantagem de ser um trabalho com o rigor da academia e o frescor do texto singelo, ao mesmo tempo em que vigoroso, temperado pela inteligência e musculatura incomparáveis.
Impossível não se comover com as histórias que conta para ilustrar suas teses.

Impressionante a amplitude dos temas e aspectos abordados, de a a z, no emocionante universo esportivo.

A Doutora Rubio rompe limites, se supera, vai além da cátedra.

Para subir no lugar mais alto do pódio e erguer, com justo orgulho, e proveito extraordinário para nós, ignorantes, mortais comuns, o troféu da sabedoria.

Com o que, pela honra de ser o autor destas poucas linhas a guisa de prefácio, fico cheio de mim e me concedo uma brilhante medalha de bronze, embora nem precisasse, pois o orgulho da deferência já é mais que suficiente.

Brava Katia Rubio!

Apresentação
Por Katia Rubio


Há 14 anos dedico minha energia de pesquisadora a buscar entender a trajetória do esporte olímpico brasileiro. Parte dessa determinação se dê, talvez, pelos sentimentos que a performance dos atletas brasileiros me provocam a cada 4 anos, durante a realização do Jogos Olímpicos. Falo isso porque compactuo com o pensamento de intelectuais como Stuart Hall que afirmam a impossibilidade de isenção e distanciamento do pesquisador de seu objeto de pesquisa. Eu iria dizer que essa mobilização se inicia quando do desfile de abertura e perdura até a cerimônia de encerramento, mas isso não seria verdade.

Muito antes de me envolver com os estudos olímpicos e a psicologia do esporte eu me emocionava ao ver aquela mobilização toda em torno de uma competição esportiva. Fui atleta quando criança e tudo o que era oferecido de atividade esportiva competitiva eu me vi envolvida até o último ano do colegial. O esporte para mim era vital, tanto pelo que ele me proporcionava como atividade corporal em sim, e talvez sem saber naquele momento, pelo que ele me proporcionava do ponto de vista social. Sair do próprio bairro, pegar ônibus sem a presença de meus pais, mobilizar a escola para assistir a um jogo, enfrentar a torcida, lidar com a vitória e a derrota, ir a competições com escolas de outros bairros ou cidades, enfim, naquele micro cosmos em que fui criada o esporte era a possibilidade de fazer meu mundo ser muito maior do que ele parecia.

A memória mais remota que tenho de Jogos Olímpicos é de Munique 1972, principalmente por causa das cenas do atentado da Vila Olímpica. Lembro-me das cenas em uma TV em preto e branco e naquele momento não entendi muito bem o que eram aquelas pessoas armadas dentro de um lugar feito para se praticar esporte...

Nadia Comanecci

Mas foi Nadia Comanecci quem me contaminou com o espírito olímpico. Na época eu fazia ginástica olímpica na escola (não na minha porque não havia qualquer equipamento para isso, mas em uma outra, também estadual, perto de casa onde havia um professor especialista em GO que viu em mim uma atleta em potencial). Embora o único aparelho de que a escola dispunha fosse uma trave de equilíbrio e eu fizesse todos os exercícios de solo no chão de madeira (o que obrigava minha mãe a fazer compressas com todos os unguentos que ela conhecia para diminuir os hematomas das costas) ao ver Nadia realizando todas aquelas rotinas com perfeição, e conquistando as notas máximas pela primeira vez na história, fui levada a crer que eu também poderia me tornar uma atleta olímpica. Naquele momento eu não era capaz de avaliar criticamente o abismo técnico que separava o Brasil das potências do esporte mundial, mas ficou em mim aquele desejo profundo de participar daquele universo. Da ginástica migrei para o voleibol, onde fiz minha transição de carreira depois de muitos anos para a vida profissional em outras carreiras que não a de atleta.

Tudo isso foi vivido intensamente em um momento em que o esporte no Brasil experimentava uma imensa revolução, passando do amadorismo para o profissionalismo. E embora eu não tenha me tornado uma atleta olímpica nunca deixei de acompanhar o esporte pela imprensa e de gastar muitas horas dos meus dias durante a realização dos Jogos Olímpicos assistindo a competições e às cerimônias de abertura e encerramento de cada uma delas. Gosto de fazer isso sozinha até hoje porque me emociono, talvez por não ter realizado o desejo de estar lá, ou simplesmente porque eu seja mais uma, entre muitos, a ver sentido em tudo aquilo, como um grande congraçamento entre os povos, como a oportunidade de se viver um momento de igualdade na diversidade. Sem que eu soubesse no passado, eu vivia e sentia aquilo que muitos chamam de espírito olímpico.

Passados todos esses anos, a dedicação à Psicologia do Esporte e aos Estudos Olímpicos me reaproximaram desse tema que sempre me foi tão caro. Já não mais com o sonho de ser atleta, mas, certamente sem sabê-lo, tentando entender todo o processo que leva uma pessoa a se dedicar integralmente a um projeto de vida que envolve restrições, abdicações, negações, antes da conquista de recompensa, fama e glória.


Comecei essa empreitada pelo entendimento dos motivos que levam alguns jovens à prática esportiva e fui levada a relacionar essa busca com a trajetória do herói (O atleta e o mito do herói. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.). A imersão na mitologia, mas especialmente no mito do herói, foram fundamentais para a minha trajetória como psicóloga do esporte atuando com atletas de alto nível competitivo. Mais do que razões objetivas que mobilizam e levam pessoas a escolher esse estilo de vida é preciso entender as questões de ordem subjetivas e arquetípicas para a construção de uma identidade como atleta. E observo com o passar dos anos como isso se transforma com o tempo, dependendo das tantas variáveis sociais e culturais que se mesclam com o esporte, de forma cada vez mais intensa a medida que o espetáculo esportivo se torna um dos principais negócios do planeta.

Ao final daquele trabalho, que se tornou minha tese de doutorado percebi que para eu poder entender como se dava a escolha pela carreira de atleta era preciso conhecer os desencadeadores desse imaginário, ou seja, os grandes atletas do país, os medalhistas olímpicos de todos os tempos. Por dois anos busquei e entrevistei todos os atletas que ganharam uma medalha para o Brasil ao longo de sua história olímpica. De Guilherme Paraense até os medalhistas dos Jogos de 2000 foram 52 entrevistas, com a história dos atletas que deixaram suas marcas para a história, conquistando, quase todos a duras penas, aquilo que seriam as referências para o desenvolvimento do esporte no país. Dessa pesquisa resultaram dois livros (Heróis Olímpicos Brasileiros. São Paulo: Editora Zouk, 2004./ e Medalhistas olímpicos brasileiros: memórias, histórias e imaginário. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.), minha tese de livre docência (Memória e imaginário de atletas medalhistas olímpicos brasileiros. São Paulo, 2005.) e a dúvida geradora de minha próxima pesquisa.

Constatei ao longo daqueles dois anos de coletas de dados que embora as mulheres brasileiras participassem dos Jogos Olímpicos desde 1932 elas só foram conquistar as primeiras medalhas em 1996. A questão que não quis calar foi: o que teria acontecido ao longo desses anos para desencadear tal cenário?


E então, uma vez mais com auxílio pesquisa Fapesp e para esse projeto em específico um auxílio de um edital sobre estudos de gênero do CNPq, fomos em busca das mulheres olímpicas para delas ouvir as histórias, memórias e lembranças que as tiraram da condição de coadjuvantes para serem hoje as grandes heroínas do esporte olímpico brasileiro, uma vez que elas passaram a representar um papel fundamental na conquista de medalhas olímpicas para o Brasil.

Do projeto dos medalhistas para as mulheres observamos um acréscimo considerável do número de sujeitos com os quais trabalhamos. Saltamos de 52 entrevistas para mais de 150, indicando que as histórias coletadas também indicavam a construção de uma metodologia. Isso porque no princípio seguimos de perto os passos dos teóricos das histórias de vida e da história oral para então construirmos um método próprio, baseado sim nessas referências, mas que apontavam necessidades específicas voltadas para essa população.

As olímpicas foram fundamentais para o desenvolvimento do trabalho como um todo porque foi por meio delas que pudemos tomar contato com uma perspectiva sobre a qual pouco falaram os medalhistas: a derrota, a dificuldade de se chegar a um resultado positivo, apesar de todo o esforço e trabalho realizado ao longo de anos e anos de treinamentos. E ao atentarmos para a relação número de participantes x medalhas pudemos perceber que o número de participantes é imensamente maior do que o de vencedores. Mas, as mulheres também nos mostraram outras coisas como a exclusão velada que vivem as atletas não apenas das situações de treinamento, mas também da direção e organização institucional do esporte, das posições de técnicas no alto nível e a relação disso com a forma particular como se deu o movimento feminista no país. Parte dessas discussões pode ser encontrada no livro “As mulheres e o esporte olímpico no Brasil”. E foi a partir dessa pesquisa que chegamos ao presente texto.

As mulheres nos apontaram a necessidade de irmos à busca de todos os atletas olímpicos que representaram o Brasil em Jogos Olímpicos. A história do esporte olímpico no país é feita de todas essas presenças, em diferentes momentos, com distintos atores sociais e protagonistas. Ouvir essas narrativas e entendê-las nos permite ter um panorama ampliado das questões mobilizadoras do esporte brasileiro. 

Joaquim Cruz: ouro nos 800m, Jogos Olímpicos 1984.

Isso porque observa-se pelo esporte as intensas transformações do último século XX. A carreira de um atleta não é fruto apenas de uma disposição e talento individuais, da afirmação de uma vontade latente ou da determinação em perseguir objetivos. Fatores externos como a influência parental, políticas públicas, formação e papel dos formadores, sejam eles professores de Educação Física ou técnicos, podem influenciar e mesmo determinar a transformação de um aspirante em atleta.

E os números nos mostram isso.

O Brasil esteve representado em 20 das 27 edições dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, conquistando a primeira medalha olímpica em Antuérpia (1920). Até os Jogos de Pequim (2000) o Brasil totalizou 108 medalhas, sendo 20 de ouro, 26 de prata e 46 de bronze, das quais apenas 14 foram ganhas em modalidades coletivas. Essa é uma indicação do quanto o esporte nacional sobrevive à custa de esforços individuais, uma vez que o processo de formação de equipes esportivas é complexo e envolve mais do que a soma de valores individuais, necessitando de tempo e a construção de vínculo entre os atletas e comissão técnica para que resultados positivos sejam alcançados.

Conhecer a trajetória de atletas olímpicos brasileiros é gravar não só uma história individual importante para a memória nacional como, juntamente com a história de demais atletas olímpicos, reconstituir o imaginário esportivo de diversos períodos. Essas histórias de vida, relacionadas por vias diretas ou indiretas, permitem compreender o imaginário esportivo do presente dentro de um contexto maior que é o esporte nacional e sua relação com a sociedade e seu movimento.


Quando iniciamos o projeto não tínhamos ainda a dimensão do nosso objeto, uma vez que não tínhamos de antemão a totalidade de atletas brasileiros participantes dos Jogos Olímpicos, nem um acervo organizado desses sujeitos.

Na medida que avançamos na busca desses atletas e em suas histórias foi possível observar que o que estávamos fazendo era quase um senso do esporte olímpico brasileiro, uma vez que não estávamos trabalhando com uma amostra, mas com toda a população. Muito embora a metodologia adotada fosse qualitativa e a narrativa fosse conduzida pelo próprio sujeito pudemos ao longo de todas as entrevistas obter dados objetivos sobre a trajetória de todos esses atletas como local e data de nascimento, nível socioeconômico, onde e quando iniciou a prática esportiva, que clubes defendeu, com quantos anos participou pela primeira vez a seleção nacional, quem foram os primeiros professores/técnicos, como foram as experiências como atleta olímpico, em que momento da história do esporte defendeu o país, que percepção teve do amadorismo (ou do profissionalismo), de que forma as questões institucionais atravessaram sua vida, no caso das mulheres, se viveram algum tipo de preconceito ou discriminação, idem para os negros, como foi a condução dos estudos ao longo da carreira, a relação com a mídia tanto na fase do amadorismo como do profissionalismo, como se deu a transição de carreira para aqueles que já são pós-atletas, a relação com a dor e a vida presente para aqueles que já não mais competem.

Temos então aqui um panorama do esporte olímpico brasileiro, a partir da perspectiva do atleta. Mais do que revelar verdade absolutas ou determinantes oferecemos um ponto de vista poucas vezes considerado de fato na construção e execução de projetos para o futuro.
Espero que os dados apresentados aqui possam contribuir para o desenvolvimento do esporte não apenas para a geração olímpica que representará o Brasil nos Jogos do Rio de Janeiro em 2016, mas para uma herança definitiva desse patrimônio cultural.

Sobre a autora:

Psicóloga, professora Associada da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo. Mestre em Educação Física e doutora em Educação. Ex-presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte. Autora e organizadora de 16 livros e vários artigos em revistas nacionais e internacionais. Membro da Academia Olímpica Brasileira e pesquisadora de Estudos Olímpicos e Psicologia do Esporte.

Crônicas da Dra Katia Rubio já publicadas no Literatura na Arquibancada:

As aventuras de uma pesquisadora olímpica

As palavras mal-ditas

Nota sobre um trabalho de base

Heroínas olímpicas brasileiras

O peso de ser olímpico

Quando falta inspiração

A César o que é de César

Psicologia, Esporte e Valores Olímpicos

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