quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Tesourinha: um drible no racismo

Uma biografia publicada nos tempos em que a literatura esportiva ainda engatinhava. Uma pena encontrá-la apenas em sebos. “Tesourinha”, de autoria do professor de Comunicação na Unisinos, Sérgio Endler, foi publicado pela editora Tchê!, em 1984, como parte da coleção “Esses Gaúchos”, comemorativa do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha. Um livro relativamente “pequeno” para uma biografia (98 pgs, formato bolso), mas riquíssima em detalhes sobre o personagem escolhido.

Osmar Fortes Barcellos, mais conhecido como Tesourinha (Porto Alegre, 3/12/1921-17/06/1979) foi um dos grandes jogadores da história do futebol brasileiro esquecido pelo tempo. Mas com enorme importância para essa mesma história, como diz o texto de apresentação da obra: “De repente, no meio da sociedade racista do Rio Grande do Sul, um craque negro. Que fazer? O Grêmio não teve jeito: escalou em seu time – até então composto exclusivamente de brancos e, no máximo, de “morenos claros” – o primeiro atleta “de cor” de sua história. Mas Tesourinha, um ponta-direita incrível, já tinha brilhado no Inter (no tempo do Rolo Compressor), no Vasco da Gama (primeiro campeão do Maracanã) e, sobretudo, na seleção brasileira (até hoje o gaúcho que mais a defendeu). Este livro conta isso e muito mais, porque Tesourinha, com seus dribles maravilhosos, conquistou seu lugar na memória do futebol brasileiro”.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo alguns trechos da obra.

Fragmentos do período de Tesourinha no Internacional e seus primeiros passos no futebol:


“O craque de futebol é sempre um ser solitário que, contudo, concretiza-se como personagem somente inserido no coletivo. É como parte integrante do time de futebol que o grande jogador de bola revela todo conhecimento adquirido. Difícil é determinar em que momento nasce o craque. É melhor, no caso, ressaltar a necessidade prática constante. Um grande jogador precisa “comer a bola”, desde menino. Somente a alta técnica e controle de bola persistente permitem, num jogo qualquer, o grande lance, a improvisação, o toque genial. De resto, é necessária alguma capacidade nata, individual, própria do homem que bem aprende. Nenhum craque pode ser fabricado em laboratório. Embora, sabe-se, o homem possa ser treinado até para matar seu semelhante.

Tesourinha herdou da Colônia Africana o amor pelo futebol. Primeiro, fez do jogo de bola seu maior lazer e fonte lúdica. Depois, sua profissão. A cada jogo punha em prática todo um repertório adquirido nos campos da várzea e na observação dos jogadores já consagrados. Assim, do Grêmio Santanense, campeão gaúcho em 37, guardou a disciplina técnica e tática desenvolvida pelo treinador Ricardo Diaz. Também jamais esqueceu a decisão em 36, entre Inter e Rio Grande, quando Fruto terminou o jogo com a cabeça toda vermelha de sangue. A bola mudando de cor a cada toque de Fruto, sempre um leão dentro da área. Salvador, do Inter, não resistira ao choque com o defensor do Rio Grande e abandonara o jogo. No final, Rio Grande campeão do Estado, Fruto vai e beija a bola. Tesourinha, na assistência, guarda pra si a lição do heroísmo e mística em torno das grandes decisões. No momento em que inicia no Inter, Tesourinha lembra também de Patesco. Talvez por isso, embora ambidestro, prefere a ponta-esquerda. Somente a volta do titular Carlitos da Seleção Gaúcha força Tesourinha a jogar na direita. Para saber de bola, é preciso conhecer todo o universo que a cerca. E Tesourinha sabe disso.”

(...)

“...No seu primeiro contrato com o Inter, Tesourinha recebera autorização para comprar diariamente um quilo de carne e dois litros de leite na conta do clube. Tesourinha não esquece aquela iniciativa do médico do Inter, doutor Gildo Russovski, indicando certo armazém na rua Silveiro.


Aos poucos, sem jamais ser robusto, Tesourinha ganha corpo. Mostra boa resistência física. É atleta veloz, tem boa impulsão, dá dribles desconcertantes. A todos impressiona seu ótimo senso de colocação em campo. Tem um “rush” esplendido, ao mesmo tempo em que é um jogador cerebral. Sabe sair jogando tanto para a esquerda quanto para a direita. Complementa suas jogadas com bom chute. Quando dribla para dentro, puxando a bola com a direita e imediatamente disparando um tiro de perna esquerda, dificilmente o goleiro impede o gol.
                                                                             *
Ao findar 1942, o Inter já é tricampeão do Estado e da cidade. Em 40 e 41, ganha os títulos com apenas uma derrota em cada temporada. Em 42, sagra-se campeão estadual sem perder jogo algum. Tesourinha e seus companheiros de Rolo Compressor avassalam. Marcam 108 gols na temporada, estabelecendo recorde nacional. Tesourinha contribui com vinte gols do total.
Algo incomoda Tesourinha como lambada de tento (cadarço de couro que servia de fecho para a bola de futebol). Tesourinha assinara seu segundo contrato onde comprometia-se a ficar no Inter por mais cinco anos. O salário: trezentos mil réis. Mas o problema está na complementação do negócio. O clube prometera uma casa para Tesourinha. E a casa tardava a aparecer.

Certo dia, Tesourinha toma uma atitude radical. Ou ganha a casa logo, ou ele quer o contrato de volta. Ama seu clube, mas palavra é palavra.”

(...)

Terça-feira, dia de treino no Internacional. Tesourinha põe a perna sobre o banco de madeira. Puxa bem o cadarço da chuteira. Passa os cordões em torno de toda a planta do pé. Depois, também em volta da canela. É preciso muita firmeza, mesmo em simples treino coletivo. O técnico, certamente, organizará um jogo recreativo do time dos brancos contra os pretos.
O presidente do Inter, em 43, é Abelardo Jaques Noronha. Juntamente com Ildo Meneghetti, ele toma a decisão de resolver logo a questão da casa de Tesourinha, garantida em contrato. Um funcionário do clube avisa Tesourinha, antes de iniciar o treino, ainda no vestiário.

A Prefeitura, por aqueles dias, põe em leilão um bom terreno na rua Silveira, no Menino Deus. Com a aprovação do jogador, o clube arremata o terreno. Ali, mandará construir a primeira casa de Tesourinha, ganha com o futebol. Ali, perto do Estádio dos Eucaliptos, o Inter guardará sua fera maior. Naquela casa da rua Silveira, 372, Tesourinha viverá os melhores dias de sua vida.”

Trecho do 5º capítulo, “Racismo driblado”, quando Tesourinha retorna ao futebol gaúcho, depois de jogar pelo Vasco da Gama:


“...Num belo sábado de janeiro, Tesourinha desembarca em Porto Alegre. Seu último contrato com o Vasco findara em dezembro último. Ele tem um único grande desejo, encerrar a carreira no Internacional. Aos trinta anos, Tesourinha é saudado no Sul como grande craque que volta. Logo o Cruzeiro mostra-se interessado em levá-lo para a Montanha.

Tesourinha e sua família passam a residir no hotel São Luís. Sem jogar, praticamente, há três meses, Tesourinha começa a treinar na velha Chácara das Camélias, junto com os jogadores do Nacional. Ainda durante o mês de fevereiro, começam a circular pela cidade boatos da futura ida de Tesourinha para o Grêmio.

Em 1952, é prefeito de Porto Alegre um grande colorado, doutor Ildo Meneghetti. O mesmo homem cuja carreira política tivera integral apoio de Tesourinha, com o então craque do Rolo Compressor saindo à rua para angariar votos ao futuro vereador.

Um grande amigo de Tesourinha, seu ex-colega no Inter, tenta recoloca-lo nos Eucaliptos. Alfeu, o grande zagueiro do Rolo. Infelizmente para Tesourinha, a reação à ideia de Alfeu é muito forte. José Pinheiro Borba, um colorado doente, ainda cheio de mágoa pela ida de Tesourinha para o Vasco, dá a sentença: “Aqui ele não joga mais”. O sotaque português de Borba, ao desferir a frase dramática, tem o aval de toda a diretoria do Inter. Para Tesourinha, aquela era sua segunda grande desgraça futebolística. A primeira havia sido ter ficado de fora da Copa do Mundo, por lesão. Resta-lhe, contudo, o enorme apreço de seus colegas. Inclusive no Nacional, onde segue treinando.

Aproxima-se mais um Carnaval. E Tesourinha, como sempre, está com o pé que é um leque. Satélite Prontidão, Marcílio Dias, Floresta Aurora, em cada sociedade do povo de sua raça Tesourinha diz presente. Sempre retribuindo com carinho a enorme simpatia que despertava. Quando a música parava um instante, Tesourinha pensava, cantando baixinho velho sucesso do Carnaval: “Sem reinado e sem coroa/ sem castelo e sem rainha/ afinal que rei sou eu?”.

Longe dos salões, passado mais um Carnaval, vive-se a mistificação das relações sociais. Evita-se solucionar as contradições básicas. Num país de capitalismo dependente, o Estado mantém sua hegemonia, contrapondo à burguesia a figura do boêmio, estabelecendo uma falsa oposição entre os dois. Corporifica-se intensamente a ideologia do “self made man”. Algo como “quem trabalhar, terá o Reino da Terra”. Vargas, no poder, tenta mobilizar as massas e retornar ao período de expansão industrial. Mas, o eixo das decisões fundamentais passa longe do poder popular. E nem Vargas conseguiria por a mão sobre esta força cujo cérebro reside no exterior.



                                                                             *
Toca o telefone no escritório do presidente Saturnino Vanzeloti. É Luiz Assunção, representante do Grêmio no Rio. Ele comunica que entre o clube gaúcho e Vasco da Gama está tudo certo para a venda de Tesourinha.

Dias antes, descansando com a família num hotel em Belém Novo, Tesourinha já assinara seu contrato com o Grêmio Porto-alegrense. Na verdade, o “namoro” começara num belo dia de sol, quando Tesourinha atravessava a Praça da Alfandega e fora abordado pelo técnico Aparício Viana e Silva. Ali, naquele momento, Tesourinha começava a entrar no Grêmio. O treinador convencera Tesourinha a ir até o escritório do presidente Vanzeloti ouvir seus planos. Lá, o presidente gremista explica que necessita contratar um jogador negro de larga fama e popularidade para derrubar com o preconceito de cor no Grêmio. O nome forte o suficiente para pôr abaixo o preconceito racial é justamente o de Tesourinha.
                                                                               *
Dia 4 de março de 1952. Tesourinha veste calmamente seu novo uniforme. Depois dirige-se para o gramado. E, pela primeira vez, um jogador negro aparece vestindo a camiseta titular do Grêmio. O bom público nas sociais da Baixada aplaude seu novo contratado. É apenas um dia de treino. Mas é também uma data histórica para o futebol gaúcho.

Tesourinha, 1º a esquerda, agachado.

Tesourinha chegara a Baixada acompanhado do dirigente Renato Souza e pelo sempre amigo Alfeu. Logo recebe os cumprimentos do técnico do Grêmio, e seu treinador na Seleção Gaúcha, Telêmaco Frazão de Lima. Em nome dos jogadores do Grêmio, Geada dá as boas-vindas a Tesourinha.

Ele faz um treino brilhante, armando boas jogadas, mostrando seus dribles rápidos e marcando um gol na vitória dos titulares por 5 x 0.

Caía por terra um preconceito estúpido, infelizmente vigente por meio século no Grêmio Porto-alegrense. Mesmo assim, dois dias após o primeiro treinamento de Tesourinha na Baixada, a diretoria do Grêmio publica nota explicativa da contratação do seu primeiro profissional negro.

Sobre o autor:

Sergio Francisco Endler, 57 anos, é professor há 26 anos da Unisinos, recorde de tempo da instituição nos cursos da área de Comunicação. Bacharel pela UFRGS e doutor pela Unisinos, com tese sobre a antiga Rádio Continental. Tem passagens pelo jornal Zero Hora, Correio do Povo, Rádio da Universidade, Rádio Gaúcha onde trabalhou com o tema futebol, entre 1979 e 1984.







segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Atletas do Brasil Olímpico


Os Jogos Olímpicos, Rio 2016, estão logo aí. Pode parecer distante, pois há uma Copa do Mundo de Futebol neste ano. Mas, quebrando a longa e péssima tradição brasileira de deixar tudo para “ontem”, a professora e doutora Katia Rubio acaba de lançar mais um entre tantos livros sobre o tal “Brasil Olímpico”: “Atletas do Brasil Olímpico” (Editora Kazuá).

Incansável na defesa dos atletas deste país, Katia Rubio reúne em papel um pouco, mas muito pouco da gigantesca pesquisa que desenvolve junto aos atletas brasileiros que um dia participaram da competição esportiva mais importante do planeta.

Não é à toa que o prefaciador do livro tenha escrito que esse trabalho custou à autora: “sangue, suor e lágrimas”. É a mais pura verdade. Logo a seguir, o texto de apresentação da obra.

Prefácio
Por Juca Kfouri


Katia Rubio ataca novamente.

No bom sentido, é claro.

Rubio ataca as falsas ideias no mundo do esporte e revela o que há por trás das inúmeras confusões que o obscurecem.

A nobreza do amadorismo, a ganância do doping, o preconceito contra as mulheres, a frustração da derrota, a convivência diária, muitas vezes sem fim, com a dor. E apresenta uma pesquisa soberba, digna das melhores artesãs, para jogar luz num universo que todos imaginamos compreender, muita vezes apenas tangenciando a superfície, incapazes de mergulhar fundo em suas nuances.

Rubio escolheu desde sempre o caminho mais difícil.

Em vez da proteção dos poderosos, optou pela independência intelectual, imprescindível para se tornar das pesquisadoras mais respeitadas do país.

O monumental trabalho que apresenta aqui neste formidável "Atletas do Brasil Olímpico" custou, sem demagogia, sangue, suor e lágrimas.


Razão pela qual lhe confere não uma, mas todas as medalhas de ouro a que pode fazer jus, com a vantagem de ser um trabalho com o rigor da academia e o frescor do texto singelo, ao mesmo tempo em que vigoroso, temperado pela inteligência e musculatura incomparáveis.
Impossível não se comover com as histórias que conta para ilustrar suas teses.

Impressionante a amplitude dos temas e aspectos abordados, de a a z, no emocionante universo esportivo.

A Doutora Rubio rompe limites, se supera, vai além da cátedra.

Para subir no lugar mais alto do pódio e erguer, com justo orgulho, e proveito extraordinário para nós, ignorantes, mortais comuns, o troféu da sabedoria.

Com o que, pela honra de ser o autor destas poucas linhas a guisa de prefácio, fico cheio de mim e me concedo uma brilhante medalha de bronze, embora nem precisasse, pois o orgulho da deferência já é mais que suficiente.

Brava Katia Rubio!

Apresentação
Por Katia Rubio


Há 14 anos dedico minha energia de pesquisadora a buscar entender a trajetória do esporte olímpico brasileiro. Parte dessa determinação se dê, talvez, pelos sentimentos que a performance dos atletas brasileiros me provocam a cada 4 anos, durante a realização do Jogos Olímpicos. Falo isso porque compactuo com o pensamento de intelectuais como Stuart Hall que afirmam a impossibilidade de isenção e distanciamento do pesquisador de seu objeto de pesquisa. Eu iria dizer que essa mobilização se inicia quando do desfile de abertura e perdura até a cerimônia de encerramento, mas isso não seria verdade.

Muito antes de me envolver com os estudos olímpicos e a psicologia do esporte eu me emocionava ao ver aquela mobilização toda em torno de uma competição esportiva. Fui atleta quando criança e tudo o que era oferecido de atividade esportiva competitiva eu me vi envolvida até o último ano do colegial. O esporte para mim era vital, tanto pelo que ele me proporcionava como atividade corporal em sim, e talvez sem saber naquele momento, pelo que ele me proporcionava do ponto de vista social. Sair do próprio bairro, pegar ônibus sem a presença de meus pais, mobilizar a escola para assistir a um jogo, enfrentar a torcida, lidar com a vitória e a derrota, ir a competições com escolas de outros bairros ou cidades, enfim, naquele micro cosmos em que fui criada o esporte era a possibilidade de fazer meu mundo ser muito maior do que ele parecia.

A memória mais remota que tenho de Jogos Olímpicos é de Munique 1972, principalmente por causa das cenas do atentado da Vila Olímpica. Lembro-me das cenas em uma TV em preto e branco e naquele momento não entendi muito bem o que eram aquelas pessoas armadas dentro de um lugar feito para se praticar esporte...

Nadia Comanecci

Mas foi Nadia Comanecci quem me contaminou com o espírito olímpico. Na época eu fazia ginástica olímpica na escola (não na minha porque não havia qualquer equipamento para isso, mas em uma outra, também estadual, perto de casa onde havia um professor especialista em GO que viu em mim uma atleta em potencial). Embora o único aparelho de que a escola dispunha fosse uma trave de equilíbrio e eu fizesse todos os exercícios de solo no chão de madeira (o que obrigava minha mãe a fazer compressas com todos os unguentos que ela conhecia para diminuir os hematomas das costas) ao ver Nadia realizando todas aquelas rotinas com perfeição, e conquistando as notas máximas pela primeira vez na história, fui levada a crer que eu também poderia me tornar uma atleta olímpica. Naquele momento eu não era capaz de avaliar criticamente o abismo técnico que separava o Brasil das potências do esporte mundial, mas ficou em mim aquele desejo profundo de participar daquele universo. Da ginástica migrei para o voleibol, onde fiz minha transição de carreira depois de muitos anos para a vida profissional em outras carreiras que não a de atleta.

Tudo isso foi vivido intensamente em um momento em que o esporte no Brasil experimentava uma imensa revolução, passando do amadorismo para o profissionalismo. E embora eu não tenha me tornado uma atleta olímpica nunca deixei de acompanhar o esporte pela imprensa e de gastar muitas horas dos meus dias durante a realização dos Jogos Olímpicos assistindo a competições e às cerimônias de abertura e encerramento de cada uma delas. Gosto de fazer isso sozinha até hoje porque me emociono, talvez por não ter realizado o desejo de estar lá, ou simplesmente porque eu seja mais uma, entre muitos, a ver sentido em tudo aquilo, como um grande congraçamento entre os povos, como a oportunidade de se viver um momento de igualdade na diversidade. Sem que eu soubesse no passado, eu vivia e sentia aquilo que muitos chamam de espírito olímpico.

Passados todos esses anos, a dedicação à Psicologia do Esporte e aos Estudos Olímpicos me reaproximaram desse tema que sempre me foi tão caro. Já não mais com o sonho de ser atleta, mas, certamente sem sabê-lo, tentando entender todo o processo que leva uma pessoa a se dedicar integralmente a um projeto de vida que envolve restrições, abdicações, negações, antes da conquista de recompensa, fama e glória.


Comecei essa empreitada pelo entendimento dos motivos que levam alguns jovens à prática esportiva e fui levada a relacionar essa busca com a trajetória do herói (O atleta e o mito do herói. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.). A imersão na mitologia, mas especialmente no mito do herói, foram fundamentais para a minha trajetória como psicóloga do esporte atuando com atletas de alto nível competitivo. Mais do que razões objetivas que mobilizam e levam pessoas a escolher esse estilo de vida é preciso entender as questões de ordem subjetivas e arquetípicas para a construção de uma identidade como atleta. E observo com o passar dos anos como isso se transforma com o tempo, dependendo das tantas variáveis sociais e culturais que se mesclam com o esporte, de forma cada vez mais intensa a medida que o espetáculo esportivo se torna um dos principais negócios do planeta.

Ao final daquele trabalho, que se tornou minha tese de doutorado percebi que para eu poder entender como se dava a escolha pela carreira de atleta era preciso conhecer os desencadeadores desse imaginário, ou seja, os grandes atletas do país, os medalhistas olímpicos de todos os tempos. Por dois anos busquei e entrevistei todos os atletas que ganharam uma medalha para o Brasil ao longo de sua história olímpica. De Guilherme Paraense até os medalhistas dos Jogos de 2000 foram 52 entrevistas, com a história dos atletas que deixaram suas marcas para a história, conquistando, quase todos a duras penas, aquilo que seriam as referências para o desenvolvimento do esporte no país. Dessa pesquisa resultaram dois livros (Heróis Olímpicos Brasileiros. São Paulo: Editora Zouk, 2004./ e Medalhistas olímpicos brasileiros: memórias, histórias e imaginário. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.), minha tese de livre docência (Memória e imaginário de atletas medalhistas olímpicos brasileiros. São Paulo, 2005.) e a dúvida geradora de minha próxima pesquisa.

Constatei ao longo daqueles dois anos de coletas de dados que embora as mulheres brasileiras participassem dos Jogos Olímpicos desde 1932 elas só foram conquistar as primeiras medalhas em 1996. A questão que não quis calar foi: o que teria acontecido ao longo desses anos para desencadear tal cenário?


E então, uma vez mais com auxílio pesquisa Fapesp e para esse projeto em específico um auxílio de um edital sobre estudos de gênero do CNPq, fomos em busca das mulheres olímpicas para delas ouvir as histórias, memórias e lembranças que as tiraram da condição de coadjuvantes para serem hoje as grandes heroínas do esporte olímpico brasileiro, uma vez que elas passaram a representar um papel fundamental na conquista de medalhas olímpicas para o Brasil.

Do projeto dos medalhistas para as mulheres observamos um acréscimo considerável do número de sujeitos com os quais trabalhamos. Saltamos de 52 entrevistas para mais de 150, indicando que as histórias coletadas também indicavam a construção de uma metodologia. Isso porque no princípio seguimos de perto os passos dos teóricos das histórias de vida e da história oral para então construirmos um método próprio, baseado sim nessas referências, mas que apontavam necessidades específicas voltadas para essa população.

As olímpicas foram fundamentais para o desenvolvimento do trabalho como um todo porque foi por meio delas que pudemos tomar contato com uma perspectiva sobre a qual pouco falaram os medalhistas: a derrota, a dificuldade de se chegar a um resultado positivo, apesar de todo o esforço e trabalho realizado ao longo de anos e anos de treinamentos. E ao atentarmos para a relação número de participantes x medalhas pudemos perceber que o número de participantes é imensamente maior do que o de vencedores. Mas, as mulheres também nos mostraram outras coisas como a exclusão velada que vivem as atletas não apenas das situações de treinamento, mas também da direção e organização institucional do esporte, das posições de técnicas no alto nível e a relação disso com a forma particular como se deu o movimento feminista no país. Parte dessas discussões pode ser encontrada no livro “As mulheres e o esporte olímpico no Brasil”. E foi a partir dessa pesquisa que chegamos ao presente texto.

As mulheres nos apontaram a necessidade de irmos à busca de todos os atletas olímpicos que representaram o Brasil em Jogos Olímpicos. A história do esporte olímpico no país é feita de todas essas presenças, em diferentes momentos, com distintos atores sociais e protagonistas. Ouvir essas narrativas e entendê-las nos permite ter um panorama ampliado das questões mobilizadoras do esporte brasileiro. 

Joaquim Cruz: ouro nos 800m, Jogos Olímpicos 1984.

Isso porque observa-se pelo esporte as intensas transformações do último século XX. A carreira de um atleta não é fruto apenas de uma disposição e talento individuais, da afirmação de uma vontade latente ou da determinação em perseguir objetivos. Fatores externos como a influência parental, políticas públicas, formação e papel dos formadores, sejam eles professores de Educação Física ou técnicos, podem influenciar e mesmo determinar a transformação de um aspirante em atleta.

E os números nos mostram isso.

O Brasil esteve representado em 20 das 27 edições dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, conquistando a primeira medalha olímpica em Antuérpia (1920). Até os Jogos de Pequim (2000) o Brasil totalizou 108 medalhas, sendo 20 de ouro, 26 de prata e 46 de bronze, das quais apenas 14 foram ganhas em modalidades coletivas. Essa é uma indicação do quanto o esporte nacional sobrevive à custa de esforços individuais, uma vez que o processo de formação de equipes esportivas é complexo e envolve mais do que a soma de valores individuais, necessitando de tempo e a construção de vínculo entre os atletas e comissão técnica para que resultados positivos sejam alcançados.

Conhecer a trajetória de atletas olímpicos brasileiros é gravar não só uma história individual importante para a memória nacional como, juntamente com a história de demais atletas olímpicos, reconstituir o imaginário esportivo de diversos períodos. Essas histórias de vida, relacionadas por vias diretas ou indiretas, permitem compreender o imaginário esportivo do presente dentro de um contexto maior que é o esporte nacional e sua relação com a sociedade e seu movimento.


Quando iniciamos o projeto não tínhamos ainda a dimensão do nosso objeto, uma vez que não tínhamos de antemão a totalidade de atletas brasileiros participantes dos Jogos Olímpicos, nem um acervo organizado desses sujeitos.

Na medida que avançamos na busca desses atletas e em suas histórias foi possível observar que o que estávamos fazendo era quase um senso do esporte olímpico brasileiro, uma vez que não estávamos trabalhando com uma amostra, mas com toda a população. Muito embora a metodologia adotada fosse qualitativa e a narrativa fosse conduzida pelo próprio sujeito pudemos ao longo de todas as entrevistas obter dados objetivos sobre a trajetória de todos esses atletas como local e data de nascimento, nível socioeconômico, onde e quando iniciou a prática esportiva, que clubes defendeu, com quantos anos participou pela primeira vez a seleção nacional, quem foram os primeiros professores/técnicos, como foram as experiências como atleta olímpico, em que momento da história do esporte defendeu o país, que percepção teve do amadorismo (ou do profissionalismo), de que forma as questões institucionais atravessaram sua vida, no caso das mulheres, se viveram algum tipo de preconceito ou discriminação, idem para os negros, como foi a condução dos estudos ao longo da carreira, a relação com a mídia tanto na fase do amadorismo como do profissionalismo, como se deu a transição de carreira para aqueles que já são pós-atletas, a relação com a dor e a vida presente para aqueles que já não mais competem.

Temos então aqui um panorama do esporte olímpico brasileiro, a partir da perspectiva do atleta. Mais do que revelar verdade absolutas ou determinantes oferecemos um ponto de vista poucas vezes considerado de fato na construção e execução de projetos para o futuro.
Espero que os dados apresentados aqui possam contribuir para o desenvolvimento do esporte não apenas para a geração olímpica que representará o Brasil nos Jogos do Rio de Janeiro em 2016, mas para uma herança definitiva desse patrimônio cultural.

Sobre a autora:

Psicóloga, professora Associada da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo. Mestre em Educação Física e doutora em Educação. Ex-presidente da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte. Autora e organizadora de 16 livros e vários artigos em revistas nacionais e internacionais. Membro da Academia Olímpica Brasileira e pesquisadora de Estudos Olímpicos e Psicologia do Esporte.

Crônicas da Dra Katia Rubio já publicadas no Literatura na Arquibancada:

As aventuras de uma pesquisadora olímpica

As palavras mal-ditas

Nota sobre um trabalho de base

Heroínas olímpicas brasileiras

O peso de ser olímpico

Quando falta inspiração

A César o que é de César

Psicologia, Esporte e Valores Olímpicos

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Fome de bola: cinema e futebol no Brasil

Cinema e Futebol. Duas paixões do povo brasileiro. Dois temas que caminharam juntos desde os primórdios de suas criações. No início, pareciam duas linhas paralelas que jamais se cruzariam. Para muitos “especialistas”, pela pura impossibilidade de se reproduzir nas “telonas” a realidade das incríveis jogadas realizadas pelos craques brasileiros.

O tempo passou. E depois de mais de um século de história, o balanço é pra lá de positivo quanto às conquistas de um e outro tema. E quando os dois se juntaram, vários títulos encantaram e ajudaram a pelo menos preservar a memória desse esporte no País.

Faltava quem reunisse toda essa história em um livro. E quem fez isso magistralmente teria de entender de um e de outro tema também. Foi o que o crítico de cinema Luiz Zanin Oricchio conseguiu com o seu Fome de bola: cinema e futebol no Brasil (Imesp, 2006). Um livro fundamental na história da literatura esportiva brasileira.

Apresentação
Por Luiz Zanin Oricchio

Charles Miller
Em 1894, o paulistano Charles Miller voltou de uma viagem de estudos na Inglaterra trazendo duas bolas, uniformes e um livro de regras na bagagem. Queria apresentar aos amigos um esporte que conhecera em Southampton, o football. No ano seguinte, na Várzea do Carmo, entre as ruas Santa Rosa e do Gasômetro, em São Paulo, seria realizada a primeira partida de futebol oficialmente reconhecida no Brasil. Era um domingo, 14 de abril de 1895, e, nesse dia, dizem os historiadores, nasceu o futebol brasileiro.

Em 1896, um aparelho que mostrava imagens em movimento, o Omniógrapho, foi instalado na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, e chamou a atenção de curiosos. No ano seguinte, várias outras máquinas semelhantes foram se espalhando, não apenas no Rio como em outras cidades. Em 1898, Alfonso Segreto, um dos irmãos de uma família de italianos dedicada a esse novo negócio do entretenimento, voltava da Europa a bordo do paquete Brésil. Com uma maquininha fabricada na França, registrou as primeiras imagens em movimento da terra brasileira, algumas vistas da Baía de Guanabara tomadas do tombadilho do navio. Era 19 de junho de 1898 e, nesse dia, também afirmam os historiadores, nasceu o cinema brasileiro.
Foi exatamente assim? Bom, há quem diga que já se jogava bola pelo Brasil quando Charles Miller voltou da Europa trazendo a novidade para impressionar amigos que até então tinham o críquete como o esporte mais empolgante entre todos.

Há quem diga, também, que as tais imagens da Baía da Guanabara, supostamente filmadas por Alfonso Segreto, na verdade nunca existiram. Não há traço delas, nem são mencionadas em jornais ou revistas da época.

Como saber ao certo como e quando as coisas começam? Hoje, cinema e futebol são atividades planetárias, interessam a bilhões de pessoas e movimentam fortunas em negócios. Mas, naquela época, o recém-inventado cinema era uma reles atração de feira e o futebol não passava de um jogo entre amigos, uma brincadeira inocente da elite.

Alfonso Segreto
É assim mesmo: quando se buscam os mitos de origem pisa-se terreno incerto, versões se contradizem ou convivem alegremente. Neste caso, como em outros, talvez seja melhor ficar com a sacada de um clássico faroeste de John Ford, O Homem que Matou o Facínora: se a lenda for melhor que o fato, imprima-se a lenda. E ponto final.

Lenda ou fato, existe algo bem real em tudo isso: cinema e futebol chegaram praticamente juntos ao Brasil nos últimos anos do século XIX. Logo encontraram adeptos, se difundiram, caíram de vez no gosto do público, tornaram-se populares. Seria fácil imaginar que esse esporte e essa forma de entretenimento (porque no início o cinema não era ainda uma arte) teriam tudo para dar-se as mãos e iniciar um diálogo intenso. Mas será que foi assim?

Quando comentei o desejo de escrever um livro sobre a presença do futebol no cinema brasileiro, o documentarista João Moreira Salles riu e disse que seria o mesmo que fazer uma pesquisa sobre as escolas de samba de Tóquio, tão pobre seria o material disponível.

De fato, à primeira vista o cinema tratou mal a grande paixão dos brasileiros. Tão socialmente enraizado é o jogo da bola entre nós que deveria ter rendido filmes memoráveis e em quantidades apreciáveis. Aparentemente não foi assim. No entanto, a pesquisa revelou que o futebol, se não recebeu tratamento à altura da sua importância, certamente viu-se retratado pelo cinema – e em quantidade e qualidade bem superiores às que eu imaginava antes de começar.

Já nas primeiras décadas do século XX registram-se filmes de ficção dedicados ao futebol. Poucos. Na década de 30 há dois: Campeão de Futebol (1931), dirigido pelo cômico Genésio Arruda, em sua primeira e única experiência na direção, homenageando os grandes jogadores da época. Depois, em 1938, há Futebol em Família, de Ruy Costa, uma ficção baseada em peça de Antonio Faro e Silveira Sampaio. A história é a do rapaz em briga com o pai que não quer que ele siga a carreira de jogador de futebol. O jovem resolve treinar no Fluminense e, com o dinheiro ganho, custeia as despesas do curso de Medicina.

Nos comentários da época, lê-se que o filme se beneficia da febre do futebol, propagada pela Copa do Mundo de 1938, aquela mesma que o Brasil perdeu, mas revelando ao mundo a magia de Leônidas da Silva, artilheiro do torneio com oito gols.

Já na década seguinte, aparece Gol da Vitória, um longa-metragem de 1946, dirigido pelo cineasta José Carlos Burle. Trata-se de uma produção da Atlântida com Grande Otelo no papel do jogador Laurindo, personagem que, em muitas cenas, lembra passagens da vida de Leônidas, ainda o futebolista da hora.

Isso no cinema de ficção. Mas, como lembra o ensaísta Jean-Claude Bernardet, os filmes de enredo, aqueles que contam uma historinha com princípio, meio e fim, eram antes as exceções do que a regra nos primeiros tempos do cinema brasileiro.

O grosso da produção, naquela época, eram os filmes que hoje chamaríamos de documentais – os cinejornais de atualidades, os filmes de cavação ou encomenda, registros do cotidiano, todos eles exibidos com pompa e circunstância nas casas de espetáculos e variedades, os cinemas de então.

Brasil x Itália, Copa do Mundo de 1938.
E, buscando esses pequenos documentários, nos damos conta da riqueza do material filmado sobre futebol. Esses modestos filmetes registram um sem-número de jogos, através dos quais poderíamos refazer toda a história inicial do futebol no Brasil. A começar por um mais do que simbólico Brasil x Argentina, de 1908, considerado o primeiro documentário sobre o futebol realizado no País. A rivalidade latino-americana está toda lá, presente nessas películas dos primórdios, com disputas entre brasileiros e paraguaios, ou uruguaios. A excursão de um clube inglês chamado Corinthians foi amplamente documentada quando ele passou por aqui em 1910 goleando todo mundo e inspirou um grupo de aficionados a fundar um time brasileiro com o mesmo nome. Outro desses filmes dedica-se menos a um jogo em si do que ao formidável quebra-quebra que sobreveio no Parque Antárctica depois de um malsinado (sic) Paulistas x Cariocas. A Copa do Mundo de 1938, realizada na França, teve seus principais jogos documentados, e eles eram exibidos nos cinemas muito tempo depois de terem sido disputados. Apesar de o Brasil haver perdido a semifinal para a Itália, o cinema registra a recepção entusiástica aos jogadores, capitaneados pelo grande ídolo Leônidas. Nesse torneio, o Brasil foi desclassificado por causa de um pênalti discutível cometido por Domingos da Guia no atacante italiano Piola. Pois bem: realizou-se um filme para tratar exclusivamente desse lance decisivo. Teria sido pênalti ou não? O juiz roubara o Brasil?

Tudo isso para dizer que o futebol interessou ao cinema, sim, e muito, e desde os primeiros tempos. O problema é que a maior parte dessas películas se perdeu. Cinema é memória perecível, ainda mais a daquele tempo, acumulada em nitrato, material altamente inflamável. Não temos notícia de muitos desses filmes, a não ser por vias indiretas, como registros em periódicos ou nas empresas exibidoras. Mesmo assim não podemos nos comportar como se não tivessem sido feitos. Seria ignorar a História. Fazer de conta que a Roma antiga não existiu porque dela só restam relatos, lendas e ruínas.

As relações entre futebol e cinema irão se estreitar em períodos descontínuos. Essas relações não são lineares ou regulares, como se poderia esperar. As trajetórias do cinema e a do futebol seguem juntas, mas não paralelas.

Clube Atlético Paulistano
Na primeira década do século XX, poucos anos depois daquela primeira pelada na Várzea do Carmo, o futebol já se tornara uma nascente paixão do brasileiro. Alguns dos grandes clubes tinham sido fundados, havia campeonatos em andamento, rivalidades entre torcidas, etc. Quer dizer, estavam presentes todos os ingredientes necessários para que o jogo deixasse de ser apenas um esporte entre outros e assumisse caráter predominante na sociedade, mesmo que os pobres e os pretos ainda o testemunhassem à distância e o praticassem no anonimato.

O cinema brasileiro também não ia mal, pelo menos em seu início. Nos primeiros tempos faziam sucesso as reconstituições dos crimes escabrosos que viraram manchetes na crônica policial da época, como o crime da mala ou o crime de Banhados. Havia espaço também para musicais (com cantores atrás da tela, pois o cinema era mudo, lembremos) ou melodramas. Mas eram os filmes de atualidades que forneciam subsistência aos pioneiros, que então, vez por outra, se aventuravam em películas de enredo. Para se ter ideia: de 1912 em diante, durante 10 anos, apenas seis filmes de enredo foram lançados (Gomes, 1986, p.30). Todo o resto era formado pelas atualidades. E, nelas, o futebol estava muito presente, pois cada vez mais fazia parte do cotidiano das gentes.

O futebol não para de evoluir e de ganhar em popularidade ao longo das décadas. Desde a boa participação do Brasil na Copa de 1938, ser campeão do mundo virou obsessão nacional. Mas demorou um pouco. Primeiro porque não aconteceram as copas de 1942 e 1946, devido à guerra. Depois houve a tragédia de 1950 no Maracanã, e assim a redenção só chegaria em 1958 na Suécia. Com Pelé e Garrincha, o Brasil virou a coqueluche do mundo da bola e tornou-se hegemônico entre 1958 e 1970, apesar da derrota em 1966. Mas nem só de copas vive um país boleiro.

O nosso divertia-se alegremente com seus belos times, campeonatos com estádios cheios, torcidas apaixonadas e, de quatro em quatro anos, tentava firmar-se novamente no panorama internacional.

Já o cinema vivia aos trancos. Com a entrada dos poderosos grupos estrangeiros no mercado na segunda década do século XX, perdeu muito espaço e passou de produtor a exibidor dos filmes dos outros. Mesmo assim, criou seus primeiros clássicos a partir dos anos 30, conheceu o sucesso das chanchadas a partir dos 40 e tentou virar indústria com a Companhia Cinematográfica Vera Cruz, nos 50. Nos anos 60, os rapazes do Cinema Novo entenderam que filmes podiam exercer função crítica e discutir política. Depois o cinema compôs-se com a ditadura, apostou no espetáculo ao longo da década de 70 e teve êxito; enfraqueceu-se aos poucos nos anos 80 e quase morreu de choque anafilático com a vacina neoliberal que lhe aplicaram. Renasceu em meados dos anos 90 e, redivivo, reaprendeu a gostar do futebol.

Mas de que futebol estamos falando? Porque este também não deixara de se transformar no correr dos anos. Do amadorismo de fachada dos anos 20 passou a profissional a partir de 1933. Excluídos de início, negros e mulatos entraram para o esporte e lhe deram estilo único. Surgiram os grandes astros, Friedenreich, Feitiço, Fausto, Domingos, Leônidas, Heleno, Zizinho. O futebol viveria, mais ou menos entre o final dos anos 50 e começo dos 70, uma fase de êxito fora do comum, que se poderia chamar de romântica não fosse esse um termo pejorativo hoje em dia. E, finalmente, após longa etapa de adaptação ao capitalismo da bola, o futebol brasileiro ingressaria alegremente na era global, ligando-se aos grandes negócios mundiais de forma igualmente bem-sucedida, pelo menos no âmbito externo.

O propósito desse livro é mostrar como essas duas linhas – a do futebol e a do cinema – se encontram em certos pontos nodais, em filmes que exprimem, em cada época, o que de mais significativo existe tanto na história de um como na história do outro. Por exemplo, Alma e Corpo de uma Raça registra os devaneios nacionalistas e de eugenia da era Vargas; Garrincha e A  Falecida discutem uma suposta função alienante do jogo; Pra Frente Brasil revela a sua utilização política, Boleiros mostra seu rosto humano e também a sua face dura. Com outros títulos contemporâneos como Ginga e Sonhos de Bola, testemunha as transformações sofridas pelo futebol na era da economia global. Estilisticamente, cada um desses filmes é típico de sua época: o melodrama dos anos 30, o cinema-verdade dos 60, o verismo de espetáculo dos 80, a diversidade de poéticas dos 90 e 2000, e a fusão com uma estética da publicidade, típica do nosso tempo.

Cada um desses filmes, se soubermos fazê-lo falar, expressa tanto um momento da história do cinema como um momento da história do futebol e da própria história do País. É um nó de significados.

Essas máquinas de gerar sentidos estão na parte inicial do livro, nos quatro capítulos que formam o que chamei de Primeiro Tempo deste Fome de Bola. No Segundo Tempo, vêm as entrevistas com alguns dos principais cineastas que dialogaram com o futebol através dos seus filmes. Fechando essa parte, uma longa e exclusiva conversa do autor com Pelé, bate papo que ocorreu por ocasião da estreia do documentário Pelé Eterno.

Como acontece com alguns jogos, este aqui também vai para a Prorrogação, para a qual gostaria de chamar a atenção do leitor. Trata-se da Filmografia, que vale uma olhada mesmo pelos que não tenham nenhuma pretensão a pesquisador. Ela contém algumas curiosidades, como as mencionadas brigas no Palestra e a discussão do pênalti cometido pelo zagueiro clássico que foi Domingos. Inclui filmes que falam diretamente do futebol ou apenas o utilizam como elemento narrativo. Mostra, de maneira límpida, como o Brasil foi, desde o início do século XX, um país habitado pelo futebol – e como essa onipresença social do jogo da bola impregna o cinema, infiltra-se nele, cola-se à sua pele. O futebol entra em campo na tela grande, mesmo que às vezes pelas portas dos fundos, sem bater nem pedir licença.

Sobre o autor:
Crítico de cinema, Luiz Zanin Oricchio estudou Filosofia e Psicologia na USP. Seus artigos já foram publicados em veículos como o caderno Ideias, do Jornal do Brasil, e as revistas Cultura Vozes, Imagens, Cinema, entre outras. Como repórter especializado, cobriu diversos festivais de cinema no Brasil e no exterior. Participou como jurado em festivais e concursos de roteiros, entre eles os da Petrobras e da Secretaria da Cultura do Estado de São Paulo. É autor de três livros – Cinema de Novo: um balanço crítico da retomada (Estação Liberdade, 2003), Guilherme de Arruda Prado: um cineasta cinéfilo (Imesp, 2005) e Fome de bola: cinema e futebol no Brasil (Imesp, 2006) – e coautor de Cinema Mundial Contemporâneo (Papirus, 2008), organizado por Mauro Baptista e Fernando Mascarello. Além disso, participou com ensaios para as obras Menino de Engenho: 40 anos depois (UFPA, 2005), organizado por Lucio Vilar e Antônio Vicente Filho; e Cangaço – o nordestern no cinema brasileiro (Avathar, 2005), com organização de Maria do Rosário Caetano. Escreveu ainda o ensaio O sertão no imaginário cinematográfico brasileiro para o livro New Brazilian Cinema, organizado pela crítica e professora Lúcia Nagib, editado na Inglaterra, além de verbetes para a Enciclopédia do Cinema Brasileiro (Senac, 2000), de Fernão Pessoa Ramos e Luiz Felipe Miranda. É um dos “blogueiros” do jornal Estadão (http://blogs.estadao.com.br/luiz-zanin/ ) e também do seu http://ojogodezanin.wordpress.com/ onde estão todos os artigos escritos por ele para o Estadão e outras reflexões diárias atuais sobre o futebol.