segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Dossiê 50: os sobreviventes do Maracanaço



Até a Copa do Mundo que se realizará no Brasil, em 2014, não existirá jogo mais falado do que a fatídica final do mundial de 1950, perdido para os uruguaios. E durante a competição, idem. Ainda mais se as duas seleções acabarem se cruzando na decisão. O que ficou conhecido como “Maracanaço” teve sua versão literária perfeita no livro escrito pelo repórter Geneton Moraes Neto: “Dossiê 50”. Lançado em primeira edição, em 2000, pela editora Objetiva, tem em seu subtítulo o conteúdo fantástico e exclusivo da obra: “Os onze jogadores revelam os segredos da maior tragédia do futebol brasileiro”. (vale lembrar que há uma nova edição da obra, publicada pela Maquinária Editora)

Como a sinopse de Dossiê 50 feita pela Maquinária Editora destaca: "Dossiê 50" é um documento essencial para se entender os erros do passado e, sendo assim, não repeti-los. Além disso, é um retrato comovente de uma geração de craques que sofreu com a maior derrota do futebol brasileiro”.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo o texto escrito pelo grande repórter Geneton, nas orelhas da primeira edição do livro. E mais abaixo, um trecho do primeiro capítulo da obra. Um livro obrigatório e espetacular.

Orelhas
Por Geneton Moraes Neto

Gol de Ghiggia que decretou a derrota brasileira em 1950
“Não”, disse Barbosa. “Lá dentro, não.” Assim, com uma resposta seca, dita num tom que não dava margem a contestação, o goleiro da Seleção Brasileira de 1950 recusou o convite que eu lhe fizera: que tal se ele posasse para o nosso cinegrafista, lá dentro, no gramado do Maracanã?

“Não, lá dentro, não.”

A entrevista, feita para um telejornal de fim de noite, o Jornal da Globo, terminaria gravada numa sala acanhada do parque aquático do Maracanã, àquela hora povoado por crianças que nem sonhavam que aquele homem um dia foi um dos jogadores mais populares da Seleção Brasileira de futebol.

Barbosa era capaz de contar, diante de um microfone, segredos sobre a Copa de 50, mas, por favor, “lá dentro, não”. Teve de carregar sobre os ombros, até a morte, o peso da maldição do gol de Ghiggia. Tantas vezes condenado por um crime que não cometeu, o maior anti-herói de 50 morreu aos 79 anos de idade, no fim da noite de sexta-feira, 7 de abril de 2000, num quarto da Santa Casa de Misericórdia, em São Paulo.

A recusa de Barbosa em pisar a grama do Maracanã tantos anos depois da tragédia de 50 me impressionou. Aquela frase, “não, lá dentro, não”, resume um trauma que parece resistir à passagem dos dias, meses, anos, décadas, desde julho de 1950.

Quando saí do Maracanã depois da gravação da entrevista, no já remoto ano de 1986, eu tinha decidido, intimamente, fazer a investigação que se transforma, agora, neste Dossiê. Que maldição seria aquela?

Dossiê tenta contar a história de 50 na visão de quem suou a camisa dentro do campo, até o último minuto, em busca da impossível vitória.

“Não, lá dentro, não”, por favor, não naquele vestiário, não naquela arquibancada, não naquele gramado. Porque foi ali que Ghiggia pegou a bola na intermediária para a arrancada fatal rumo à grande área brasileira: 16 de julho de 1950. Uruguai 2, Brasil 1.

Quem viu – e quem não viu – não se esquece.

Silêncio! O Brasil está chorando.
Por Geneton Moraes Neto

Da esquerda para a direita: Augusto, Barbosa e Juvenal.
Lá vem a bola. Zizinho centrou para a grande área aos 42 do segundo tempo. Augusto, zagueiro do Brasil, correu para a grande área do Uruguai na hora do desespero, se espichou todo no ar. Era como se a vontade de acabar logo com aquele drama tivesse tornado elásticos todos os músculos do corpo. Baixinho, pulou tão alto quanto o zagueiro do Uruguai. Bola na rede. Dois a dois. O empate garante o título mundial ao Brasil. O Maracanã, na descrição exagerada dos locutores esportivos, “vem abaixo”.

Augusto acorda suado no meio da noite calorenta da Tijuca, no Rio de Janeiro. Olha para o teto, tenta enxergar pela fresta da janela um sinal de luz, no quarto desse apartamento de quinto andar na rua do Bispo. Era um sonho. Que dois a dois que nada. Que campeão do mundo que nada. Que gol de cabeça que nada. Tantas décadas depois, o placar real estava escrito em todos os jornais de todas as coleções de todas as bibliotecas: Uruguai 2 x 1 Brasil. A Seleção Brasileira perdeu para sempre a final contra o Uruguai. Augusto, capitão da Seleção Brasileira, jamais levantaria a taça. Tenta dormir de novo.

Aos fatos:

Quem? Barbosa, Augusto, Juvenal, Bauer, Danilo, Bigode; Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. O quê? Perderam a Copa do Mundo para o Uruguai. Quando? Dezesseis de julho de 1950, às 4h50 – hora do apito final. Onde? Maracanã. Por quê?

Como é que o Brasil pôde perder uma Copa do Mundo dentro do Maracanã, se jogava apenas por um empate? A culpa deve ter sido do estádio, delira o peladeiro emérito e poetaço da MPB Francisco Buarque de Holanda:

– Quando os jogadores mais precisavam do Maracanã, o Maracanã emudeceu. A estádio de futebol não se pode dar confiança, lição que calou fundo em nossos atletas a partir de 1950.
Chico Buarque ouviu, pelo rádio, o Brasil desabar diante do Uruguai. Tinha somente seis anos de idade. A propósito: esclareça-se que ele, hoje, considera o Maracanã digno de uma anistia ampla, geral e irrestrita:

– Com o tempo, veio uma espécie de anistia, prescreveu a culpa – do Maracanã.

Um ex-favelado narra todo dia o gol da vitória do Uruguai

Isaías, guia do antigo Maracanã.
Meio século depois da “tragédia de 50”, um ex-morador da favela do Esqueleto cumpre todos os dias um ritual que, aos olhos de algum desavisado, poderia soar como uma excentricidade digna de registro imediato no Guiness, o Livro dos Recordes. De segunda a sexta, sob sol ou chuva, com a regularidade de fazer inveja a funcionário público britânico, Isaías Ambrósio aboleta-se nas cadeiras do Maracanã, emposta a voz e começa a narrar o gol de Ghiggia em tons dramáticos, como se fosse locutor de uma imaginária emissora de rádio transmitindo a final da Copa, ao vivo, “para todo o Brasil”. A cena pode ser testemunhada diariamente, entre nove e meia da manhã e três e meia da tarde, por quem visita o Estádio do Maracanã no ano 2000.

O fato de um brasileiro anônimo se dar ao trabalho de narrar o gol de Ghiggia de segunda a sexta, o ano todo, já seria suficiente para assegurar à final da Copa de 50 uma cadeira cativa na Galeria dos Traumas Nacionais. O favelado Isaias trabalhou na construção do estádio. Vivia, na época, numa favela que ganhou o nome de Esqueleto porque floresceu em torno de um prédio inacabado, nas vizinhanças do Maracanã. Famosa por abrigar o célebre bandido Cara de Cavalo, a favela sumiu do mapa para dar lugar ao que hoje é a Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Quando a Copa começou, o favelado Isaías mudou de função: deixou de ser operário da construção do estádio para se transformar em testemunha ocular das vitórias do Brasil. Pensou que ia ver a maior festa da história no dia 16 de julho de 1950:

– Quando o jogo acabou, o Maracanã ficou parecendo um cemitério à meia-noite: um silêncio tremendo. Pessoas morriam de enfarte. Não cheguei a ver, mas tomei conhecimento de gente que se matou. Algo terrível, terrível, terrível tinha acontecido. Isto não é saudosa memória: é uma triste memória. Nunca em minha vida eu senti os minutos passarem tão velozes como naquele dia – entre o gol de Ghiggia e o fim da partida. Nós todos estávamos naquela ansiedade enorme pelo gol de empate do Brasil. Todo mundo torcendo, torcendo, torcendo. Houve um lance em que um jogador do Uruguai, depois de um cruzamento, segurou a bola com a mão dentro da grande área. Gritamos: “É pênalti! É pênalti! É pênalti!”. Mas que nada! O juiz tinha acabado de apitar o fim do jogo. Uma frustração enorme. Em situações normais, quando um jogo acaba, a gente sai do estádio ou vibrando de alegria ou danado da vida. Mas ficamos sentados, sem força para nos levantarmos. Se todos os torcedores procurarem as saídas do Maracanã assim que um jogo acabar, em vinte minutos não fica uma só pessoa no estádio. Nesse dia, à meia-noite ainda tinha gente sentada, com a cabeça entre as mãos. Hoje, narro o gol. Sou o brasileiro que mais fala do jogo Brasil x Uruguai. Nem uruguaio fala tanto sobre aquele jogo quanto eu. Fui a Montevidéu. Ghiggia me disse: “Se eu tentasse outras cinquenta vezes, não acertaria uma.” Eu estive no Uruguai, como convidado, para participar da inauguração da Praça Maracanã, ao lado do Estádio Centenário, no dia 16 de julho de 1992. Virei figura importante. Eu parecia até um presidente. Fiquei com minha mulher na suíte presidencial de um hotel. Nossa! Fomos bem tratados.

Pai de seis filhos, Isaías Ambrósio foi trocando de função na biografia do estádio como quem muda de camisa: já fui segurança, hoje é o guia oficial dos visitantes que desembarcam no Maracanã para prestar reverência ao “altar dos deuses da bola”. A maioria vem de outros países. Esperto, Isaías aprendeu a falar frases em inglês, francês, espanhol e outras línguas menos votadas. Informa que vive “num país bonito: United States of Vila Kennedy” – um bairro do Rio. Assim, prende a atenção dos forasteiros que ficam em silêncio quando ele descreve, com uma comoção ensaiada, a primeira derrota sofrida pela Seleção Brasileira no Maracanã.

O Brasil “ficou adulto sem querer”, naquele 16 de julho

Antonio Fagundes, no filme sobre Barbosa.
Quatro décadas depois do naufrágio, o roteirista gaúcho Jorge Furtado, que nem nascido era no dia da derrocada, tentou o recurso extremo: impedir que Ghiggia fizesse o gol. Em parceria com Ana Azevedo fez um curta-metragem chamado Barbosa, em que o personagem vivido por Antonio Fagundes corre ao Maracanã para avisar ao goleiro do Brasil que a bola ia entrar por ali, rasteira, no canto. Mas é barrado por policiais na saída do vestiário. Furtado não conseguiu mudar a realidade, porque, infelizmente, películas cinematográficas ainda não possuem este poder. O Brasil perdeu, para o resto da vida, a final daquela Copa. “Nunca mais seremos campeões do mundo de 50.”

Um espectador que estava na arquibancada do Maracanã na tarde do domingo 16 de julho de 1950 ainda remói o trauma. Chama-se Carlos Heitor Cony. Diz a lenda que ele deixou de acreditar em Deus quando viu a Seleção Brasileira sair de campo aos prantos, diante da multidão muda:

– Perdemos em 1950 aquela inocência, aquele assanhamento que herdamos dos índios quando viram chegar as caravelas de Cabral. Talvez tenha sido melhor assim. Dolorosamente, ficamos adultos sem querer.

Foto histórica de garoto assistindo jogo no Maracanã/50
Quando o juiz apitou o fim do jogo, o que fez o torcedor Cony? Anos depois, ele escreveria:

– Continuei imóvel, sentado no degrau de cimento ainda fresco, olhava o sol que batia obliquamente no gramado, ouvia o silêncio da multidão, um silêncio não quebrado nem mesmo pelo pranto de homens que soluçavam alto, em arrancos brutais, na orfandade coletiva. Sobreviventes daquela tarde cruel acreditaram que nunca mais poderiam ser felizes (...). 

Quem passou pelo 16 de julho de 1950 merece um monumento coletivo, como o do Túmulo do Soldado Desconhecido. São essas coisas que formam uma pátria, um povo encharcado em sua dor.

Sobre o autor:
Geneton Moraes Neto e do Recife. Aos treze anos, em 1970, já era um praticante amador do jornalismo - em artigos que tentavam clonar o estilo bombástico de David Nasser, no suplemento infantil do "Diário de Pernambuco". Entre 1975 e 1980, trabalhou - primeiro, no Diário de Pernambuco; depois, na sucursal nordeste de “O Estado de S. Paulo” – sempre como “repórter da geral”. Em Paris, para onde se mudou na esperança de um dia ver Charlotte Rampling andando na calçada num fim de tarde de inverno, foi camareiro do Hotel Mônaco, motorista de uma família rica e estudante de Cinema na Sorbonne. Não fez carreira em nenhuma das três atividades: camareiro, motorista ou cineasta. Só veria Charlotte Rampling ao vivo e em cores vinte anos depois. Com irremediável ar de pateta, tirou uma foto ao lado da estrela. C’est la vie. De volta ao Jornalismo, no Brasil, trabalhou na Rede Globo Nordeste como editor e repórter. Como milhões de nordestinos atraídos ao “Sul Maravilha” pela lei da gravidade, terminou caindo no Rio de Janeiro. Entre idas e vindas, trabalha na Rede Globo/Rio desde 1985. Já foi editor-executivo do Jornal da Globo e do Jornal Nacional; correspondente da Globonews e do jornal O Globo em Londres; repórter e editor-chefe do Fantástico por duas vezes. (trecho extraído do site do autor na internet, aliás, recomendadíssimo www.geneton.com.br)

Nenhum comentário:

Postar um comentário