segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Didi: treino é treino, jogo é jogo



Não há na história da literatura esportiva brasileira, clube e jogadores que mais tenham sidos referenciados em livros do que o Botafogo, o time da “estrela solitária”. E entre tantos craques da literatura e do jornalismo esportivo, Roberto Porto é um desses eternos apaixonados.

Porto publicou em 2001, ano da morte de um dos maiores jogadores na história do futebol brasileiro e do Botafogo, evidentemente, um livro de crônicas sobre sua vida: “Didi – Treino é treino, jogo é jogo” (Relume Dumará, 2001). Didi, craque da seleção brasileira, campeão mundial em 1958, e que fez história, além do Botafogo, no Fluminense. Mais tarde, no final de carreira, seria ainda técnico de futebol, dirigindo a seleção peruana que enfrentou a do Brasil no tricampeonato do México, em 1970.

A classe, categoria e frieza que demonstrava em campo lhe deram alguns apelidos: de Nelson Rodrigues, "O Príncipe Etíope", pela elegância e frieza de seu jogo; da imprensa internacional, "Mr Football”; e por aqui chegou a ser chamado de “Pérola Negra”. Além de craque, Didi também foi “inventor” ao criar o chute chamado de “folha-seca”, uma forma de bater faltas, onde a bola subia em uma velocidade e, repentinamente, descia em outra superior enganando o goleiro.

Roberto Porto nos revela no primeiro capítulo do seu livro as razões e as formas desta paixão desenfreada pelo Botafogo de Didi e tantos outros craques. Memória com registros que vão muito além das quatro linhas de um gramado. Memória que tem outros sentidos.

Da Urca às Laranjeiras
Por Roberto Porto

Minha família mudou-se da Urca para Laranjeiras em setembro de 1942. Muito tempo depois, em despretensiosas e noturnas conversas, aqui e ali, fiquei sabendo que minha mãe, Daura, morria de medo de que um submarino alemão, daqueles sinistros U2 que suposta e furtivamente se escondiam em águas próximas ao Rio de Janeiro, acertasse em cheio um torpedo no Cassino da Urca, até hoje a única e escassa entrada e saída do simpático e sossegado bairro do Pão de Açúcar para milhares de pessoas. Acho até que por isso ela sempre detestou a Praia da Urca, preferindo Arpoador e Leme.

Apesar de menino, pouco mais de dois anos, tenho ainda na memória doces lembranças da Rua Joaquim Caetano, onde ficava nossa casa de dois pisos, da varandinha e dos passeios pelas redondezas calmas e tranquilas. A rigor, a única coisa que me assustava na Urca eram as histórias – verídicas ou apenas para assustar crianças desobedientes, o que absolutamente não era meu caso – que contavam façanhas e lunáticas proezas de loucos que fugiam do Hospício da Praia Vermelha. E até hoje, quando passo pela Urca, sinto uma ponta de saudade, principalmente de meu pai, Nélson Porto, que se foi faz algum tempo deixando um exemplo de dignidade e enorme saudade.

Em resumo, a troca pelas Laranjeiras foi ótima. O apartamento do Edifício Héris era amplo, arejadíssimo, diante da comprida Rua Ipiranga, que terminava na linda Paissandu, com sua incontável fileira de palmeiras-imperiais. E da varanda conseguíamos ver o Pão de Açúcar – com as idas e vindas do bondinho –, o Cristo Redentor e a fechada mata do Sumaré.

Nas raras noites em que perdia o sono, de meu quarto, podia ouvir os apitos tristonhos das máquinas a vapor da Central do Brasil, por detrás do morro que hoje é perfurado pelo túnel Santa Barbara, em suas manobras infindáveis entre as estações de Mangueira e São Cristóvão. E mais: tornei-me também um especialista em adivinhar o trajeto dos bondes da Light.

No então silêncio das noites de Laranjeiras, começava a escutar o ranger dos bondes nos trilhos – por incrível que pareça – a partir do momento em que eles deixavam a Rua do Catete e entravam na Pedro Américo, cortavam a longa Bento Lisboa e paravam no Largo do Machado, diante da igreja. Daí, conduzindo os últimos boêmios, subiam a Rua das Laranjeiras no caminho do Cosme Velho e das Águas Férreas. Sinceramente, acho que fui maquinista ou motorneiro em vidas passadas – se é que elas realmente existiram ou existem e não são apenas conversa fiada.

E em Laranjeiras, curiosamente, também acompanhei de perto a história. Em 1945, com os tanques do Exército cercando o Palácio Guanabara – residência oficial do presidente da República – para apear do comando da nação o político gaúcho Getúlio Vargas, que dele se apossar em 1930. Depois, em 1964, com o quase entrechoque entre as tropas fiéis ao presidente João Goulart e os soldados da Polícia Militar, fiéis ao governador Carlos Lacerda. Estava começando o que se chamou de Revolução de 1964.

Para meu pai, em 1942, tenho certeza, a mudança também foi boa. O racionamento da gasolina – vendida no câmbio negro –, o fracasso e os enguiços constantes dos carros movidos a gasogênio continuariam até que Adolf Hitler e seus exércitos entregassem os pontos na Europa e os americanos conseguissem, à força, a rendição do Japão, o que ainda durou alguns anos. Assim, até seu escritório de advocacia no Centro, meu pai podia ir de bonde ou nos confortáveis ônibus da Light que passavam na porta de casa. O torpedo do submarino alemão, felizmente, jamais deu o ar de sua graça – ou o mergulho de nossa desgraça –, mas a verdade é que a troca da Urca por Laranjeiras foi simpática sob quase todos os aspectos.

O único perigo real e imediato que eu corria era a inexorável proximidade do Fluminense Football Club e dele tornar-me adepto, com seu estadiozinho estilo inglês, sua elegância e seus incontáveis títulos no futebol. Ironicamente, porém, estava dando meu primeiro passo para, pouco depois, conhecer Didi, um dos melhores jogadores de toda a história do futebol brasileiro. E falar de minha infância e juventude é falar dos tempos de Didi, dos seus dribles, dos seus passes de curva, dos seus lançamentos e da glória que ele conquistou vindo de uma família pobre de Campos.

Mas o futebol, àquela altura do campeonato, jamais me passou pela cabeça. Vasculhando a memória, me recordo de que a primeira vez que soube que o velho e violento esporte bretão existia foi quase por acaso. Certa vez, surpreendi meu pai atracado com um rádio enorme, trocando de ondas médias para ondas curtas, e vice-versa, aflito por escutar uma narração.
Hoje, consultando datas e arquivos, sei que tentava ouvir um Brasil x Argentina, pelo Campeonato Sul-Americano disputado em Santiago do Chile em 1945.

Pernambucano de Caruaru, meu pai sempre fora torcedor do Sport Club do Recife e, obviamente, quando desembarcou no Rio, transformou-se num quase fanático adepto do Flamengo. Mas a seu favor devo dizer que jamais me influenciou – a mim e a meus irmãos – para seguir sua preferência. E passou a me levar a todos os clássicos disputados em Álvaro Chaves, até porque era perto e podíamos ir a pé, conversando em meio à multidão que se dirigia ao estádio, vinda em bondes especiais da Light.

Quem primeiro percebeu que, naturalmente, diante da indiferença – ou do excessivo espírito democrático – de meu pai, eu me encaminhava a passos largos para ser mais um tricolor foi meu tio, Júlio Lopes Fernandes, casado com a irmã de minha mãe, tia Nenê. Botafoguense desde seus tempos de Belém do Pará, ele constatou, de estalo, que minha irmã mais velha, Liliane, já adotara o Fluminense como seu clube do coração. E decidiu então entrar em ação, de imediato, para que o mesmo destino não ocorresse comigo e com meus irmãos Carlos e Maurício – este ainda uma criança, quase um bebê, balbuciando as primeiras palavras.

Alguma coisa – deve ter pensado meu tio Júlio – precisaria ser feita imediatamente. E ele foi em frente.

Heleno de Freitas
Simpático, contador de histórias de sua infância no Pará de sua época, tio Júlio, gradativamente, iniciou seu bem argumentado proselitismo fundamentalista alvinegro contando os mais incríveis feitos botafoguenses através dos anos – metade verdade, metade pura invencionice. Tenho na lembrança um jamais realizado jogo do Botafogo na China, na década de 1940 – logo na tão distante China, em plena Segunda Guerra Mundial – contra um time local que nunca havia perdido um mísero jogo. Mas o Botafogo, com um gol de Heleno de Freitas, de bicicleta ou de cabeça, aí já não me recordo, venceu por 1 a 0. Fiquei tão absolutamente abobalhado com tamanha prova de eficiência do Botafogo que não tive mais olhos para qualquer outro clube. Mas as artimanhas de tio Júlio, sem filhos, um dos primeiros sócios do então Botafogo Football Club, não terminaram por aí. Vez por outra, quando meu pai se distraía, ou estava cansado para sair com os filhos no domingo, ele aparecia em Laranjeiras e nos carregava a todos para General Severiano. Era uma festa completa.

Em resumo, tomei na veia uma dose cavalar de Botafogo.

Em honra de meu pai, repito, devo dizer que jamais, em tempo algum, tentou desviar o caminho que os filhos estavam tomando. Hoje posso dizer que suportou com galhardia e bom humor a invasão das bandeiras alvinegras pregadas a torto e a direito nas paredes de nosso quarto. E não se pode dizer que fosse uma espécie de rubro-negro meio light. Ao contrário. Certa vez o também rubro-negro José Lins do Rego, romancista de renome, acompanhado do compositor Ary Barroso – que dispensa comentários – invadiram o escritório do saudoso Nélson Porto com uma lista de contribuições para que o Flamengo levantasse recursos para comprar o passe do centroavante gaúcho Adãozinho. E meu pai não conversou: preencheu um cheque de Cr$ 10 mil e o entregou ao amigo Zé Lins, o organizador da lista de adesões. Minha mãe, pelo que estou informado, nunca soube disso. E só vai saber agora se tiver a curiosidade de folhear este livro, pois a transação foi realizada em absoluto segredo e eu prometi a meu pai escondê-la, mesmo sob tortura. Quanto a Adãozinho não sei se valeu a pena o investimento.

Mas como águas passadas não movem moinhos...

Botafogo 5 x 3 Flamengo, dia 22/11/1948.
Pouco a pouco, o Botafogo foi tomando conta de minha vida. Se vencesse, ótimo, dava cambalhotas de alegria pela casa. Se perdesse, era uma tragédia. Me trancava no quarto, ia para debaixo das cobertas, até mesmo no verão, e não queria conversa com ninguém. Nem mesmo com meus irmãos. Muitas e muitas vezes passava os domingos esparramado no tapete ouvindo as partidas pelo rádio. Se, por acaso, ocorria um Fla-Flu ou um Flamengo x Vasco, me contentava com as rápidas informações dos jogos do Botafogo que vinham de Teixeira de Castro, Conselheiro Galvão, Figueira de Melo, Moça Bonita ou Bariri, dependendo da tabela.

Foi por essa época, segundo semestre de 1948, que meu avô, Leocádio Porto, pai de meu pai, veio de Pernambuco para uma visita à família. Ainda menino, almocei mais cedo, liguei o rádio e fiquei escutando um Botafogo x Flamengo em General Severiano. Lá pelas tantas, com voz de trombone, meu avô, também rubro-negro ferrenho, me perguntou:
– Quanto está esse jogo aí, Roberto?
Meio sem jeito, entristecido, respondi:
– Flamengo 3 a 1, vovô...
O velho Leocádio, ex-coronel da Guarda Nacional, foi curto e grosso:
– Desliga isso aí porque essa o Flamengo já ganhou...

Provavelmente intimidado com a autoridade de um cidadão que era simplesmente pai do meu pai, desliguei o rádio, desci as escadas e fui brincar sozinho no jardim.

Por volta das 19 horas, pronto para cumprir meu ritual de meter-me embaixo das cobertas, a campainha da porta tocou. Fui atender e deparei-me com tio Júlio, sorridente em seu indefectível terno de linho branco domingueiro. Não entendi nada:
– Como é que você está alegre, tio – perguntei –, se o Botafogo perdeu do Flamengo?
– Quem é que perdeu, rapaz? – respondeu ele. – Ganhamos de 5 a 3 e ainda tivemos um gol anulado...

A partir daquele dia, 28 de novembro de 1948 (o Botafogo foi campeão carioca em 12 de dezembro), minha paixão pelo alvinegro ultrapassou os limites do imaginável.

Quanto ao colégio, coitado, passou para segunda opção. Terceira ou quarta, para ser mais honesto comigo mesmo, pois antes vinham as coleções de gibis, álbuns de figurinhas e uma monstruosa e queridíssima coleção de tampinhas de refrigerantes e cervejas que fazia em sociedade com meu irmão Carlos. Uma verdadeira preciosidade.

E para que não digam que também herdei o espírito democrático de meu pai, tempos depois, após reunião secreta dos três irmãos alvinegros, ficou determinado que o caçula, Cristiano, seria torcedor do Flamengo. Ele não gostou, resistiu, mas acabou aceitando a “ditadura do proletariado”. A partir daquele instante, meu pai passou a ter pelo menos um companheiro rubro-negro. E deve ter gostado da nossa atitude “democrática”.

Sobre o autor:
Nascido em 1940, no Rio de Janeiro, Roberto Porto foi repórter e redator do Jornal do Brasil, transferiu-se para Bloch Editores onde trabalhou nas revistas Enciclopédia Bloch, Fatos & Fotos e Domingo Ilustrado, trocando depois as revistas por O Globo, onde foi subeditor de esportes. Voltou ao Jornal do Brasil, como subeditor de esportes, retornando pouco depois a O Globo no mesmo cargo. Por fim, trabalhou em O Dia e foi editor-chefe da Tribuna da Imprensa. Foi colunista do Jornal dos Sports. Com João Máximo, publicou A História Ilustrada do Futebol Brasileiro (Edobrás, 1968), em quatro volumes, e, com Carlos Leonam e Manoela Pena, lançou Dicionário Popular de Futebol – O ABC das Arquibancadas (Editora Nova Fronteira, 1999). Mantém um blog http://blogdorobertoporto.blogspot.com.br/. Participa do programa Loucos por Futebol, do canal ESPN Brasil. Também é autor de Botafogo: 101 Anos de História, Mitos e Superstições (Editora Revan, 2005).

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