domingo, 22 de dezembro de 2013

Domingos D'Angelo: paixão pelos livros de futebol

Domingos D'Angelo (foto Ludopédio)


Como acontece em todo Natal, Literatura na Arquibancada destaca uma personalidade brasileira de destaque no universo da literatura esportiva.

Aos 75 anos, Domingos D’Angelo é dono de um dos maiores acervos de livros esportivos (especialmente futebol). Prefere ser chamado de bibliófilo, ao contrário de “colecionador” como muitos outros existentes no país.

Foram décadas de trabalho para chegar ao estágio atual e “seu” Domingos, como é carinhosamente chamado pelos amigos, não dá sinais de que vai parar. Com fôlego incansável, decidiu ainda há alguns anos criar um grupo de literatura e memória do futebol, o Memofut, que reúne diversos autores, jornalistas, pesquisadores e amantes da literatura esportiva.

crédito: foto Ludopédio
Domingos D’Angelo não é só um apaixonado pelos livros de futebol. É leitor e estudioso do tema. A literatura esportiva brasileira, agradece seu belíssimo trabalho.

Confira a entrevista do Literatura na Arquibancada com mestre Domingos D’Angelo.
Vale conferir também outra entrevista feita pelo excelente site “Ludopédio”: http://www.ludopedio.com.br/rc/index.php/entrevistas/artigo/482.

Literatura na Arquibancada agradece a cessão de algumas fotos utilizadas nesta entrevista para ilustrar o nosso papo com Domingos D’Angelo.

Literatura na Arquibancada:
Fale sobre suas origens e família (avós, pai, mãe, esposa, filhos).

Domingos D’Angelo:
Domingos Antonio D’Angelo Junior ou só Domingos D’Angelo.

Sou filho de um jornalista e advogado, de classe média, meus quatro avós eram todos italianos, portanto sou “oriundi” puro, não tenho mistura no meu sangue...Minha mãe era “prendas domésticas”.

Sou então filho de jornalista, tio, pai, sogro e ainda resido na rua dos jornalistas...

75 anos, casado, 3 filhos homens e 8 netos, 7 homens e só uma neta, Isabella Primeira e Única!
Superior Administração de Empresas/Administrador de Recursos Humanos. São-paulino.

L.A:
Como e quando o futebol entrou em sua vida?

D.D:
Toda minha infância e adolescência joguei futebol, em vários clubes de várzea do bairro onde resido até hoje, Jabaquara e no Colégio Mackenzie (campeonato interno/seleção do colegial). Cheguei a fazer parte do Juvenil do Estrela da Saúde. Parece que, sou suspeito, era um razoável meio campista/4º zagueiro.

Neste mesmo período de minha vida frequentei o Pacaembu, quando menino levado inicialmente pelo meu irmão Luiz e meu Tio João, adolescente ia sozinho.

Com a inauguração do Morumbi passei a frequentar o Morumbi, sou proprietária de 4 cadeiras cativas, destas coincidências na vida, serviam para eu e meus 3 filhos...., agora com 8 netos, fazemos um revezamento...

Atualmente até vou ao Estádio, não com a frequência ia antes.

L.A:
Quando e por que começou a se interessar pela literatura esportiva?

Crédito: foto Ludopédio
D.D:
O primeiro livro que chamou minha atenção foi DRAMA E GLÓRIA DOS BICAMPEÕES, do Armando Nogueira e Araújo Neto, de 1962.

A razão, talvez por gostar de futebol, talvez pelo texto do Armando Nogueira e Araújo Neto, não saberia explicar.

L.A:
Como e por que passou a colecionar livros?

D.D:
Na verdade quando eu comecei mesmo a montar minha biblioteca, não sei precisar com exatidão, deve ter sido há mais ou menos 40 anos, época da edição do “Drama e Glórias dos Bicampeões”.

Prefiro ser chamado de bibliófilo, colecionador me soa algo “antigo”...

O “por que?”, também não sei, talvez pela razão, gostar de estudar o futebol.

L.A:
Como e onde está organizada sua biblioteca?

D.D:
Tenho uma biblioteca com 2068 obras com o tema Futebol, em português, localizada em minha residência, moro numa casa que tem um terreno de 11 x 50 metros, tenho espaço para mais 2000, só falta poder financeiro.

Espaço não me preocupa, o problema será quando eu tiver “passado” para o lado de lá, quem na família terá espaço para abrigar a biblioteca?

Tenho planos para que talvez uma instituição possa absorver.

Todos os livros estão catalogados em Excel, com titulo, autor, editora, cidade, ano, número de paginas e data da aquisição.

A biblioteca tem livros sobre Biografias, Narrativas, História, Clubes, Crônicas, Romances, Ficção, Dicionários, Infanto-Juvenil, Legislação/Regras, Administração, Psicologia, Sociologia, Medicina, Táticas e Técnica. Sempre com o tema Futebol.

Estão separados segundo esta classificação.

Esta organização carece de um aperfeiçoamento, tenho que colocar nas prateleiras, segundo as normas da biblioteconomia, numerando o livro e a prateleira. Está situação atual me faz às vezes demorar em localizar um livro e “neuras” que pudesse ter sido “levado” por alguém...

L.A:
Destaque algumas obras de seu enorme acervo, relembrando detalhes destas “conquistas”. (raridades, mais difíceis de comprar, mais difíceis de encontrar, etc.).

D.D:
Na verdade nunca fiz uma busca por livros raros, às vezes ocorreu de comprar algum que estivesse dentro de minhas condições econômicas.

Destacaria:
1 - As duas edições do primeiro verdadeiro dicionário do futebol: “DICCIONARIO DO FUTEBOL”, escrito por Guy-Gay (pseudônimo de um esportista da época), publicada a 1ª edição em 1922, por Monteiro Lobato & Cia, e a 2ª edição em 1932, pela Civilização Brasileira.

2 - MANO”, uma ode do Pai, Coelho Neto, grande escritor, ao filho, grande atleta, falecido prematuramente. Que foi motivo de uma resenha deste site. Tenho duas edições: a de 1924, editado pela Empreza Graphica Editora/RJ e a de 1939 da Livraria Chardron, de Lello e Irmão/Porto/Portugal.

3 - O livro CONCURSO LITERÁRIO - 60 ANOS DE FUTEBOL NO BRASIL, editado pela Federação Paulista de Futebol, em 1955, que considero realmente uma raridade, com textos dos vencedores do concurso, dentre outros, Thomaz Mazzoni, De Vaney e Paulo Várzea. Está precisando urgente de uma encadernação, para proteger a obra.

Atualmente gostaria de poder ter/ler o livro Veteranos e Campeões do Leopoldo Sant’Anna.

L.A:
Se tivesse que fazer um ranking dos 10 melhores livros, em cada gênero, quais seriam os eleitos? (crônica, romance, biografias).

D.D:
Muito difícil escolher o melhor ou melhores. Recentemente tentei escolher 100 e desisti. De qualquer forma vou tentar fazer algumas indicações de alguns livros que tenho grande admiração, com base na memória e certamente esquecendo muita coisa. Como escreveu Nelson Rodrigues: Não há nada mais relapso do que a memória. Atrevo-me mesmo a dizer que a memória é uma vigarista, uma emérita falsificadora de fatos e de figuras”.

Vou me limitar somente aos seguintes itens, biografias, histórias, crônicas, romances e ficção, e sem obedecer ao numero 10.

BIOGRAFIAS:

Destacam-se:
O livro do Ruy Castro, Estrela Solitária - Um brasileiro chamado Garrincha, que ajudou a diminuir o preconceito sobre o tema (futebol e literatura), Fio de Esperança - Biografia de Telê Santana, André Ribeiro e O Diamante Eterno, André Ribeiro.

Devem ser lembradas outras belíssimas biografias:

Charles Miller - O pai do futebol brasileiro, John Mills.
João Saldanha: uma vida em jogo, André Iki Siqueira.
Nunca Houve um Homem como Heleno, Marcos Eduardo Neves.
O Artilheiro que não sorria, do Rafael Casé, sobre o Quarentinha.
Friedenreich - A saga de um craque nos primeiros tempos do futebol brasileiro, do Luiz Carlos Duarte.

Pelé é motivo de inúmeros livros, o que eu mais gosto é: Primeiro Tempo – Pelé, organizado pelo Luiz Felipe H. A. Moura, com textos do Benedito Ruy Barbosa, editado pela Magma Cultural.

Outras biografias que merecem ser citadas:

Neco O Primeiro Ídolo, Antonio Roque Citadini, Geração Editorial, em 2001.
O Artilheiro aviador, Gustavo Longhi de Carvalho, Editado pelo Autor, em 2009.
Dias - A vida do maior jogador do São Paulo nos anos 60. Fábio Mattos, Pontes Editores, em 2007.
Didi o Gênio da Folha-Seca, de Péris Ribeiro, 2ª edição Gryphus, em 2009 (1ª edição Imago 1993).

Não poderia deixar de citar o livro:
Gigantes do Futebol Brasileiro - 2ª edição, de João Máximo e Marcos Castro, editado 2011 pela Civilização Brasileira, com 439 paginas, são ótimas mini-biografias de 21 grandes craques.

HISTORIA DOS CLUBES:

Os quatro livros da Editora DBA:

Corinthians Paixão e Glória, Juca Kifouri.
Palmeiras A Eterna Academia, Alberto Helena Junior.
Santos - Um Time do Céus, José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta.
São Paulo F.C. Saga de um Campeão, Ignácio de Loyola Brandão.

Os dois da Editora Mercado Aberto, do Ruy Carlos Ostermann:

Até a Pé Nós Iremos – Grêmio
Meu Coração é Vermelho - Sport Club Internacional

O jornalista Orlando Duarte recentemente escreveu três excelentes livros sobre o “trio de ferro”, publicados pela Companhia Editora Nacional.

Em 2088, Palmeiras - O alviverde imponente, Corinthians - O Time da Fiel, junto com João Bosco Tureta, em 2011, São Paulo F. C. - O Supercampeão, em conjunto com Mário Vilela.

Não se poderia deixar de serem mencionados os dois livros editados pela Fundação Nestlé, Coração Corinthiano do Lourenço Diaféria e Nação Rubro-Negra do Edilberto Coutinho.

Corinthians e Flamengo têm merecido um maior numero de livros, em razão do tamanho de suas torcidas.

HISTORIA DA SELEÇÃO BRASILEIRA

Três “livraços”:

Enciclopédia da Seleção - As Seleções Brasileiras 1914/2002, Ivan Soter.
Todos os Jogos do Brasil, Ivan Soter, André Fontenelle, Mario Levi Schwartz, Dennis Woods e Valmir Storti.
A Primeira Vez do Brasil - Campeão Mundial de 1958, Francisco Michielin.


HISTORIA DAS COPAS DO MUNDO

Com a história das Copas do Mundo em 1987, Orlando Duarte publicou Todas as Copas do Mundo, que vai se atualizando e em 1998 e se transforma em Enciclopédia - Todas as Copas do Mundo, editada pela Makron Books. Em 2013 escreveu Paixão – O Brasil de Todos os Mundiais, editado pela aBook.

Copas do Mundo - Das Eliminatórias ao Título, de 2006, escrita pelo José Renato Sátiro Santiago Jr e Gustavo Longhi de Carvalho, com edição da Novera.

Em 2010 (ano de Copa do Mundo), foram editadas excelentes obras:

Almanaque dos Mundiais, Max Gehringer, Globo
O Mundo das Copas, Lycio Vellozo Ribas, Lua de Papel
Enciclopédia das Copas do Mundo, Luiz Fernando Baggio, Novaterra
Não se poderia deixar de citar o escritor cearense, Airton Fontenele, autor de vários livros que tratam de Copas do Mundo e Seleção Brasileira e que escreveu em 2010 O Brasil em Todas as Copas.

CRONICAS ROMANCES E FICÇÃO

Nestes gêneros, prefiro fazer uma tabela, para facilitar.
Dos 16 indicados, três foram escritos por Claudio Lovato Junior (que teve resenha neste site) e quatro editados este ano, o que talvez mereça uma reflexão.

Título
Autor
Editora
Ano
A Saída do Primeiro Tempo
Renato Pompeu
Alfa Omega
1978
Maracanã Adeus - Onze Histórias de Futebol
Edilberto Coutinho
Civilização Brasileira
1980
Por Um Grito de Gol
Vital Bataglia
EMW
1983
Todo esse lance que rola
Mauricio Murad
Relume Dumerá
1994
Contos de Futebol
Aldyr Garcia Schlee
Mercado Aberto
1997
A Colina dos Suspiros
Moacyr Scliar
Moderna
1999
Assim é o futebol
Luiz Fernando Kiehl
Writers
2000
Na Marca do Penalti
Cláudio Lovato Filho
34
2002
O Reserva
Rui Zink
Planeta Brasil
2004
Contos Brasileiros de Futebol
Cyro de Mattos (org.)
LGE
2005
Segunda Divisão
Clara Arreguy
Lamparina
2005
O Batedor de Faltas
Cláudio Lovato Filho
Record
2008
O Drible
Sérgio Rodrigues
Companhia das Letras
2013
O Ultimo Minuto
Marcelo Backes
Companhia das Letras
2013
Paginas Sem Gloria
Sérgio Sant’anna
Companhia das Letras
2013
Em Campo Aberto
Claudio Lovato Filho
Record
2013


Para encerrar, toda a obra de ou sobre: Thomaz Mazzoni, Nelson Rodrigues, Mario Filho, Armando Nogueira, José Lins do Rego, João Máximo e João Saldanha, José Roberto Torero, estimo que sejam mais uns 65 livros...

Não se deveria ter deixado de lado, autores como: Roberto Assaf, Eduardo Galeano, Luis Fernando Veríssimo, Paulo Mendes Campos, Carlos Drummond de Andrade, Roberto Damatta, Edilberto Coutinho e Flavio Moreira da Costa (antologias) E MAIS UNS 100 AUTORES, mas aí não caberia nessa entrevista.

L.A:
O que acha do mercado de livros sobre futebol? Quais as virtudes e os defeitos?

D.D:
Em 2013 já temos mais 150 livros lançados, comprei poucos, tem faltado “fôlego” econômico para tal.

Em ano de copa de mundo sempre temos um aumento de lançamentos, não é o caso deste ano, mas certamente será em 2014, ainda mais com a Copa sendo no Brasil.

Sem dúvida nos últimos anos as biografias, histórias de clubes, almanaques, crônicas e sociologia tem sido maioria em relação à ficção e romances. Mas ainda estamos longe de ter uma literatura do futebol à altura do nosso futebol. Conforme dizem os sociólogos:
“O futebol é um retrato da sociedade, portanto a literatura do futebol retrata o que nós temos em literatura. Não acho que seja o ideal, principalmente se considerarmos o futebol como o esporte dos brasileiros”.

Sugestões de Leitura

Footballmania – Uma História Social do Futebol no Rio de Janeiro, 1902-1938, de Leonardo Affonso de M. Pereira, Nova Fronteira, 2000.
Futebol Brasil Memória - De Oscar Cox a Leônidas da Silva, Claudio Nogueira, Senac Rio, 2006.
A Dança dos Deuses-Futebol, Sociedade, Cultura, Hilário Franco Júnior, Companhia das Letras, 2007.
Veneno Remédio - O Futebol e o Brasil, de José Miguel Wisnik, Companhia das Letras, 2008.
O Futebol Explica o Brasil, de Marcos Guterman, Contexto, 2009.
Ensino e Memória - Histórias do Futebol, Lívia Gonçalves Magalhães Arquivo Publico do Estado, 2010.
Pioneiros - Deus criou a bola e o homem descobriu o que fazer com ela, Orlando Duarte, Editora Abook, 2011.
A Democracia Corinthiana Práticas de Liberdade no Futebol Brasileiro, José Paulo Florenzano, Educ.
Os Donos do Espetáculo-histórias da imprensa esportiva brasileira, André Ribeiro, Editora Terceiro Nome, 2007.
Memória Social dos Esportes – Futebol e Política: A Construção de uma Identidade Nacional, Francisco Carlos Teixeira Da Silva e Ricardo Pinto dos Santos(orgs.), Mauad e Faperj, 2006.

L.A:
Por que o espaço dedicado aos livros de futebol (e outros esportes) das principais redes de livrarias é tão pequeno? 

D.D:
Foi muito pior, há 10 anos nem prateleiras tinham e entrar em uma livraria e pedir um livro que tratasse do futebol se recebia um olhar, que o fazia parecer alguém que acabara de sair de uma caverna, de “chanca” e todo sujo de lama...

Nos últimos anos tem ocorrido um acréscimo no lançamento de livro com o tema futebol e já encontramos prateleiras, que poderiam ser maiores.

L.A:
Qual o livro que falta a literatura esportiva?

D.D:
As biografias de Mario Filho, Tomaz Mazzoni e Armando Nogueira.

Minha biblioteca serve como uma diversão, mas muitas vezes me fez refletir sobre a vida e certamente me enriquece como pessoa.

Para finalizar, “parodiando” o Prof. João Batista Freire no livro Pedagogia do Futebol, diria que, se hoje, aos 75 anos de idade, alguém me perguntar o que pretendo ser quando crescer, corre o risco de ouvir:  “JOGADOR DE FUTEBOL!”