terça-feira, 12 de novembro de 2013

Os arenautas estão chegando




Os Arenautas estão chegando...
Estão chegando os Arenautas
Por André Ribeiro

O que há de mais gostoso no mundo do futebol são as conversas, polêmicas, apostas, gozação pela vitória ou derrota e todo o tititi que corre fora das quatro linhas, ou como dizem os entendidos, o “extracampo”. Uma dessas “polêmicas” sempre foi a de que nunca podemos querer comparar épocas diferentes do futebol. Por exemplo, querer descobrir se esse ou aquele jogador da década tal foi melhor que um destes dos tempos modernos. Se a seleção de 1970 foi melhor que a de 1982. E por aí afora.

Mas se há uma comparação que precisa ser feita agora, no exato momento em que começam a “brotar” como grama pelo país as tais “arenas” é entre o torcedor dos “velhos” estádios e o que batizo aqui de “arenauta”.

Isso mesmo. Arenauta. Mistura de Arena com Internauta. 

Para a nova geração é importante lembrar que “antigos” estádios tinham tipos e lugares que quase viraram “marca registrada”, ou que pelo menos nunca caíram no esquecimento. Em São Paulo, no estádio do Pacaembu, corintianos eternizaram a “torcida da curvinha”. No Maracanã, surgiram os “arquibaldos e geraldinos”, aquela galera típica das arquibancadas (arquibaldos) e gerais (geraldinos), cabeleira diferente, sorriso desdentado, fantasiados dos pés a cabeça, carregando símbolos religiosos, criação do então repórter de rádio nos anos 1960, Washington Rodrigues, o “Apolinho”.

Brasil afora, não foram criados somente cantinhos especiais nos estádios. Costumes e tradições, também, como a do velho Mineirão, de comer feijão tropeiro nas arquibancadas e outras tantas espalhadas pelo país.

As novas Arenas trouxeram, ou pelo menos era essa a promessa, conforto para o torcedor dos velhos estádios. Como tudo no tal “mundo globalizado”, novidades levam tempo para serem assimiladas. Velhos hábitos custam paciência no aprendizado. Não foi assim com os caixas eletrônicos? E quem poderia imaginar um dia poder comprar e fazer quase tudo por intermédio dos computadores, diretamente da confortável cadeira de nossas casas? Não foi assim a aposentadoria dos aparelhos de fax?

Foi. Mas no terreno sagrado das tradições esportivas, as novas comodidades e tecnologias estão mexendo com a cabeça dos antigos “arquibaldos” e “geraldinos”, substituídos agora pelos Arenautas. Mas quem seriam esses novos seres?

Arenauta é aquele torcedor que tem carro próprio, de preferência, quase do ano, raros são os que têm motor 1.0. Tem renda mensal razoável que lhe permite pedir pelo telefone ao menos uma pizza por semana para a família e ainda uma ida a um rodízio de comida japonesa. Dificilmente usa transporte público. Nem quando é dia de seu rodízio e muito menos quando o veículo quebra. Tem no banco um limite de crédito bacana que o autoriza a ficar no vermelho todo mês para poder satisfazer a ânsia de consumo. Ou seja, tendo ou não dinheiro na conta, tem capacidade de adquirir ingressos para assistir ao time do coração nas novas Arenas. Ah, as Arenas...

Nelas, não se vê mais velhos rádios de pilha. Agora, Arenauta que é Arenauta possuí internet 3 ou 4G, celulares de última geração, posta foto nas redes sociais assim que chega à Arena e, durante o jogo, de qualquer flagrante que deixe as dezenas ou centenas de amigos do facebook, twitter ou instagram com inveja de babar. 

Geraldinos e Arquibaldos só perceberam agora, com a maior torcida do Brasil, a do Flamengo, que as tão sonhadas Arenas começaram a “cobrar” seu custo. Donos da maior torcida do mundo, fizeram o de sempre neste ano: lotaram o velho Maraca, ops, a nova Arena, levando na marra o time rubro-negro a mais uma final de campeonato, desta vez, a Copa do Brasil. E agora, na hora “agá”, os ingressos não são para os bolsos dos velhos geraldinos ou arquibaldos, mas somente para os Arenautas.

A nova Arena vai lotar, mesmo assim? Com certeza, pois os Arenautas, apesar de minorias nos antigos estádios, são os únicos que conseguem, agora, pagar os preços abusivos cobrados pelos dirigentes e administradores do jogo da bola.

E bem que um deputado estadual, Marcelo Freixo, do PSOL carioca, e o ex-jogador Bebeto, que virou político, tentaram, bem antes da nova Arena ficar pronta, em 2011, emplacar um projeto que garantiria “cota mínima de 30% dos ingressos a preços populares em estádios de futebol, arenas e outros equipamentos esportivos que em sua construção ou reforma tenham recebido benefício fiscal”.

Claro, o projeto ainda não foi votado. Mas para que, não é mesmo? Parodiando os versos de um dos maiores rubro-negros do país, Jorge Benjor, “os alquimistas estão chegando...Estão chegando os alquimistas”, agora, a rima melhor para as novas Arenas, do Maracanã ou qualquer uma do país, deve ser: “os Arenautas estão chegando...Estão chegando os Arenautas”.

Sobre André Ribeiro:
É criador e editor do Literatura na Arquibancada, autor dos livros “Diamante Negro – Biografia de Leônidas da Silva”, “Fio de Esperança – Biografia de Telê Santana”, “A magia da camisa 10”, “Uma ponte para o futuro – A história do sindicalismo esportivo brasileiro” e “Donos do Espetáculo – Histórias da Imprensa Esportiva Brasileira”.

5 comentários:

  1. Perfeito!!! Pagaremos esse preço da Copa por muito tempo ainda...

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  2. Salve, André.

    Antes de tudo, uma grande satisfação perceber o tempo e o carinho que você dedica ao futebol que se transforma em literatura.

    Me satisfaço muito ao perceber que há ainda gente empenhada na preservação desse tipo de material.

    Só agora, há poucos dias, tive o privilégio de conhecer o seu blog e, portanto, posso ter perdido muita coisa. Ainda assim, gostaria de indicar, se por algum acaso você ainda não leu, o romance de rara beleza O Drible, do ardiloso Sérgio Rodrigues. Falo porque não apenas estou lendo a obra como, ainda por cima, percebo que trato de economizá-la, temendo o fim. Enfim, podendo, leia. Por certo vai gostar.

    Aproveito para também vender meu peixe, visto que seu blog trata exatamente disso: acabo de começar, eu próprio, um blog também, assim como um Twitter.

    No primeiro, me dedico a crônicas e, se não for pedir muito, ficaria contente com a sua visita. Acesse lá, assim wue te sobrar um minutinho: www.velhocronista.wordpress.com

    E no Twitter, falo sobre as amenidades da bola. Podenda, siga lá: @velhocronista

    Um baita dum prazer falar contigo e perceber sua dedicação admirável às obras que tratam do Futebol.

    Um forte abraço, com desejos de sucesso,
    Velho Cronista

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    1. Muito obrigado pelas palavras, Velho Cronista. Acabei de ver o seu blog. Muito bom, mesmo. Já vai para a lista dos favoritos, aqui, no L.A. Qto ao romance O Drible, não só o li como fiz um post por aqui...E de quebra fui a livraria Cultura pegar o autógrafo do Sérgio qdo esteve por aqui, em SP. Disse a ele, ao vivo, o q vc relatou aqui para mim. Certamente, um romance que entrará para a história da literatura esportiva. abs

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  3. Eu sempre fui arquibalda. Não dava pra encarar a geral, ainda mais num jogo FlaxVasco.... rsrs
    André, gostaria muito de adquirir o "A história do sindicalismo esportivo brasileiro”, devidamente autografado, e bem autografado. rsrsrs
    Como faço?
    Se e quando puder, me diga aqui: bloguda bethmuniz@gmail.com ou pelo Face.
    Como foi o lançamento lá no Rio?
    Beijo.

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  4. Corrigindo o e-mail: blogdabethmuniz@gmail.com

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