sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Cordel da bola que rola



Ele já esteve por aqui, no Literatura na Arquibancada, quando lançou o seu “Alguém tem que ficar no gol”, livro que fala do amor pelo futebol, da importância do perdão e da superação, das relações familiares e das profecias como um alerta para que o homem aprenda a respeitar a natureza. Neste livro Jorge Fernando utilizou a derrota da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1950, nosso maior trauma no futebol, como pano de fundo para sua narrativa.

Agora, Jorge Fernando chega com mais um livro para engrossar sua extensa biblioteca de títulos já publicados. Cordel da bola que rola: a história e as lendas do futebol (Editora Paulus) se junta às mais de 40 obras publicadas pelo autor, que não se limita ao mundo dos livros, pois ele também faz teatro, música e de vez em quando ainda ataca como roteirista de televisão.

O novo título é classificado como literatura infantojuvenil, mas com certeza, vai encantar muitos marmanjos por conta da beleza e criatividade estética e narrativa da obra. Desta vez, Jorge Fernando contou com os traços maravilhosos do artista Cláudio Martins. Uma dupla que harmoniza palavras e traços como ninguém.

Sinopse (da editora):

O futebol vem de longe,
Da china antiga dos monges,
Com o nome de
cuju.
Quando as cabeças rolavam
Os inimigos chutavam
Sem nem lavar com xampu.

O trecho acima pertence a mais nova obra da PAULUS, Cordel da bola que rola: a história e as lendas do futebol, de Jorge Fernando dos Santos. Esporte universal, praticado em quase todo o mundo, o futebol é primeiro lugar em popularidade. E, de acordo com o autor, o tema é pertinente, pois deverá contribuir muito para o conhecimento, sobretudo no que diz respeito à história dos povos.

O autor conta que sua motivação veio da boa repercussão de suas outras obras, e também da proximidade da Copa 2014. “Também o amor do brasileiro pelo futebol me levou a isso. Afinal, quase todo mundo gosta do esporte ‘bretão’, mas desconhece sua história. Além do mais, o cordel sempre foi visto meio de lado pelos nossos literatos, mesmo sendo uma forma poética interessante, que pode servir de suporte pedagógico nas escolas”, diz Jorge Fernando.

A obra é indicada não só para leitores infantojuvenis, mas também para adultos. O tema é universal e abordado de forma leve e bem-humorada. O autor narra a historia do futebol através dos tempos, da China antiga até os dias de hoje. As ilustrações de Cláudio Martins completam a beleza do livro.

“Quero continuar escrevendo, visitando escolas e participando de feiras literárias. Quero viver de literatura. No momento, estou procurando editor para o romance adulto Condomínio Solidão, premiado com menção honrosa no Concurso Nacional de Literatura Cidade de Belo Horizonte, que é o mais antigo prêmio literário do país”, afirma o autor.

Literatura na Arquibancada conversou com o autor Jorge Fernando sobre seu novo livro. Recomendamos ainda a leitura de sua primeira entrevista por aqui
Literatura na Arquibancada:
Na página de agradecimento, você dedica o livro a Roberto Drummond e faz uma citação que merece explicação: “que viu atleticanos torcerem contra o vento.”

Jorge Fernando:
O escritor e cronista esportivo Roberto Drummond era um atleticano fanático. Dentre outras coisas sobre o nosso time do coração, ele escreveu: "Se houver uma camisa preta e branca pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento". Por isso a citação em forma de epígrafe.

L.A:
Em um livro como este, bastante ilustrado, qual sua interferência e como se dá o processo de criação do ilustrador?

J.F:
A minha interferência nas ilustrações é quase nula. O ilustrador é livre para interpretar e traduzir o texto por meio do seu traço. Muitas vezes o autor nem conhece o ilustrador. No presente caso, tive a sorte de cair nas mãos do Cláudio Martins, que além de ser meu amigo já ilustrou outros cinco livros de minha autoria. Mesmo assim, vi as ilustrações depois de prontas e não foi necessário sugerir nada. Afinal, o Cláudio é um craque e só faz gol de letra.

L.A:
No verso sobre a seleção tricampeã de 1970, você cita: “time cheio de artimanha, batizado com água benta”. O que quis dizer exatamente?

J.F:
Foi só uma rima a mais. Contudo, acredito que naquele tempo a pressão oficial era tanta para ganharmos a Copa do México que até o bispo deve ter abençoado as "feras do Saldanha", sob o comando do mestre Zagallo.

L.A:
Por que o cordel é tão pouco utilizado na literatura? Você afirma na divulgação da obra que “o cordel poderia servir de suporte pedagógico nas escolas”. Como?

J.F:
O cordel é um gênero poético oriundo das camadas populares. É fruto da cultura oral nordestina e muitas vezes o poeta nem tem formação escolar. As origens desse tipo de literatura se perdem no tempo e têm a ver com a cultura árabe durante a ocupação da Península Ibérica. Num país elitista como o nosso, parece natural que intelectuais e acadêmicos virassem a cara para aqueles autores não letrados e de origem humilde. Contudo, trata-se de um gênero literário muito rico e de fácil assimilação. Por isso venho fazendo alguns experimentos, que resultaram nos livros "Cordel das Lendas Bovinas", publicado pela editora Paulinas, "Ave Viola - Cordel da viola caipira" e agora nesse "Cordel da Bola que Rola - A história e as lendas do futebol", ambos publicados pela Paulus Editora. Felizmente, a repercussão tem sido muito boa, com exposição em feiras internacionais e adoção em várias escolas do país.

L.A:
Em um verso, você aborda o problema da violência das torcidas nos estádios. Mas você cita especificamente a mídia: “a mídia faz sua média, transforma em drama a comédia, destacando a violência. Torcidas organizadas, trocam tiros e pauladas, sem medir a consequência.” Para você, a mídia então colabora para essa explosão de violência nos estádios?

J.F:
Toda vez que a mídia dá à violência um caráter espetacular, ela acaba estimulando os infratores. As brigas de torcidas deveriam ser tratadas com o rigor da lei e sem muita badalação nos jornais. É uma coisa execrável, que atrapalha o futebol naquilo que ele tem de mais belo, que é justamente o convívio entre pessoas das mais diversas origens. A mídia não é culpada, mas deveria inverter sua maneira de noticiar a violência. Deveria fazer uma forte campanha contra os vândalos que usam do esporte para se promover a qualquer custo.

L.A:
Em um dos versos, você cita a “magia” que as antigas “peladas de rua” (pg 28) provoca na garotada brasileira: “Uma pelada de rua, inda que em noite sem lua, sempre terá seu lugar”. Nas grandes cidades, esse espaço físico praticamente não existe mais. Onde os jovens de hoje podem encontrar essa magia?

J.F:
Talvez fosse o caso dos clubes e das prefeituras criarem condições para que o futebol de rua pudesse voltar a ser uma realidade no país. Se fecham as ruas das grandes cidades para outras formas de lazer e entretenimento, por que não para a prática do futebol entre crianças e jovens? Nossa infância hoje é muito sacrificada. A garotada vive enjaulada, presa diante da TV ou do computador. Infância, pra mim, é sinônimo de movimento, de prática esportiva e de outras brincadeiras. Por isso uma pelada de rua ainda tem sua magia. Além do mais, antes da especulação imobiliária, o futebol era bem mais democrático e gerava craques mais espontâneos.

L.A:
De que forma você acredita que seu livro pode ajudar os jovens leitores a aprenderem a história do futebol no mundo?

J.F:
Quase todo mundo tem alguma ligação com o futebol, mas pouca gente conhece sua história. Espero que esse meu novo cordel possibilite à garotada descobrir as origens desse que é o esporte mais popular do mundo. Curiosamente, ele surgiu na guerra, quando chineses chutavam cabeças de inimigos mortos nos campos de batalha. Felizmente a bola de couro tomou o lugar das cabeças e o que era um ritual bélico se tornou um esporte popular e um instrumento de aproximação pacífica entre diferentes povos. Por outro lado, ao abordar a história do futebol, os professores poderão ensinar história e geografia de maneira lúdica e divertida. 

Sobre os autores:
Jorge Fernando dos Santos nasceu e sempre morou em Belo Horizonte. Escritor, compositor e jornalista, tem mais de 40 livros publicados, entre eles Palmeira Seca (Prêmio Guimarães Rosa de romance e dissertação de mestrado na Itália) e O Rei da Rua, ambos adaptados para minisséries de TV. Publicou pela Paulus Editora os títulos No Clarão das Águas, A Medalha Cigana, Alice no País da Natureza, Ave Viola – Cordel da Viola Caipira, As Cores no Mundo de Lúcia e ABC da MPB, livro-disco ganhador do selo “altamente recomendável” da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Teve 10 peças teatrais encenadas e mais de 60 músicas gravadas, a maioria em parceria com outros compositores. Escreveu um Você Decide para a Rede Globo e foi pesquisador e redator do programa Nos Braços da Viola, pela TV Brasil.

Cláudio Martins estudou Desenho Industrial e durante muitos anos trabalhou em projetos de Tecnologia, Meio Ambiente, Cultura, além de rodar por jornais e revistas. Mas o mundo dos adultos é muito sem imaginação, sem fantasia, criatividade. Um dia resolveu cair de sola, de cara e coração na Literatura Infantil. Desenhou uma porção de histórias, uma montoeira de personagens, tudo o mais alegre e divertido que pôde. Ser criança é muito mais que um estado de espírito, é um estado de inteligência.

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