terça-feira, 19 de novembro de 2013

Barbosa: glórias e castigos



Muito mais do que um jogador de futebol, Barbosa entrou para a história como um personagem fatídico no mundo da bola. Um goleiraço, até tomar o gol que decretaria o fracasso da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1950, disputada aqui em nossas terras.

A prova de que Barbosa é muito mais do que um simples jogador são os livros e filmes já produzidos sobre sua vida, sobre os minutos fatais naquela tarde de Maracanã abarrotado de gente.

E para os que achavam que não caberiam mais reflexões sobre ele, eis que surge Bruno Freitas, autor de mais um livro sobre Barbosa, sobre o martírio vivido pelo homem, especialmente, após a derrota. Vida de um homem “condenado” injustamente por muitos brasileiros.

“Quebrando as traves de 50 – glórias e castigo de Barbosa, maior goleiro da era romântica do futebol brasileiro”, da editora iVentura, é leitura obrigatória para que nunca mais, outros jogadores vivam o mesmo martírio de Barbosa.

Prefácio
Por Sérgio Cabral

Quase todo vascaíno da minha geração guarda na memória um Barbosa que ultrapassava a condição de goleiro do Vasco. Era amigo pessoal de cada um de nós, a quem cabia combater a decepção e proporcionar emoções inesquecíveis. Um legítimo amigo de infância.

Foi por causa dele que, apesar da secura pelo drible nas peladas de rua, optava por ir para o gol, apenas para, depois de uma defesa, gritar, como os narradores de rádio: “Defendeu Barbosa!”

Toda vez que Barbosa é tema de uma conversa informal ou de um texto, a lembrança é sempre daquela tarde de 1949, no estádio da Rua Conselheiro Galvão, em que uma briga na arquibancada provocou uma fuga generalizada e eu, com 11, 12 anos de idade, invadi o
campo, sendo perseguido pelos guardas municipais. Ao passar pelo gol do Vasco, Barbosa salvou-me:

- Deixa o garoto aqui, atrás do gol.
Nada como a palavra de um ídolo.
- O senhor se responsabiliza?- perguntou o guarda.
- Pode deixar o garoto atrás do gol – repetiu Barbosa.

O que veio depois era, realmente, para nunca mais se esquecido por um menino apaixonado pelo Vasco. Toda vez que Barbosa cobrava o tiro de meta, ele recuava para chutar (seu chute era impressionante. Caía na área adversária) ele passava a mão na minha cabeça.

Foi a glória. Terminado o jogo, encontrei-me com os amigos que havia deixado na arquibancada e caminhamos para Cavalcante, onde morávamos. O que criei de histórias foi uma grandeza. O mínimo que inventei foi que Barbosa fez questão que eu fosse treinar no Vasco, porque ele garantia que eu seria titular da equipe infantil. Quem iria desmentir-me? Afinal, meus amigos eram testemunhas de que permaneci o primeiro tempo todo do jogo atrás do gol de Barbosa e ele passava a mão na minha cabeça.

O tempo passou, a profissão de jornalista possibilitou-me conversar várias vezes com Barbosa e, agora, graças a José Carlos Gannam, mergulho na biografia do goleiro genial e meu ídolo. É uma obra que fazia falta, porque não havia tecnologia, no tempo de Barbosa, para que as futuras gerações conhecessem as suas façanhas. Infelizmente, o que ficou foi o registro da sua falha na partida decisiva do Brasil contra o Uruguai, na Copa de 1959. Mas coloco os meus quase 80 anos de vida como aval para a seguinte afirmação: Barbosa foi o maior goleiro brasileiro de todos os tempos.

Apresentação
Por Valdomiro Neto (editor do diário Lance!)

Barbosa foi um dos maiores goleiros da história do futebol brasileiro. Grandes atuações e títulos pelo Vasco confirmam isso, pelos olhos de quem viu, as testemunhas, e nos números da carreira – estes insofismáveis. Mas da máquina de moer da história ficou o triste fragmento,
o mais pulsante na memória coletiva. Ah, a memória coletiva, afetiva e inclemente! Um lance fatídico foi o suficiente para empanar uma brilhante carreira e condenar um talentoso jogador a pena vitalícia, superior à máxima prevista no Código Penal brasileiro, como ele mesmo dizia, amargurado pelo peso da crítica. Que tal então ir além do chute do uruguaio Gigghia, que definiu a Copa do Mundo de 50, emudeceu o Maracanã e determinou o destino do goleiro? Que tal conhecer um pouco mais do exímio guarda-metas que encantou torcedores em meados do século passado?

É a isso que esta biografia se propõe também. Não só repassar o drama do título perdido que era dado por ganho na eufórica reação de cartolas e torcedores brasileiros, mas mostrar que a trajetória do atleta extrapolou a fotografia de um chute. Assim pode-se contribuir para a reparação da injustiça da lembrança exageradamente seletiva. Mostrar o real Moacyr Barbosa, um dos gigantes da meta, feito de bons e maus momentos, e seu sofrimento diante de acusações desproporcionais por um lance.

A história bem contada levanta a capa do vilão e expõe sua faceta heroica. Um goleiro que defendeu quatro pênaltis em um único jogo! Um homem que inovou na posição mais solitária do jogo de bola ao praticar defesas com uma só mão e chutar tiros de meta com enorme potência quando isso era incumbência de zagueiros! Os seis títulos cariocas e o troféu do Campeonato Sul-Americano pelo Vasco! O outro polpudo lado da moeda, o goleiro do mítico Expresso da Vitória, grande time dos anos 40. Tudo relatado nestas páginas pelo jornalista Bruno Freitas, que dedicou longo tempo a leituras e entrevistas para mostrar Barbosa na integralidade, não somente fruto de um dia 16 de julho no Rio de Janeiro.

Barbosa por inteiro, não apenas pela metade dolorida. Goleiro tão admirado que partilhou de amizade com seus algozes uruguaios. Este livro conta todas essas histórias. Claro, como não poderia deixar de ser, há um capítulo dedicado ao Maracanazzo e suas nefastas consequências. Belos episódios de comoção e lamento. A sequência da carreira pós-vilanização. A barração na concentração da seleção brasileira de 94, sua última entrevista, o fim da vida em dificuldades, contando com a solidariedade de amigos, no litoral de São Paulo.

A absolvição de Barbosa deveria naturalmente ser decretada pelos fatos. No mundo ideal, não seria preciso convencer-se de sua inocência. A grandiosidade com que exerceu a profissão, os triunfos, seriam a doce sentença. Assim, que se conte a história completa, como procura fazer este livro, para termos a justiça que Barbosa não teve em vida.

Um lance e muitas discussões
Por Bruno Freitas

Nunca um lance de futebol suscitou tanta discussão e polêmica quanto à arrancada de Alcides Ghiggia pela direita em direção à meta de Moacyr Barbosa, no gol que selou a vitória do Uruguai sobre o Brasil no jogo decisivo da Copa do Mundo de 1950.

Um único lance criou uma diversidade espantosa de interpretações, algumas até contraditórias. Numa época de futebol sem televisão, cada uma das principais testemunhas da histórica jogada do Maracanã relata o incidente de uma determinada maneira, com algum detalhe bem pessoal.

O embate Barbosa x Ghiggia criou teorias e certamente transcendeu sua condição de fato esportivo para se converter num momento histórico na vida das duas nações envolvidas. Contribui para o folclore do lance o fato de existir apenas um registro em vídeo da ação, em 16 milímetros, filmado por um sujeito desconhecido atrás do gol brasileiro defendido por Barbosa, em um ângulo que não era dos mais favoráveis.

As imagens do jogo de 16 de julho de 1950 filmadas pelo consórcio Cinédia-Milton Rodrigues, que havia ganhado a concorrência da Confederação Brasileira de Desportos, foram dadas como desaparecidas. Por isso, a única impressão da famosa jogada é mesmo esta registrada de trás do gol. Por ironia, outras partidas daquela Copa contam com fartura de material do gênero.

Em termos de fotos, são apenas sete os registros do momento mais importante do primeiro Mundial brasileiro, sendo cinco feitos atrás do gol e dois produzidos do alto, das cabines de rádio. Às 14 horas e 55 minutos daquela tarde carioca de domingo, o ponta uruguaio corre 40 metros sem ser molestado, deixando o marcador Bigode passos para trás. Ghiggia parece sem ângulo para tentar o arremate direto no gol, mas chega na bola uma fração de segundo antes da cobertura do brasileiro Juvenal e desafia o improvável com um chute sem tanta força.

Antes do chute, Barbosa havia dado dois passos em direção ao centro da pequena área, à espera da repetição da jogada do primeiro gol uruguaio no jogo, quando o desfecho teve um cruzamento de Ghiggia para outro atacante. Mas o goleiro acaba surpreendido: a bola passa no vão certo entre suas mãos e a trave esquerda. Caído no chão, de bruços, o goleiro da seleção tem a sensação de que desviou a bola e, por um instante, acredita que ela pode ter saído pela linha de fundo. Mas Barbosa percebe o silêncio fúnebre daquele Maracanã superlotado e tem a confirmação do gol com a visão dos uruguaios se abraçando na sua frente.

O único vídeo existente do fatídico lance captura o goleiro se erguendo, com joelho esquerdo na grama, cotovelo apoiado no direito, até a posição de pé outra vez, em movimento bastante lento. Este seria o começo de uma das histórias mais sofridas de um brasileiro em ação pelo país. Pelos 50 anos seguintes, Barbosa haveria de se explicar sem trégua sobre a jogada em que o Brasil perdeu a Copa.

O público estimado de 200 mil pessoas é, até hoje, o maior da história do futebol internacional. Cerca de 10% da população do Rio de Janeiro na época (2.303.063) estava espremida para ver a épica derrota brasileira. Sem contar com os 280 uruguaios, vindos de Montevidéu no navio Conte Grande, que também virariam testemunhas do Maracanazo, apelido que os vencedores da Copa deram à façanha.

Num mundo ainda sem a difusão da televisão, as histórias que construíram a epopeia da Copa de 50 em alguns pontos se confundem com lendas. São inúmeras as versões contraditórias, nas descrições de detalhes ou em episódios secundários. Existem cenas que somente alguns no meio da multidão viram, como, por exemplo, a bandeira do Brasil de cabeça para baixo no dia da final, presente apenas no relato de Barbosa.

Os zagueiros Bigode e Juvenal também experimentaram a cobrança de anos após a Copa, com o rótulo de fracassados no duelo com o Uruguai. Mas nada que se compare ao modelo de vida imposto a Barbosa a partir dali. Foram inúmeras as situações de constrangimento para o goleiro nas ruas, mesmo na terceira idade. Até declarar perante ao governo que não era comunista o ídolo da seleção precisou fazer após o Mundial.

Moacyr Barbosa chegou a afirmar que os títulos do Brasil em Copas depois de 50 chegaram, de certa forma, a aliviar a sua dor. Mas os relatos contidos nos capítulos a seguir demonstram que o país deixou o antigo goleiro morrer com uma dívida pendente. A nação sedenta por heróis e violões ignorou um pedido do ex-jogador, que tornou conhecido um bordão para falar sobre o seu Maracanazo particular.

Diversas vezes solicitado para falar sobre 1950, Barbosa afirmava a partir dos anos 80 que já havia cumprido a pena máxima do país, de 30 anos, prevista no Código Penal. Assim pedia para ficar em paz.

Numa perspectiva geral, a derrota na decisão da Copa em casa, diante de 200 mil brasileiros, esquentou um caldeirão de complexos. A intelectualidade da época se esbaldou em debates teóricos sobre a suposta “deficiência da raça brasileira”.

Na esfera esportiva, por sua vez, veio à tona pós-50 o preconceito contra o “goleiro negro”, que demorou décadas para ser desconstruído pela obviedade, diante de uma tese tão absurda.
Quem conhece a história da Copa de 50 sabe que o Brasil entrou em campo contra o Uruguai já como campeão do mundo. Pelo menos era isso que estampavam alguns jornais do dia e muitos adereços vendidos por ambulantes. Era este também o clima irradiado da concentração da seleção anfitriã nos dias de véspera, de pura festa antecipada.

Mas a frustração, ironicamente viria dos pés de vizinhos de continente, de uma nação minúscula, que antes da independência, em 1828, foi durante cinco anos uma mera possessão do império brasileiro, a Província Cisplatina. Mais um metáfora para atestar, para muitos ali, o fracasso do povo anfitrião da Copa.

O antropólogo Roberto DaMatta escreveu certa vez que a derrota na Copa de 50 “é talvez a maior tragédia da história contemporânea do Brasil”, em decepção que atingiu em cheio um país sem glórias, saído de uma ditadura e no marasmo do governo Eurico Gaspar Dutra. Antes, portanto, do impacto da volta de Getúlio Vargas ao poder e da euforia desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek.

De entrevistados na pesquisa deste livro, este autor que aqui escreve escutou outras comparações igualmente solenes. Brasileiros do jornalismo e das artes, que se debruçaram sobre o Maracanazo, traçaram paralelos da derrota esportiva com o naufrágio do Titanic e com as tragédias das mortes dos presidentes Getúlio Vargas e Tancredo Neves.

O fracasso esportivo da Copa em nosso quintal também inspirou uma das cabeças mais criativas do último século. Conhecido frasista de mão cheia, o jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues dedicou muitas crônicas à missão de tentar entender a derrota para o Uruguai em uma Copa que parecia ganha. Tudo com o conhecido exagero trágico rodriguiano:

“Quase houve um suicídio nacional quando não fomos campeões do mundo. Éramos, todos nós, brasileiros, uma nação que quase toma formicida.”

“Foi uma tragédia pior do que a de Canudos. Só os cretinos fundamentais estavam radiantes.”

Para o autor, após o mergulho de cabeça em 1950, ficou a impressão de que todo o time nacional experimentou uma espécie de branco na final, diante da expectativa de toda uma nação de tirar o país da mediocridade, fazer dele o melhor do mundo em pelo menos alguma coisa. Com festa antecipada, tudo de mais condenável no extracampo foi imposto àquela equipe nas 48 horas antes da decisão.

Assim, a seleção que marcara impressionantes 13 gols nos dois jogos anteriores, em dias de realidade fantástica no Maracanã, parecia com os pés amarrados contra os uruguaios, adversários tantas vezes superados em embates sul-americanos nos anos 40.

Apesar de percorrer a vida de Barbosa desde a infância em Campinas até a sua morte na Praia Grande, perto dos 80 anos, é difícil denominar este trabalho como uma biografia convencional. No fim das contas, o que vem a seguir é uma saga muito mais futebolística, turbinada com o que foi possível levantar a respeito da vida pessoal do jogador.

A pesquisa para esta obra levantou uma infinidade de informações das mais diversas naturezas, com datas e depoimentos. Mesmo assim procurou privilegiar o caráter emocional das histórias aqui selecionadas. As impressões e sensações de quem viu acontecer.

E foi justamente o caráter emocional que motivou essa jornada pela história do futebol. É fácil entender que a Copa de 50 fascine (ou atormente) a geração que a viveu, mas como explicar que o tema exerça efeito semelhante em um autor nascido em 1978? Não tenho uma linha de raciocínio precisa para oferecer, só sei que desde que me entendo por gente sou fascinado pela história das Copas, dentro de campo e com o que estava ao redor dele.

Ao tomar conhecimento do Mundial perdido em casa, cujo jogo final conseguiu abrigar no estádio 200 mil pessoas, o tema passou a me acompanhar de certa forma. Fui consumindo tudo a respeito que cruzava o meu caminho, sem saber que um dia decidiria escrever um livro a respeito. Na infância, na companhia de familiares do Rio, conheci o gigantismo do Maracanã em jogos do Vasco de Roberto Dinamite. Subia as rampas mágicas do maior do mundo tentando imaginar estar naquele Brasil x Uruguai.

Ainda quando criança, era fã de uma série de televisão chamada “Viajantes do tempo” (Voyagers), em que um homem e um garoto usavam um aparato para voltar na história e corrigir eventuais desvios de acontecimentos. A atração foi exibida pelo SBT durante os anos 80. Um dia, pensando para onde gostaria de ir se tivesse a oportunidade de usar a tal máquina de “Viajantes do tempo”, cheguei à conclusão de que gostaria de estar na arquibancada do Maracanã em 16 de julho de 1950. Não para tentar corrigir a história, mas exclusivamente para testemunhá-la, para tentar entender como aquele script de tragédia grega saiu do papel.

Mal sabia que um jornalista já havia tido uma ideia semelhante, que tinha inclusive escrito um conto a respeito. Paulo Perdigão era um menino nas arquibancadas do Maracanã na final da Copa e, mesmo sem gostar de futebol, virou um obcecado pelo tema. Foi, sem dúvida, o maior especialista sobre Brasil x Uruguai, dono de um repertório de pesquisa de uma minúcia espantosa, contido no antológico livro “Anatomia de uma derrota”. O conto fictício de Perdigão virou o curta-metragem “Barbosa”, em que o protagonista vivido por Antônio Fagundes volta ao tempo em vão para tentar evitar o gol de Ghiggia.

Gosto de entender este livro como uma homenagem aos cineastas ou colegas jornalistas que um dia destinaram seu afã de curiosidade e investigação para o Maracanazo. Ao longo de sua jornada, o autor conversou com Geneton Moraes Neto e Teixeira Heizer, que escreveram obras primorosas sobre 50, ouvindo quase todos os personagens brasileiros envolvidos.

Destes nomes, não pude estar com Perdigão, morto em 2006. Mas tive o privilégio de conhecer a sua história e de falar com o diretor de cinema Jorge Furtado, que levou o conto da volta ao tempo para as telas.

Este autor ainda deve uma menção especial ao gentil Roberto Muylaert, cujas longas sessões gravadas com Barbosa no fim da vida do goleiro viraram um precioso documento histórico. Muylaert é o responsável pela revelação de uma das histórias mais impressionantes sobre o martírio de Barbosa, com o episódio da queima das traves do Maracanã em um churrasco na periferia do Rio de Janeiro, relatado pelo próprio goleiro. Em andanças pelo Rio, o autor deste livro ouviu contestações sobre a veracidade deste episódio, que por sua vez está devidamente registrado em fitas de gravação de Muylaert. Foi esta história específica que inspirou o nome deste livro. Por esta licença de criatividade, manifesto meus agradecimentos sem fim a Roberto Muylaert.

Dos grandes brasileiros da seleção de 1950, por que não chamá-los assim, tive a oportunidade de conversar com apenas um deles. Nada menos do que o craque do time, o meia Zizinho. Conversei com Zizinho por telefone em 18 de maio de 2000. Na época era um novato de redações e acompanhava o cotidiano do São Paulo Futebol Clube para o Diário Lance!. Procurei o craque do passado para falar sobre o título tricolor no Estadual de 1957, em uma matéria de memória.

Barbosa e Zizinho
 Naquele dia havia morrido o antigo zagueiro Domingos da Guia, ex-Flamengo e Corinthians, titular da seleção na Copa de 1938. Não estava com essa pauta, mas, sem motivo algum, decidi tirar de Zizinho alguma palavra sobre o jogador que acabara de nos deixar. O meia da seleção de 50 não sabia da notícia e ficou completamente consternado. Se disse muito amigo do defensor: “foi meu mestre”.

Me senti culpado depois de desligar e aqui deixo minhas desculpas atrasadas a Ziza, que também não está mais entre nós. Gastei dois meses de férias para a execução deste livro, em 2012 e 2013, já que a vida normal infelizmente me deixa tão pouco tempo para trabalhar em um projeto desta natureza. Por incrível que possa soar, sem arrependimento algum de abdicar
do descanso. Escrevi as últimas linhas deste livro em 27 de março, curiosamente a data de aniversário de Barbosa.

Passei pela Praia Grande, morada de Barbosa no fim de vida, e naturalmente estive em algumas oportunidades no Rio de Janeiro. Afinal de contas, tudo o de mais relevante que vem nas páginas a seguir aconteceu por lá. Teoricamente, não precisava passar pelo Uruguai. O cronograma esboçado de pesquisa poderia transcorrer até o fim com apurações locais. Mas, intimamente, sentia a necessidade de ouvir o lado de lá, conhecer a visão deles sobre tudo o que aconteceu em 1950.

Valeu a pena. Achei livros e registros de imprensa valiosos, com informações adicionais àquelas disponíveis no Brasil. Conversei com colegas jornalistas, alguns deles com vasta dedicação ao tema. Também aprendi que falamos de maneira errada o nome dos maiores algozes daquela seleção uruguaia campeã do mundo. Ghiggia é pronunciado como “guigia”, enquanto que Schiaffino sai da boca dos uruguaios como “chiafino”. Por fim, também dizemos errado o nome do grande capitão Obdulio Varela. Em Montevidéu escutei a versão deles, “o-dúlio”, com a letra B praticamente imperceptível.

Mas o grande alvo do deslocamento até o Uruguai era a tentativa de encontro com Alcides Edgardo Ghiggia, então o único jogador vivo entre aqueles que pisaram no Maracanã como titulares de Uruguai e Brasil na final da Copa. Consegui alguns minutos com a lenda de 50, por sorte algumas semanas antes de um grave acidente automobilístico que envolveu o carro do ex-jogador (ele se recuperaria após algum tempo na UTI).

Fui alertado por colegas jornalistas uruguaios de que Ghiggia cobraria para falar comigo, mas não acreditei inteiramente. No entanto, ao telefonar para o ex-atacante, escutei o pedido de um “cachê” de US$ 200. Argumentei quase choroso que se tratava de um trabalho independente, sem o financiamento de uma grande empresa. Sentiria que a missão por Montevidéu fracassaria se não conseguisse a conversa. Por isso, finalmente fechamos a entrevista em 150 euros, que era a moeda internacional que eu carregava.

Menos mal que Ghiggia me poupou a viagem até Las Piedras, cidade onde residia na época. Mesmo com 85 anos, o ex-jogador se dispôs a dirigir até Montevidéu, me encontrando numa manhã no saguão do Hotel Lafayette, no centro da capital uruguaia.

Pouco antes me dei conta de que tinha apenas 140 euros, além de um montante em reais. Após a entrevista tentei entregar o valor a Ghiggia, que percebeu a diferença e se exaltou. No fim o ídolo uruguaio se controlou, aceitou o pagamento com 10 euros a menos e alegou que não precisava do dinheiro. Constrangido, disse que estava apenas guardando para ajudar os netos.

Foram mais de 15 livros devorados sobre 1950, tratando diretamente ou indiretamente do tema. Sem contar os documentários, material de arquivo de imprensa de Brasil e Uruguai e diversas entrevistas com gente que viveu a Copa ou que conheceu Barbosa em algum instante de sua vida. No fim da jornada, naturalmente algum material precisou ser descartado. Não por não merecerem menção, mas possivelmente por não serem tão pertinentes para o relato da história sob a perspectiva de Barbosa.

Mas aparecerão aqui coisas como o soco que o jornalista João Máximo levou no Maracanã por criticar Barbosa, a homenagem ao goleiro vinda de um ator da Escolinha do Professor Raimundo, a insólita amizade com os algozes uruguaios e a repetição do lance maldito apenas um ano depois do duelo com Ghiggia.

Além de 50, espera-se que esta obra apresente a novas gerações um Barbosa vencedor, com uma coleção quase infindável de títulos pelo maior Vasco da história, o chamado Expresso da Vitória. Sem contar o vice-campeonato mundial, que também é um feito a ser valorizado, mesmo que o país não tenha essa cultura.

Barbosa também foi considerado por sua geração como um goleiro revolucionário, que inovou conceitos de atuação da posição, do tiro de meta à saída pelo alto. Um jogador corajoso, como atesta sua farta lista de fraturas. Ele ainda enfrentou o menino-fenômeno Pelé e esteve em campo até os 42 anos.

Para encerrar, fica o desejo do autor de que esta obra seja uma singela colaboração para que histórias infelizes como esta, de massacre público de um atleta, não pairem sobre mais ninguém no Brasil, principalmente se a origem dela for esportiva. No imaginário popular do país, a “não defesa” de Barbosa ficaria maior que qualquer outra cena de decepção em Copas. Maior que a bola cruzada de Cerezo em 82, que o pênalti perdido de Zico em 86, que a convulsão de Ronaldo em 98 ou que a ajeitada de meia de Roberto Carlos em 2006.

Este livro é sobre um erro, mas não aquele que supostamente Barbosa cometeu ao deixar passar o chute de Ghiggia, e sim o de um país imaturo, então despreparado para lidar com uma decepção como nação, voltando todo o rancor na direção de uma única alma. Torcemos para que essa história não se repita.


Sobre o autor:
Bruno Freitas é paulistano, nascido em 1978. Atualmente atua como repórter especial de Esporte do portal UOL, redação onde trabalha desde 2004. Tem uma Copa do Mundo e duas Olimpíadas no currículo, além de coberturas internacionais em 17 países. Acumula passagens por Lance!, iG e Agência Placar. Este é seu primeiro livro. 

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