quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Obrigado, Nilton Santos

Obrigado, Nilton Santos
Por André Ribeiro

Entre tantos “defeitos” que os seres humanos possuem um dos maiores é a falta de gratidão.
O agradecimento, aqui, sugerido pelo título deste artigo, não é para o que Nilton Santos fez dentro dos gramados, ensinando a jogar, criando novas formas de atuar naquele longo corredor esquerdo de um campo de futebol. Isso muita gente está fazendo agora.

Serei eternamente grato à Enciclopédia da bola por um ato muito simples, generosidade pura.
Se hoje consegui criar uma pequena história dentro da literatura esportiva, tudo começou por causa dele, Nilton Santos. E pelo atrevimento de um grande amigo.

Quando decidi produzir e escrever a biografia de Leônidas da Silva, o Diamante Negro, não fazia a menor ideia do que seria o mercado editorial. Estávamos no final do ano de 1996. Amigos diziam: “mas você está fazendo errado, tem que ter um projeto”. E cobravam: “Já tem uma editora?”.

A resposta à primeira pergunta deixou muita gente com a impressão de que seria eu um arrogante: “Primeiro vou fazer. Tenho certeza que arrumar uma editora será o problema menor”. Sabia que tinha uma grande história nas mãos, mas não fazia a menor ideia das dificuldades que as pessoas enfrentavam (e continuam a enfrentar) para conseguirem ser publicadas.  

Para a segunda resposta, sobre ter uma editora interessada, era mais simples: “Não. Não tenho”.

Primeira edição da biografia
Após um ano e meio de trabalho, sacrifícios pessoais, familiares e profissionais, tinha em mãos os originais da biografia do Diamante Negro. E agora? O que fazer?

Neste período de vida, trabalhava como produtor executivo na TV Cultura de São Paulo. Desta equipe fazia parte um grande amigo, já falecido, José Henrique da Cruz. “Mutum” era o seu apelido, nome da sua terra natal. Uma figura inesquecível, produtor do programa Cartão Verde, dos tempos de Armando Nogueira, Juca Kfouri e companhia.

Mutum soube que minha empreitada e sonho de ter um livro publicado chegara ao fim. Mal sabia que só estava começando. Sua pergunta foi direta: “Já arrumou editora?”. A resposta foi seca e ao mesmo tempo preocupante: “Não”.

Atento a tudo que acontecia no mundo da bola, Mutum fez, primeiro um pedido, e, logo a seguir, uma sugestão: “Imprima tudo e encaderna. Nós vamos ao lançamento do livro do Nilton Santos”.

Não entendi absolutamente nada. Mas com Mutum, sempre fora assim, sua genialidade e sacadas sobre tudo era incrível. O evento que ele descobrira era o lançamento do livro de Nilton Santos, a autobiografia “Minha bola, minha vida”, em São Paulo, em uma livraria na Zona Sul da capital. Sem entrar em detalhes, comecei a perceber sua intenção, e tratei de fazer o que pediu. Impresso o original com espirais bonitonas, fomos ao tal evento de lançamento.

No caminho, pensando comigo mesmo, comecei a me dar conta do absurdo que ele estava propondo. Era uma festa, cheia de convidados ilustres do futebol mundial, assédio de fãs, jornalistas...Seria impossível conversar com quem quer que fosse sobre a existência de um livro prontinho para ser impresso sobre o Diamante Negro.

Eis que ao chegar a livraria, a enorme surpresa. Nilton Santos, acompanhado de sua esposa Célia, conversava com alguns de seus antigos companheiros de conquistas mundiais, três ou quatro campeões, ou melhor, bicampeões mundiais de 1958 e 1962.

Bellini, zagueiro que ergueu a taça do primeiro título mundial era um deles. Esses amigos estarem ali, prestigiando Nilton Santos, era pra lá de natural. O que parecia absurdo estar acontecendo era a absoluta falta de público e até mesmo da imprensa. Ninguém, quase ninguém para ver ali, numa livraria, alguns dos maiores nomes da história do futebol mundial.

Nilton Santos, como sempre, estava feliz da vida. Conversar e lembrar de boas histórias era com ele mesmo. Não parecia nem um pouco incomodado com a falta de público. Não queria vender livros. Queria contar suas histórias eternizadas em papel.

Ainda mais depois do estrondoso sucesso do lançamento de seu livro, no Rio de Janeiro. Dois dias de noite de autógrafos para atender os apaixonados botafoguenses. Duas mil pessoas, por baixo !!!

Mas aqui, em São Paulo, por alguma falha na divulgação, o evento era quase um fracasso.

Para mim, não, porque, com pouca gente a rodeá-lo, Mutum poderia colocar em prática sua ideia. E foi direto ao ponto. Direto e reto, como costumava fazer com os convidados que estava acostumado a levar ao Cartão Verde. Com aquela “maçaroca” de papéis na mão, foi direto ao assunto: “Nilton, você conheceu o Diamante Negro, Leônidas da Silva?”. Nilton disse que sim, mas não eram amigos. E Mutum prosseguiu: “Então, isso aqui na minha mão é a biografia dele, escrita por esse camarada aqui ao meu lado, o André Ribeiro”. Sem jeito, envergonhado, foi assim que cumprimentei o campeão mundial pela primeira vez.

Mutum emendou: “Então, preciso que você o apresente para a editora que fez o teu livro”. Direto, assim. Mutum era figura de aparência engraçada. Usava óculos chamados de “fundo de garrafa”, pois tinha uns 15 graus de miopia. Na redação, divertiam-se maldosamente alguns com o seu jeito de ler os jornais, quase colados aos olhos. Olhando firme para o campeão mundial, ele ouviu a resposta simples, como sempre, de Nilton Santos: “Olha aqui, Mutum. Eu não entendo nada dessa história de livro. Quem entende disso é minha esposa, a Célia”. De imediato, Nilton chamou a esposa que estava em uma roda próxima de amigos: “Célia, vem aqui. Esse aqui é o Mutum e esse aqui é o André Ribeiro. Eles dizem ter um grande livro em mãos. A biografia do Diamante Negro. Querem a nossa ajuda para publicar.”

Naquele mesmo instante, Célia folheou os originais, leu rapidamente alguns trechos e fez algo que jamais esquecerei: pegou o telefone celular e ligou para o editor e um dos donos da editora Gryphus, Guilherme Zingoni.

Nilton e Célia, eterna gratidão.
Resumindo, em uma semana eu estava no Rio de Janeiro, sentado a frente de Guilherme, com os originais em mãos, e pronto para assinar meu primeiro contrato de edição.

Um ano depois, a biografia do Diamante Negro e a de Nilton Santos eram os livros de maior repercussão na mídia. A editora promoveu nossa participação na Bienal Internacional, no Rio de Janeiro. Os dois, juntos, lado a lado, prontos para autografar cada qual a sua obra. Em minha fila, quase ninguém. Na de Nilton, dezenas de pessoas enfileiradas. Brincava com ele dizendo: “É covardia, Enciclopédia”. E ele, sorrindo, sacaneava: “Quer uns emprestados?”.

Tudo isso para dizer que se não fosse a generosidade de Nilton Santos e sua esposa, Célia, de me apresentarem para a Editora Gryphus, quem poderia garantir que teria conseguido outra para publicar?
Ele não precisava ter me indicado para “seu ninguém”. Por isso, onde estiverem, Nilton e Mutum, agradeço a vocês de coração.   

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Linha da Bola



Preconceito ou desinteresse? Por que existem tão poucas autoras (com livros publicados e não apenas textos em jornais ou revistas) no imenso universo da literatura esportiva brasileira?

Resposta complicada. A realidade é que em 2007, uma jovem apaixonada pelo futebol conseguiu ser publicada com uma obra aparentemente despretensiosa. Trata-se de Clara Albuquerque e o seu “A Linha da Bola” (Editora Gryphus). O subtítulo do livro diz tudo: “Tudo que as mulheres precisam saber sobre o futebol e os homens nunca souberam explicar!”.

E a sinopse divulgada pela editora complementa: “Na publicação – um guia para mulheres (e homens!) que ajuda a entender as minúcias desta paixão nacional –, a autora trata o assunto com muito bom humor e descontração, driblando o preconceito e provando que as chuteiras podem dar lugar ao salto alto.

Todos os 11 capítulos são subdivididos em “Pretinho Básico”, “Esporte Fino” e “Passeio Completo”, termos através dos quais Clara discorre sobre informações do universo futebolístico como a história do esporte, número de jogadores em cada time, modelos de uniformes, esquemas táticos, posições, principais técnicos e jogadores da história, incluindo breves biografias, clubes em que jogaram e número de gols.”

Literatura na Arquibancada destaca abaixo textos assinados por três feras do jornalismo esportivo brasileiro: Marcelo Duarte, Glenda Kozlowski e Vanessa Riche.

Orelhas
Por Marcelo Duarte

Sou mesmo um cara de sorte. Minha mulher adora ver mesa-redonda e ouvir aqueles programas que antecedem as transmissões esportivas. Não, ela não é tão louca por futebol assim. Na verdade, ela se diverte com as discussões intermináveis, com os palpites nada científicos dos comentaristas, com os bate-bocas entre apresentadores e repórteres. A única coisa que minha mulher lamenta é não entender um pouco mais sobre o jogo para sentir o que me faz ficar grudado na TV e no rádio todos os finais de semana. Tem hora que é tanto “futebolês” que ela até pede uma ajuda. Que negócio é esse de 5-3-2?!?

Por isso é que “A Linha da Bola”, de Clara Albuquerque, chega em boa hora. Primeiro, porque a autora confirma o que eu já sabia há algum tempo: uma mulher assim não tem preço. Depois, porque o livro é perfeito para mulheres que querem conhecer mais sobre futebol, mas que não estão a fim de ler enciclopédias ludopédicas – calma, benzinho, eu explico: tinha gente que não gostava do anglicismo “futebol” e brigava pelo uso da expressão “ludopédio”, uma mistura do latim ludo (jogo) e pedes (pés).

Outro ponto forte de “A Linha da Bola” é não colocar todas as mulheres no mesmo time. Sim, existem aquelas que não sabem nada, aquelas que entendem um pouquinho e aquelas que querem saber mais. Todas elas são contempladas com os textos divertidos de Clara. Ela explica que, por mais bonito que seja o jogador, a torcedora não deve nunca se referir a ele como “gato”. Gato, em futebol, é outra coisa...

O único perigo é que, ao acabarem de ler este livro, as mulheres exigirão uma contrapartida. Tenho certeza disso. Aí, rapaz, você será obrigado a aprender também que “salto alto” não é apenas uma expressão futebolística. É bom você se acostumar com expressões como escapin e salto anabela. Elas vão querer nos levar também para uma tarde numa loja de sapatos. Ah, elas merecem!

Prefácio
Por Glenda Kozlowski

Futebol. Uma paixão? Uma religião? Um caos? Um grande amor? Um (a) amante? Um caminho? Um emprego? Um esporte? Ele pode ser tudo isso ao mesmo tempo. Ou nada disso pra quem, apenas, enxerga um monte de gente correndo atrás da bola. Com um cara insuportável que para o jogo sempre quando o bicho pega. Na hora da pancadaria, ou então, quando o cara vai botar a bola lá na rede! Pra quem vê e não entende os códigos que estão em campo, tá na hora de experimentar a maior de todas as emoções. Não precisa ter vergonha. Basta assumir: não entendo! O seu mundo vai mudar.

Se a palavra impedimento deixa você assustada, não se preocupe. Não é a pior.

Futebol. É uma escola de emoções. Em que outro momento você pode sair de uma depressão em questão de segundos? Por outro lado, você também pode entrar numa depressão assustadora. Mas não tenha medo. Porque sempre haverá a próxima rodada, o próximo jogo, uma segunda chance.

Futebol. No campo, no estádio, na arquibancada, no universo da bola tudo é possível. Uma espécie de “Terra do Nunca” do Peter Pan, sabe? Não há jogo perdido. A melhor estatística não ganha troféu. As diferenças vão para escanteio. Sexo, raça, cor, nível social. Esquece tudo isso.

Futebol. É a democracia de chuteiras. A vida passando em 90 minutos com todas as suas tragédias e esperanças.

Chega de papo. Por que A Linha da Bola? Por que você precisa ler esse livro? Porque ele é divertido. Aliás, divertidíssimo. Desbravador, esclarecedor e muito informativo. Um guia fácil pra quem trabalha com futebol. Uma viagem no tempo para os entendidos. E um pretinho básico pra quem quer descobrir esse esporte. Não perca A Linha da Bola! Pode começar agora!

Apresentação
Por Vanessa Riche

Em tempos de ditadura da magreza é difícil aceitar que uma gorduchinha seja o centro das atenções masculinas. Para quem vê o futebol como um inimigo, essa é a oportunidade de fazer dele um aliado.

Os homens crescem com uma cultura peculiar desse esporte; a grande maioria não tem a opção de escolha, já nasce com o escudo de um clube estampado no babador. Desde pequenos vivem as emoções de uma equipe imposta pelo pai ou por um familiar mais fanático. Acabam gostando, e muito! Do jardim de infância ao campinho do bairro, há uma disputa particular para ver quem sabe mais sobre esse assunto. Todos são um pouco técnicos e craques. Se fosse possível entrar em campo, então seria a glória!

Mas já tem tempo que esse mundinho não é exclusivo dos homens. Sempre que vou a um estádio, fico feliz com o crescente número de mulheres presentes, algumas perceberam que é o lugar ideal para encontrá-los e há aquelas que também se apaixonaram pelo esporte e acompanham seus pares. Outras decidiram entrar em campo e fazer bonito. E quando a mulher resolve investir, vira a melhor do mundo.

A Linha da Bola é uma obra aparentemente despretensiosa, pois, através de uma linguagem de fácil entendimento, desmascara um concorrente de peso das mulheres, o futebol.

Nessa primeira publicação, a autora Clara Albuquerque, com muito bom humor, detalha as regras, conta um pouco da história, apresenta os principais ídolos, times e campeonatos, aproximando a leitora desse esporte que é uma paixão nacional.

Com uma linguagem bem familiar às mulheres e exemplos muito criativos, Clara mostra que o futebol não é esse bicho-de-sete-cabeças que boa parte delas imagina. E já que é um assunto que domina as rodas masculinas, seria prudente que as mulheres não ficassem por fora.

Os leitores menos familiarizados com o esporte e sua linguagem própria, conhecida como Futebolês, vão encontrar explicações para dúvidas comuns. Sim, você finalmente vai entender o que é o tal do impedimento. Isso porque, assim como organizamos as roupas no armário para usá-las de acordo com a ocasião e a necessidade, Clara apresenta cada assunto em três níveis de profundidade: Pretinho Básico, Esporte Fino e Passeio Completo.

Com as dicas do Pretinho Básico você não vai mais passar vergonha, porque elas tratam da essência do esporte.

O Esporte Fino é para causar boa impressão; nessa parte, o assunto é um pouco mais detalhado, e mulher adora um detalhezinho!

Mas se você quer fazer um estilo mais extravagante, então vá direto ao Passeio Completo e arrase com detalhes, informações e curiosidades que surpreenderão os técnicos de plantão.
Tenho certeza de que você vai ser fisgada por essa paixão que nunca envelhece e só se dará conta quando estiver gritando pela entrada de um jogador em campo ou desesperada com um gol perdido.

Escolha o seu salto mais alto e vamos contra-atacar!

Sobre Clara Albuquerque:
É baiana, tem 30 anos, formada em jornalismo pela UFBA e apaixonada por futebol. Já morou nos Estados Unidos, Espanha e França.  Mantem o blog “Ora Bolas”, que pode ser acessado neste link www.claraalbuquerque.com.br

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Tudo sobre Literatura Esportiva

A literatura esportiva brasileira ganhou um documento precioso, especialmente para pesquisadores, jornalistas e escritores que trabalham com a memória do tema no país.

Trata-se do maior levantamento bibliográfico já produzido sobre o futebol brasileiro, organizado pelo Portal da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Confira abaixo o artigo assinado pelo jornalista Arthur de Menezes, da Assessoria de Comunicação Social da Fundaj.

O futebol brasileiro, de 1894 a 2013 (Parte I)
Por Arthur Pedro Bezerra de Menezes

Coelho Neto
Trata-se de “O Futebol Brasileiro, de 1894 a 2013: uma bibliografia”, um trabalho coordenado pelas bibliotecárias Lúcia Gaspar e Virgínia Barbosa, com apresentação do pesquisador da Fundação, Túlio Velho Barreto. Ela reúne 1.464 referências de obras sobre futebol, organizadas por grandes temas (postos no sumário da obra) e um índice alfabético (autor, título e assunto) que remete para o número de cada documento referenciado.

Em 162 páginas, há a bibliografia sobre quase 120 anos de história do futebol no País. E foi após a escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo de 2014, que Lúcia e Virgínia fizeram um levantamento para verificar a existência de bibliografias sobre o futebol brasileiro. Verificando que não havia um trabalho mais extenso sobre o tema, elas resolveram elaborar um inventário sobre o assunto, para disponibilizar no portal da Fundaj, em 2013.

 Para isto contaram com a colaboração de Aécio Oberdam dos Santos, Nataly Rodrigues da Silva e Ana Patrícia de Oliveira Jerônimo, estagiários do Curso de Biblioteconomia da UFPE, durante seus estágios curriculares na Fundação, orientados por Lúcia e Virgínia. O material que foi coligido e reunido na obra começa por uma produção não acadêmica, que antecedeu os estudos e pesquisas oriundos das universidades. Uma parte composta pela literatura ficcional, da prosa, em especial, como por exemplo, Graciliano Ramos, Alcântara Machado, João do Rio, Coelho Netto e Lima Barreto, que são contemporâneos à introdução ou à institucionalização do futebol no país. Da produção nacional jornalística, em geral, os textos são mais no formato da crônica, como os escritos pelos jornalistas Mário Filho e Nelson Rodrigues, e os do escritor José Lins do Rego.

Outros são ensaios, como o do sociólogo Gilberto Freyre, que também era escritor e publicou em 17 de junho de 1938, no Diário de Pernambuco, o artigo “O Foot-ball Mulato”, considerado por estudiosos uma síntese das características da escola futebolística brasileira. Freyre foi quem comparou os estilos brasileiro e inglês de jogar: o primeiro, Dionisíaco; o segundo: apolíneo.

Porém, o livro “O Negro no Futebol Brasileiro”, de Mário Filho, é considerado o maior clássico sobre a história do nosso futebol, enveredando por uma análise sociológica do assunto. Dos textos acadêmicos, há um que é o elo entre a produção ensaística e a rigorosamente acadêmica, que é o livro de Edilberto Coutinho, “Maracanã Adeus”. A primeira obra considerada do nível acadêmico/universitário é o livro “O Universo do Futebol”, publicado em 1982, dos antropólogos Roberto Da Matta, Luiz Felipe Baeta Neves, Simoni Lahud Guedes e Arno Vogel.

Mais recentes, os livros “Veneno Remédio: o futebol e o Brasil”, de José Miguel Wisnik, e Futebol, Sociedade, Cultura, de Hilário Franco Júnior, são os que merecem registros dos pesquisadores como trabalhos de qualidade que foram publicados nas últimas décadas.
P.S. - O maior levantamento bibliográfico sobre o futebol brasileiro está disponibilizado na internet, no site da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj) no endereço:

Literatura na Arquibancada destaca abaixo pequeno trecho do texto de apresentação do pesquisador da Fundação Joaquim Nabuco, Túlio Velho Barreto. O texto completo você pode acessar logo acima.

Bibliografia sobre o futebol brasileiro 
atesta sua importância e ajuda a contar 
a história do País, a entendê-lo e explicá-lo

Por Túlio Velho Barreto

Gilberto Freyre
Em 1938, durante a Copa do Mundo da França, um jornalista indagou ao antropólogo e escritor Gilberto Freyre acerca do sucesso da seleção brasileira naquele torneio. Àquela altura, o Brasil já superara poloneses e tchecos, e logo conquistaria um surpreendente e inédito terceiro lugar, após ter fracassado nas disputas anteriores: Uruguai, em 1930, e Itália, em 1934. Motivado pela inusitada abordagem, o já consagrado autor do então polêmico Casa-grande & senzala, lançado cinco anos antes, escreveu um artigo, “Foot-ball mulato, publicado em 17 de junho, no Diário de Pernambuco, um dia após a contestada derrota brasileira para a Itália, que nos tirou da final.

De título bastante sugestivo, o artigo trazia, possivelmente pela primeira vez, uma síntese das características da escola futebolística brasileira: “o nosso estilo [de jogar futebol] parece contrastar com o dos europeus por um conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia, de ligeireza e ao mesmo tempo de espontaneidade individual. Os nossos passes, os nossos pitus, os nossos despistamentos, os nossos floreios com a bola, há alguma coisa de dança ou capoeiragem que marca o estilo brasileiro de jogar futebol, que arredonda e adoça o jogo inventado pelos ingleses”. E mais: para Freyre, o sucesso alcançado em campos franceses resultava do fato de o Brasil estar sendo representado por um team verdadeiramente afro-brasileiro, o que não ocorrera anteriormente. Autor bissexto sobre futebol, Freyre logo usaria expressões de conteúdos opostos para definir e comparar os dois estilos: “dionisíaco”, para o brasileiro, e “apolíneo”, para o inglês. Assim, daria sentido antropológico ao estilo brasileiro, o futebol-arte, que nos distingue dos europeus desde então. Isso, pasmem, duas décadas antes do Brasil conquistar pela primeira vez uma Copa do Mundo, e superar, como escreveria mais tarde o dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues, o nosso secular “complexo de vira-latas’”.

Mas a mobilização nacional em torno daqueles jogos, e a comoção que o resultado do embate contra a Itália causou nos brasileiros, não chamaria a atenção apenas de Gilberto Freyre. O presidente Getúlio Vargas, que dera um golpe e instaurara o Estado Novo um ano antes, ficou tão sensibilizado que anotou em seu diário: “O jogo monopolizou as atenções. A perda do team brasileiro para o italiano causou uma grande decepção e tristeza no espírito público, como se se tratasse de uma desgraça nacional”. Tal fato é citado pelo historiador Leonardo Affonso de Miranda Pereira no livro Footballmania: uma história social do futebol no Rio de Janeiro, 1902-1938.

É mesmo possível que, ali, Vargas tenha percebido o apelo popular que tem o futebol e pensado em usá-lo como ferramenta para construir a ideia de Nação, que, como tal, ainda carecia de identidade. Nesse sentido, o próprio Freyre, com textos sobre o “foot-ball mulato”, e o escritor e jornalista Mario Filho, ao lado do irmão Nelson Rodrigues e do romancista José Lins do Rego, com iniciativas institucionais em torno dos esportes, contribuiriam para a “invenção” de nossa nacionalidade através do esporte, em especial do futebol, como se verá mais adiante. Tal perspectiva é adotada, inclusive, por Fátima Maria Rodrigues Ferreira Antunes em Com brasileiro, não há quem possa! sobre as crônicas de Nelson, Mario e José Lins, e outros autores que abordaram, separadamente ou em conjunto, a obra deles três.

Mas não foram poucos, nem menos ilustres ou apenas brasileiros os que reconheceram o status de arte do nosso futebol. Por exemplo, muitos anos depois de Freyre, o historiador britânico Eric Hobsbawm, no livro Era dos extremos, indagaria, já respondendo: “quem, tendo visto a seleção brasileira jogar em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?” Da mesma forma, o cineasta italiano Píer Paolo Pasolini, logo após a vitória brasileira no México, em 1970, compararia nosso futebol à poesia, mais inventiva e livre, e o europeu, à prosa, mais presa às regras e aos resultados, associando as formas literárias às características típicas de cada povo. Ainda durante aquela Copa, um garoto inglês ficaria igualmente encantado com o desempenho brasileiro. E, mais tarde, ao escrever suas memórias de torcedor, não economizaria adjetivos para explicar o que representou para ele assistir pela primeira vez a plástica de nosso futebol. O livro é Febre de bola e seu autor é Nick Hornby, escritor e roteirista de cinema.

Anos depois, a mesma paixão fez o jornalista inglês Alex Bellos cruzar o Brasil em busca do “país do futebol”. Na viagem descobriu como o esporte ajuda a entendê-lo e a explicá-lo. O resultado está no livro Futebol: o Brasil em campo. A mesma experiência teve Franklin Foer ao viajar pelo País para dedicar-lhe um capítulo de seu livro Como o futebol explica o mundo ao abordar a relação entre futebol e política, sobretudo no que diz respeito à ação da chamada “cartolagem”, isto é, o conjunto dos dirigentes de nossos centenários clubes – clubes, aliás, que tiveram suas histórias, e as dos torneis e campeonatos por eles disputados, registradas em livros e coleções, como é possível constatar no longo levantamento que se segue.

Mas, infelizmente, nem sempre o estilo brasileiro gozou de unanimidade, mesmo entre nós. E o mais grave: a literatura sobre o nosso futebol mostra que, fora das quatro linhas, o comportamento de cartolas, os chamados “donos da bola”, não faz justiça ao status de arte conquistado dentro delas. Portanto, para conhecer e compreender melhor o nosso futebol, deve-se igualmente consultar uma bibliografia diversificada como esta que se apresenta agora: dos primórdios do futebol no Brasil até as sombrias atividades da CBF, passando pela violência praticada pelas diversas torcidas organizadas espalhadas pelo País, por exemplo. E, como se verá, a despeito do que afirma o senso comum, a bibliografia, tanto acadêmica quanto – na falta de expressão melhor, vamos chamar assim – literária, é relativamente vasta e diversificada. Aqui, está apenas uma amostra do que se pode ler para conhecer melhor sua incrível e vitoriosa história.