quinta-feira, 17 de outubro de 2013

O drible



Para o bem da literatura esportiva o número de títulos publicados no gênero romance está aumentando cada vez mais. Só em 2013, três grandes histórias: “Escravos do jogo” (Editora Multifoco, selo Desfecho) de Marlos Bittencourt; “O último minuto” (Companhia das Letras) de Marcelo Backes e agora, o romance de Sérgio Rodrigues, “O drible”, tema deste artigo e também da Companhia das Letras.

Aqui, no Literatura na Arquibancada, você pode acessar outras histórias resgatadas sobre autores que se atreveram a fazer ficção com o tema futebol:

Abaixo, acompanhe a sinopse e um capítulo disponibilizados pela editora Companhia das Letras.

Sinopse (da editora):

Sérgio Rodrigues
“Desenganado pelos médicos, um cronista esportivo de oitenta anos, testemunha dos anos dourados do futebol brasileiro, tenta se reaproximar do filho com quem brigou há um quarto de século. Toda semana, em pescarias dominicais, Murilo Filho preenche com saborosas histórias dos craques do passado o abismo que o separa de Neto.

Revisor de livros de autoajuda, Neto leva uma vida medíocre colecionando quinquilharias dos anos 1970 e conquistando moças que trabalham no comércio perto de sua casa, no bairro carioca da Gávea. Desde os cinco anos, quando a mãe se suicidou, sente-se desprezado pelo pai famoso.

Como nos romances anteriores de Sérgio Rodrigues, há um contraponto de vozes narrativas. Entremeado com o relato principal, transcorre o livro que Murilo escreve sobre um extraordinário jogador dos anos 1960 chamado Peralvo, dotado de poderes sobrenaturais e que teria sido “maior que Pelé” se não tivesse encontrado um fim trágico.

A alternância entre o realismo da história de Neto, seco e desencantado, e o realismo mágico da história de Peralvo sinaliza a perícia de Sérgio Rodrigues, um dos narradores mais habilidosos de sua geração.

O personagem do velho cronista é o veículo de uma celebração da história do futebol raras vezes empreendida pela literatura brasileira. Murilo Filho, porém, é mais do que isso. Com atraso, como se tomasse um drible, Neto entrevê nas frestas da narrativa do pai - e o leitor, um pouco antes dele - um sombrio segredo de família e um episódio tenebroso dos porões da ditadura militar”.

Capítulo de abertura da obra:

O "quase gol" de Pelé contra o Uruguai, na Copa de 1970.
A tv é uma velha trambolhuda de tubo de imagem.

O lance não deve ter mais de dez segundos, mas com as interrupções de Murilo enche minutos inteiros enquanto ele narra sem pressa, play, pause, rew, play, o que na época foi narrado com assombro.

O que você vê primeiro é uma imagem parada que logo identifica como da Copa de 1970 pelo short da seleção brasileira, que é de um azul mais claro que o habitual, além de escandalosamente curto para os padrões de hoje. Tostão, cabeçudo inconfundível, número 9 às costas, conduz a bola observado a certa distância por um sujeito de camisa azul clara e calção preto. Murilo solta a imagem por três segundos, Tostão conduz a bola, e quando volta a congelá-la Pelé aponta no canto superior direito do quadro e você sente um tranco na barriga como se a velocidade do mundo desse de repente um arranque, alguém ligando um acelerador de partículas. O velho segue na sua narração caseira, aí então, diz, olha só, nós vemos aquilo que o Tostão também acaba de ver, Pelé se projetando da meia-direita feito um bicho, uma pantera com sangue de guepardo.

O ímpeto é logo contido, editado, rew, play, pause, play. A bola sai do pé do Tostão, volta, sai, volta. O passe do cara é perfeito, diz Murilo, sentado perto de você no sofá junto da lareira acesa, uma criança brincando com sua pistola de laser. Um miligrama de força a mais ou a menos, seria quase perfeito, praticamente perfeito, mas não, é perfeito, metido da meia-esquerda com o pé esquerdo numa linha diagonal de desenhista de Brasília, a mais leve curvatura, em direção ao centro da grande área.

Nesse momento a imagem começa a andar para a frente em câmera lentíssima. De repente tudo o que vemos, a voz do homem é baixa e roufenha, sem o tom de comando de antigamente, tudo o que vemos é Pelé correndo em direção a uma bola branca, mas aí vem o goleiro e agora a bola está entre Pelé e o goleiro, mais perto do grande crioulo mas cada vez menos, porque o goleiro, aliás o famoso Mazurkiewicz, o goleiro resolve ir à luta e sai com tudo da área, não quer nem saber.

Pausando a imagem outra vez, Murilo aponta os olhos para você. Quantos anos você tem, Tiziu? Cinquenta, quase? Ah, mais do que o bastante para já ter abandonado a fé cega na razão e saber que nosso cérebro de caçadores pré-históricos faz incrivelmente rápido os cálculos envolvidos num problema deste tipo: quem vai chegar na bola primeiro. Nem chamamos mais de cálculo, tão rápidas são essas operações mentais, chamamos de instinto. Nosso instinto diz que o Pelé vai chegar antes do Mazurka, não diz? Mas vai ser por pouco. 

O quíper uruguaio faz o que pode, entra no semicírculo um milésimo de segundo antes do Pelé, mas não a tempo de interceptar a bola. Ela fica entre os dois e nós voltamos a sentir, como o Mazurka também sente, que está mais para o negão que vem no embalo. O que o bom goleiro da Celeste faz é se ajoelhar e, mesmo já estando fora da área, que remédio, abrir os braços.

Congelada, a imagem do velho videoteipe fica distorcida. Parece que o negro de camisa amarela e o branco todo de preto vão colidir, quem sabe se fundir, feixes luminosos tentando esquecer que um dia foram carne.

Olha o Mazurkiewicz, diz o velho. Ninguém precisa ser telepata para saber que ele torce para o Pelé buscar o gol dali mesmo, é o que faria a maior parte dos atacantes, porque nesse caso teria uma chance de impedi-lo. Só pode rezar para que o brasileiro não faça o que um jogador da envergadura dele provavelmente vai preferir fazer, isto é, cortar o goleiro para a esquerda, coisa fácil na passada em que vem, movimento que levaria a das duas, uma: ou o goleiro agarrar faltosamente as pernas do Pelé ou o Pelé concluir de canhota para o gol aberto ou quase, defendido só pelo zagueiro que, não demora, vai entrar no quadro esbaforido feito quem está prestes a perder o último trem e acabar às cambalhotas pelo chão. O nome desse infeliz era Ancheta. Só para constar.

Murilo olha para você com um meio sorriso. Seus olhos espelham as chamas da lareira e têm um fulgor frio que você não se lembra de um dia ter visto, um olhar que parece já quase póstumo, brasas minúsculas dentro do gelo. Agora eu te pergunto, Neto, por que o Pelé não fez isso? Era a coisa certa, não era? Óbvio que era, pedrinhas fosforescentes no gramado, um caminho que ele já tinha trilhado um trilhão de vezes igualzinho, zunindo da meia-direita para o centro da área atrás da bola enfiada pelo Coutinho ou pelo Zito, ou por Didi na seleção. Mas de repente estamos em 1970, a bola é passada pelo Tostão e, aí é que está, Pelé já é Pelé. Está farto de saber que é um mito, um semideus, o que tem a perder tentando ser um deus completo?

Aí ele não faz o certo, faz o sublime. Troca o caminho batido do gol, o gol certo que tinha feito tantas vezes, pelo incerto que, como veremos, jamais faria.

Na tv, enquanto os dois borrões lentamente se fundem, a bola, um descalabro, passa por eles. Como se eles fossem porosos, o espírito esquecido de que é carne no ato mesmo, antecipando o videoteipe.

Rá, você ri nem tanto de surpresa, reconhecendo o lance tantas vezes visto, mas feliz, como sempre, com seu retorno. Você olha para a tv e Murilo olha para você, estudando sua reação.

Parece satisfeito com o que vê. Na sua recusa em tocar na bola feito um Bartleby súbito, diz, Pelé refinou o futebol à sua essência mais rarefeita. O futebol virou ideia pura e de repente homens, bola, ninguém mais se comportava como seria de esperar que se comportasse neste mundo vão. Apanhado de surpresa como todos nós, o pobre Mazurka vê a bola passar à sua esquerda e ir cortar feito faca o filé direito da grande área, enquanto Pelé é um flash auriceleste que chispa para o lado oposto.

No tubo de imagem o goleiro uruguaio dá as costas para a bola, tem um joelho no chão e o pescoço torcido para a direita, olhando o atacante que vai embora, como se tivesse passado uma ventania. E à esquerda do quadro, distante demais da bola, já dentro da grande área e mais borrado do que nunca, Pelé começando a modular os pés para mudar de rumo.

O que o Pelé tem que fazer agora é bem facinho, mamão, é ou não é?, o velho abre um sorriso em que se vê com nitidez a sombra da caveira que logo será. Tem que frear para corrigir radicalmente seu ângulo de deslocamento, frear e no mesmo instante recomeçar a correr na outra direção, atrás da bola agora, ele que vinha no tropel mais desembestado fingindo ignorá-la.

Acabou o reinado da ideia pura, sublime demais para durar no tempo, o mundo material se impõe outra vez com sua massa, sua aceleração, as leis da física todas. O cara tem que dar uma quebrada de noventa graus e não perder velocidade porque, veja bem, há que chegar na bola antes dos adversários e ainda com um bom ângulo de chute.

Murilo solta a imagem, Pelé consegue fazer as duas coisas, que beleza, congela-a de novo. Vai chutar e marcar, todos antevemos isso, o estádio de pé com seus pulmões que nesse momento podiam ser todos de pedra, diz, floreando um pouquinho, pois não inspiram nem expiram: vai chutar e fazer o gol. Acontece que não é tão simples, porque Pelé agora está do lado errado da bola, meio de ombro para o gol, tem que bater nela num movimento de meio giro. E aí, meu Deus, ele erra. Pelé erra. Perde o gol que não poderia deixar de perder, pensando bem, para que o mito se consumasse.

O que você vê na imagem solta pela última vez, a definitiva, é o seguinte: enquanto o tal Ancheta que ia perder o trem se estabaca na grama, a bola chutada por Pelé tira fino da trave direita do Uruguai. Linha de fundo, fato consumado, o craque dos craques sai chupando um gelo catado por ali com expressão levemente contrariada, mas serena.

                                           Compacto do jogo Brasil x Uruguai. O lance de Pelé
                                           está aos 6:05.

O velho detém o vídeo. Pousa o controle remoto no braço do sofá, olha nos seus olhos outra vez e diz, o que houve aqui, Neto, foi simples: Pelé desafiou Deus e perdeu. Imagine se não perdesse. Se não perdesse, nunca mais que a humanidade dormia tranquila. Pelé desafiou Deus e perdeu, mas que desafio soberbo. Esse gol que ele não fez não é só o maior momento da história do Pelé, é também o maior momento da história do futebol. Você entende isso? A intervenção do sobrenatural, o relâmpago de eternidade que caiu à esquerda das cabines de rádio e tv do simpático Jalisco, 17 de junho de 1970? Pois posso garantir que foi isso que aconteceu, eu estava lá e sei, e se for mais ainda eu não vou me surpreender, mas foi isso, no mínimo, que aconteceu e que o videoteipe nos dá a graça de ver e rever para sempre, está vendo? Coisa tremenda, Tiziu.

Pondo-se de pé com dificuldade, afasta-se da bolha de calor criada pela lareira e caminha até a varanda. Você vai atrás. Passa pouco do meio-dia, mas o inverno chegou com determinação. O hálito gelado que vem da mata os abraça e nesse momento você vê seu pai em Guadalajara, um jovem de mais de trinta com costeletas de Félix, bigodão de Rivelino, tomando cerveja com guacamole enquanto aqui embaixo se acabava o mundo tal como você, em seus cinco anos, o conhecia. É como se a vida inteira tivesse como único gonzo aquele verão mexicano, inverno no Brasil, quando seu pai não foi na bola, o drible de Pelé em Mazurkiewicz quebrou a espinha do destino e o mundo degringolou. Há desses momentos em que tudo parece acontecer ao mesmo tempo, passado e futuro achatados em presente, o mesmo que dizer que nada jamais aconteceu ou acontecerá, tudo está sempre acontecendo sem chegar a atingir o ponto em que o gesto se completa.

No domingo em que Murilo Filho lhe mostra em sua casa no Rocio o gol que Pelé não fez, você se dá conta pela primeira vez na vida de que aquele era o mesmo dia 17 de junho de 1970 em que Elvira driblou a frouxa segurança de um semipronto elevado do Joá para se atirar nas pedras batidas pelo mar lá embaixo. Claramente, como se uma luz de açougue acendesse dentro da sua cabeça, vê-se preso para sempre naquele dia, play, pause, rew, play, enquanto Pelé não fizesse o gol estaria preso dentro daquele dia, sonhando que a vida tinha continuado. Nesse momento você olha para o seu pai e revive pela última vez, com violência assombrosa, o velho sonho de matá-lo.

Isso porque o Peralvo nunca jogou a Copa, diz Murilo, parecendo imune às ondas de morte que emanam do filho, olhar perdido na crista verde-chumbo dos morros recortados contra o céu cinza. Peralvo era para ter sido maior que Pelé, Neto. Que merda de vida.

Sobre Sérgio Rodrigues:
Nasceu em Muriaé (MG), em 1962, e vive no Rio de Janeiro desde 1980. Ficcionista, crítico literário e jornalista, é autor do romance Elza, a garota (Nova Fronteira) e das coletâneas de contos O homem que matou o escritor (Objetiva) e Sobrescritos (Arquipélago), entre diversos outros livros. Criou em 2006 o blog Todoprosa (todoprosa.com.br), referência na web literária brasileira, hospedado desde 2010 no portal Veja.com. Em 2011, ganhou o Prêmio Cultura do Governo do Estado do Rio pelo conjunto de sua obra.

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