quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Jogo Sujo: o mundo secreto da Fifa



Em tempos da polêmica sobre a publicação de biografias não autorizadas, o livro de Andrew Jennings, “Jogo Sujo – O mundo secreto da Fifa” (Panda Books), é perfeito para refletirmos pelas “terras de Cabral”. Você, leitor, acha que a discussão vale só para homens e mulheres biografáveis? Não. Empresas, instituições e corporações podem se arvorar também no tal “direito privado” para impedir publicações.

Foi o que aconteceu com o livro de Jennings, considerado inimigo número 1 da Fifa, a entidade organizadora (mas nem tanto) do futebol mundial. A poderosa Fifa tentou de todas as formas barrar a distribuição da obra, mas não conseguiu, exatamente pela flexibilidade editorial europeia. O livro acabou traduzido para mais de 12 línguas.

No Brasil, lançado em 2011, causou espanto. Claro, por aqui, tivemos obra parecida embargada pela filha da poderosa Fifa, a CBF, Confederação Brasileira de Futebol. Quem não se recorda do livro do deputado Silvio Torres e do agora ministro do esporte, Aldo Rebelo, respectivamente, relator e presidente da CPI da Nike?

Pois bem, no Brasil, quase ninguém teve acesso, no formato de um livro, às falcatruas apuradas. Enquanto isso, Jennings e o seu “Jogo Sujo”, correu o mundo...Não apenas pelas denúncias que apresenta, a obra de Jennings é uma aula de jornalismo investigativo. Leitura mais do que obrigatória.

Apresentação
Por Andrew Jennings

“Quando as crianças me perguntam em que eu trabalho exatamente, digo que ganho a vida caçando os caras malvados.

Já investiguei policiais corruptos, governos corruptos e criminosos profissionais. Ganhei prêmios por meu trabalho de investigação sobre o envolvimento do serviço secreto britânico no escândalo Irã-Contras e sobre a polícia bandida. Quando completei quarenta anos, comecei a fazer reportagens na área esportiva.

Esportes? Alguns dos meus colegas do jornalismo investigativo me perguntaram: “Você amoleceu?”.

Nem um pouco. O esporte pertence ao povo. É parte da nossa cultura, do cimento social que mantém a coesão da sociedade.

Assim como a corrupção no governo e na polícia causa preocupação pública, o mesmo também ocorre quando vilões assumem o controle do esporte do povo e o usam para seu benefício pessoal.

Assim, lancei uma rede sobre as águas da política esportiva e fisguei um peixe gigantesco e podre – como costuma acontecer com os peixes – da cabeça ao rabo: as Olimpíadas.

Revelei que Juan Antonio Samaranch, o mandachuva olímpico, tinha sido um fascista de carteirinha, ministro do governo do sanguinário ditador espanhol Franco. E descobri que entre os homens que o apoiavam em seu Comitê Olímpico Internacional havia alguns sujeitos que deveriam estar atrás das grades (e desde então passaram algumas temporadas lá), e muitos para quem a política olímpica não era um meio de servir ao povo, mas sim para benefício próprio – e multiplique isso por mil !

Repórteres investigativos nem sempre vivem para ver os caras malvados receberem a merecida punição, mas o mundo inteiro assistiu ao desmantelamento da corrupção olímpica em 1998, quando o Senado dos Estados Unidos investigou o escândalo e fui convidado a depor como testemunha em Washington.

Eu podia ter parado por aí. Mas foi então que recebi um telefonema de Colin Gibson, editor de esportes do Daily Mail, pedindo que eu desse uma olhada nas pessoas que comandam o futebol internacional. “Ah, Colin, pare com isso. O futebol é coisa graúda. Eu levaria anos para descobrir o que acontece dentro da Fifa.”

Levei anos. As coisas que descobri são tão estarrecedoras que até eu mesmo fiquei chocado. Alguns caras malvados passaram por lá – ou ainda estão lá – tirando tudo o que podem. O futebol ainda é um jogo bonito, é claro. Isso eles não podem roubar de nós. Mas, conforme você vai ler aqui, na Fifa acontecem negócios abomináveis. Eu gostaria que o futebol tivesse a liderança que merece. Nesse espírito, dedico este livro a todos os torcedores e fãs do futebol.


***

Clique, clique, clique
Instantâneos de dentro da fortaleza do futebol
Mas espere aí
Isso não é permitido na villa no alto da colina de Sunny Hill

Dizem que é o jogo do povo
Não pergunte quanto o chefão paga a si mesmo
Ou quem ficou com a propina, quem ganhou o contrato
Não pergunte para quem foram todos aqueles ingressos da Copa

A sede fica na Suíça
Onde denunciar é crime
Os documentos estão trancafiados
Ninguém nunca acha as provas

Este livro não é uma história da Fifa
É só uma amostra da verdade
Aqui há instantâneos do que ela realmente é
E como foi no último quarto de século
Para o bem do jogo.”

Abaixo, Literatura na Arquibancada apresenta parte do primeiro capítulo de “Jogo Sujo”. Um artigo que Jennings publicou em trechos também, no Daily Mail, em 27 de maio de 2002 e dezembro de 2005. O artigo também acabou publicado em vários jornais suíços e alemães.

O tique-taque da bomba-relógio de Blatter
A propina vai parar na mesa de Sepp

Sede da Fifa, Zurique, inverno de 1998. O relógio acaba de marcar 7 horas em Sunny Hill (Colina Ensolarada), a mansão de paredes brancas e telhas vermelhas empoleirada na colina sobranceira à cidade, no bairro de Sonnenberg. Lá embaixo, no porão aquecido, fica a sala de expedição, onde as secretárias se reúnem para recolher e distribuir a correspondência: são cartas, fax e telex recebidos durante a noite. Notícias de resultados de futebol, transferências de jogadores, campeonatos, cronogramas de viagem, pedidos de subsídios encaminhados por associações e federações nacionais, encontros com chefes de Estado – é mais um dia comum de trabalho na maior organização esportiva do mundo.

Os diretores de departamento entram subitamente, ávidos para saber nacos e sobras de notícias que possam levar escada acima e apresentar pessoalmente ao chefe, em troca de algum comentário elogioso ou um mero meneio de cabeça em sinal de aprovação. Lá vai Erwin Schmid, diretor de finanças da Fédération Internationale de Football Association, a Fifa, homenzarrão de ombros largos, que com o passar do dia vai ficar cada vez mais desalinhado e desgrenhado, a camisa saindo das calças. Lá vai Erwin, com seus habituais cumprimentos alegres.

Ele pega um envelope. O remetente é a matriz do banco da Fifa, o Union Bank da Suíça. Erwin rasga o envelope e examina o documento anexo, uma notificação de pagamento. Seu rosto arredondado empalidece. Ele lê mais uma vez. Alguma coisa está errada. Há algo muito irregular. Erwin sai da sala de expedição e se dirige ao elevador, apertando nervosamente o documento na mão cerrada.

Dois andares acima, o secretário-geral da Fifa, Joseph S. Blatter, conhecido no mundo todo como “Sepp”, está sentado a uma mesa com tampo de couro e reclina-se na sua cadeira de couro preta de espaldar alto, cumprindo seu ritual diário de leitura do jornal Neue Zurcher Zeitung. O enorme televisor JVC está mudo, pois ainda é cedo demais para as partidas de tênis às quais ele adora assistir.

Aos 61 anos de idade, Blatter tem o ar de um homem que está no comando. É um sujeito esférico, de rosto redondo e corpo rechonchudo, um tanto baixinho, e está ficando careca. Mas seu terno bem cortado, sua camisa de dois tons, suas abotoaduras de ouro maciço, seu pesado relógio de luxo e seu olhar de não-me-faça-perder-meu-tempo dizem: Há 17 anos sou o chefe. Agora, o que você pode fazer por mim? João Havelange, o presidente da entidade, tem uma sala no andar de cima, mas hoje está em sua terra natal, o Brasil, a um oceano de distância. Sepp está no comando.

Blatter desfruta das melhores vistas da villa. Uma gigantesca janela panorâmica emoldura os Alpes distantes, a cordilheira arborizada e, bem lá embaixo, o lago e a cidade velha, cujas torres e campanários se espremem entre as colinas do vale. Ele pode caminhar até a janela lateral e contemplar o íngreme vinhedo e as villas isoladas, cujos portões se abrem de vez em quando para dar passagem a uma procissão de elegantes Mercedes pretos que levam seus proprietários à cidade.

Mas hoje não é um dia propício para apreciar a paisagem. O diretor de finanças tem más notícias para o chefe, que também é seu bom amigo – a bem da verdade, é seu único amigo. Erwin Schmid diz aos colegas: “Só tenho um amigo na vida, e ele é JSB”.  E agora Erwin tem nas mãos o tipo de notícia que pode azedar uma amizade. Enquanto o elevador vai subindo, seu ânimo despenca.

Nos últimos três anos, Blatter supervisionou pessoalmente a venda dos direitos das Copas do Mundo de 2002 e 2006: os direitos de transmissão dos jogos pela televisão em todos os países do mundo, os direitos de estampar o emblema da Fifa e as palavras mágicas “World Cup” em refrigerantes, lâminas de barbear, cervejas, hambúrgueres e pares de tênis. Tudo isto está embutido no presente recebido pela Fifa. Altos dirigentes da entidade cuidaram da negociação de acordos comerciais no colossal valor de 2,3 bilhões de dólares com velhos amigos de uma discreta empresa localizada algumas montanhas alpinas ao sul.

Situada no número 10 da Markstrasse, na cidade de Sarnen, um pequeno paraíso fiscal, a empresa atende pelo nome International Sport and Leisure, ISL.

Erwin sai do elevador. O documento que tem nas mãos ameaça destruir a Fifa. Ao longo dos anos têm circulado boatos negativos acerca das relações entre a Fifa e a ISL, rumores sobre propinas e subornos. Amigos leais como Erwin jamais deram ouvidos a esse tipo de maledicência. Afinal de contas, relacionamentos especiais sempre chamam a atenção, não é mesmo? E nunca houve provas de delitos ou ações ilícitas. Mas, agora, aquele pedaço de papel. Um pagamento caiu numa conta em que não deveria ter caído.

Erwin caminha com passos surdos pelo corredor acarpetado. Chega à porta de Blatter, bate e espera ser chamado. Entra. Sem perder tempo, entrega o documento a Sepp. É uma ordem de pagamento padrão, comprovando que a ISL transferiu 1 milhão de francos suíços (cerca de 400 mil libras) para a conta da Fifa. O nome do recebedor, o destinatário da propina, faz o estômago revirar. É um altíssimo dirigente, um veterano do mundo do futebol. Trata-se de um polpudo “muito obrigado”. É algo bastante inapropriado (mas não ilegal na Suíça, desde que seja declarado no imposto de renda).

“Meu Deus”, resmunga Blatter, levantando-se da cadeira. “Isto aqui é um problema...Isto não nos pertence.”

Erwin sabe disso. Mas qual será a atitude de Blatter? Avisar a polícia? Relatar o caso ao Comitê Executivo da Fifa, ao Comitê Financeiro? É o mínimo que ele poderia fazer.

Em vez disso, o dinheiro é transferido da conta da Fifa para a conta do homem cujo nome aparece na ordem de pagamento. E o registro da transação fica arquivado. De acordo com a lei, o registro deve constar dos arquivos até o inverno de 2008. E lá ele fica, como uma bomba-relógio, esperando para explodir.

Tique-taque, tique-taque.

Sobre Andrew Jennings:
É repórter investigativo há mais de trinta anos, cineasta, consultor e comentarista. Trabalhou nos jornais britânicos The Sunday Times e Daily Mail, na BBC, além de contribuir em diversas publicações. Autor de documentários e livros sobre corrupção nos esportes, Jennings tornou-se conhecido no mundo todo como o “único profissional de imprensa banido das coletivas da Fifa”. Traduzido para mais de 12 línguas, Jogo Sujo (Foul!) foi transformado em documentário da BBC e exibido em todo o mundo.

2 comentários:

  1. onde posso comprar o livro no Porto / Portugal ?

    Obg,

    Germano Vales
    germanovales@gmail.com

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  2. Anônimo11:53

    sempre soube que a fifa era corrupta, mas nao acreditava....

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