quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A Bola e o Verbo



Ele é um estudioso do futebol e também mestre, porque é professor em universidades brasileiras.  E chega agora para integrar o universo da literatura esportiva com o seu “A Bola e o Verbo - O futebol na crônica brasileira” (Summus Editorial).

Rodrigo Viana é do interior paulista, da cidade de Araraquara, terra de muitos craques dentro e fora dos gramados. E driblando a falta de espaço na mídia em geral, ele resgata um gênero considerado (por alguns) “menor” da literatura. A obra de Rodrigo Viana está aí para comprovar o contrário.

Abaixo, Literatura na Arquibancada destaca o texto de apresentação de “A bola e o verbo”, escrito por um dos mestres da crônica brasileira. E logo a seguir, a introdução de Rodrigo Viana.

Apresentação
Por Ignácio de Loyola Brandão

Rodrigo veio de uma terra que já respirou muito futebol de qualidade.  Certa época, o futebol estava na atmosfera, torcíamos pela Ferroviária, víamos jogos com os grandes times de São Paulo. São Paulo, Palmeiras, Corinthians, Santos e outros que chegavam para o que se chamava clássicos do interior. O estádio lotava. Os cronistas esportivos iam até lá ver e transmitir jogos, havia orgulho no ar. Certamente aqueles anos devem ter chegado até Rodrigo de alguma maneira, porque a memória deles ainda flutua, passa de pai para filho, e assim por diante.

A cidade que deu boleiros como Dudu, Bazani, Rosan, Peixinho, Dirceu e outros mais (mesmo não tendo ali nascido, se fizeram ali), locutores como Ennio Rodrigues e Wilson de Freitas, também produziu Marco Antonio Rodrigues, hoje Globo, e Rodrigo Viana. Por isso atravessei com prazer este livro. Porque os livros de qualidade sobre futebol são raros. Ou clichês. Rodrigo foge do lugar comum e nos traz o clima de um mundo que, parecendo ser tão familiar, ao dar a sensação que está em nosso quintal, ainda conserva segredos e mistérios, que não se desvendam assim. Não é mais um livro sobre futebol, é um bom livro, que atravessei de ponta a ponta em algumas horas. Quanto mais simples é a escrita, mais difícil ela é na sua feitura. A simplicidade exige disciplina, talento, aplicação. E essa simplicidade aparente está aqui para decifrar uma coisa que, como disse, parece simples, no entanto é complexa, o mundo do futebol.

Bem-vindo ao mundo do futebol literatura, Rodrigo Viana.

Algumas palavras de aquecimento
Por Rodrigo Viana

A crônica só é gênero menor em termos de literatura. Admite‑se como inabalável a certeza de que a literatura tende a ser perene, intemporal. Não faltam teóricos para garantir que a arte, nela incluindo a arte literária, existe para superar a morte. E, se a literatura busca a infinitude, a crônica é crônica mesmo, expressão de finitude. É temporal, fatiada da realidade e desvinculada do tempo maior que é o da literatura como arte. Mas daí não se deve concluir que ela seja uma defunta. (Cony, 1998)

A citação do escritor e jornalista Carlos Heitor Cony defende a ideia de que a crônica é um gênero literário e, portanto, faz parte da literatura, ainda que “literatura menor”.

O assunto, no entanto, não constitui ponto pacífico entre os críticos literários. A discussão não é nova. Ao contrário, estende‑se desde o período colonial. Na transição Colônia‑Império e, principalmente, em fins do século XIX até meados do século XX, os escritores e os críticos literários não a consideravam um gênero. Somente após o modernismo (1922) o olhar da crítica passou a ser mais cuidadoso em relação à crônica.

Ao mesmo tempo, começou‑se a desenvolver uma corrente de pensamento que considerava a crônica um gênero tipicamente brasileiro. Para Antonio Candido (1992, p. 15), “[...] se poderia dizer que sob vários aspectos é um gênero brasileiro, pela naturalidade com que se aclimatou aqui e a originalidade com que aqui se desenvolveu”.

Mário de Andrade
Uma ilustração dessa visão “abrasileirada” da crônica pode ser recortada de um interessante acontecimento literário ocorrido em meio ao movimento modernista. Mário de Andrade escreve uma carta destinada ao contemporâneo e também escritor Fernando Sabino, deixando transparecer, em seu discurso, a importância dos gêneros “crônica” e “conto” e, paradoxalmente, a falta de interesse da discussão sobre gêneros literários. Vejamos um trecho dessa carta:

Não se amole de dizerem que os seus contos não são contos, são crônicas etc. Isso tudo é latrinário, não tem a menor importância em arte. Discutir “gêneros literários” é tema de retoriquice besta. Todos os gêneros sempre e fatalmente se entrosam, não há limites entre eles. O que importa é a validade do assunto na sua própria forma. (Andrade, 1982, p. 23)

Já situando a crônica como um “gênero híbrido” da literatura – uma de suas características mais relevantes, como veremos ao longo do caminho –, o “tom” irônico de Mário de Andrade serve para que ele se posicione sobre o assunto: claramente, a sua predileção é pela tese de que a crônica, naquele momento, já se constituía num gênero literário.

Contudo, nem mesmo o Modernismo e a palavra de credibilidade de escritores como Mário de Andrade fizeram que outros intelectuais mudassem de ideia sobre o assunto. Os críticos que não consideravam a crônica gênero literário afirmavam que ela nascera como folhetim, junto com os jornais, sendo publicada num dia e apagada no outro. Sublinhavam também a questão do envelhecimento do texto pela ação do tempo sobre os acontecimentos, as personalidades e os modos de vida do período abrangido.

Nelson Rodrigues
Entretanto, o volume de publicação de crônicas em jornais em meados do século XX e a sedimentação da imprensa cresciam de tal maneira no Brasil que era impossível não notar sua importância. Os maiores escritores brasileiros compunham crônicas – mais notadamente Machado de Assis, que iniciou sua carreira literária publicando textos semanais na seção “A Semana”, do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro (1).

Desse modo é que vai ocorrendo a sedimentação do conceito da crônica como gênero literário e também jornalístico. Aos poucos, outros grandes nomes da literatura brasileira se apropriaram do binômio crônica/jornalismo: Carlos Drummond de Andrade, Nelson Rodrigues, Lourenço Diaféria, Fernando Sabino, João Saldanha, Carlos Heitor Cony e Armando Nogueira, entre outros. E é nesse momento, com a apropriação do gênero pelos escritores, que toma força a ideia de que é justamente o relato, ou a maneira de relatar o “acontecido”, que confere à crônica um espaço, ainda que diminuto, na literatura.

A inspiração e os assuntos das crônicas – que vinham de fatos políticos, sociais, históricos, esportivos e culturais – faziam que o cronista adquirisse um olhar às vezes crítico, às vezes humorístico, às vezes puramente artístico e inovasse na confecção dos textos, conferindo‑lhes uma nova roupagem, capaz de quebrar a rotina monótona do dia a dia. Portanto, o mero argumento de que, assim como a notícia de jornal, a crônica, por similaridade, teria apenas a função de noticiar os acontecimentos, simplificaria muito o debate. Pior: o empobreceria.

Lourenço Diaféria
De fato, a crônica tem a nobre função de “transmitir” a notícia e os acontecimentos ao leitor/receptor. Nela, a notícia ganha vida própria quando absorve elementos das mais diversas fontes da literatura. Por isso a crônica é um dos gêneros mais híbridos da literatura, como preconizou Mário de Andrade. Ela se utiliza de elementos do conto, da poesia e também de outras formas narrativas, como a novela, o teatro, o drama e o romance; a crônica incorpora até outras linguagens, como aquelas presentes no cinema, e experimenta‑se em outros meios audiovisuais, como a internet.

A dialética inicial que contrapunha crônica à literatura, no seio do surgimento da imprensa no país, dilui‑se com o tempo.

Para Edvaldo Pereira Lima (1993, p. 138), “o jornalismo absorve assim elementos do fazer literário, mas, camaleão, transforma‑os, dá‑lhes um aproveitamento direcionado a outro fim”. Ou seja, não se trata mais apenas de transmitir a notícia, mas de “como” e do que se provoca no leitor com o tom literário da transmissão.

Trata‑se, então, de literatura.

Nota: (1)
Um fato interessante sobre esse “batismo literário” de Machado de Assis é que essa atividade lhe rendeu o pseudônimo de “Dr. Semana”, porque outros escritores, aproveitando‑se da liberdade proporcionada pelo anonimato que o pseudônimo lhes oferece, também assinavam os textos da coluna de Machado no Jornal do Commercio. Entre esses “anônimos”, podemos citar Pedro Luís, Varejão Félix Martins e Quintino Bocaiúva.

Sobre Rodrigo Viana:
Nasceu em Ilha Solteira (SP), mas adotou Araraquara (SP) como cidade natal. Jornalista e mestre em Estudos Literários pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), é professor de pós-graduação em Jornalismo Esportivo. Repórter do SBT e colunista da revista Imprensa, ministra palestras, oficinas e workshops em parceria com a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom). Criador do FutCiência – grupo de estudos dentro da Universidade do Futebol – também é membro do Memofut – Grupo de Literatura e Memória do Futebol. Em mais de 15 anos de carreira, rodou o mundo atrás de boas histórias: em 2012, viajou para o Japão e acompanhou a saga do título mundial do Corinthians. Seguindo a linha investigativa no esporte, denunciou o esquema de venda de ingressos pela segurança da Fifa na Copa das Confederações, ocorrida em junho de 2013 no Brasil. É apaixonado pela Ferroviária de Araraquara, time em que jogou nas categorias de base.

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