quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Dia D - Dia de Drummond



Hoje, 31 de outubro, Dia de Drummond, o Literatura na Arquibancada dará sua colaboração reunindo alguns textos do poeta relacionados com o tema futebol.

No dia 31 de outubro de 1902, nascia o grande poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987). Para comemorar a data, o Instituto Moreira Salles criou há dois anos o Dia D – Dia Drummond –, que passou a fazer parte do calendário cultural do país. Assim como os irlandeses (e hoje o mundo inteiro) festejam a vida do escritor James Joyce todos os anos no dia 16 de junho com o Bloomsday, os brasileiros começaram a homenagear um de seus maiores poetas sempre no dia de seu nascimento. O objetivo do IMS é promover e difundir a sua obra.

O conteúdo da programação do IMS e também das instituições parceiras estão disponíveis no site http://www.diadrummond.com.br.

Poema da noite
Futebol
Carlos Drummond de Andrade

Futebol se joga no estádio? 
Futebol se joga na praia, 
futebol se joga na rua, 
futebol se joga na alma. 

A bola é a mesma: forma sacra 
para craques e pernas-de-pau. 
Mesma a volúpia de chutar 
na delirante copa-mundo 
ou no árido espaço do morro. 

São vôos de estátuas súbitas, 
desenhos feéricos, bailados 
de pés e troncos entrançados. 
Instantes lúdicos: flutua 
o jogador, gravado no ar 
- afinal, o corpo triunfante 
da triste lei da gravidade.

Para quem quer conhecer o trabalho de Carlos Drummond de Andrade sobre o tema futebol vale a pena conhecer a tese de doutorado em Letras de Fabio Mario Iorio, na UFRJ, em 2006.

RASTROS DO COTIDIANO: FUTEBOL EM VERSIPROSA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE é leitura obrigatória para os admiradores de Drummond e também para se descobrir que o autor não escrevia apenas poemas sobre o futebol. Mais detalhes, acessar o link:
http://www.letras.ufrj.br/ciencialit/trabalhos/2006/fabiomario_rastros.pdf

No trecho abaixo, Fabio Iorio detalha um livro considerado referência para conhecer o Drummond apaixonado pelo futebol:

“Em 2002, a Editora Record editou o livro Quando é dia de futebol de Carlos Drummond de Andrade, como resultado de uma pesquisa e seleção de textos feitas pelos netos Luiz Maurício Graña Drummond e Pedro Augusto Graña Drummond, reunindo as raras crônicas futebolísticas desde 1931. O projeto editorial foi se configurando a partir de uma consulta preliminar de Luiz Maurício sobre os dados importantes dos textos de Carlos Drummond de Andrade, estabelecendo uma lista de assuntos abordados e pessoas mencionadas. Como um dos temas mais citados era o futebol, ele e o irmão Pedro Augusto realizaram de forma mais completa a pesquisa desse material jornalístico específico, que se concentra entre 1954 a 1986.

A edição do livro reúne as crônicas, alguns poemas e trechos de cartas familiares, percorrendo os arquivos pessoais de Carlos Drummond de Andrade, do colecionador Edgard de Almeida Loural (doado à Biblioteca Central da PUC-RJ) e do acervo da Biblioteca Nacional. Os textos seguem a cronologia de suas produções, abordando principalmente os momentos da seleção brasileira masculina nas competições oficiais da Federation International of Football Association - FIFA e completando a coletânea com as homenagens aos maiores jogadores do futebol profissional: Pelé e Garrincha.

Ainda se encontram pedaços de crônicas que relacionam o futebol com outros assuntos e episódios da sociedade, destacando inclusive a sua linguagem codificada e uma de suas principais influências na adolescência do torcedor: o futebol de botão. O comentário final do livro pertence a Edmílson Caminha, que resume o foco da abordagem, sublinhando ainda a correspondência na comemoração centenária entre o cronista e o primeiro grêmio carioca, Rio Football Club.

A dimensão do futebol nos textos de Carlos de Drummond de Andrade é ampla, traça uma leitura paralela aos cronistas esportivos mais destacados, de Nelson Rodrigues a João Saldanha, o primeiro com seu discurso épico-lírico de olhar barroco e o segundo situado nos liames do ideológico e do especialista com a moderna linguagem da crônica futebolística, sustentando na afetação simbólica um saber singularizado.

Carlos Drummond de Andrade e seus ilustres companheiros têm no futebol a rica contribuição da arte popular para o debate reflexivo da sociedade brasileira. Drummond relaciona também o futebol e a poesia, aproximando–se do outro mineiro, Paulo Mendes Campos.”

Deste mesmo livro, Quando é dia de futebol (Editora Record, 2005), Literatura na Arquibancada destaca algumas reflexões do poeta sobre o tema: Vitória x Derrota. Vencer e perder é o resumo do jogo que tanto encantou Drummond em vida.

“E chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estaremos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória, a derrota estabelece um jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo.

Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo. (pg.181)


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Não me venham insinuar que o futebol é o único motivo nacional de euforia e que com ele nos consolamos da ineficiência ou da inaptidão nos setores práticos. Essa vitória no estádio tem precisamente o encanto de abrir os olhos de muita gente para as discutidas e negadas capacidades brasileiras de organização, de persistência, de resistência, de espírito associativo e de técnica. (pg. 37)

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Diante de tamanha angústia adormecida, porém não pacificada, fica-se na dúvida: o esporte será hoje uma fonte de prazer individual e coletivo, ou mais uma contribuição valiosa para as estatísticas mortuárias? (...) O torcedor, na sua impotência, joga ainda mais do que o jogador...

O sofrimento esportivo se agrava com os equívocos de linguagem e os golpes publicitários, assumindo formas políticas e belicosas que espantariam os próprios e inocentes torcedores, se eles se detivessem a examiná-las. (...) Os sofrimentos, irritações e depressões que provoca estão longe de ser imaginários, e perturbam nosso perturbado viver. Somos campeões do mundo, é verdade, mas isso não nos deve torturar mais do que, por exemplo, as misérias do subdesenvolvimento. O campeão não é campeão 24 horas por dia; chega uma hora (...) de não sofrer mais do que o estritamente necessário (...) não somos 60 milhões de campeões. (pg. 43)

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                                                                              Hoje,
 manuscritos picados em soluço,
chovem do terraço chuva de irrisão.
Mas eu, poeta da derrota, me levanto
sem revolta e sem pranto
para saudar os atletas vencidos.
Que importa hajam perdido?
Que importa o não-ter-sido?
Que me importa uma taça por três vezes,
se duas a provei para sentir,
coleante, no fundo, o malicioso
mercúrio de sua perda no futuro?
É preciso xingar o Gordo e o Magro?
E o médico e o treinador e o massagista?
Que vil tristeza...
Nem valia ter ganho
a esquiva Copa...
no jogo livre e sempre novo que se aprende...
qualquer dos que em Britânia conheceram
depois da hora radiosa
a hora dura do esporte,
sem a qual não há prêmio que conforte,
pois perder é tocar alguma coisa
mais além da vitória, é encontrar-se
naquele ponto onde começa tudo
a nascer do perdido, lentamente.
Canta, canta, canarinho...
Nem heróis argivos nem parias...
O dia-não completa o dia-sim
na perfeita medalha. Hoje completos
são os atletas que saúdo:
nas mãos vazias eles trazem tudo
que dobra a fortaleza da alma forte.”
(pg. 85-87)

Literatura na Arquibancada destaca abaixo mais um texto escrito pelo poeta sobre o tema futebol. 

Uma crônica que só mesmo o poeta poderia escrever e que foi encontrado nos arquivos do Jornal do Brasil do dia 18/06/1974.

                      

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Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranqüilidade.

Bem-aventurados os que, por entenderem de futebol, não se expõem ao risco de assistir às partidas, pois não voltam com decepção ou enfarte.

Bem-aventurados os que não têm a paixão clubista, pois não sofrem de janeiro a janeiro, com apenas umas colherinhas de alegria a título de bálsamo, ou nem isto.

Bem-aventurados os que não escalam, pois não terão suas mães agravadas, seu sexo contestado e sua integridade física ameaçada, ao saírem do estádio.

Bem-aventurados os que não são escalados, pois escapam de vaias, projéteis, contusões, fraturas, e mesmo da glória precária de um dia.

Bem-aventurados os que não são cronistas esportivos, pois não carecem de explicar o inexplicável e racionalizar a loucura.

Bem-aventurados os fotógrafos que trocaram a documentação do esporte pela dos desfiles de modas, pois não precisam gastar tempo infindável para fotografar o relâmpago de um gol.

Bem-aventurados os fabricantes de bolas e chuteiras, que não recebem as primeiras na cara e as segundas na virilha, como os atletas e assistentes ocasionais de peladas.

Bem-aventurados os que não conseguiram comprar televisão a cores a tempo de acompanhar a Copa do Mundo, pois, assistindo pelo aparelho do vizinho, sofrem sem pagar 20 prestações pelo sofrimento.

Bem-aventurados os surdos, pois não os atinge o estrondar das bombas da vitória, que fabricam outros surdos, nem o matraquear dos locutores, carentes de exorcismo.

Bem-aventurados os que não moram em ruas de torcida institucionalizada, ou em suas imediações, pois só recolhem 50% do barulho preparatório ou comemoratório.

Bem-aventurados os cegos, pois lhes é poupado torturar-se com o espetáculo direto ou televisionado da marcação cerrada, que paralisa os campeões, ou do lance imprevisível, que lhes destrói a invencibilidade.

Bem-aventurados os que nasceram, viveram e se foram antes de 1863, quando se codificaram as leis do futebol, pois escaparam dos tormentos da torcida, inclusive dos ataques cardíacos infligidos tanto pela derrota como pela vitória do time bem-amado.

Bem-aventurados os que, entre a bola e o botão, se contentaram com este, principalmente em camisa, pois se consolam mais facilmente de perder o botão da roupa do que o bicho da vitória.

Bem-aventurados os que não confundem a derrota do time da Lapônia pelo time da Terra do Fogo com a vitória nacional da Terra do Fogo sobre a Lapônia, pois a estes não visita o sentimento de guerra.

Bem-aventurados os que, depois de escutar este sermão, aplicarem todo o ardor infantil no peito maduro para desejar a vitória do selecionado brasileiro nesta e em todas as futuras Copas do Mundo, como faz o velho sermoneiro desencantado, mas torcedor assim mesmo, pois para o diabo vá a razão quando o futebol invade o coração.
                                                                                                   

terça-feira, 29 de outubro de 2013

O ano Mané



Se 2013 é um ano com importantes efemérides sobre a vida do genial Mané Garrincha, como os 80 anos de seu nascimento e os 30 de sua morte, a literatura esportiva acaba de ganhar um livro sobre outro ano de sua trajetória importantíssima. Trata-se de 1962: O ano Mané (LivrosdeFutebol.Com), que tem autoria de Maurício Neves e edição do “quase” fanático botafoguense, o editor César Oliveira.

Sinopse (do editor)
Por César Oliveira

“Se há um Deus que regula o futebol, esse Deus é sobretudo irônico e farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios. Mas, como é também um Deus cruel, tirou do estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino. Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho.”  (Carlos Drummond de Andrade)

No final de 2010, recebi um telefonema do advogado catarinense Maurício Neves de Jesus, rubro-negro de coração, que se apresentou a mim oferecendo os originais do livro “1981: o primeiro ano do resto de nossas vidas”, um diário do ano mais vitorioso da história do Club de Regatas do Flamengo, justamente quando “O Mais Querido” conquistara três títulos importantíssimos no curto espaço de três semanas: a Libertadores da América (em 22 de novembro), o Campeonato Carioca (em 6 de dezembro) e o Mundial em Tóquio (a 13 de dezembro), arrasando os ingleses do Liverpool.

Como editor, meu compromisso é com a história do futebol brasileiro e mundial, seus ídolos, craques e lendas. Por isso, o editor botafoguense e o autor rubro-negro se uniram para lançar a obra.

O livro tem uma proposta interessante. Escrito em forma de diário, o autor reuniu o material que já tinha no meu acervo – jornais, revistas, livros. Depois, passou à pesquisa nas fontes da época, principalmente jornais, do Brasil e do exterior. Anotados os trechos fundamentais, passa a escrever com o material selecionado como fonte principal. Os relatos dos jogos são baseados no maior número possível de jornais que fizeram a cobertura da partida e também nos vídeos disponíveis, de modo a evitar que a impressão de um único cronista vicie o texto.

Para mim, Mauricio criou um estilo que vale a pena levar adiante. Motivado por isso e pela aproximação das comemorações dos 80 anos de nascimento de Mané Garrincha, pedi a ele que escrevesse... 1962: O ANO MANÉ, assim mesmo, já com o título pronto; e o subtítulo “Diário do ano mais vitorioso do Anjo das Pernas Tortas”.

A princípio relutante, Mauricio aceitou fazer o livro, percebendo que a história era maior que a rivalidade. Em meio ao trabalho, eu brincava com ele, dizendo que seria duro mesmo era escrever sobre o dia 15 de dezembro, justamente quando Mané Garrincha arrasou com o Flamengo, 3 a 0 no final do Campeonato Carioca, com certeza a sua derradeira atuação individual de gala, dois gols e um chute que provocou um gol contra. Mas depois daquele dia, Mané nunca mais foi Garrincha.

A partir dali, os demônios venceram o frágil Manoel dos Santos, que virou “joão” do álcool e das mazelas físicas que o acompanharam em toda a sua vida.

É preciso, contudo, louvar sempre, lembrar para não esquecer, quem foi Mané Garrincha. Um gênio dos gramados, um craque acima de muitos os que hoje se enchem de dinheiro e glórias. Um índio simples, vítima do alcoolismo e de problemas físicos incontornáveis, quem sabe presa da ganância dos que precisam fazê-lo jogar mesmo à custa de injeções e infiltrações para que suportasse as dores nos joelhos.

Naquele 1962, Mané produziu performances extraordinárias, o ponto máximo da sua brilhante carreira. Com a Seleção Brasileira, durante o Mundial do Chile, jogou por ele e por Pelé, que se contundira no segundo jogo.

E Mané fez chover nos gramados andinos. Contra Espanha, Chile e Inglaterra, jogou mais do que se podia esperar dele. Sem Pelé em campo, Mané jogou como o peladeiro de Pau Grande, que gostava mesmo era de jogar de meia-esquerda. Fez gol de perna esquerda e até de cabeça, saltando contra os altos zagueiros ingleses. Desmontou a defesa da Fúria espanhola para deixar Amarildo na cara do gol e virar um jogo que se encaminhava para um fracasso e nos tiraria da Copa. E o fazia com a mesma tranquilidade com que jogava pelo seu Botafogo num estadinho qualquer do subúrbio carioca.

Em dezembro, na final do Carioca, perante mais de 155 mil pessoas, Garrincha tomou conta do gramado e desfilou seu repertório de “manjadíssimos” dribles pela direita – ele só sabia driblar por ali. Com 10 minutos de jogo, passou como quis por Gérson e Jordan, abrindo o placar, pulando por cima dos repórteres e fotógrafos e dando início ao seu baile particular. Mais 25 minutos, de novo a mesma jogada, uma bomba pra gol que explodiu no goleiro Fernando, quebrou o nariz do zagueiro Vanderlei para fechar o primeiro tempo em 2 a 0.

O segundo tempo nem começou e lá estava ele de novo, pelo meio da pequena área, aproveitando o rebote do goleiro Fernando numa temível “tesoura voadora” do Quarentinha, para fechar o placar.

Lamentavelmente, depois daquele sábado, 15 de dezembro, Mané nunca mais foi Garrincha. Aos poucos, seu brilho foi se acabando, ele ainda tentou a sorte em outros times, Olaria, Flamengo e Corinthians, mas era então uma pálida lembrança da Alegria do Povo, do Anjo das Pernas Tortas, do Demônio da Copa... ele voltara a ser apenas Manoel do Santos, sem o “Francisco” que a mídia acolheu depois que ele quis homenagear o pai, incorporando-lhe o nome.

Em 18 de outubro, Manoel dos Santos completaria 80 anos. Infelizmente, em outra data redonda, ele nos deixou há 30, nem bem completado meio século de vida. Este livro é uma forma de homenagear o craque, agradecer pela alegria que trouxe aos nossos olhos e corações. Pelos dribles, pelos gols, pela molecagem, pelos títulos.

                                                                              *********                                      

Confira abaixo o prefácio assinado por Péris Ribeiro, autor de “Didi, o Gênio da folha-seca”, vencedor do I Prêmio João Saldanha de Jornalismo Esportivo (Literatura), da Associação de Cronistas Esportivos do Estado do Rio de Janeiro (2011).

A primeira vez em que vi Garrincha
Péris Ribeiro

Naquele 7 de setembro ensolarado, as emoções já tinham sido muitas na parte da manhã. Afinal, eu estava em pleno Rio de Janeiro, a charmosa capital da República, e havia assistido a um monumental desfile do Dia da Independência, situado em um ponto estratégico da majestosa Avenida Presidente Vargas.

Agora, já de banho tomado, roupa trocada e tendo desfrutado de um delicioso almoço à base de saladas e da tradicional macarronada dos dias de domingo, lá caminhava eu, lado a lado com o meu intrépido tio Ernane – na verdade, um rubro-negro histórico, que havia visto inclusive o Flamengo ser campeão com Leônidas da Silva, em 1939 –, para subirmos juntos uma das largas rampas de acesso às arquibancadas do Maracanã. Era a minha primeira vez no “Maior do Mundo”, e só em me deparar com o seu gigantismo já era o suficiente para começar a tremer nas bases.

Acontece que não era só o descomunal tamanho do velho e querido Maraca que me impressionava. Naquele instante, tudo ali me deixava maravilhado. A entrada dos dois times em campo, surgindo triunfais na boca do túnel; a festa da torcida, tanto nas arquibancadas como nas cadeiras e gerais; aquele público esfuziante, de quase 150 mil pessoas... Tudo aquilo era demasiado para um garoto de apenas nove anos, até então acostumado às vibrações que pouco ecoavam nos modestos estádios dos subúrbios cariocas. Ou naqueles de igual dimensão lá da minha Campos, terra de craques como o mestre Didi, Lelé, Amarildo, Paulinho Almeida, Pinheiro e Evaldo – este, o parceiro predileto do grande Tostão, naquele Cruzeiro campeoníssimo dos primeiros anos dourados do Mineirão.

Mas, retornando às emoções daquele Botafogo e Flamengo de 7 de setembro de 1953, o que não me sai da memória é o estilo agressivo que o Flamengo procurou imprimir à partida, logo nos primeiros 30 minutos. Naquele meio tempo de domínio rubronegro, os meus olhares de admiração e ansiedade eram todos dedicados à arte e aos malabarismos de Rubens, o Doutor Rúbis, espécie de maestro e dono do time da Gávea. Só que, do lado alvinegro, alguns jogadores também começaram a me chamar a atenção. Em especial, Nilton Santos, Geninho e um ponta-direita estranho, que corria esquisito e andava mais esquisito ainda.

“Olha, aquele ali é o Garrincha. Dizem que é meio maluco, e ainda por cima tem as pernas tortas. Coisas que só acontecem ao Botafogo... Mas, uma coisa eu posso garantir: o garoto joga pra burro!”, tratou logo de alertar-me o tio Ernane, sempre atento àqueles que tinham o dom de desequilibrar uma partida.

Com o tempo passando, e o Flamengo – líder e favorito – começando a desaparecer em campo, foi o momento exato de o Botafogo crescer assustadoramente, passando a tomar conta do jogo.

Dino da Costa e Vinícius balançaram as redes do goleiro paraguaio Garcia, fixando o placar em 2 a 0, mas quem desequilibrava tudo era o cara esquisito da ponta-direita. Até que, após mais um drible no lateral-esquerdo Jordan, seu marcador direto, acaba aterrado dentro da área pelo zagueiro Pavão. Pênalti claro, que faz um estridente Mario Vianna apitar incontinente, logo apontando para a marca da cal.

Da boca do túnel, o técnico Gentil Cardoso apenas sinaliza para o capitão Geninho, definindo o camisa 7 como o batedor oficial. Tranquilo, mãos na cintura, com todo jeito de um peladeiro descompromissado, ele apenas caminha para a bola e chuta à meia altura, quase sem defesa. Mas o goleiro que estava do outro lado não era um qualquer, era Garcia, o melhor do Rio naqueles dias, que em um salto espetacular ainda consegue tocar na bola com a ponta dos dedos. O seu azar, porém, foi que o desconjuntado ponta-direita seguiu acompanhando a jogada e, tal qual numa típica pelada de rua, apenas deu um pequeno mergulho e, de cabeça, fez Botafogo 3 a 0. Gol de pênalti de cabeça!

Depois daquele jogo para lá de desconcertante, foi com um misto de decepção, pela derrota do Flamengo e de total incredulidade, pelo que vira aquele estranho ponta-direita de pernas tortas fazer em campo, que resolvi redimensionar, ali mesmo, os meus ainda parcos conhecimentos sobre o futebol. Na verdade, estava era assustado e maravilhado. E foi assim que, meses depois, já no verão de 1954, entrei no Maracanã pela segunda vez. Novamente, acompanhado pelo intrépido tio Ernane; mais uma vez, para assistir a um Botafogo e Flamengo.

Agora, no entanto, dava para sentir que as coisas correriam de maneira bem diferente. E, realmente, tudo terminou em uma grande festa, pois o Flamengo colocou as faixas de campeão carioca de 1953, além de ganhar do Botafogo de 1 a 0, com um golaço de Rubens, em um chute de curva de fora da área, bem na “forquilha” do goleiro Gilson. Foi ali, aliás, naquela típica tarde de festa popular, que pude sentir que o Maracanã era capaz de nos envolver em um universo especial. A torcida rubro-negra, por si só, já era um espetáculo à parte. E Rubens, o meu primeiro grande ídolo, acabara de ser consagrado como o “’Maior Jogador” do Campeonato. O Campeonato que tivera o Flamengo como um mais que merecido campeão.

Vibrando e me emocionando com tudo aquilo, o que mal sabia eu - talvez, podendo até então apenas suspeitar – era que o Garrincha apenas discreto daquela tarde de 14 de fevereiro, seria o maior dos meus ídolos no futebol. Para tanto, bastou que a sabedoria de um João Saldanha desatasse o nó com que vários outros treinadores tentaram amarrar o seu futebol alegre, imprevisível e genial. Apenas isso.

A partir de então, com o artista plenamente liberado para criar, só poderiam vir mesmo muitas glórias, e as alegrias que se tornariam infinitas. Primeiro, com a libertação do próprio Botafogo, sagrando-se finalmente campeão carioca, em uma tarde de Mané Garrincha simplesmente insegurável, imarcável. Depois, com a campanha vitoriosa no Mundial da Suécia, de onde sairiam dos pés dele, Garrincha, as jogadas mais decisivas, os lances realmente mortais, que levariam o Brasil definitivamente ao título.

Até que, em campos do Chile, iria ocorrer o ápice do gênio. Uma façanha e tanto. Coisa para poucos, bem poucos. Até porque, foi aos pés dos Andes que, jogando por ele e por Pelé, e jogando ainda por um país inteiro aflito, agoniado, que um Mané Garrincha definitivamente iluminado deu ao Brasil a glória do sonhado Bicampeonato Mundial.

Era o artista, vivendo na plenitude a sua arte.

Era o gênio, completando enfim a sua obra.

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Literatura na Arquibancada destaca abaixo, trecho de um dos capítulos da obra.

1º. de janeiro, segunda
Os assuntos mais comentados no primeiro dia de 1962 eram o suicídio do cartunista Péricles de Andrade Maranhão e a mensagem de Ano Novo do presidente João Goulart, os dois principais acontecimentos do último dia de 1961. Criador do personagem Amigo da Onça, Péricles vedou seu apartamento no Rio de Janeiro, abriu o gás e esperou pela morte. Antes, no entanto, afixou na porta um bilhete de despedida que se encerrava com a frase “não risquem fósforos”. Quase ao mesmo tempo, Jango dizia através do rádio e da televisão que “temos muitas razões para acreditar que, mercê de nosso esforço e de nosso patriotismo, o ano que amanhã se inicia será mais generoso para todos os brasileiros”.

Ao menos no futebol, e em especial para um brasileiro chamado Mané, a previsão se mostraria verdadeira.

2 de janeiro, terça
Ano de Copa do Mundo e o futebol entrava na pauta com o maior jogo do país: Botafogo de Garrincha versus Santos de Pelé. Na véspera, os dois times treinaram e confirmaram a escalação de todos os seus titulares para o amistoso que abriria a temporada no Maracanã. Antes da partida, Garrincha receberia um automóvel Simca Chambord, por ter sido eleito o jogador mais querido do Rio de Janeiro em promoção do Jornal dos Sports e da revendedora Simcar. Os cupons para votar foram publicados durante sete semanas no jornal e eram depositados pelos torcedores em urnas espalhadas pela cidade. Ao final, Garrincha foi o vencedor com 300.247 votos. O vascaíno Bellini ficou em segundo, com 245.308 e ganhou um terreno em Cabo Frio.

3 de janeiro, quarta
Antes de a bola rolar, Garrincha recebeu a sua Simca Chambord e a faixa de campeão carioca entregue por Pelé, a quem retribuiu com a faixa de bicampeão paulista. Passadas as homenagens, nem a boa atuação de Pelé segurou o Botafogo de Garrincha na abertura da temporada do futebol brasileiro. O Santos começou no ataque, mas esbarrou em um impecável Manga e pagou caro aos 24 minutos quando Calvet aterrou Amarildo na área. Romualdo Arppi Filho botou na marca fatal e Amarildo executou Laércio chutando forte no canto esquerdo. No segundo tempo, dois gols em oito minutos. China, que entrara no lugar de Quarentinha que vinha de longa inatividade, arrematou na trave e Amarildo pegou o rebote para fazer 2x0. No terceiro, inverteram-se os papéis: Amarildo lançou China que deu um belo lençol para encobrir Laércio e marcar um golaço. Festa dos cem mil botafoguenses, com direito a um gesto de solidariedade. Parte da renda recorde de mais de quinze milhões de cruzeiros foi doada às vítimas do incêndio no Gran Circus Norte-Americano ocorrido no dia 17 de dezembro de 1961 em Niterói.

Botafogo 3x0 Santos
3 de janeiro de 1962 – Amistoso
Estádio do Maracanã – Rio de Janeiro, RJ
Público: 95.518 pagantes (102.348 presentes)
Árbitro: Romualdo Arppi Filho
Botafogo: Manga, Rildo, Zé Maria, Nílton Santos e Chicão (Wilton); Ayrton
e Didi; Garrincha, Quarentinha (China), Amarildo (Amoroso) e Zagallo.
Técnico: Marinho Rodrigues
Santos: Laércio, Lima, Mauro (Olavo), Calvet e Dalmo; Zito e Tite; Dorval,
Coutinho (Pagão), Pelé e Pepe. Técnico: Lula
Gols: Amarildo (pênalti) aos 24 do 1º tempo; Amarildo aos 4 e China aos
8 do 2º tempo.

Sobre o autor:
Mauricio Neves de Jesus é advogado e professor universitário. Na área jurídica, é autor da obra “Adolescente em Conflito com a Lei: Prevenção e Proteção Integral”. Como cronista esportivo, foi editor do blog Jogo Aberto, do jornalista Lédio Carmona, e publicou os livros “1981 – O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas”, sobre o ano mais glorioso da história do Flamengo, e “Aquelas Camisas Vermelhas”, a história do Internacional de Lages, campeão catarinense de 1965.