sábado, 28 de setembro de 2013

Saldanha e o golpe do Maracanã



Novo Maracanã. Novos preços. Novas polêmicas. O consórcio que administra o estádio, ops, Arena, que será palco da final da Copa do Mundo no Brasil deixou “geraldinos” (expressão criada para os torcedores que ficavam na antiga “geral” do estádio) sem lugar nesta nova configuração de “torcedores”.

Na literatura esportiva, um livro de crônicas escritas pelo polêmico técnico João Saldanha, “Meus amigos”, publicado em 1987 pela Editora Mitavaí, parecia antever que o “novo” Maracanã traria “velhas” polêmicas. Se hoje o problema é o valor cobrado nos espaços “populares”, Saldanha revelava naqueles tempos um “golpe” naqueles que pagavam para “alugar” o estádio para mandar seus jogos. Uma história fictícia, lembrada pelo amigo Raul Milliet Filho. Um livro obrigatório nas estantes dos apaixonados pela literatura esportiva.

O grande golpe
Por João Saldanha

O mesmo assaltante que deu o golpe no Antonio's não se emendou e tentou dar outro. Desta vez no Maracanã. Procurou saber quem era o tesoureiro e ficou esperando o homem da mala. Acabou o jogo e o homem da mala saiu pelo portão 16, sozinho e fumando um cigarro. Mole, mole: "Não se mexa, isso é um assalto".

O tesoureiro olhou triste e respondeu: "Então o senhor está me devendo 696 cruzeiros, que é o que preciso pagar de despesa hoje". O assaltante endureceu e mandou brasa: "Nada de papo furado. Eu quero o positivo".

O tesoureiro meteu a mão no bolso, puxou um papel grande e foi dizendo ao assaltante: "Tem um lápis aí?". O bandido respondeu que não, então o tesoureiro pediu ao guarda de trânsito que ia passando. Deu o lápis para o bandido e ditou: "Renda do jogo: 62.568,25. Escreveu?" - "Sim" .

"Então tome nota do resto. Mas vamos aqui para debaixo da luz que é melhor". E foram os três mais um garoto daqueles que pedem dinheiro para voltar para casa. Enxotaram o garoto e continuaram o serviço: "Despesa: quadro móvel - 5.600; ingressos 341,00; luz 600 pratas". Aí o bandido gritou: "Qual luz? Aquilo paga?" - "Paga sim e mete lá: bolas 190,00; taxa de 10%, 5.573,80; Escoteiros, 557,30". O bandido pulou de novo: "Que escoteiros? Isto é golpe!".

O tesoureiro explicou que era uma lei e até se lembrou do número e prosseguiu: Fugap, 1.114.66. Novo berro: "Esta não! Os clubes não descontam para INPS? Que negócio é este? Eu também desconto". O tesoureiro explicou a outra lei e foi em frente: "CBD, 3.128,41; Federação Carioca, 3.128,41". O bandido era inflexível e chiou: "Este número já entrou aqui agora pouco. Para cima de mim, não!". O guarda que estava prestando atenção explicou: "Estes são outros 3.128,41". O tesoureiro ajeitou os óculos e prosseguiu: "Juiz, bandeirinhas e intérprete, 1.800,00".

O assaltante já ia puxando a arma, mas o tesoureiro explicou: "Intérprete é rubrica, compreendeste? Só se paga em jogo internacional e contra times de São Paulo". O bandido fez sinal de entendimento e o tesoureiro deu a última despesa: cota do Cruzeiro 18.089,00 e cota do América, 12.904,00. O bandido ficou meio triste, mas disse: "Vai lá, manda pra cá isso mesmo". O tesoureiro não se alterou e puxou outro papel do bolso com uma porção de assinaturas. Resumindo, lá estava: vinte e um bichos a 600,00 cada, são 12.000,08. Despesas de transporte, 1.000,00. "Eu dei um vale de 698,00 para o homem que ficou de passar lá amanhã. Tens algum aí? Lá no clube não tem nada".

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