quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Diamante Negro: 101 anos



6 de setembro de 2014. Centenário e mais um ano de Leônidas da Silva, o Diamante Negro. O homem que fez o mundo reconhecer a genialidade e talento do futebol brasileiro ao mundo, na Copa do Mundo de 1938, nos deixou em janeiro de 2004.

Desde o lançamento de sua biografia, em 1999, Diamante Eterno, Editora Gryphus, e na edição atualizada, Diamante Negro, Cia dos Livros, 2010, brasileiros, torcedores e leitores, puderam conhecer e, porque não, redescobrir a história de um dos maiores craques do futebol mundial.

Aqui, no Literatura na Arquibancada você, leitor, já conheceu várias histórias vividas, dentro e fora dos gramados pelo Diamante Negro. Nos links abaixo, você pode rever.


Mas agora, como um presente a você, leitor, o trecho de um capítulo importante na vida do Diamante Negro relatado em sua biografia. Trata-se de um momento marcante, a “descoberta” de Leônidas da Silva para a Seleção Brasileira, no distante ano de 1932. Uma aventura vivida em outras terras, no Uruguai, onde acabaria ganhando o apelido de Diamante Negro.

“Uruguai, caminho para a glória”
Por André Ribeiro

(...)

Pelas ruas do Rio de Janeiro, o assunto não era outro senão o previsível fracasso de nossa seleção no Uruguai. A crônica não largava do pé dos dirigentes, por causa da convocação de jogadores desconhecidos para representar o Brasil em compromisso tão importante. Os jogadores pouco se importavam com o ti-ti-ti e seguiam treinando. Leônidas estava agoniado com sua situação e até o dia do embarque não sabia se viajaria ou não com o restante do grupo. O presidente da CBD havia dado ordens expressas para que ele não embarcasse.

No início da noite do dia 28 de novembro os jogadores começaram a chegar ao cais para o embarque. Primeiro, Gradim, depois, Zé Luís, Agrícola, Aymoré e pouco a pouco todos estavam lá, inclusive o presidente da CBD, Renato Pacheco. Leônidas não havia chegado ainda, estava atrasado por causa da forte chuva que caía por todo o Rio de Janeiro. Renato Pacheco tentava esconder-se da chuva, enquanto olhava impaciente para direita e para esquerda, para ver se Leônidas viria ou não.  Os dirigentes da federação carioca procuravam de todas as formas jogar conversa fora com Pacheco, para fazê-lo esquecer do jogador.

Cabalero percebeu que Leônidas finalmente havia chegado e, mais do que depressa, pediu para que não enrolasse muito. Era preciso embarcar imediatamente; não era hora de conversa fiada. Quando Renato Pacheco olhou, Leônidas já estava subindo as escadas do “Duílio”. O clima ficou tenso, Renato Pacheco pediu para chamar Luís Vinhaes, treinador da seleção e disse:

“Senhor Vinhaes, o Leônidas embarca, eu não posso impedir o embarque de ninguém. O senhor, porém, está proibido de botar Leônidas em campo.”

Luís Vinhaes não deu conversa ao mandachuva do futebol brasileiro:

“Doutor Renato, o ‘Duílio’ ainda não partiu, o senhor fale com o doutor Rivadávia. Se o doutor Rivadávia mandar o Leônidas ficar, eu não terei nada a dizer. Agora, Leônidas embarcando, doutor Renato, é para jogar.”

Luis Vinhaes, técnico da seleção brasileira.
Renato Pacheco cumprimentou Vinhaes secamente e foi embora.

Todos a bordo, iniciava a viagem de três dias que levaria os jogadores brasileiros até o Uruguai para a disputa da Copa Rio Branco.  Quem pensa que os problemas de Leônidas tinham terminado, enganou-se. Durante a viagem, continuou o centro das atenções. Qualquer passo que desse era vigiado. Passado o mal-estar da hora do embarque, começaram as brincadeiras, para tentar amenizar um pouco o clima entre os jogadores. Era a primeira vez que Leônidas e a maior parte daqueles atletas saíam do Brasil. A maioria, de origem humilde, não sabia bem o que fazer até mesmo na hora de comer e era lógico que as gafes acontecessem, uma atrás da outra.

A primeira delas envolveu o jogador Oscarino. Os cartolas viajavam na primeira classe do navio, os jogadores na segunda. Aymoré disse a Oscarino que não se devia jogar os caroços de azeitonas no chão: “Coloca-se no bolso...”

Durante uma das refeições, o garçom apareceu com duas garrafas de vinho. Uma de tinto e outra de branco. Domingos já estava lambendo os beiços. Leônidas ficou de pé, quase aplaudindo o garçom. Domingos então disse:
“Quem adivinhou que eu gostava de beber vinho?”
Leônidas emendou:
“Que a gente gostava...”
Leônidas já estava enchendo o copo, quando apareceu o técnico Luís Vinhaes, com cara de poucos amigos:
“Quem pediu o vinho?”
Leônidas, apontando para os outros jogadores disse:
“Olhe para as outras mesas...”
As mesas estavam repletas de garrafas, o que deixou Vinhaes furioso:
“Pois ninguém bebe, eu vou mandar tirar todas as garrafas.”

A justificativa para tanta disciplina tinha uma razão. Vinhaes sabia que os jogadores saíram desacreditados do Brasil. Até de ”impatriotas” foram chamados. Não melhoraria a imagem de nenhum deles se chegasse por aqui a notícia que os jogadores estavam bebendo durante a viagem. Leônidas parecia não se incomodar. À noite era a atração na boate do navio, tirando todas as moças para dançar.

Após três dias de viagem, a seleção brasileira desembarcou em Montevidéu, hospedando-se no Hotel Flórida, junto à famosa Praça da Independência. A expectativa pelo jogo era grande na cidade, embora para a maioria dos torcedores uruguaios não poderia haver “barbada” maior que essa. A informação de que a Seleção Brasileira trouxera somente jogadores novatos fez com que o clima do “já ganhou” se alastrasse pelas ruas de Montevidéu. Os jornalistas queriam saber quem era o tal Leônidas da Silva, que ia substituir Nilo, a maior estrela da seleção, que os uruguaios admiravam e conheciam muito bem.

Para os jogadores da seleção uruguaia era bom que o Brasil levasse um grupo de desconhecidos para enfrentá-los. A derrota em 31, por 2 a 0, estava atravessada na garganta dos uruguaios e pouco importava que fossem enfrentar jogadores inexperientes, que praticamente nunca tinham vestido a camisa de uma Seleção Brasileira.

O ambiente entre os jogadores brasileiros, apesar de toda a pressão, era de descontração total. Já entre os dirigentes a coisa andava de mal a pior. Renato Pacheco, presidente da CBD, que tinha ficado no Brasil tentava a todo custo fazer com que Leônidas não entrasse em campo.

Naquela época, a maneira mais rápida para fazer chegar algum recado urgente era através de telegramas e Renato não parava de enviar mensagens aos dirigentes que estavam no Uruguai, exigindo que Leônidas fosse barrado. Luís Vinhaes sabia da importância do jogador para a Seleção Brasileira e, mesmo com toda a pressão, decidiu mantê-lo na equipe principal.

O jogo estava marcado para o domingo, dia 4 de dezembro. Dois dias antes da partida, Renato Pacheco, percebendo que suas ordens não seriam atendidas, pediu demissão do cargo de presidente da Confederação Brasileira de Futebol.

O telegrama enviado pelo presidente da CBD, no dia 2 de dezembro, caiu como uma bomba na concentração da seleção. Os dirigentes resolveram esconder a mensagem dos jogadores. Somente um dia antes da partida chamaram Leônidas para conversar. Cabalero entregou ao jogador o telegrama e pediu para que lesse a mensagem. Leônidas ficou assustado, pois imaginava que poderia ficar de fora da seleção por causa da mensagem. Olhou bem para Cabalero e disse:
“Quer dizer, então, que eu não jogo?”
Cabalero respondeu:
“Claro que joga. Já providenciamos tudo para que você entre em campo. Só estamos mostrando isso a você para que entenda o quanto é importante que amanhã você entre em campo e marque um, dois, ou quantos gols puder fazer. Só assim poderemos mostrar ao Renato que estávamos certos em manter você na seleção...”

Leônidas sentou-se, para não cair de costas. Era muita responsabilidade para um jogador de apenas 19 anos, que, além do mais, ia fazer sua estreia pela Seleção Brasileira. Lembrou-se do dia em que enfrentou o Botafogo, na sua estreia como jogador profissional, nos tempos do Sírio e Libanês. Se tudo corresse bem como naquele dia, seu futuro no futebol estava garantido para sempre, mas, se não fosse assim, seria o fim de tudo.

Pouco depois do meio-dia, o ônibus que levaria a seleção ao estádio Centenário já estava estacionado na porta do Hotel Flórida, aguardando os jogadores. O domingo estava cinzento, fazia frio e uma garoa fina caía sem parar. O tempo era uruguaio, o futebol requintado de toques do Brasil estava comprometido. Enquanto o ônibus descia a Calle 18 de Julio, o silêncio era quase absoluto entre os brasileiros, até que o técnico da seleção Luís Vinhaes avistou uma parede pichada a carvão com a seguinte frase:

“Uruguaios cinco, brasileiros zero”

Vinhaes pediu ao chofer que parasse o ônibus para que todos pudessem ver e sentir a provocação da torcida uruguaia, que menosprezava nossa seleção. No mesmo instante Leônidas reagiu:
“Hoje vou comer a bola...”
No mesmo tom, Vitor nosso goleiro gritou:
“Quero ver se algum uruguaio será capaz de me marcar um gol.”
A seleção brasileira chegou ao estádio por volta das 14 horas, quando ainda acontecia a preliminar do jogo. As arquibancadas estavam praticamente vazias. Mas chega a hora de entrar em campo e quando jogo começa o estádio está completamente lotado. A chuva já havia parado, porém o gramado estava escorregadio.

O time brasileiro posiciona-se em campo, enquanto Vinhaes, Aymoré, Oscarino, Benedito e Canali, os reservas da seleção, vão para a pista que separava o campo da grade dos torcedores. Era dali, deitados, que o treinador e os reservas brasileiros teriam que assistir ao jogo.

Dentro de campo, 11 desconhecidos da torcida e dos jogadores uruguaios:

Vitor;
 Domingos e Itália;
        Agrícola, Martim e Ivan;
   Valter, Paulinho, Gradim, Leônidas e Jarbas.

O que fariam naquele jogo era uma incógnita.

A partida estava em seus primeiros minutos e o ataque brasileiro, sob o comando de Leônidas, mostrava fome de bola. A primeira jogada de perigo saiu dos seus pés, um tiro forte, certeiro, mas que acabou nas mãos do goleiro uruguaio.

A torcida, nas arquibancadas, já se preocupava com a agilidade dos brasileiros, até que Leônidas abriu o placar. A descrição da jogada é inesquecível:

“Martim avançou com a bola; a bola saiu dos pés de Martim, foi para os pés de Jarbas, que mandou a bola direitinho na cabeça de Gradim. Gradim rodou o corpo no ar, ficou de costas para o gol, de frente para Leônidas. Os braços de Aymoré e Oscarino rodearam o pescoço de Vinhaes; Vinhaes recebeu beijos no rosto, os corpos de Benedito, de Canali, rolaram pela pista abraçados, a bola estava nos fundos das redes. Machiavelo ainda não se levantara...Até o goleiro atravessou o campo para abraçar Leônidas. Leônidas caiu, os jogadores brasileiros amontoaram-se em cima dele. Gradim chorava naquele instante.”

O jogo seguiu e Leônidas continuou a infernizar a defesa uruguaia. Nazassi, craque uruguaio, bateu firme no tornozelo de Léo que caiu no gramado, gemendo de dores. O massagista brasileiro, que aliás não era brasileiro, era um uruguaio contratado para trabalhar naquele jogo, entrou em campo para socorrê-lo. Não tinha jeito, o caso era sério, Leônidas teria de ser retirado do gramado. Luís Vinhaes levantou-se na lateral do campo para conversar com jogador:
“Você acha que volta?”
“Eu voltarei sim, ainda não chegou a hora de eu sair de campo. Eu não me machuco assim. Eu sou duro na queda. Só depois de marcar um outro gol é que eles podem botar-me para fora de campo.”

Leônidas voltou a campo e pouco depois o árbitro, Tejada, apitou o final do primeiro tempo. O impossível parecia estar acontecendo. O Brasil terminava o primeiro tempo com a vantagem de 1 a 0 sobre a poderosa equipe uruguaia. Mas a batalha não havia acabado, os 45 minutos finais prometiam uma verdadeira guerra.

No segundo tempo, o Brasil retornou com o mesmo espírito de luta e prosseguiu atacando os uruguaios. A primeira jogada de perigo novamente saía dos pés de Leônidas e aquele momento jamais se apagaria da memória dos torcedores que lotavam o estádio Centenário; nunca em Montevidéu se vira nada igual:

“...de frente para o gol Leônidas dera um salto para trás, ficara de cabeça para baixo, de pernas para cima, pedalara no ar, alcançara a bola com o bico da chuteira, estendera um passe de mais de cinqüenta metros para Valter. O que mais espantou foi que, sem ver para onde passava, Leônidas entregara, com precisão matemática, a bola nos pés de Valter. Leônidas caiu de costas, não bateu, porém, com a nuca no chão. Parecia que estava acostumado a fazer aquilo todos os dias. Valter saiu correndo, Leônidas já se levantara e corria também.”

Bicicleta de Leônidas pelo SPFC, em 1947.
Todo o estádio ficou de pé, para acompanhar o desfecho daquela jogada sensacional:

“Leônidas corria como um sprinter, nas pontas dos pés, a multidão erguera-se como um homem só. Leônidas avançava, já passara pelo meio do campo, alcançara a grande área, sincronizando as largas passadas com as passadas de Valter, que agora centrava. Diante do gol chegaram juntos Leônidas e a bola. Machiavelo (goleiro do Uruguai), agitou os braços, a única coisa que lhe restava fazer era assustar Leônidas. Leônidas não se assustou: na corrida, sem parar, ele chutou a bola. A bola entrou um pouco de lado, Leônidas continuou correndo, foi até o fundo do gol para balançar as redes, para apanhar a bola. Primeiro algumas palmas, as palmas dos brasileiros espalhados nos degraus de cimento do estádio Centenário. Depois as palmas de todo mundo. Em campo Leônidas era carregado em triunfo, mais uma vez, pelos companheiros.”

Os jogadores rolavam pelo gramado abraçados a Leônidas e Juan Manuel Cabalero, o mesmo que havia conseguido a inclusão de Leônidas na equipe, chorava sem parar nas tribunas do estádio. Ele ainda teve tempo para pedir a um dirigente uruguaio que assinasse um pedaço de papel com um desenho do gol que Leônidas acabara de fazer:

“Vamos, vamos...assine aqui...se eu contar que foi assim, ninguém acredita.”

Poucos minutos após o segundo gol de Leônidas, os uruguaios marcariam o seu primeiro gol. Começava um sufoco terrível para a defesa brasileira. Domingos da Guia seguiu soberano na zaga salvando a todo instante o Brasil do empate. Faltando 15 minutos para o final, Leônidas foi atingido novamente. Dessa vez, foi acertado por Arsênio Fernandez e caiu contorcendo-se em dores. Os uruguaios estavam perdendo o controle, inconformados com a derrota, que parecia irreversível. Enquanto isso, os jogadores brasileiros, demonstravam mais união, com Gradim e Martim carregando Leônidas para ser atendido fora do gramado. De novo, Vinhaes saiu preocupado de sua posição para saber se Leônidas poderia voltar, mas lembrou-se do que o jogador havia dito minutos antes, ao se machucar:

“Depois que eu marcar o segundo gol eles podem tirar-me de campo, antes não...”

Leônidas cumpriu o prometido. No mesmo instante, Luís Vinhaes deu ordens para que Benedito fosse assinar a súmula. Leônidas já estava sem as chuteiras encostado no alambrado.

Dai para frente, ia sofrer do lado de fora. O jogo seguiu dramático até o apito final do árbitro Tejada. Para os brasileiros, mesmo que sofressem o gol de empate, o resultado não seria uma desgraça, mas a vitória seria a consagração. Tejada sopra o apito e termina a partida. Vinhaes, Oscarino, Aymoré, Agrícola, saem correndo e invadem o campo para comemorar com os jogadores que acabavam de realizar um feito histórico. O Brasil venceu sim, e venceu bem, os dois gols de Leônidas calaram toda a torcida uruguaia. Leônidas saiu pulando em uma perna só para festejar junto aos companheiros.

A revelação brasileira saiu literalmente carregado do estádio, primeiro pela vitória, depois por causa do tornozelo inchado. Agora era hora de comemorar e a comissão técnica decidiu “liberar” a festança. Os jogadores finalmente poderiam beber e comer a vontade. No Hotel Flórida, não faltaram vinho e maionese de lagosta. O importante é que os jogadores não tinham de provar mais nada a ninguém, principalmente aos dirigentes, torcedores e imprensa brasileira.

Passada a euforia pela vitória espetacular, a seleção tinha de seguir em frente e realizar mais dois jogos. Era o acerto feito entre Cabalero e Rivadávia, presidente da federação carioca. O primeiro jogo seria contra o Peñarol e o segundo contra o Nacional.

Mas uma seleção entrar em campo para enfrentar dois times locais?

Não, essa não era uma solução inteligente. O Brasil venceu os campeões do mundo e perder esses jogos significaria arranhar a conquista. Os uruguaios poderiam pensar que aquela derrota teria sido obra do acaso. Os jogadores brasileiros pensavam da mesma forma e chegaram a ameaçar uma greve, para não ter de enfrentar Penãrol e Nacional. 

Após a Copa Rio Branco, Leônidas foi contratado pelo Peñarol.
A comissão técnica conseguiu convencê-los da importância das partidas e, numa manobra inteligente, espalhou para a imprensa uruguaia que quem iria enfrentar suas equipes era na verdade a seleção da AMEA — a federação carioca. Só os brasileiros sabiam que os jogadores eram os mesmos que haviam derrotado a seleção uruguaia. Leônidas continuava machucado e não poderia entrar em campo nos dois jogos seguintes. Mas, mesmo sem suas jogadas, o Brasil venceu o Peñarol por 1 a 0 e depois o Nacional por 2 a 1.

Missão cumprida, chegava o momento de voltar ao Brasil. A expectativa dos jogadores era grande, assim como a curiosidade para saber como seriam recebidos. Deixaram o País desacreditados e, agora, voltavam como verdadeiros heróis.

E foi uma recepção digna de heróis no cais do porto carioca. Milhares de pessoas aguardavam os jogadores para uma festa fabulosa. Dezenas de lanchas ancoradas soltavam rojões para saudar o desembarque dos atletas. Leônidas e Domingos foram os primeiros a descer as escadas do navio, ou melhor, a tentar descer, pois a polícia teve até de montar um cordão de isolamento, tamanho era o delírio dos torcedores.

Em poucos minutos, Leônidas estava cercado pela multidão. O Brasil venceu, mas tinha sido ele, Leônidas, o símbolo daquela vitória. O novo ídolo brasileiro chegou a desmaiar no meio daquele tumulto todo. Do porto, os jogadores seguiram em carro aberto e desfilaram pelas ruas do Rio. Era gente por todos os cantos. Das janelas dos prédios chovia papel picado; nas ruas o grito era um só: Brasil! Brasil!

Leônidas era o dono da festa. No carro com a capota arriada, durante todo o percurso, carregava a Copa Rio Branco como quem segurava uma criança. A homenagem final ia acontecer na frente do Palácio do Catete. Lá, os jogadores foram recebidos pelo presidente Getúlio Vargas.

Daí para frente, esse grupo de “desconhecidos” passou a ser tratado como heróis nacionais. Ninguém estava preocupado, nessa altura do campeonato, com o fato dos gols terem sido marcados por jogadores de clubes pequenos: Leônidas e Gradim, do Bonsucesso, Jarbas, do Carioca, e Valter, do Esporte Clube Brasil.

O escritor José Lins do Rego, dias depois, escreveria, com exaltação, sobre nossa seleção:

“Os rapazes que nos representaram, triunfalmente, em Montevidéu, eram no fundo um retrato da nossa democracia social, onde Paulinho, filho de família importante, se uniu ao negro Leônidas, ao mulato Gradim, ao branco Martim. Tudo feito à boa moda brasileira.”

2 comentários:

  1. Te fiz elogio, comentei, compartilhei...
    E você nem tchum! rsrs
    Beijo André.
    Fui!

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  2. Poxa, Beth. Desculpe. Mas não respondo quase nada por aqui. Antes de seu comentário, enviei via face um comentário/agradecimento a vc, sempre tão presente por aqui. Não fique brava comigo minha amiga. Entenda a correria dessa vida...bjs

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