terça-feira, 24 de setembro de 2013

A Biografia de Messi



O primeiro olhar pode enganar. Uma biografia com apenas 147 páginas? É essa a impressão inicial para quem se defronta com o livro de Leonardo Faccio sobre a vida do atual jogador de futebol mais famoso do planeta, o argentino Lionel Messi.

Faccio, além de jornalista é antropólogo e, talvez por isso, consegue driblar, como o protagonista da obra pelos gramados do planeta, as dificuldades de se escrever sobre alguém tão tímido e avesso aos holofotes da grande mídia.

A edição brasileira feita pela editora Generale traz na capa o título: “A biografia de Lionel Messi”, mas para entender o fluxo de ideias e o formato dado a obra pelo autor, é importante lembrar seu título original: “Messi: o menino que sempre chegava tarde (e hoje é o primeiro)”.

A prosa de Leonardo Faccio é espetacular. Livro para ser lido de uma “tacada” só. Faccio consegue o que parece impossível: construir uma história a partir de 15 minutos do “quase nada” de que Messi lhe fala em uma das centenas de entrevistas concedidas pelo astro mundial do futebol.

Um livro com histórias sensacionais que trazem a verdadeira dimensão de um ídolo como Messi (e toda sua fragilidade), como a do encontro do super craque do futebol com o escritor Roberto Saviano, autor do polêmico livro Gomorra sobre a máfia italiana e que vive sob a custódia de mais de dez guarda-costas, 24 horas por dia.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo a sinopse e o primeiro capítulo da obra.

Sinopse (da editora):

Para os apaixonados por futebol e fãs de esportes em geral, um olhar em profundidade sobre a vida de um dos maiores astros de todos os tempos.

Futebol é o esporte mais popular do mundo, e o jogador argentino Lionel Messi se destaca como um dos melhores de sua categoria. Admirado ao redor do planeta por sua capacidade atlética, habilidade e competitividade acirrada, Messi, aos 24 anos, já havia quebrado todos recordes em um dos clubes mais tradicionais do mundo, o FC Barcelona. De pequena estatura, mas possuindo dons naturais extraordinários, Messi se transformou em uma estrela em La Masia, a famosa escola de Barcelona.

Neste livro, o autor não apenas registra a biografia de uma celebridade enigmática, mas faz também uma reflexão sobre um gênio atlético, com base em entrevistas com o jogador, com membros de sua família e com pessoas próximas, incluindo  colegas, amigos de infância e até mesmo seu açougueiro favorito.

Agora os fãs de futebol que gostam de assistir Messi ganhar vida no campo,  vão se  surpreender ao vê-lo ganhar vida nestas páginas.

Capítulo I

Lionel Messi acaba de regressar de suas férias na Disney e surge arrastando os chinelos com a falta de glamour típica dos esportistas em momentos de lazer. Poderia ter continuado seus dias de descanso na Argentina ou em qualquer país do Caribe, mas preferiu voltar a Barcelona antes da hora: Messi quer treinar. As férias, às vezes, o aborrecem. Está sentado em uma cadeira colocada no campo de futebol vazio da Cidade do Esporte, nas dependências do FC Barcelona que funcionam em um vale longe da zona residencial, um luminoso laboratório de cimento e vidro onde os treinadores transforma jogadores de futebol talentosos em autênticas máquinas de precisão. Messi é um jogador que veio sem manual de instruções, a Cidade do Esporte é sua incubadora. Naquela tarde, aceitou dar entrevistas durante quinze minutos e está contente. Depois de uma turnê com o seu clube pelos Estados Unidos, esteve na Disney com seus pais, irmãos, tios, primos, sobrinhos e sua namorada. Mickey Mouse viu em Messi o personagem perfeito para promover seu mundo de ilusões, e sua família inteira pôde ver todos os jogos em troca de uma filmagem dele nos jardins que cercam esse império dos desenhos animados. No YouTube vemos Messi fazendo malabarismos com uma bola diante de toda essa arquitetura de fantasia.

– Foi espetacular – disse ele, com mais entusiasmo do que intenção publicitária. – Finalmente aconteceu.
– O que você mais gostou da Disney?
– Os brinquedos com água, os parques, as atrações. Tudo. Eu fui até lá principalmente por causa dos meus sobrinhos pequenos, meus priminhos e minha irmã, mas, quando era criança, sempre quis ir à Disney.
– Era um sonho seu?
– Sim, acho que sim, não é? Pelo menos para os garotos com menos de 15 anos, é. Mas se você tem um pouquinho a mais também, não é?

Messi, garoto no Barça.
Na Cidade do Esporte, sentados sozinhos e cara a cara, Messi controla cada uma de suas palavras antes de saírem de sua boca. É como se a cada momento precisasse confirmar que estamos entendendo o que diz, como se pedisse autorização para falar. Quando era criança padecia de uma espécie de nanismo, um transtorno do hormônio responsável pelo crescimento. Desde então, sua pequena altura fez com que sempre pousássemos uma lupa sobre sua estatura futebolística. Visto de perto, Messi tem esse aspecto contraditório das crianças ginastas: as pernas com músculos a ponto de explodir debaixo de olhos tímidos, que não se negam a bisbilhotar. É um guerreiro com olhar infantil. Em alguns momentos, é inevitável pensar que viemos entrevistar o Super-homem, mas, no lugar dele, apareceu um desses personagens distraídos e frágeis da Disney.

– Qual é o seu personagem favorito da Disney?
– Nenhum em especial, porque, na verdade, quando eu era criança não assistia muito desenho animado – sorri – e, depois, eu vim embora jogar futebol aqui na Europa.

Quando fala futebol Messi guarda o sorriso do rosto e fica tão sério como quando vai chutar um pênalti. É esse olhar reservado que estamos acostumados a ver pela televisão. Messi não costuma sorrir enquanto joga. O negócio do futebol é muito sério: somente 25 países do mundo produzem um PIB maior do que o registrado pela indústria do futebol. É o mais popular de todos os esportes, e Messi, o principal protagonista desse show. Alguns meses depois de sua visita à Disney, atingiria o posto mais alto já alcançado por qualquer outro jogador de sua idade. Ganharia seis títulos consecutivos pelo Barcelona, seria eleito o artilheiro da Liga da Europa e o melhor jogador do mundo, além de se consagrar como o jogador mais jovem a marcar cem gols na história de seu clube, convertendo-se no craque mais bem pago do mundo, com um contrato anual de 10,5 milhões de euros, cerca de dez vezes mais do que ganhava Maradona quando jogava no Barça. No dia seguinte, Messi viajaria ao Principado de Mônaco para receber, com um terno italiano feito sob medida, o troféu de melhor jogador da Europa. Mas agora está com a franja repartida no meio, um sorriso maroto e a camisa fluorescente do Barça para fora do short de treino. Ele é um dos que mais impulsionam a roda da fortuna do futebol; no entanto, aqui parece um garoto desarrumado que veio olhar o show.

Após dominar a bola na Disney, Messi ainda tinha algumas semanas de férias e decidiu voltar ao lugar onde nasceu. Rosário, que fica ao norte de Buenos Aires, na província de Santa Fé, é a terceira maior cidade da Argentina e a terra de Che Guevara. O último gênio do futebol dividia suas horas participando de encontros com amigos de infância e ficando na casa de seus pais, no bairro Las Heras. Porém, uma semana antes do fim das férias, fez as malas e voltou para Barcelona, onde sempre é recebido por seu cachorro Facha, da raça boxer. Mora sozinho com esse animal de estimação e, em algumas temporadas, viaja acompanhado da mãe, do pai e da irmã. Os jornalistas se perguntaram por que uma grande estrela do futebol havia interrompido seus dias de descanso, sempre tão escassos. Messi disse que voltaria a treinar para ficar bem. Naquela época, jogava as eliminatórias da Copa da África do Sul na seleção argentina. Maradona era seu treinador e Messi sabia que poderia ser sua primeira Copa do Mundo como titular da camisa número 10. Queria voltar a Barcelona para continuar com o show e, ao mesmo tempo, porque sentia que, em sua cidade, estava ficando entediado.

– Adoro ir a Rosário porque tenho minha casa, meu povo, tudo...Mas fico cansado porque não faço nada – disse, levantando os ombros. – Ficava o dia inteiro à toa, e isso também é entediante.
– Você não vê televisão?
– Comecei a assistir a Lost e Prision Break, mas isso acabou me cansando.
– Por que você deixou de assistir?
– Porque sempre acontecia alguma coisa nova, uma história nova, e sempre tem alguém para contar para você.

Messi se entedia com Lost.

Messi é canhoto.

Porém, à primeira vista, parece que seu fetiche é sua perna direita: faz carinho nela como se tivesse que acalmá-la de vez em quando. Depois nos damos conta de que o objeto de seu carinho não é sua perna hiperativa, e sim um BlackBerry que está no seu bolso. Os jogadores de futebol excepcionais possuem alguns hábitos que os aproximam do resto dos mortais, e isso aprece tornar sua genialidade mais normal. Diziam que Johan Cruyff fumava no vestiário minutos antes de entrar em campo. Maradona treinava com o cadarço do tênis desamarrado e falava que, se fosse permitido, jogaria desse jeito as partidas oficiais. Romário saía para dançar à noite e dizia que o samba o ajudou a ser o artilheiro da Liga. A maioria dos jogadores de sucesso compra coisas o tempo todo, mais para ostentar o lucro momentâneo do que para garantir seu futuro. Carros novos e luxuosos, roupas chamativas, relógios extravagantes. Enquanto Ronaldinho alugou uma casa em Castelldefels, cidade catalã a meia hora de distância de Barcelona, Messi comprou a sua a três ruas de distância: uma construção de dois andares localizada no topo de uma colina, com vista para o Mediterrâneo. A despeito da caricatura de estrela com relógio Rolex de ouro, óculos Gucci gigantes e uma modelo loira a tiracolo, o gênio se entedia com os novos episódios das séries de televisão, aprecia os perfumes da moda. Na sua família todos sabem que uma fragrância embrulhada para presente sempre lhe arranca um sorriso.

– E como é um dia normal para você, depois de treinar? – pergunto.
– Eu gosto de tirar um cochilo depois do almoço. À noite, não sei...Vou jantar na casa do meu irmão.

Para dar essa entrevista, Lionel Messi havia se privado de um ritual que mantém desde criança. Todos os dias, depois do treino no clube, almoça e vai dormir. Duas ou três horas depois, acorda. O treinador do campeão olímpico de natação Michael Phelps declarou uma vez que o atleta dormia pelo menos três horas por dia, depois do almoço, para se recuperar dos treinos. Messi, em geral, não interrompe sua rotina. Dormir é para ele uma cerimônia cuja utilidade foi mudando com o tempo. Quando era criança, o descanso do sono, além da medicação, ajudava na regeneração de suas células. Messi dormia para poder crescer. Agora diz que tem outras razões para dormir à tarde. Sempre o faz do mesmo modo. Em vez de usar a larga cama que tem em seu quarto, deita-se com a roupa que está no sofá da sala. Não se importa de ficar dormindo ali enquanto alguém lava a louça na cozinha ou uma porta faça barulho ao se fechar. Hoje Messi não precisa mais crescer. Igual ao nadador Phelps e a outros jogadores de futebol, dorme à tarde para recuperar as forças, mas, sobretudo, porque não se interessa por fazer mais nada depois que se separa da bola. A lista de coisas que ele poderia comprar acaba se tornando cansativa cedo ou tarde. Tirar férias é uma forma de comprar distração, mas isso também o entedia. O sono parece ser um antídoto. Ninguém se chateia quando dorme.

Há uma coisa misteriosa nos gênios, e é natural que queiramos desvendar isso. Os fãs fazem o impossível para tocar os seus ídolos. É uma forma de comprovar que são reais. Os jornalistas, ao contrário, fazem perguntas para saber se seu mundo particular parecido com o dos mortais.

– É verdade que você é viciado em vídeo game?  - perguntou-lhe um repórter do jornal El Periódico de Cataluña.
– Antes era viciado. Agora jogo muito pouco.
– Você assiste aos jogos de futebol pela televisão? – quis saber um jornalista do El País.
– Não, não assisto. Não sou de assistir.

Antes dessa tarde que passei sozinho com Messi, centenas de jornalistas quiseram entrevistá-lo.

Um deles arriscou a própria vida tentando.

Messi e Roberto Saviano
Messi parecia não perceber. Em uma noite, terminada a partida da Copa do Rei, um homem jurado de morte esperava pelo jogador nos túneis que conduzem aos vestiários do estádio do FC Barcelona. Era o escritor Roberto Saviano. Havia procurado Messi para conhecê-lo pessoalmente, mesmo sabendo que poderia ser morto ali. Desde que fez revelações sobre a máfia de Nápoles em seu livro Gomorra, Saviano vive sem paradeiro conhecido e sob a custódia de mais de dez guarda-costas que o acompanham onde quer que ele vá, 24 horas por dia. Naquela noite, colocaram-no em uma poltrona onde não pudesse ser visto por um franco-atirador. Queria conhecer Messi pessoalmente, cumprimentá-lo, pedir um autógrafo, fazer perguntas. Queria encontra-lo sozinho, mas os guarda-costas negaram-se a desgrudar dele, repetindo que cumpriam ordens. Eles também morriam de vontade de ver o jogador que sonhava conhecer a Disney.

Algumas pessoas esperam nove meses para conseguir entrevistá-lo durante quinze minutos.
Messi conversou com Savino, que havia arriscado a própria vida para ir agradecê-lo, e disse que em Nápoles se sentiria em casa.

Trocou com ele cerca de vinte palavras.

Nada mais.

Ali, na Cidade do Esporte, depois de me falar de suas férias na Disney, Messi arqueia as sobrancelhas como faz um ator de cinema mudo que espera por mais perguntas. É como um mímico sorridente, alguém que muda de expressão o tempo todo. A eletricidade do seu corpo nos campos de futebol faz com que seja comparado a um bonequinho de PlayStation. Messi exige metáforas menos eletrônicas e mais surrealistas. O garoto que diverte milhões de pessoas não acha nada mais interessante para fazer na parte da tarde do que deitar e dormir.

Sobre Leonardo Faccio:
Nasceu em Buenos Aires, em 1971. É antropólogo, escritor e jornalista. Durante quase dez anos viveu em Barcelona, onde trabalhou para a mídia europeia e norte-americana, como El Periódico, La Vanguardia e Etiqueta Negra. Premiado com menção honrosa pela Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano de García Márquez, é um dos escritores incluídos na antologia Lo mejor del nuevo periodismo de America Latina II, editado pela FNPI e pelo Fundo de Cultura Econômica. Não era fã de futebol até que começou a seguir Lionel Messi.

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