segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Neymar - Conversa entre pai e filho



Mais um livro sobre o craque Neymar Jr. Não se trata de uma biografia, mas como o próprio título diz, “Conversa entre pai e filho”. Os depoimentos de Neymar foram gravados pelo jornalista Ivan Moré, apresentador do programa Esporte Espetacular, da TV Globo. E o texto final tem a assinatura de Mauro Beting.

Sinopse (da Editora):

Neymar Jr. rejeitou, aos treze anos, uma proposta milionária para sair do Brasil que muitos consideravam irrecusável. Permanecendo no país, seu talento e simplicidade lhe asseguraram o respeito de fãs de todos os times e a idolatria da massa santista.

Irreverente e singular, hoje o jogador acumula conquistas e fãs pelos quatro cantos do mundo. E, como poucos atletas de sua geração, conseguiu levar para dentro do campo de futebol o fator emoção e trouxe à tona o verdadeiro sentido da palavra família e – sobretudo – PAI !
Nesse livro ilustrado, pai e filho recontam a trajetória do menino Juninho. Do trágico acidente aos quatro meses de idade, passando pela infância difícil, a lapidação do talento nas categorias de base do Santos, as rédeas curtas do pai, os bastidores do mundo da bola, o segundo não para um clube europeu em 2010, as emoções dos títulos e premiações conquistadas, a relação com Davi Lucca e, ainda, revelações inéditas sobre a transferência do jogador para o Barcelona e seus planos para o futuro.

Prefácio
Por Mauro Beting

Neymar Jr.,
Quando você foi campeão da Libertadores, no dia seguinte, meu pai, Joelmir Beting, então apresentador do Jornal da Band, molhou os ralos cabelos brancos para fazer um moicano igual ao seu. Quase apresentou o telejornal daquele jeito. E olha que ele era palmeirense...

Ele foi o melhor pai que um jornalista pode ser. E o melhor jornalista que um filho pode ter como pai.

Ele te adorava. Imagino como ele ficou lá em cima, três dias depois de partir desta vida, em novembro de 2012, ao ver o filho jornalista recebendo de você, no gramado da Vila Belmiro, uma placa em homenagem a ele. Por tudo que ele amava do futebol. Logo, por tudo que ele gostava do seu futebol. Como o Maracanã e o mundo viram na Copa das Confederações. Exatos 52 anos depois de meu pai ter dado a Pelé uma placa pelo gol que virou expressão de craque – Gol de Placa.

Como hoje, e por muito tempo, você será a melhor expressão de craque brasileiro. E mundial.
Confesso que não lembro o que você me falou naquele dia, Neymar Jr., na Vila. Confesso que não lembro o que falei a você no gramado quando recebi a placa que o Santos deu a meu saudoso pai.

Nunca me senti tão emocionado e honrado por representá-lo. Tanto que não me lembro das palavras daquele momento inesquecível.

Imagino o que Neymar pai sente a cada lance seu. Sou pai e filho de craques de outros campos. Meus pais e filhos são tudo. Nem imagino o que deve ser para um pai ter um filho que é o máximo no que faz. E vai ser muito mais.

Imagino o que Neymar filho sente por ter um pai craque como ele. Companheiro como raros. Amigo como poucos. Parceiro único.

Imagino o que Ivan Moré sentiu por ser um espectador privilegiado de uma tabelinha de craques. E parabenizo a amiga Marcia Batista por ter idealizado um projeto tão especial.

Não existe time melhor que nossa família. Todas elas. Mas poucas famílias no futebol jogaram tão bem juntas como a de Neymar, que é mais que pai, e Neymar Jr., que é mais que filho. Neymar que é o Espírito do Santos Futebol Clube.

Amém!

Apresentação
Por Ivan Moré

Conheci o Neymar Jr. Pouco depois da estreia dele, quando o time do Santos ainda era dirigido por Vanderlei Luxemburgo. Lembro-me perfeitamente daquele dia. Era um Palmeiras x Santos, na Vila Belmiro. Neymar Jr. havia feito o gol decisivo, com o pé esquerdo, na vitória de 2 a 1 do time da casa. Detalhe: no gol adversário estava Marcos (o Santo Palmeirense).

No segundo tempo, Neymar Jr. foi substituído. Eu pedi permissão ao treinador, fui até o banco de reservas, sentei-me ao lado do jogador e pedi a ele que retirasse a chuteira do pé esquerdo. O gesto serviria para eu elaborar meu texto de passagem (momento em que a imagem do repórter aparece na reportagem). Lembro-me do olhar do menino Neymar Jr., assustado e surpreso, mas que atendeu na hora ao meu pedido.

Começava ali uma relação amistosa e de muito respeito com a então promessa santista. Durante as primeiras conquistas de Neymar Jr. com a camisa do Santos, tive a chance de fazer algumas reportagens especiais com o craque. Na meteórica ascensão desse garoto iluminado há uma curiosidade. Ele jamais seria o que é se não tivesse por trás a figura do pai. E o legal disso tudo é que, relembrando o passado do pai, a história que vem à tona é algo que salta aos olhos, tantos foram os problemas, desafios e situações-limite que a “família Neymar” enfrentou. E depois de uma história tão rica, só é possível constatar o seguinte: na carreira da joia lapidada nas categorias de base do Santos, nada foi por acaso.

A ideia do livro é mostrar como foi a origem desse sucesso. Por qual motivo esse jovem de penteado exótico é hoje o maior nome do esporte brasileiro? De onde vem tanta luz? Tamanha energia?

Para responder essas perguntas, mesclamos os depoimentos de pai e filho. A ideia é entender o papel e a influência de cada um na vida do outro, e de que forma essas vidas conseguiram, numa simbiose perfeita, chegar a um reconhecimento mundial.

O talento de Neymar Jr. é algo fora do comum, mas poderia se perder no “meio futebol” se o jovem não fosse muito bem direcionado. E é exatamente aí que entra a figura do pai. Ao ler Neymar – Conversa entre pai e filho o leitor entenderá a base do sucesso desse gênio chamado Neymar Jr. e o futuro promissor que o aguarda.

sábado, 28 de setembro de 2013

Saldanha e o golpe do Maracanã



Novo Maracanã. Novos preços. Novas polêmicas. O consórcio que administra o estádio, ops, Arena, que será palco da final da Copa do Mundo no Brasil deixou “geraldinos” (expressão criada para os torcedores que ficavam na antiga “geral” do estádio) sem lugar nesta nova configuração de “torcedores”.

Na literatura esportiva, um livro de crônicas escritas pelo polêmico técnico João Saldanha, “Meus amigos”, publicado em 1987 pela Editora Mitavaí, parecia antever que o “novo” Maracanã traria “velhas” polêmicas. Se hoje o problema é o valor cobrado nos espaços “populares”, Saldanha revelava naqueles tempos um “golpe” naqueles que pagavam para “alugar” o estádio para mandar seus jogos. Uma história fictícia, lembrada pelo amigo Raul Milliet Filho. Um livro obrigatório nas estantes dos apaixonados pela literatura esportiva.

O grande golpe
Por João Saldanha

O mesmo assaltante que deu o golpe no Antonio's não se emendou e tentou dar outro. Desta vez no Maracanã. Procurou saber quem era o tesoureiro e ficou esperando o homem da mala. Acabou o jogo e o homem da mala saiu pelo portão 16, sozinho e fumando um cigarro. Mole, mole: "Não se mexa, isso é um assalto".

O tesoureiro olhou triste e respondeu: "Então o senhor está me devendo 696 cruzeiros, que é o que preciso pagar de despesa hoje". O assaltante endureceu e mandou brasa: "Nada de papo furado. Eu quero o positivo".

O tesoureiro meteu a mão no bolso, puxou um papel grande e foi dizendo ao assaltante: "Tem um lápis aí?". O bandido respondeu que não, então o tesoureiro pediu ao guarda de trânsito que ia passando. Deu o lápis para o bandido e ditou: "Renda do jogo: 62.568,25. Escreveu?" - "Sim" .

"Então tome nota do resto. Mas vamos aqui para debaixo da luz que é melhor". E foram os três mais um garoto daqueles que pedem dinheiro para voltar para casa. Enxotaram o garoto e continuaram o serviço: "Despesa: quadro móvel - 5.600; ingressos 341,00; luz 600 pratas". Aí o bandido gritou: "Qual luz? Aquilo paga?" - "Paga sim e mete lá: bolas 190,00; taxa de 10%, 5.573,80; Escoteiros, 557,30". O bandido pulou de novo: "Que escoteiros? Isto é golpe!".

O tesoureiro explicou que era uma lei e até se lembrou do número e prosseguiu: Fugap, 1.114.66. Novo berro: "Esta não! Os clubes não descontam para INPS? Que negócio é este? Eu também desconto". O tesoureiro explicou a outra lei e foi em frente: "CBD, 3.128,41; Federação Carioca, 3.128,41". O bandido era inflexível e chiou: "Este número já entrou aqui agora pouco. Para cima de mim, não!". O guarda que estava prestando atenção explicou: "Estes são outros 3.128,41". O tesoureiro ajeitou os óculos e prosseguiu: "Juiz, bandeirinhas e intérprete, 1.800,00".

O assaltante já ia puxando a arma, mas o tesoureiro explicou: "Intérprete é rubrica, compreendeste? Só se paga em jogo internacional e contra times de São Paulo". O bandido fez sinal de entendimento e o tesoureiro deu a última despesa: cota do Cruzeiro 18.089,00 e cota do América, 12.904,00. O bandido ficou meio triste, mas disse: "Vai lá, manda pra cá isso mesmo". O tesoureiro não se alterou e puxou outro papel do bolso com uma porção de assinaturas. Resumindo, lá estava: vinte e um bichos a 600,00 cada, são 12.000,08. Despesas de transporte, 1.000,00. "Eu dei um vale de 698,00 para o homem que ficou de passar lá amanhã. Tens algum aí? Lá no clube não tem nada".

terça-feira, 24 de setembro de 2013

A Biografia de Messi



O primeiro olhar pode enganar. Uma biografia com apenas 147 páginas? É essa a impressão inicial para quem se defronta com o livro de Leonardo Faccio sobre a vida do atual jogador de futebol mais famoso do planeta, o argentino Lionel Messi.

Faccio, além de jornalista é antropólogo e, talvez por isso, consegue driblar, como o protagonista da obra pelos gramados do planeta, as dificuldades de se escrever sobre alguém tão tímido e avesso aos holofotes da grande mídia.

A edição brasileira feita pela editora Generale traz na capa o título: “A biografia de Lionel Messi”, mas para entender o fluxo de ideias e o formato dado a obra pelo autor, é importante lembrar seu título original: “Messi: o menino que sempre chegava tarde (e hoje é o primeiro)”.

A prosa de Leonardo Faccio é espetacular. Livro para ser lido de uma “tacada” só. Faccio consegue o que parece impossível: construir uma história a partir de 15 minutos do “quase nada” de que Messi lhe fala em uma das centenas de entrevistas concedidas pelo astro mundial do futebol.

Um livro com histórias sensacionais que trazem a verdadeira dimensão de um ídolo como Messi (e toda sua fragilidade), como a do encontro do super craque do futebol com o escritor Roberto Saviano, autor do polêmico livro Gomorra sobre a máfia italiana e que vive sob a custódia de mais de dez guarda-costas, 24 horas por dia.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo a sinopse e o primeiro capítulo da obra.

Sinopse (da editora):

Para os apaixonados por futebol e fãs de esportes em geral, um olhar em profundidade sobre a vida de um dos maiores astros de todos os tempos.

Futebol é o esporte mais popular do mundo, e o jogador argentino Lionel Messi se destaca como um dos melhores de sua categoria. Admirado ao redor do planeta por sua capacidade atlética, habilidade e competitividade acirrada, Messi, aos 24 anos, já havia quebrado todos recordes em um dos clubes mais tradicionais do mundo, o FC Barcelona. De pequena estatura, mas possuindo dons naturais extraordinários, Messi se transformou em uma estrela em La Masia, a famosa escola de Barcelona.

Neste livro, o autor não apenas registra a biografia de uma celebridade enigmática, mas faz também uma reflexão sobre um gênio atlético, com base em entrevistas com o jogador, com membros de sua família e com pessoas próximas, incluindo  colegas, amigos de infância e até mesmo seu açougueiro favorito.

Agora os fãs de futebol que gostam de assistir Messi ganhar vida no campo,  vão se  surpreender ao vê-lo ganhar vida nestas páginas.

Capítulo I

Lionel Messi acaba de regressar de suas férias na Disney e surge arrastando os chinelos com a falta de glamour típica dos esportistas em momentos de lazer. Poderia ter continuado seus dias de descanso na Argentina ou em qualquer país do Caribe, mas preferiu voltar a Barcelona antes da hora: Messi quer treinar. As férias, às vezes, o aborrecem. Está sentado em uma cadeira colocada no campo de futebol vazio da Cidade do Esporte, nas dependências do FC Barcelona que funcionam em um vale longe da zona residencial, um luminoso laboratório de cimento e vidro onde os treinadores transforma jogadores de futebol talentosos em autênticas máquinas de precisão. Messi é um jogador que veio sem manual de instruções, a Cidade do Esporte é sua incubadora. Naquela tarde, aceitou dar entrevistas durante quinze minutos e está contente. Depois de uma turnê com o seu clube pelos Estados Unidos, esteve na Disney com seus pais, irmãos, tios, primos, sobrinhos e sua namorada. Mickey Mouse viu em Messi o personagem perfeito para promover seu mundo de ilusões, e sua família inteira pôde ver todos os jogos em troca de uma filmagem dele nos jardins que cercam esse império dos desenhos animados. No YouTube vemos Messi fazendo malabarismos com uma bola diante de toda essa arquitetura de fantasia.

– Foi espetacular – disse ele, com mais entusiasmo do que intenção publicitária. – Finalmente aconteceu.
– O que você mais gostou da Disney?
– Os brinquedos com água, os parques, as atrações. Tudo. Eu fui até lá principalmente por causa dos meus sobrinhos pequenos, meus priminhos e minha irmã, mas, quando era criança, sempre quis ir à Disney.
– Era um sonho seu?
– Sim, acho que sim, não é? Pelo menos para os garotos com menos de 15 anos, é. Mas se você tem um pouquinho a mais também, não é?

Messi, garoto no Barça.
Na Cidade do Esporte, sentados sozinhos e cara a cara, Messi controla cada uma de suas palavras antes de saírem de sua boca. É como se a cada momento precisasse confirmar que estamos entendendo o que diz, como se pedisse autorização para falar. Quando era criança padecia de uma espécie de nanismo, um transtorno do hormônio responsável pelo crescimento. Desde então, sua pequena altura fez com que sempre pousássemos uma lupa sobre sua estatura futebolística. Visto de perto, Messi tem esse aspecto contraditório das crianças ginastas: as pernas com músculos a ponto de explodir debaixo de olhos tímidos, que não se negam a bisbilhotar. É um guerreiro com olhar infantil. Em alguns momentos, é inevitável pensar que viemos entrevistar o Super-homem, mas, no lugar dele, apareceu um desses personagens distraídos e frágeis da Disney.

– Qual é o seu personagem favorito da Disney?
– Nenhum em especial, porque, na verdade, quando eu era criança não assistia muito desenho animado – sorri – e, depois, eu vim embora jogar futebol aqui na Europa.

Quando fala futebol Messi guarda o sorriso do rosto e fica tão sério como quando vai chutar um pênalti. É esse olhar reservado que estamos acostumados a ver pela televisão. Messi não costuma sorrir enquanto joga. O negócio do futebol é muito sério: somente 25 países do mundo produzem um PIB maior do que o registrado pela indústria do futebol. É o mais popular de todos os esportes, e Messi, o principal protagonista desse show. Alguns meses depois de sua visita à Disney, atingiria o posto mais alto já alcançado por qualquer outro jogador de sua idade. Ganharia seis títulos consecutivos pelo Barcelona, seria eleito o artilheiro da Liga da Europa e o melhor jogador do mundo, além de se consagrar como o jogador mais jovem a marcar cem gols na história de seu clube, convertendo-se no craque mais bem pago do mundo, com um contrato anual de 10,5 milhões de euros, cerca de dez vezes mais do que ganhava Maradona quando jogava no Barça. No dia seguinte, Messi viajaria ao Principado de Mônaco para receber, com um terno italiano feito sob medida, o troféu de melhor jogador da Europa. Mas agora está com a franja repartida no meio, um sorriso maroto e a camisa fluorescente do Barça para fora do short de treino. Ele é um dos que mais impulsionam a roda da fortuna do futebol; no entanto, aqui parece um garoto desarrumado que veio olhar o show.

Após dominar a bola na Disney, Messi ainda tinha algumas semanas de férias e decidiu voltar ao lugar onde nasceu. Rosário, que fica ao norte de Buenos Aires, na província de Santa Fé, é a terceira maior cidade da Argentina e a terra de Che Guevara. O último gênio do futebol dividia suas horas participando de encontros com amigos de infância e ficando na casa de seus pais, no bairro Las Heras. Porém, uma semana antes do fim das férias, fez as malas e voltou para Barcelona, onde sempre é recebido por seu cachorro Facha, da raça boxer. Mora sozinho com esse animal de estimação e, em algumas temporadas, viaja acompanhado da mãe, do pai e da irmã. Os jornalistas se perguntaram por que uma grande estrela do futebol havia interrompido seus dias de descanso, sempre tão escassos. Messi disse que voltaria a treinar para ficar bem. Naquela época, jogava as eliminatórias da Copa da África do Sul na seleção argentina. Maradona era seu treinador e Messi sabia que poderia ser sua primeira Copa do Mundo como titular da camisa número 10. Queria voltar a Barcelona para continuar com o show e, ao mesmo tempo, porque sentia que, em sua cidade, estava ficando entediado.

– Adoro ir a Rosário porque tenho minha casa, meu povo, tudo...Mas fico cansado porque não faço nada – disse, levantando os ombros. – Ficava o dia inteiro à toa, e isso também é entediante.
– Você não vê televisão?
– Comecei a assistir a Lost e Prision Break, mas isso acabou me cansando.
– Por que você deixou de assistir?
– Porque sempre acontecia alguma coisa nova, uma história nova, e sempre tem alguém para contar para você.

Messi se entedia com Lost.

Messi é canhoto.

Porém, à primeira vista, parece que seu fetiche é sua perna direita: faz carinho nela como se tivesse que acalmá-la de vez em quando. Depois nos damos conta de que o objeto de seu carinho não é sua perna hiperativa, e sim um BlackBerry que está no seu bolso. Os jogadores de futebol excepcionais possuem alguns hábitos que os aproximam do resto dos mortais, e isso aprece tornar sua genialidade mais normal. Diziam que Johan Cruyff fumava no vestiário minutos antes de entrar em campo. Maradona treinava com o cadarço do tênis desamarrado e falava que, se fosse permitido, jogaria desse jeito as partidas oficiais. Romário saía para dançar à noite e dizia que o samba o ajudou a ser o artilheiro da Liga. A maioria dos jogadores de sucesso compra coisas o tempo todo, mais para ostentar o lucro momentâneo do que para garantir seu futuro. Carros novos e luxuosos, roupas chamativas, relógios extravagantes. Enquanto Ronaldinho alugou uma casa em Castelldefels, cidade catalã a meia hora de distância de Barcelona, Messi comprou a sua a três ruas de distância: uma construção de dois andares localizada no topo de uma colina, com vista para o Mediterrâneo. A despeito da caricatura de estrela com relógio Rolex de ouro, óculos Gucci gigantes e uma modelo loira a tiracolo, o gênio se entedia com os novos episódios das séries de televisão, aprecia os perfumes da moda. Na sua família todos sabem que uma fragrância embrulhada para presente sempre lhe arranca um sorriso.

– E como é um dia normal para você, depois de treinar? – pergunto.
– Eu gosto de tirar um cochilo depois do almoço. À noite, não sei...Vou jantar na casa do meu irmão.

Para dar essa entrevista, Lionel Messi havia se privado de um ritual que mantém desde criança. Todos os dias, depois do treino no clube, almoça e vai dormir. Duas ou três horas depois, acorda. O treinador do campeão olímpico de natação Michael Phelps declarou uma vez que o atleta dormia pelo menos três horas por dia, depois do almoço, para se recuperar dos treinos. Messi, em geral, não interrompe sua rotina. Dormir é para ele uma cerimônia cuja utilidade foi mudando com o tempo. Quando era criança, o descanso do sono, além da medicação, ajudava na regeneração de suas células. Messi dormia para poder crescer. Agora diz que tem outras razões para dormir à tarde. Sempre o faz do mesmo modo. Em vez de usar a larga cama que tem em seu quarto, deita-se com a roupa que está no sofá da sala. Não se importa de ficar dormindo ali enquanto alguém lava a louça na cozinha ou uma porta faça barulho ao se fechar. Hoje Messi não precisa mais crescer. Igual ao nadador Phelps e a outros jogadores de futebol, dorme à tarde para recuperar as forças, mas, sobretudo, porque não se interessa por fazer mais nada depois que se separa da bola. A lista de coisas que ele poderia comprar acaba se tornando cansativa cedo ou tarde. Tirar férias é uma forma de comprar distração, mas isso também o entedia. O sono parece ser um antídoto. Ninguém se chateia quando dorme.

Há uma coisa misteriosa nos gênios, e é natural que queiramos desvendar isso. Os fãs fazem o impossível para tocar os seus ídolos. É uma forma de comprovar que são reais. Os jornalistas, ao contrário, fazem perguntas para saber se seu mundo particular parecido com o dos mortais.

– É verdade que você é viciado em vídeo game?  - perguntou-lhe um repórter do jornal El Periódico de Cataluña.
– Antes era viciado. Agora jogo muito pouco.
– Você assiste aos jogos de futebol pela televisão? – quis saber um jornalista do El País.
– Não, não assisto. Não sou de assistir.

Antes dessa tarde que passei sozinho com Messi, centenas de jornalistas quiseram entrevistá-lo.

Um deles arriscou a própria vida tentando.

Messi e Roberto Saviano
Messi parecia não perceber. Em uma noite, terminada a partida da Copa do Rei, um homem jurado de morte esperava pelo jogador nos túneis que conduzem aos vestiários do estádio do FC Barcelona. Era o escritor Roberto Saviano. Havia procurado Messi para conhecê-lo pessoalmente, mesmo sabendo que poderia ser morto ali. Desde que fez revelações sobre a máfia de Nápoles em seu livro Gomorra, Saviano vive sem paradeiro conhecido e sob a custódia de mais de dez guarda-costas que o acompanham onde quer que ele vá, 24 horas por dia. Naquela noite, colocaram-no em uma poltrona onde não pudesse ser visto por um franco-atirador. Queria conhecer Messi pessoalmente, cumprimentá-lo, pedir um autógrafo, fazer perguntas. Queria encontra-lo sozinho, mas os guarda-costas negaram-se a desgrudar dele, repetindo que cumpriam ordens. Eles também morriam de vontade de ver o jogador que sonhava conhecer a Disney.

Algumas pessoas esperam nove meses para conseguir entrevistá-lo durante quinze minutos.
Messi conversou com Savino, que havia arriscado a própria vida para ir agradecê-lo, e disse que em Nápoles se sentiria em casa.

Trocou com ele cerca de vinte palavras.

Nada mais.

Ali, na Cidade do Esporte, depois de me falar de suas férias na Disney, Messi arqueia as sobrancelhas como faz um ator de cinema mudo que espera por mais perguntas. É como um mímico sorridente, alguém que muda de expressão o tempo todo. A eletricidade do seu corpo nos campos de futebol faz com que seja comparado a um bonequinho de PlayStation. Messi exige metáforas menos eletrônicas e mais surrealistas. O garoto que diverte milhões de pessoas não acha nada mais interessante para fazer na parte da tarde do que deitar e dormir.

Sobre Leonardo Faccio:
Nasceu em Buenos Aires, em 1971. É antropólogo, escritor e jornalista. Durante quase dez anos viveu em Barcelona, onde trabalhou para a mídia europeia e norte-americana, como El Periódico, La Vanguardia e Etiqueta Negra. Premiado com menção honrosa pela Fundación Nuevo Periodismo Iberoamericano de García Márquez, é um dos escritores incluídos na antologia Lo mejor del nuevo periodismo de America Latina II, editado pela FNPI e pelo Fundo de Cultura Econômica. Não era fã de futebol até que começou a seguir Lionel Messi.

domingo, 22 de setembro de 2013

Parabéns Ronaldo Fenômeno


38 anos de um fenômeno. Nunca um apelido foi tão justificado na história de um jogador de futebol como o de Ronaldo. Fenômeno. Mais do que apelido, um adjetivo. Uma vida nos gramados marcada pelas conquistas e a constante superação devido às graves contusões sofridas.

Renasceu em momentos que poucos imaginavam voltar a ver o “Fenômeno” em campo.
Literatura na Arquibancada resgata abaixo parte do texto dedicado a Ronaldo no livro A Magia da Camisa 10 (Verus Editora, 2006).

Antes que o leitor ache estranho, no livro, o Fenômeno integra um capítulo dedicado aos “10 que não eram 10”. Ou seja, apesar de entrar para a história do futebol mundial como um dos maiores centroavantes de todos os tempos, poderia muito bem vestir o “manto sagrado” reservado aos eternos camisas 10 do planeta.

Na literatura esportiva brasileira e mundial existem alguns livros sobre o craque fenômeno.

Um deles foi escrito pelo jornalista inglês James Mosley, publicado no Brasil, em 2005, pela Verus Editora com o título “Ronaldo – A jornada de um gênio”.

Antes deste, em 2002, já havia sido lançado “Ronaldo: Glória e Drama no Futebol Globalizado” (Editora 34), de Jorge Caldeira.

E mais antigo ainda, há a biografia, “Carrasco de goleiros – Um fenômeno chamado Ronaldinho” (Editora Palavra Mágica), do trio de autores Luiz Puntel, Luiz Carlos Ramos e Brás Henrique.

Na Itália, outro lançamento, mas sem publicação no Brasil: “Ronaldo – La vera storia del fenômeno”.












10 que não eram 10
Por André Ribeiro e Vladir Lemos

Ronaldo Luiz Nazário de Lima nasceu em 22 de setembro de 1976. Filho de uma família pobre, ganhou a primeira bola de plástico com quatro anos de idade. Nem mesmo a forte marcação da mãe impediu suas escapadas, que tinham como destino os campinhos do bairro de Bento Ribeiro, na zona norte do Rio de Janeiro. Com oito anos já participava dos treinos e amistosos do Valqueire Tênis Clube. Como a equipe não tinha jogadores das categorias menores, precisou ter paciência até poder estrear.

Seu talento impressionava, e Ronaldo foi levado por seu treinador para um time de futebol de salão, o Social Ramos Clube, que lhe pagava a condução e lhe dava, além do lanche, um par de tênis para jogar. Diz a lenda que, em um confronto com o Clube Municipal terminado em 12 a 1, Ronaldo marcou nada menos que 11 gols. Seus dribles curtos foram ficando cada vez mais perfeitos, e a condição constante de artilheiro levou-o para o modesto São Cristóvão. Ronaldo queria mais. Fez testes no Flamengo e no Fluminense e só não ficou porque os dois clubes deixaram de lhe oferecer o dinheiro para o transporte.

Como o lateral Araty um dia se encantou com o futebol de Garrincha, Jairzinho, companheiro de Pelé na Copa de 1970, ao se deparar com o talento de Ronaldo, decidiu comprar o passe do garoto. Pagou por ele sete mil dólares. Em dois anos de São Cristóvão Ronaldo marcou 44 gols. Antes mesmo de completar 17 anos, foi negociado com o Cruzeiro. Seu passe era estimado em um milhão de dólares, mas, se o clube mineiro pagasse 40 mil dólares, ficaria com o candidato a craque. Contratado para defender os times de base, em cinco meses chegou à equipe principal e, depois de um começo tímido, revelou sua imensa vocação para o gol. 

Virou o preferido da torcida e com apenas 17 anos foi convocado para defender a seleção brasileira na Copa do Mundo dos Estados Unidos. Precisou lidar com o desgosto de não entrar em campo durante a campanha que levou o Brasil ao quarto título mundial. Anos mais tarde descobriria que a experiência não teria sido em vão. Mesmo sem jogar, Ronaldo passou a ser visto como uma grande estrela e não escapou das exigências feitas por essa condição. Despertou o interesse de grandes clubes europeus e acabou negociado com o PSV, da Holanda, que pagou sete milhões de dólares por seu passe, a maior negociação do futebol brasileiro até aquele momento. Os cuidados dispensados por seu novo clube incluíram um programa de fortalecimento cujos resultados foram impressionantes. Em pouco mais de um ano, Ronaldo ganhou seis quilos e quatro centímetros.

No final de 1995, ano em que conquistou a Copa da Holanda e transformou-se em artilheiro nacional, Ronaldo começou a sofrer com os constantes problemas no joelho. Mesmo operado em fevereiro do ano seguinte, foi vendido ao Barcelona pela fortuna de 20 milhões de dólares. Era muito pouco perto do encanto que Ronaldo causaria na torcida catalã com seus incríveis gols.

Ronaldo ganhou nova dimensão. Já não era possível sair às ruas como um cidadão comum. A Espanha vivia a febre da “Ronaldomania”. Como no PSV, tornou-se artilheiro na temporada de estreia. Conquistou a Supercopa e a Recopa Europeia e incendiou os bastidores do Camp Nou ao ser vendido para a Inter de Milão, por 42 milhões de dólares. Foi recebido no Estádio Giuseppe Meazza por nada menos do que 50 mil torcedores. Os 25 gols marcados não garantiram o título, mas Ronaldo passou a ser o maior artilheiro do Campeonato Italiano na condição de estreante. O ano de 1997, no entanto, não ficou sem uma conquista. O triunfo na Copa da Uefa deu ao menino de Bento Ribeiro um novo apelido: Fenômeno.

Em 1998, na Copa da França, os joelhos de Ronaldo podiam não estar na melhor forma, mas o mundo se rendera ao seu talento. A campanha brasileira, especialmente na semifinal contra a Holanda, reforçou esse sentimento. Na final contra a França parecia que o mundo estava prestes a conhecer um novo rei. Horas antes da partida decisiva, porém, ao que tudo indica, Ronaldo sucumbiu às pressões que sua própria história lhe havia imposto. Vítima de uma convulsão, supostamente causada por estresse, chegou a ficar de fora do time que entraria em campo. Depois de uma bateria de exames realizada em um hospital de Paris, ganhou de volta um lugar no time. Contudo, esteve irreconhecível. Em nenhum momento mostrou-se aquele jogador fatal. A equipe brasileira, dividida entre o desejo de um novo título e a necessidade de superar a tragédia recente, acabou goleada pelos donos da casa por 3 a 0. Nenhuma derrota poderia ter sido mais contundente. Era o início de um longo calvário, abrandado pela conquista da Copa América, em 1999. Em novembro desse mesmo ano, durante uma partida contra o Lecce, pelo Campeonato Italiano, Ronaldo deixou o campo mancando. Exames revelaram o rompimento do tendão da rótula. A cirurgia para restaurá-lo afastou o jogador dos gramados por cinco meses.

O retorno tão esperado se deu no dia 12 de abril de 2000, na primeira partida da final da Copa da Itália, contra a Lazio. Corria o segundo tempo quando o técnico Marcelo Lippi chamou o Fenômeno. Incentivado pela torcida, Ronaldo, seis minutos após entrar em campo, recebeu a bola na entrada da área adversária, fez uma finta com o corpo e desabou. Silêncio. O joelho deslocado era uma imagem impressionante, acentuada pelo desespero da dor. A patela do joelho direito rompida dividiu a opinião de especialistas sobre a possibilidade de o jogador voltar ao futebol. Afinal, a contusão era novamente no joelho recém-operado. Um longo e delicado tratamento manteve Ronaldo ausente por 17 meses e 8 dias. Mesmo sem escapar dos problemas musculares comuns aos atletas que passam por períodos prolongados de inatividade, o Fenômeno voltou.

Em 2002, na Copa da Ásia, seduziu os olhares do mundo. Nem mesmo o maior craque do planeta, Pelé, escaparia da fome de vitória de Ronaldo: “Vou para o campo pensando apenas neste jogo. Quero conquistar o penta. Minhas contusões não foram e nem são psicológicas, como disse o Pelé. Só eu sei o que senti. Mas não adianta polemizar. O jogo é jogado e não falado”.

Marcado pela dor e endeusado pelo talento e obstinação, Ronaldo viveria seu maior momento como jogador naquela Copa. Fez de tudo, até gol de bico, e, ao marcar os dois gols na vitória por 2 a 0 sobre a Alemanha, na final do Mundial da Coréia e Japão, deu novo rumo à própria história. Calou seus críticos e terminou o torneio como artilheiro, com oito gols.

Ronaldo transferiu-se para o Real Madrid depois do Mundial da Ásia e reafirmou o ótimo momento ao marcar os gols que deram o título do Campeonato Mundial Interclubes de 2002, ano em que recebeu da Fifa, pela terceira vez, o prêmio de melhor jogador do mundo.
A troca da Inter de Milão pelo Real Madrid gerou polêmica. Ronaldo foi acusado pelos torcedores italianos de traidor. Preferiu calar-se durante três meses, mas depois justificou a saída creditando ao técnico da Inter sua decisão: “Sei que com ele [Héctor Cúper] pus em risco minha carreira”.

Em 2003 Ronaldo ajudou o time merengue a ficar com a taça do Campeonato Espanhol pela 29ª vez. Na sequência, conquistou a Supercopa da Espanha, e em 2007, o trigésimo título do Real Madrid.

Na Copa de 2006, o Brasil acabou eliminado nas quartas de final pela França de Zidane. Era o último mundial disputado por Ronaldo que entrava para a história das copas o recorde de 15 gols marcados em 3 edições jogadas.

Após a Copa da Alemanha, Ronaldo aparecia nas manchetes do mundo inteiro mais pelo peso, ostentando uma bela “barriga”. Acabou deixando o Real Madrid em 2007 para jogar (ou tentar) no Milan onde o sonho de voltar a brilhar tornou-se um verdadeiro martírio na vida do craque fenômeno.

Em fevereiro de 2008 sofreu nova contusão que o afastou por vários meses dos gramados. Retornou ao Brasil para encerrar a carreira de maneira gloriosa, no Corinthians. Dentro dos gramados, não conseguiu trazer para o Timão o tão sonhado título da Libertadores, mas ajudou o clube alvinegro a se estruturar definitivamente fora dele, com estrutura profissional para jogadores e campanhas de marketing jamais vistas e alcançadas pelo Corinthians.

Ronaldo Fenômeno teve duas despedidas inesquecíveis: pelo Corinthians e Seleção Brasileira. Deixou os gramados para entrar definitivamente na história do futebol mundial.

* Estatísticas levantadas pelo excelente site www.imortaisdofutebol.com onde o leitor pode encontrar também bela perfil de Ronaldo Fenômeno.

Clubes: Cruzeiro-BRA (1993-1994), PSV-HOL (1994-1996), Barcelona-ESP (1996-1997), Internazionale-ITA (1997-2002), Real Madrid-ESP (2002-2007), Milan-ITA (2007-2008) e Corinthians-BRA (2009-2011).
Principais títulos por clubes: 1 Copa do Brasil (1993) e 1 Campeonato Mineiro (1994) pelo Cruzeiro.
1 Copa da Holanda (1996) pelo PSV.
1 Recopa Europeia (1997), 1 Copa do Rei (1997) e 1 Supercopa da Espanha (1996) pelo Barcelona.
1 Copa da UEFA (1998) pela Internazionale.
1 Mundial Interclubes (2002), 2 Campeonatos Espanhóis (2003 e 2007) e 1 Supercopa da Espanha (2003) pelo Real Madrid.
1 Copa do Brasil (2009) e 1 Campeonato Paulista (2009) pelo Corinthians.
Principais títulos por seleção: 2 Copas do Mundo (1994 e 2002), 2 Copas América (1997 e 1999), 1 Copa das Confederações (1997) e 1 Medalha de Bronze Olímpica (1996) pelo Brasil.

Principais títulos individuais:
Melhor Jogador do Mundo pela FIFA: 1996, 1997 e 2002
Bola de Ouro da Revista France Football: 1997 e 2002
Onze d´Or: 1997 e 2002
Melhor Jogador do Mundo pela Revista World Soccer: 1996, 1997 e 2002
Chuteira de Ouro da UEFA: 1997
Melhor Jogador da Copa do Mundo FIFA: 1998
Melhor Jogador do Mundial Interclubes: 2002
FIFA 100: 2004
Artilharias:
Supercopa Libertadores de 1993 (12 gols)
Campeonato Mineiro de 1994 (23 gols)
Campeonato Holandês de 1994/95 (30 gols)
Campeonato Espanhol de 1996/97 (34 gols)
Copa América de 1999 (5 gols)
Copa do Mundo de 2002 (8 gols)
Campeonato Espanhol de 2003/04 (25 gols)
Maior artilheiro da história das Copas do Mundo (15 gols em 4 edições): 1994 (não jogou), 1998 (4 gols), 2002 (8 gols) e 2006 (3 gols)