quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Os números do jogo



Tem gente que não acredita ou absolutamente ignora as tais “estatísticas” apresentadas sobre um jogo de futebol. Para essas pessoas e também para os que adoram analisar “números dos jogos”, um livro imperdível. Trata-se de “Os números do jogo - Por que tudo o que você sabe sobre futebol está errado” (Companhia das Letras). Os autores são dois especialistas: David Sally, especialista em estratégias e o estatístico Chris Anderson. A tradução do jornalista André Fontenelle.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo o prefácio da edição brasileira, assinado por um apaixonado pelos números, o jornalista Paulo Vinícius Coelho, o PVC e também a introdução da obra, que também pode ser acessada na íntegra, na página da editora:

Prefácio à edição brasileira
Por Paulo Vinícius Coelho, o PVC


Lançamentos longos criam mais chances de gol que cruzamentos? Tentar o drible na própria metade do campo pode prejudicar sua equipe? O 4-4-2 é uma formação mais eficiente que o 4-3-3? Sob que condições e contra que rivais?

Sabemos que no futebol não existe fórmula para a vitória, mas a “dataficação” da vida está se infiltrando no esporte, mostrando a treinadores, jogadores, torcedores e comentaristas que o jeito como as coisas sempre foram feitas não é, necessariamente, a forma como elas devem ser feitas.

Cientistas e estatísticos criaram formas diferentes para compreender o papel da previsibilidade e da aleatoriedade no futebol, mas a questão essencial que muitos deles discutem atualmente é a mesma. Também é, por acaso, a mesma questão que Charles Reep, o inventor das estatísticas do futebol, tentou responder na década de 1950: partidas de futebol e campeonatos são decididos pelo talento ou pela sorte?

De forma surpreendente, o estatístico Chris Anderson e o especialista em estratégias David Sally mostram por que os números do jogo podem nos ajudar a compreender o futebol em sua essência. Ao ler este livro, você vai descobrir por que os escanteios devem ser cobrados curtinho, por que o futebol é um esporte do elo mais fraco e por que demitir o treinador não resolve absolutamente nada.


Introdução:
Futebol para os céticos — a contrarreforma

“No esporte, o fato é mais poderoso do que aquilo em que você acredita. 

Só ele pode lhe dar alguma vantagem”.
Bill James

Durante muito tempo, quatro palavras dominaram o futebol:

Sempre foi feito assim.

O jogo bonito está arraigado na tradição. O jogo bonito agarra-se a seus dogmas e truísmos, a suas crenças e credos. O jogo bonito pertence a homens que não querem ver seu domínio ameaçado por intrusos que sabem que enxergam o jogo como ele realmente é. Esses homens não querem que lhes digam que há mais de um século eles estão deixando de perceber alguns fatos. Que existe um conhecimento que eles não possuem. Que o jeito como eles sempre fizeram as coisas não é como as coisas devem ser feitas.

O jogo bonito é deliberadamente ignorante. O jogo bonito está maduro para a mudança.

E no cerne dessa mudança estão os números. São os números que vão desafiar as ideias preconcebidas e subverter as normas, renovar as práticas e demolir antigas crenças. São os números que vão nos permitir ver o jogo como nunca o vimos antes.

Todo clube de nível mundial sabe disso. Todos empregam equipes de analistas — especialistas na coleta e na interpretação de dados — que usam a informação que conseguem reunir para planejar treinos, criar sistemas de jogo, preparar negociações. Milhões de dólares e centenas de títulos estão em jogo. Todo clube está preparado para fazer o que for preciso para obter a mais ínfima vantagem.


Mas o que nenhum desses clubes fez, até agora, foi pegar esses números e reconhecer a verdade recôndita. Não é só uma questão de coletar dados. É preciso saber o que fazer com eles.

Essa é a nova fronteira do futebol. Costuma-se dizer que não se pode, ou não se deve, reduzir o futebol a meras estatísticas. Isso, dizem os críticos, tira a beleza do jogo. Mas não é o que pensam os clubes que lutam para conquistar a Champions League ou a Premier League (o campeonato inglês), ou os países na disputa para ganhar a Copa do Mundo. Tampouco é o que nós pensamos. Acreditamos que cada fiapo de conhecimento que juntamos nos ajuda a amar ainda mais o futebol, em toda a sua gloriosa complexidade. Esse é o futuro.

Não há como interrompê-lo. Não dá para dizer que todas as tradições do futebol estão erradas. Os dados que hoje podemos reunir e analisar confirmam que parte daquilo que sempre se acreditou ser verdade é, de fato, verdade. Para além disso, porém, os números nos oferecem outras verdades, esclarecem coisas que não temos como saber intuitivamente e expõem a falsidade do “sempre foi feito assim”. O maior problema de seguir uma tradição venerável e um dogma estabelecido é que ambos raramente são questionados. O conhecimento fica estagnado, enquanto o próprio esporte e o mundo em torno dele mudam.

Fazendo Perguntas

Rory Delap, cobrando lateral no Stoke City.

Era uma pergunta simples, tão comum entre os americanos que falam de futebol.

“Por que eles fazem isso?”

Dave e eu estávamos assistindo aos melhores momentos de uma partida da primeira divisão inglesa, quando algo chamou sua atenção. Não foi nenhum lance de incrível habilidade ou de beleza hipnotizante, nem um erro grosseiro de arbitragem, mas algo muito mais prosaico. Dave estava pasmo, da mesma forma que inúmeros zagueiros antes dele, pelos arremessos laterais longos de Rory Delap.

Toda vez que o Stoke City tinha que cobrar um arremesso lateral ao alcance da área adversária, Delap trotava ao longo da linha lateral, enxugava a bola com a camisa — ou, quando o time jogava em casa, com uma toalha estrategicamente posicionada para esse objetivo — e a catapultava para a área, uma, duas, três, quantas vezes pudesse.

Para mim, que sou um ex-goleiro, era evidente a vantagem dos arremessos de Delap. Eu expliquei a Dave: o time do Stoke era razoável, mas faltava um pouco de velocidade e, mais que isso, faltava talento. O que não faltava a seus jogadores, porém, era tamanho. Por que não, então, quando a bola saía pela linha lateral, aproveitar a oportunidade para criar uma chance de gol? Por que não semear um pouco de confusão nas hostes adversárias? Aparentemente dava certo.

Mas não foi o bastante para saciar a curiosidade de Dave. Só serviu para que ele fizesse a inevitável pergunta seguinte.

“Então por que nem todo mundo faz assim?”


A resposta era igualmente óbvia: nem todo time tem um Rory Delap, alguém capaz de arremessar a bola a uma grande distância com a mesma trajetória regular, tal qual uma pedra, que deixa os zagueiros em pânico, e os goleiros, confusos.

Dave, um ex-arremessador de beisebol, tentou outra abordagem: “Mas não dá para procurar e achar um outro Rory Delap? Ou mandar um jogador do time levantar peso e treinar lançamento de dardo e de martelo?”.

Não era tão simples assim. Sim, as perguntas de Dave estavam ficando chatas, como as de uma criança insistente; o mais irritante é que eu não tinha uma boa resposta.

“Você pode jogar como o Stoke”, contra-argumentei, “se você tem um Delap e um monte de zagueiros altos. Mas não é um jogo muito atraente. Não é assim que se faz, a não ser quando não há outro jeito.”

É isso. Tudo o que me restava, como se eu fosse um pai incapaz de responder. “Porque sim.”

Porque, sim, há coisas que não se fazem quando se joga futebol. Porque, sim, embora um gol surgido de lateral valha o mesmo que um gol oriundo de uma troca de passes habilidosa, é como se esse gol não valesse a mesma coisa. Porque, sim, para um purista, um gol assim é menos merecido.

Mas as intermináveis perguntas de Dave — Por quê? Por quê? Por quê? — me importunavam. Se dá certo para o Stoke, por que outros times não fazem o mesmo? Quem tinha razão? Os Stoke, responsável por um terço das chances de gol a partir de arremessos laterais no Campeonato Inglês daquele ano — ou os outros times, que claramente não sentiam necessidade, ou não queriam, incluir o arremesso longo em seu arsenal?

David Sally e Chris Anderson.

Por que existem coisas que simplesmente “não se fazem”?

Por que o futebol é jogado como ele é jogado?

Tentamos responder essas duas importantíssimas perguntas usando nossos conhecimentos e nossas habilidades — eu, como especialista em economia política, e Dave, como especialista em economia comportamental —, nossa disciplina de cientistas sociais, nossas experiências como goleiro e arremessador de beisebol e nosso amor pelo esporte e pela solução de problemas complicados. O resultado é este e está em suas mãos — um livro sobre futebol e números.

O futebol sempre foi um jogo de números: 1 x 1, 4-4-2, os grandes camisas 9, a sagrada camisa 10. Isso não vai mudar, e não queremos que mude jamais. Mas há uma “contrarreforma” ganhando corpo, que pode tornar outro grupo de números igualmente importante: 2,66; 50-50; 53,4; <58<73<79 e 0>1 vão se mostrar fundamentais para o futuro do futebol.

Este é um livro sobre a essência do futebol — o gol, o acaso, a tática, o ataque e a defesa, a posse de bola, os superastros, os pontos fracos, a preparação e o treinamento, os cartões vermelhos e as substituições, a liderança eficiente, a contratação e a demissão de treinadores — e a forma como tudo isso se relaciona com os números.

Sobre os autores:

David Sally, é ex-jogador de beisebol e professor na Tuck School of Business na Faculdade Darmouth, em Hanover, New Hampshire (EUA), onde analisa as estratégias de pessoas ao jogar, competir, negociar e tomar decisões. É conselheiro de diversos clubes e outras organizações da indústria do futebol mundial.


Chris Anderson. Aos dezessete anos, foi goleiro de um time da quarta divisão na Alemanha Ocidental. Hoje, é professor de estatística na Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York (EUA). Já prestou consultoria a alguns dos mais importantes clubes de futebol do mundo.

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