quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Faces do Futebol-Arte



Na literatura esportiva brasileira deve-se comemorar iniciativas que transformem em livro teses acadêmicas de qualidade. Foi o que fez a Secretaria da Cultura do Estado do Ceará que, no início de 2010, criou o I Prêmio Literário para autores cearenses (uma das maiores premiações para a literatura na história do Ceará), destinado à publicação de obras inéditas em romances, poesia, contos, quadrinhos, temas culturais e científicos. Das 14 categorias criadas, a “Selo Editorial”, levou o nome do importante escritor Manoel Coelho Raposo, chamado de “o artesão da palavra”, “poeta da liberdade” e que via nos livros sua “janela para o mundo”.

O esporte acabou se beneficiando porque uma das obras premiadas foi a do mestre em Sociologia, Diego Frank Cavalcante, autor do interessante “Faces do Futebol-Arte no Brasil: da sedução malandra à imaginação tática” (Coleção Ceará Cadinho, Expressão Gráfica, 2011).

Introdução
Por Diego Frank Cavalcante


No vão da história da humanidade, várias sociedades se regozijam por serem celeiros de grandes pensadores e por darem contribuições na política etc. Pois digo que o Brasil desponta como uma “constituição” sócio-cultural produtora de pensadores dos mais distintos: Pelé, Garrincha, Zico, Ronaldinho Gaúcho, Rivelino, Tostão, Romário, Kaká, Didi, Ronaldo, Friedenreich, Leônidas da Silva e tantos outros grandes “pensadores da bola”.

Esse trabalho é um reconhecimento ao pensamento brasileiro, mais especificamente ao que se poderia chamar de pensamento futebolístico. Não se trata de mais um esforço para uma “construção” de identidade brasileira a partir do futebol. Mas, antes, de perceber o que está envolvido na forma do brasileiro pensar e, sobretudo, qual a lógica desse pensamento. Como ele funciona?

Tomando a mediação corporal como aspecto privilegiado de análise e interpretação, enfatizo o drible como indício que nos leva a diferentes estilos de pensamento. Utilizo esse recurso por entender que essa forma de interação, caracterizada por um “duelo” (driblador-marcador), concentra o problema (dar seguimento à jogada) em um dado jogador. Trata-se, portanto, de uma jogada que “exige” um esforço de pensamento, tornando-o mais evidente e de mais clara descrição.

No primeiro capítulo, mostrarei que o pensar aqui está relacionado à capacidade de criar, de manipular os códigos vigentes e transcendê-los. Trata-se de sugerir novas funções sígnicas. No futebol, pode-se dizer que isso se dá a partir da “invenção” de espaços. Este é criado quando surgem inovações sintáticas nas quais não encontram um código que as associem com precisão ao campo semântico. Isso significa a utilização de gestos, movimentos e uma relação com a bola na qual o marcador não consegue interpretar os indícios do percurso. Logo, torna-se incapaz de prever o deslocamento do “driblador”, deixando o espaço “livre”.


Para isso, farei uma análise semiótica a fim de analisar e descrever como esse pensar faz, como diz Deleuze (1992), a “linguagem gaguejar”. Se a análise semiótica nos serve para compreender uma experiência em termos de significação baseada em sistemas de signficacão, esse recurso serve também para analisar a invenção como processo de sobre-significação e “(des) comunicação”. Por outros termos, pode-se analisar a invenção a partir da sua capacidade de “reconfigurar” o campo semântico e dificultar a representação.

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Múltiplos “feixes” permeiam o mundo contemporâneo do futebol brasileiro; nomes luminosos em outdoors; imagem venerada na televisão; exorbitante montante financeiro envolvido; violência e fanatismo no comportamento das torcidas. Este amálgama de elementos, Mauss (2003) chamou, em outro contexto, de fato social total. Neste último, mobilizam-se dimensões religiosas, econômicas, políticas, morais, estéticas e ideológicas em um fenômeno singular.

O futebol para o brasileiro está para além de uma prática esportiva. Ele se coadunou à cultura brasileira, absorvendo-a e tornando-se parte dela. A partir do futebol, podemos perceber a manifestação da malandragem, ginga, “jogo de cintura” do chamado “jeitinho brasileiro” nos movimentos dos jogadores.

Com a inserção do esporte nas “malhas” do sistema capitalista, sobretudo na sua veiculação nos meios de comunicação, o futebol passou a ser fortemente influenciado por tendências que o inserem na lógica de uma sociedade moderna e contemporânea: uma disciplinar, na qual os movimentos são voltados para o aumento da produção e ocupação racional dos espaços; e outra do consumo; a partir da transformação do jogo em mercadoria a ser consumida através das transmissões televisivas.

Marcos Mendonça: goleiro da seleção brasileira e do Fluminense

O interesse da pesquisa volta-se para a compreensão de um “pensamento futebolístico”, buscando analisar os significados e os “contextos sociais” das mudanças que vêm se processando na sua história.

Tomarei como fio condutor da pesquisa a formação social de duas dimensões. A primeira, que se utiliza, sobretudo, do corpo como forma de expressão: o pensar que anima a performance dos jogadores em campo. A segunda seria a de um “pensamento futebolístico verbal”, caracterizado pelos discursos que criam uma dimensão avaliativa e explicativa do corporal e que metamorfoseiam ou fazem reproduzir representações e sociabilidades vinculadas ao futebol.

No segundo capítulo, investigarei a primeira “formação”, que será chamada de futebol de elite, caracterizada pela prática do futebol como distinção social, uma espécie de símbolo de nobreza. Trata-se de uma performance sem uma disposição tática e técnica apurada. O pensamento que anima a performance é norteado por uma lógica rudimentar: chutes a esmo, trombadas e corridas desordenadas. No entanto, nos últimos anos dessa fase, notam-se fagulhas de organização: uma certa noção de posicionamento, dribles e toques de bola. Essa formação pode ser demarcada entre os anos de 1894 a 1932. Os períodos aqui demarcados terão um caráter “elástico”, sem rigor cronológico, pois essas mudanças se dão de forma heterogênea e gradual, nesse sentido, a divisão é didática. Marcos Mendonça, que fora goleiro da seleção brasileira nessa época, é emblemático para se perceber a lógica dessa formação. O goleiro circulava pela alta sociedade brasileira e era reconhecido como homem distinto.

Livros sobre a história do futebol – “O pontapé inicial”, de Caldas (1990), por exemplo – retratavam as partidas como acontecimentos de distinção social. Tratava-se de divulgar o encontro de personalidades, as tendências da moda nos trajes das madames etc. Como escreve Aspis (2006, p.56): “A imprensa [...] citava os jogadores, a assistência, o sol outonal, as senhoritas presentes, os belos trajes, mas esquecia de registrar os autores dos gols e o escore”. Nesse sentido, o discurso que circulava evidenciava antes a distinção social do que fazer uma análise da performance em si.


No terceiro capítulo, tratarei da segunda formação, que será chamada de “pensamento-malandro”. Trata-se de evidenciar a formação de um “pensamento corporal” que foi construído às margens da alta sociedade. Defendo que tal pensamento se desenvolveu nas várzeas, nas praias, em suma, localidades improvisadas. Nesses espaços, a sociabilidade e os modelos de existência eram caracterizados pela brincadeira e liberdade de experiência. Partindo desses pressupostos, desenvolve-se uma estratégia sedutora do movimento: tal astúcia é caracterizada pela utilização dos movimentos como adornos que seduzem o marcador a fim de iludi-lo, assim, levando vantagem. A performance de Garrincha é emblemática para perceber o funcionamento desse pensamento. O jogador brincava em campo driblando várias vezes os adversários, arrancando risos da plateia. Pode-se dizer que este período se estende de 1933 a 1966.

No quarto capítulo, investigarei a terceira formação: a “malandragem-disciplinada”. Esse pensamento coadunaria a sedução da malandragem como a objetividade da disciplina. A performance de Pelé evidencia o desenvolvimento dessa forma de pensar. O jogador se utiliza da sedução de forma objetiva, aliada a uma consciência tática e a um preparo físico mais trabalhado do que o de uma “malandragem-malandra”. Essa “formação” recebe uma forte influência da ciência no sentido de uma racionalização dos movimentos e do discurso de acompanhamento das partidas, embora em uma medida que permita um equilíbrio com a malandragem. Podemos dizer que esse pensamento pode ser bem percebido da década de 1960 até os dias atuais. A partir da análise das crônicas de Nélson Rodrigues, investigarei como o discurso verbal “reverberava” o pensamento malandro no cenário social.

No quinto capítulo, abordarei o “nascimento” de uma quarta formação, que denomino aqui de “tática-polifuncional”. Essa “formação” é caracterizada pelo ocaso da malandragem em favor de uma performance mais objetiva e racional. Trata-se da formação de um pensamento no qual se privilegia: velocidade, força, resistência, consciência tática, objetividade e “polifuncionalidade”. Esta última surge da capacidade de manipulação dos códigos táticos pelos jogadores que passam a mudá-los em consonância com a emergência da partida. Os clubes assumem de forma majoritária a formação do atleta diminuindo a influência das “várzeas”. Este pensamento ainda ensaia seus “contornos” e coexiste com a malandragem disciplinada.


A performance de Kaká evidencia essa lógica do pensamento. São momentos objetivos, rápidos, uma consciência tática apurada, consegue aliar funções de atacante e meio campo em consonância com a necessidade do jogo. Outra característica dessa formação é uma constante visibilidade do jogador e sua condição de vedete: o atleta se consolida como personagem significativo dos meios de comunicação de massa.

Essas mudanças estão vinculadas à forte assimilação do futebol pelos meios de comunicação e às altas demandas econômicas que isso implica. Trata-se da transformação do futebol em mercadoria cultural e dos jogadores em garotos propaganda de multinacionais. Poder-se-ia dizer que essa fase se torna mais notável a partir da década de 1980 (sobretudo com a seleção brasileira de 1982), embora seja possível perceber suas “fagulhas” desde as décadas de 1960 e 1970.

Como recurso para analisar o que chamei de “pensamento tático-polifuncional”, utilizarei o discurso que circula nas transmissões televisivas de futebol. Trata-se de perceber, a partir das narrativas dos especialistas, quais as hierarquias valorativas que se estabelecem no futebol contemporâneo. As transmissões televisivas estão preocupadas em divulgar informações e analisar a eficácia da performance. Cabe ao narrador o discurso que suscita a identificação do torcedor com seu time ou seleção, frequentemente realçando os louros do time e a paixão que está envolvida na relação torcedor-time.

No sexto capítulo, a partir da análise dos rituais, investigarei como estes atualizam os significados na prática futebolística e as relações de poder que se precipitam para hierarquizá-los: a malandragem, a disciplina e os simulacros da sociedade do consumo são priorizados. Analisarei, também, experiências que transcendem as configurações majoritárias que norteiam a prática do futebol. Expressões de “malandragem-malandra” em plena época de futebol altamente profissionalizado: é o devir-malandro do brasileiro.

Bar Kasa Kaiada

No sétimo capítulo, analisarei as novas configurações do torcer que se dão no escopo das transmissões televisivas de futebol. Com a presença do futebol nos meios de comunicação, a apreciação da performance futebolística se desvincula de uma relação espacial do acontecimento. Nesse sentido, desenvolvem-se “ritualidades” que transcendem o local do jogo. Interessam-me aqui as redes de sociabilidades e a construção de significados que se estabelecem mediados pelas transmissões televisivas nos bares. Especificamente o “Bar Kasa Kaiada”, localizado em um bairro de classe média em Fortaleza. O Restaurante Pizza Burguer e o “Quintal-Restaurante” também serão investigados.

No momento dessas apresentações televisivas, os bares passam por um processo de recriação dos significados conferidos aos seus espaços. Trata-se de aliar localidades que eram destinadas à alimentação e consumo de bebidas à criação de sociabilidades norteadas pelo torcer.

Em princípio, meu interesse consiste em analisar como são construídos espacialmente esses significados nos bares. Poder-se-ia dizer que certos bares vestem a camisa de um dado time. Ou seja, uma localidade que se torna um ponto de encontro para torcedores específicos. No entanto, o restaurante que pesquiso, o Kasa Kaiada, é o que se poderia chamar de uma “localidade mista”: torcedores de diversos times frequentam o bar.

A relação de construção de uma identificação espacial em “bares mistos” obedece a uma relação variante. Isso porque a localidade do torcer varia em consonância com o televisor que transmitirá a partida (nos bares que “vestem a camisa” do time, embora gozem de vários televisores, transmitem a mesma partida construindo uma “identidade” unívoca no bar). Os torcedores coadunam aos espaços símbolos que evidenciam seu domínio: bandeiras, balões. Isso decorre, sobretudo, em dia de grandes jogos.

A coexistência de torcedores de times diferentes abre margem para uma série de conflitos, embora, na maioria das vezes, não culmine em conflitos corporais. Isso ocorre, geralmente, entre torcedores que vêm para torcer contra o outro time e se excedem na comemoração e na gozação. Pode-se perceber no restaurante formas diferentes de identificação, a saber: uma regional, ou seja, torcedor que apoia o time de sua região. E o que chamarei de nacional: são torcedores que seguem times que atingiram repercussão nacional, geralmente do eixo Rio-São Paulo. Esses torcedores, situados nesta sociabilidade específica, são consequência da assimilação e divulgação do esporte pelos meios de comunicação, produzindo uma identificação que está relacionada, principalmente, à eficácia da performance dos times. Em geral, o torcedor tem um time local (Ceará ou Fortaleza), um do Rio de Janeiro e outro de São Paulo.


Há também uma espécie de “identidade negativa”, trata-se do torcer contra, o conhecido popularmente como secar o time rival. No restaurante Pizza Burguer, pude notar esse tipo de fruição de forma mais “concentrada”. Há também os que não torcem nem secam os times que estão jogando, vão antes para conversar com os amigos e assistir ao jogo elegendo momentaneamente um time para torcer.  Por outro lado, há os que se utilizam dos jogos para fazer brincadeiras com outrem: o que se chama popularmente no Ceará de frescar. Este tipo de fruição encontrei de forma emblemática no “Quintal-restaurante”.

Pode-se dizer que a ação social do torcedor é norteada principalmente por dois elementos: paixão e razão. A primeira corresponde, em sua forma “concentrada”, a ações abruptas de alegria e tristeza. Esta intempestividade é condicionada por uma relação afetiva que subordina a performance do torcedor à do jogador em campo: socos na mesa, emissão frequente de “palavrões”, abraços nos vizinhos nem sempre conhecidos de outros “carnavais”. A segunda está relacionada à percepção racional da performance pelos torcedores no bar. Diálogos sobre a apreciação do desempenho dos jogadores constroem interpretação das jogadas, um pensamento futebolístico baseado na narrativa. Esses dois elementos podem vir misturados em gradações diferentes, por exemplo, um comentário que se mostra "racional", mas que é motivado pela paixão pelo time.

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Em resumo, trata-se de perceber a relação entre a formação sócio-cultural de um “pensamento corporal futebolístico” e de sua representação verbal que tenta conferir bases analíticas ao primeiro. Tanto o primeiro como o segundo aspecto estão inseridos no jogo social que hierarquiza as performances em consonância com os discursos estabelecidos socialmente. Trata-se de perceber as ressonâncias e “contaminações” entre duas dimensões de linguagem: a corporal e a discursiva. Na primeira, interessa-me seu potencial criativo. Na segunda, os “usos” que se faz da primeira: seja para “inventar” identidades, estabelecer sociabilidades ou ritualidades.

No apêndice, discorro sobre os procedimentos metodológicos utilizados nesta investigação. Parto da tipologia weberiana. Utilizo o artifício do tipo ideal para agrupar as “formas de pensamento” que considero importantes para investigar o futebol brasileiro: pensamento malandro, malandro-disciplinado e tático-polivalente. Enfocarei, também, o conceito de Habitus, sobretudo nas concepções de Bourdieu e Elias. Nestes, procuro perceber a formação do pensamento através das disposições, das interdependências e do campo do poder. A partir dos conceitos de Foucault e Deleuze, investigarei as relações entre saber – poder e poder e subjetivação e sua relação com o funcionamento do pensamento. No personagem conceitual “deleuzeano”, procuro ressonâncias a fim de “construir” conceitos no intuito de entender singulares formas de “criar” na história do futebol brasileiro. São eles: Garrincha, Pelé e Kaká. Estes passarão por uma análise semiótica de seus dribles através de um visionamento intensivo de imagens. Assim, pode-se descrever a lógica de suas invenções.


Em suma, a partir deste trabalho, procurarei, em princípio, investigar a gênese e o funcionamento do pensamento brasileiro dentro da dimensão do campo de futebol. Dizer que o futebol brasileiro tem “ginga” e “jogo de cintura” (como muito se vem reproduzindo) é reduzir estilos de pensamentos a técnicas corporais. Estas são disposições corporais que permitem uma maior eficácia para as “disposições do pensamento”. Neste sentido, meu esforço é de analisar esta simbiose entre corpo e pensamento evidenciando o contexto social de seu “nascimento” e compreendendo empiricamente, a partir da análise semiótica dos dribles, sua lógica.

A partir da apropriação do futebol pelo discurso verbal, pode-se perceber uma série de reverberações no cenário social.  Aqui mostrarei a relação do futebol com a reprodução e revolução de relações de poder, como na passagem do futebol de elite para o “malandro”. Descreverei “ressonâncias” futebolísticas na construção de uma “identidade” brasileira: na análise das crônicas do Nélson Rodrigues, além de sua inserção na lógica da “sociedade do consumo”, nas transmissões televisivas de futebol. Por fim, como motriz para a construção de novos rituais: como analisarei no torcer dos bares.

Sobre Diego Marques:
 
É comunicólogo, mestre em sociologia (UFC) e atualmente é vinculado ao programa de doutorado em ciências da comunicação pela Universidade de São Paulo (USP).Vem se dedicando a pesquisa da experiência futebolística no Brasil a partir de prismas sociológicos, antropológicos, filosofia da diferença, comunicação e semiótica.

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