quarta-feira, 17 de julho de 2013

Wlamir Marques: O Diabo Loiro



Se no futebol, esporte número um do país, a literatura esportiva ainda deve muitas biografias sobre alguns de seus maiores ídolos, imaginem nos esportes ditos “amadores”. No basquete, uma verdadeira “lenda viva”, chamado Wlamir Marques, conseguiu, ainda em vida, receber essa homenagem. Não é por acaso que Wlamir já foi considerado por muitos como o “Pelé do basquete”.

O livro “Wlamir Marques – Diabo Loiro” (Panda Books), lançado em 2013, tem autoria de Auri Malveira. Um “autor/torcedor” de Wlamir Marques. O “Diabo Loiro” é paulista de São Vicente, onde começou a jogar basquete no Clube Tumiaru. Foi o maior ídolo em dois dos maiores times da sua época, o XV de Piracicaba e o Corinthians.

Wlamir, no Corinthians.

Começou a escrever seu nome na galeria dos imortais da Seleção Brasileira quando era ainda bem jovem, aos 16 anos, no Mundial de 1954. Foi aí que acabou “batizado” pela mídia como “Diabo Loiro”.

Wlamir Marques também tornou-se inesquecível além das fronteiras nacionais. A conquista do bicampeonato mundial, em 1959 e 1963, fez de seu nome uma referência mundial. Hoje, Wlamir é comentarista no canal ESPN Brasil.

Literatura na Arquibancada apresenta abaixo, o prefácio emocionante do jornalista José Trajano, e logo a seguir, o texto de apresentação do autor da obra, Auri Malveira.

O ídolo diante de mim
Por José Trajano


Na infância, joguei basquete. Naquela época, década de 1950, os garotos jogavam basquete nos clubes, aprendiam latim na escola e se arriscavam no pingue-pongue, por causa do Biriba. Hoje, quase não se vê garoto jogando basquete, muito menos aprendendo latim. E o computador acabou com a bolinha de celuloide. No esporte, nós, os garotos, tínhamos vários ídolos: Eder Jofre, Adhemar Ferreira da Silva, Maria Esther Bueno, Chico Landi, Manuel dos Santos, Algodão (é bom lembrar que eu morava no Rio, mais precisamente no bairro da Tijuca, ao lado do América Futebol Clube). Além de, é claro, os campeões mundiais de futebol de 1958: Pelé, Garrincha, Beline, Vavá, Gilmar, todos eles. Um ano depois, em 1959, o Brasil também foi campeão mundial de basquete. Foi aí que nasceu para mim, e para os outros moleques da época, um novo ídolo: Wlamir Marques, o Diabo Loiro.

Antes da conquista no Chile, já se ouviam no Rio de Janeiro as façanhas de um fantástico time do interior de São Paulo, o XV de Piracicaba. Time que cometera a ousadia de ganhar do então invencível Flamengo, o decacampeão carioca comandado por Kanela, que contava com o grande Algodão, além de Mário Hermes, Fernando, Valdir, Guguta...Os nomes dos jogadores paulistas corriam de boca em boca. Eu achava Pecente um nome fora do comum. Adorava repetir, Pecente...Pecente. Não havia teipe, e a televisão raramente exibia partidas ao vivo. A gente se informava por meio de revistas e jornais – O Cruzeiro, Manchete, Manchete Esportiva, Revista do Esporte, O Globo, Jornal do Brasil, Correio da Manhã, Jornal dos Sports –, que de uma forma ou de outra falavam das proezas do pessoal de Piracicaba.


Quando a Seleção Brasileira, que se preparava para o Mundial de 1963, disputado no Rio, treinou na quadra do América, a mesma que a gente utilizava para jogos e treinos, Wlamir já não era jogador do XV, e sim do Corinthians, outro timaço, ao lado de Rosa Branca e Ubiratan. Mas isso não vem ao caso. O que interessa contar é que, quando vi Wlamir de pertinho, eu debruçado na grade, quase chorei de emoção. De short verde de náilon, dando um jump por cima da cabeça, a imagem era muito forte para um menino que sonhava ser como ele. Diante de um ídolo, a gente treme.

Cresci, toquei minha vida, e a carreira promissora no basquete foi para o vinagre. Ficou o amor pelo esporte, a paixão pelo ídolo. Mas não é que o futuro me reservava uma surpresa absurda, anos e anos depois que o garoto virou homem? O destino nos colocou frente a frente, já faz mais de 15 anos. Eu, como diretor da ESPN Brasil, e ele como comentarista. Tirei-o do sofá da sala, conforme ele mesmo diz. E daí nasceu a amizade entre nós. Bem mais que isso, porém, se é que pode haver coisa mais importante do que uma sólida amizade.


Pude realizar um sonho que poucos conseguem: o de conviver com o ídolo de infância. Aquele loiro genial que encantou o mundo na conquista do bicampeonato mundial, fazendo o Maracanãzinho delirar com maravilhosos jumps e bandejas ao lado de Amaury, e que eu vi lá de cima da arquibancada, ao lado dos colegas do Colégio São Bento, hoje está aqui, na minha frente, ao meu lado. Ele está ao alcance da minha mão. Posso abraçá-lo a hora que quiser.

O que o meu ídolo não sabe é que, no momento em que escrevo este trecho final, estou enxugando as lágrimas, emocionado. Lembro-me do garoto na grade, lembro-me daquele jump pertinho de mim. Lembro-me de como você, Wlamir, me fez feliz.

Obrigado, Diabo Loiro.

O ícone
Por Auri Malveira


O personagem aqui retratado foi o mais célebre jogador da história do basquete brasileiro, tendo edificado sua carreira sob o signo das glórias, palavra que no vocabulário do esporte traduz o maior sonho de um esportista. Aos 16 anos, ainda juvenil, notabilizou-se como titular da Seleção Brasileira de adultos; aos 17, foi o fenômeno do II Campeonato Mundial, em 1954, no Rio de Janeiro, o que lhe valeu os batismos de Diabo Loiro e Disco Voador, rótulos que ficaram para sempre indissociados do seu nome. Ao contracenar no palco das quadras com os astros da nossa mais brilhante constelação de jogadores, foi sempre a estrela mais cintilante. Sua estirpe de jogador genial combinava talento e técnica com destreza insuperável, ferramentas que lhe permitiram ser o maior encestador da sua geração e a realizar jogadas estonteantes. O jump, um arremesso que estilizou quando ainda era juvenil, tinha a sua assinatura. Esse ícone tem nome e sobrenome: Wlamir Marques.


Para não poucos que o viram jogar, ele “foi o Pelé do basquete nacional”, e “é fora de dúvida que Pelé no futebol e Wlamir no bola ao cesto constituem-se nas maiores figuras brasileiras...”. Para outros, “foi o mais perfeito jogador brasileiro de todos os tempos”, o “marco do basquete brasileiro, e ainda não apareceu outro igual”; “o mais genial dos alas do basquete mundial”! O ilustre presidente da Federação Internacional de Basquete (Fiba), Willard N. Greim, que o viu jogar no Mundial do Rio, referiu-se a ele dizendo: “por suas atuações, que achei completas, posso afirmar [...] que é um craque como poucos no mundo”.
Naquela competição, era frequente ler na mídia impressa que ele estava “assombrando os técnicos mundiais, com suas atuações em nossa Seleção”, entre eles o norte-americano do All Star Team. Disse ele na ocasião que, com toda a experiência adquirida em anos de trabalho, era capaz de orientar a marcação sobre qualquer jogador já nos primeiros instantes de jogo, mas, em relação a Wlamir, isso era impossível. Confessou estar vivamente impressionado com “o número 5”, que mostrava “uma grande superioridade técnica em relação aos demais jogadores” e “era perfeito em todos os fundamentos, [...] encestava bem de qualquer distância, infiltrava com toda a facilidade, tinha extraordinária impulsão e velocidade. [...] Enfim, era imprevisível e, por isso, impossível dizer como marcá-lo”. Fecho este parágrafo com a transcrição de um parecer de Rosa Branca, que sintetiza todas as declarações acima: “Wlamir e Oscar foram duas lendas. Wlamir era completo. Oscar, para mim, é um arremessador, e Wlamir é um fenômeno”.

Em um de seus momentos singulares em quadra, tornou-se a estrela da noite no mais emblemático jogo internacional de basquete entre dois clubes já realizado no Brasil, Corinthians x Real Madrid, no Ginásio do Parque São Jorge, na década de 1960, não somente por sua atuação espetacular, mas também pelos 51 pontos marcados na partida. Nos Jogos Olímpicos do México, em 1968, cravou seu nome na seleção de jogadores de todos os países participantes, ao lado de dois norte-americanos, um iugoslavo e um soviético.

Da esq. para direita: Paulista, Vitor Mirshauswka, Sucar, Amaury Pasos e Wlamir Marques

Na conquista do primeiro título mundial do basquete brasileiro, foi o cestinha e considerado pela mídia o melhor jogador da competição, mas o auge da sua trajetória cravejada de brilho foi alcançado com a conquista do bicampeonato mundial da Seleção Brasileira, em 1963. O Diabo Loiro tornou-se preferência nacional. Some-se a isso o fato de que foi apontado em enquete feita por uma revista especializada em esportes, de São Paulo, como o nono maior atleta brasileiro de todos os tempos, o primeiro na modalidade de basquete. Em um país em que, por razões culturais, a bola jogada com os pés atingiu muito mais notoriedade e definiu a preferência do brasileiro pelo futebol, isso não é pouca coisa.

Ao interagir com sua imensa legião de fãs e plateias do Brasil e do mundo, foi igualmente admirado e idolatrado, não sendo incomum que até os adversários se curvassem ante seus feitos. É de lamentar que a tecnologia das transmissões da mídia eletrônica nas décadas de 1950 e 1960 tenha obscurecido, em boa parte, as conquistas da melhor safra de jogadores brasileiros de todos os tempos, e de Wlamir em particular, por ter sido sua figura mais proeminente. Em que pese tanto brilho, essa geração de ouro se ressente da falta de um acervo de imagens. Um ex-companheiro seu das quadras se diz frustrado pelo fato de que “não pudemos guardar as imagens das magistrais jogadas do Diabo Loiro”.


Nesse sentido, o relógio da história se atrasou e deixou uma sombra no curso da sua trajetória, o que não o impediu de ser empurrado para a glória e ter seu nome imortalizado na galeria do basquete brasileiro. Com toda essa bagagem, e ainda tendo sua figura adornada por olhos azuis e causando invejável atração entre o público feminino, o recatado Wlamir nunca se preocupou em cultivar a imagem de sex symbol.

Ao fechar esta introdução, desejo afirmar que a tentativa de resgatar a importância da figura de Wlamir Marques no contexto do basquete brasileiro me confere indisfarçável orgulho. Com isso, também me sinto honrado em contribuir para que seu nome não fique relegado à franja esquecida da história. Ao reverenciá-lo, quero também prestar-lhe um justo tributo.

Sobre Auri Malveira:

Nasceu em Xapuri, no Acre. Ainda criança, mudou-se para Rio Branco, onde começou seus estudos e quando tornou-se fã do Diabo Loiro, a maior celebridade do basquete brasileiro na época. Auri deixou a cidade para concluir o curso superior em São Paulo. É administrador de empresas, executivo e escritor, nunca deixando de acompanhar de perto a carreira de Wlamir. Desde 2010, fez entrevistas e reuniu pesquisas e informações sobre o jogador, concretizando sua admiração por ele neste livro.

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