terça-feira, 9 de julho de 2013

Friedenreich e a Revolução de 32

Fried (direita)



No dia da Revolução Constitucionalista de 1932“, a ligação entre o primeiro grande ídolo do futebol brasileiro e o histórico momento no país. Poucos sabem que Arthur Friedenreich foi figura importante nesse cenário de guerra. Isso mesmo, Fried foi, literalmente, à luta.

Literatura na Arquibancada recomendou recentemente por aqui (http://www.literaturanaarquibancada.com/2013/04/friedenreich-saga-de-um-craque.html) o lançamento de sua biografia escrita por Luiz Carlos Duarte.


Em “Friedenreich – A saga de um craque nos primeiros tempos do futebol brasileiro” (Casa Maior Editorial), o capítulo que destaca a participação de Fried na Revolução de 1932.






Nas Trincheiras da Revolução, o fantasma da morte
Por Luiz Carlos Duarte

 
A marchinha “O Teu Cabelo Não Nega”, de Lamartine Babo, empolgava os foliões no Carnaval e sua letra exibia um trecho em que brincava com a política: “mulata, mulatinha, meu amor, fui nomeado o teu tenente interventor”. Os versos eram uma referência à prática recorrente do presidente Getúlio Vargas de nomear interventores para os Estados durante o período do governo provisório implantado pela Revolução de 30.

Derrotado politicamente pela ascensão de Vargas, o Estado de São Paulo era veementemente o mais refratário às indicações dos interventores, defendia uma nova Constituição e o direito de eleger seus representantes. Manifestações, comícios e confrontos, como o de 23 de Maio, que provocou a morte de Martins, Miragaia, Dráusio, Camargo e Alvarenga, deixavam os paulistas cada vez mais em pé de guerra.

O futebol ainda resistia. No clássico tradicional que reunia os clubes campeões carioca e paulista, o São Paulo derrota o América por 3 a 1. Fried faz os três gols, cala seus críticos e mostra a sua disposição de atuar por mais um ano.

A rivalidade entre São Paulo e Rio tornava a ser incrementada pela disputa da Taça Equitativa, em dois jogos de ida e volta. A grande novidade era a total reformulação do selecionado paulista, que afastava de vez a geração de veteranos simbolizada por Friedenreich. Era o fim de um ciclo de 20 anos de serviços prestados por ele ao futebol bandeirante, de 1912 a 1931.

Com os novos valores, os paulistas são derrotados por 2 a 1 no campo da Floresta — pela primeira vez, a seleção carioca de sua liga principal vencia em São Paulo. No jogo de volta, no Rio, os paulistas chegam a abrir 3 a 0. O adversário reage e faz dois gols. Revoltada com a arbitragem, a torcida invade o campo e as hostilidades acabam por suspender o jogo.


O campeonato estadual segue até o começo de julho, quando é interrompido pelos primeiros movimentos da Revolução Constitucionalista, deflagrada no histórico Nove de Julho. A insurreição ganha adesões de vários segmentos da sociedade paulista, numa rara comunhão entre dominantes e dominados que partem para uma luta desigual. O levante envolve no total cerca de 150 mil homens; 35 mil são constitucionalistas, incluindo os homens da Força Pública e as legiões de voluntários civis, sem armas e munição suficientes para enfrentar o poderio do Exército federal e seus 110 mil combatentes.

Em contrapartida, os paulistas se mobilizam intensamente na retaguarda. Fábricas produzem munição, mulheres fazem uniformes e a população é chamada a doar ouro para São Paulo. A febre dos voluntários civis chega aos clubes, que organizam um batalhão de esportistas. Na condição de ídolo número um, Friedenreich doa seus troféus e medalhas para a campanha e faz diversas convocações aos seus pares por uma rede de rádio.

“Esportista há mais de 20 anos, como sabeis, sinto a energia física e moral que todos vós, também esportistas, certamente o sentis. Esportista há mais de 20 anos, com serviços prestados ao meu clube, ao meu Estado e — por que não dizê-lo — ao meu país, tanto nos nossos campos como naqueles do Uruguai, da Argentina, França, Portugal e Suíça, sinto-me com o direito de vos dirigir um veemente apelo para que imiteis meu gesto, inscrevendo-vos na Mobilização Esportiva, a fim de que todos juntos defendamos a causa sagrada do Brasil. Tudo por São Paulo, num Brasil unido”, discursa.


Trajando a farda da tropa, com botas de cano alto, ele ainda viaja por cidades do interior para fazer propaganda do alistamento de esportistas. Além de Fried, o batalhão reúne o goleiro Athiê Jorge Cury, que depois se tornaria presidente do Santos, e o atacante Luizinho, do São Paulo da Floresta, entre seus mais famosos futebolistas. Há ainda o atleta Aldo Travaglia, que chegou a ser convocado para os 110 m com barreiras para a Olimpíada de Paris (1924), e os irmãos Walther e João Rehder Neto, revelações do atletismo, que se preparavam para competir nas Olimpíada de Los Angeles, em agosto.

Provenientes de cerca de 60 clubes da capital e do interior, os voluntários esportistas totalizam 1.400 homens. Depois de duas semanas de treinamento, que incluía tarefas como aprender a montar um fuzil, e de manobras militares realizadas no campo do São Paulo da Floresta, o 1º Batalhão Esportivo embarca de trem no dia 2 de agosto com 800 voluntários. Após escala em Mogi Mirim, o batalhão segue até Eleutério, na divisa com Minas Gerais, região onde se concentravam os embates mais cerrados. O 2º Batalhão esportivo dirige-se à região da Mogiana, também na fronteira.

Logo após o desembarque das tropas, em 4 de agosto, os esportistas sofrem seu primeiro batismo de fogo. Não há feridos, segundo os jornais, que destacam o fato de terem sido feitos alguns prisioneiros da ditadura Vargas. Os primeiros dias da campanha são destinados à escavação de trincheiras no alto das montanhas para guardar a fronteira. Há poucos relatos detalhados sobre as ações desenvolvidas, mas o sargento Friedenreich é elogiado e promovido por atos de bravura em despacho do major Antônio Bayma. “Tenho satisfação em comunicar-vos que foi promovido a 2º tenente o sargento Arthur Friedenreich pela sua atuação brilhante nos últimos combates em Eleutério, onde com muita dificuldade pôde distinguir-se entre seus companheiros dos batalhões Esportivo e Nove de Julho, pois todos se batem como verdadeiros guerreiros.”

Entrincheirados, os esportistas suportaram um cerco que durou 26 dias. Em 22 de agosto, numa tentativa de assalto das tropas federais, os soldados paulistas são alvo de xingamentos em meio às manobras. Cerca de 500 integrantes dos batalhões Esportivo e Nove de Julho passam então a entoar o hino nacional, fazendo cessar os xingamentos, segundo relato de jornais. Era também uma forma simbólica de responder às acusações de que o movimento constitucionalista era separatista.

O momento mais dramático durante a revolução que Friedenreich sempre lembraria foi quando um combatente, que estava ao seu lado, é atingido por um tiro na nuca e morre em seus braços. O fantasma da morte seria associado ao nome do craque na disseminação de um boato de que ele teria tombado morto em ação. A falsa notícia chocou multidões, comoveu os paulistanos, espalhou-se pelo país e ganhou manchetes em jornais de outros Estados.

 
Dominados pela boataria, dois sentinelas que guardavam a ponte do Matadouro, em Itapira, interceptaram um caminhão e exigiram a identificação de seus ocupantes. Um deles pôs a cabeça para fora da janela e logo foi identificado. O mais famoso dos combatentes não estava morto.

“Friedenreich! Quanta emoção. Um bálsamo sobre os nervos em frangalhos”, relataria tempos depois um dos sentinelas. A suposta morte depois seria amplamente negada pela Rádio Record.

Sem poderio militar à altura do inimigo, a revolução termina oficialmente em 2 de outubro, deixando um rastro de 800 combatentes mortos e um legado de lutas por liberdades civis e a defesa de um ideário liberal e constitucionalista, que contribuíram de alguma forma para a realização de eleições em 1933 e a promulgação da Constituinte de 1934. Getúlio Vargas se aproximou da elite cafeeira e nomeou como interventor o paulista Armando Sales de Oliveira, que acabou fundando a Universidade de São Paulo (USP), outro grande legado da revolução.

A interrupção imposta pelo movimento constitucionalista limitou a disputa do campeonato em um só turno, conquistado de maneira soberana pelo Palestra Itália, na mais perfeita campanha da história da competição: 11 vitórias em 11 jogos disputados. O São Paulo da Floresta terminou em segundo lugar, mas já sem a força de Friedenreich, que atua mais como um garçom, servindo passes aos jovens companheiros da linha ofensiva. O ataque tricolor marcou 33 gols na competição; 16 foram de Luizinho e 11 de Araken.

El Tigre fez apenas um no campeonato. Na temporada, foram dez.

Sobre Luiz Carlos Duarte:
 
É jornalista, formado na Fundação Armando Alvares Penteado. Ocupa o cargo de editor-geral do jornal “Agora São Paulo” desde o lançamento da publicação, em 1999. Também no Grupo Folha, já desempenhou as funções de repórter e de editor-assistente na “Folha de S. Paulo”. Foi coordenador de reportagem na sucursal de Brasília e coordenador assistente da Agência Folha. Também foi secretário de Redação do Departamento de Esportes da TV Cultura (1988-1989).

Um comentário:

  1. Prezado Luiz Carlos, o parabenizo pela excelência da matéria, reverenciando um momento histórico para nós, Paulistas !!!
    A divulgação à memória de nossos Heróis Paulistas é importantíssimo para a cultura de nossas crianças e um dever de todos, pois um país sem memória, é um país sem história....
    Saudações Constitucionalistas !!!

    Comendadora Ana Cristina Lazzati
    ( Presidente do 20º Núcleo de Correspondência da Sociedade de Veteranos de 32 - MMDC )

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