terça-feira, 30 de julho de 2013

Febre de Bola, 20 anos depois



Um livro que completa 20 anos e continua a encantar leitores nos quatro cantos do planeta. Febre de Bola, de Nick Hornby é um modelo para que torcedores tenham a real dimensão do que é ser apaixonado por um time de futebol. 

Quando foi lançado, em 1992, o livro ficou seis meses entre os 10 mais vendidos da Inglaterra e em vários países do mundo.

Nick Hornby

Febre de Bola conta a história de um “fanático” torcedor do Arsenal, de Londres, e sua paixão pelo clube de coração. 

Paixão de verdade, a ponto de o personagem (inspirado na vida real do autor Nick Hornby) agendar seus compromissos de acordo com a tabela do campeonato.


O livro fez e ainda faz estrondoso sucesso mesmo passadas duas décadas. 

Ganhou diversos prêmios, virou peça de teatro e tema de dois filmes. 

O primeiro, lançado em 1997, uma comédia romântica, com o mesmo nome do livro.

 
E o segundo, em 2005, uma adaptação de Hollywood, “Amor em jogo”, onde o futebol do Arsenal é trocado pelo beisebol do Boston Red Sox. Aqui, no Literatura na Arquibancada, você pode conferir a sinopse da primeira edição brasileira, da Editora Rocco, além do texto de apresentação de Nick Hornby (http://www.literaturanaarquibancada.com/2012/03/febre-de-bola.html).

Confira abaixo a sinopse da editora Companhia das Letras, responsável pela reedição da obra e um dos capítulos disponibilizados no site da editora (http://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=13325).

Sinopse (da editora):


Aos onze anos, Nick Hornby foi levado pelo pai para ver um jogo do Arsenal pela primeira vez. O jovem, então entristecido pela separação recente dos pais e assolado pelas incertezas com relação ao futuro da família, ficou fascinado. Descobriu um lugar e uma comunidade que, como ele, não estava muito preocupada em se divertir, mas compartilhava algo bastante diverso: “O sofrimento como entretenimento era uma ideia completamente nova pra mim, e parecia ser alguma coisa pela qual eu estava esperando”. Dali em diante, Hornby nunca mais deixou de assistir, no estádio ou na tevê, a uma partida do Arsenal e atrelar aos sucessos e fracassos do time as respostas que buscava para a própria vida.

Publicado originalmente em 1992, o livro se estrutura a partir de datas e placares de
jogos ocorridos no intervalo de 24 anos, décadas que também marcaram a entrada gradual do autor na vida adulta e na literatura. O resultado são textos repletos de erudição e memória fotográfica, humor e uma sensação de que se está lendo o relato de uma obsessão incurável. Sem jamais cair num discurso esnobe - que diferencia os “pensadores” do futebol dos meros torcedores -, Hornby aborda com leveza e sinceridade temas espinhosos como a violência nos estádios, o surgimento dos hooligans e as relações ambíguas entre cartolas e torcida.

Como nos livros de ficção que viria a publicar mais tarde, aqui o autor já aponta seu plano literário, marcado por protagonistas que demoram a se despedir da adolescência para retardar a chegada à idade adulta, agarrando-se às expressões culturais de uma época que está prestes a terminar. Febre de bola venceu o William Hill Sports Book of the Year em 1992 e, em 2006, foi incluído no kit especial do sócio torcedor do Arsenal.

Com nova introdução do autor, comemorativa do vigésimo aniversário da edição do livro.

Estreia em casa

Arsenal x Stoke City
14/9/68

 
Eu me apaixonei pelo futebol como mais tarde me apaixonaria pelas mulheres: de repente, inexplicavelmente, sem aviso, sem pensar no sofrimento e nos transtornos que aquilo ia me trazer. Em maio de 1968 (uma data com conotações próprias, claro, mas ainda é mais provável que me traga à mente o Jeff Astle do que Paris), logo depois do meu aniversário de onze anos, meu pai perguntou se eu queria ir com ele à final da Copa da Inglaterra entre West Brom e Everton; um colega dele tinha arranjado dois ingressos. Respondi que não estava interessado em futebol, nem mesmo sendo a final da Copa da Inglaterra — verdade, pelo menos na minha cabeça, mas fiz a maldade de assistir o jogo inteiro pela tevê. Algumas semanas mais tarde, vi
encantado, com minha mãe, o jogo entre Manchester United e Benfica, e levantei cedo, no fim de agosto, pra escutar no rádio como o Manchester United se saía na final do Mundial Interclubes. Adorava o Bob Charlton e o George Best (não sabia nada sobre o Denis Law, terceiro elemento daquela Santíssima Trindade, que tinha ficado de fora do jogo com o Benfica porque estava machucado), e com uma paixão que era totalmente surpreendente; durou três semanas, até que meu pai me levou ao Highbury pela primeira vez.

Meus pais já estavam separados em 1968. Meu pai tinha conhecido outra pessoa e saído de casa, e eu morava com minha mãe e minha irmã numa casinha com quintal, nos Home Counties. A situação em si não tinha nada de notável (embora eu não consiga me lembrar de ninguém mais da minha turma na escola que morasse com apenas um dos pais — os anos 60 ainda levariam outros sete ou oito anos pra percorrer os trinta e tantos quilômetros de Londres até nosso subúrbio pela rodovia M4), mas a separação tinha sido sofrida pra nós quatro, como sempre são as separações.

Houve, inevitavelmente, uma série de dificuldades nessa nova fase da vida em família, ainda que a mais crucial delas, naquele contexto, tenha sido provavelmente a mais banal: a questão das tardes de sábado no zoológico com apenas um dos pais, problema clichê, mas complicado. Era frequente que meu pai só pudesse nos visitar em dias de semana; ninguém queria ficar em casa vendo tevê, por razões óbvias; por outro lado, não havia, na verdade, nenhum outro lugar que servisse pra um homem levar duas crianças menores de doze anos. Em geral, entrávamos no carro e íamos a uma cidade vizinha, ou até um dos hotéis próximos ao aeroporto, onde éramos os primeiros clientes de um restaurante frio e deserto, no qual a Gill e eu comíamos bife ou frango mais ou menos em completo silêncio (crianças normalmente não são a melhor companhia pra conversar num jantar e, também, estávamos acostumados a comer na frente da tevê), e meu pai ficava só nos observando. Devia estar desesperado pra encontrar alguma outra coisa que pudéssemos fazer juntos, mas as opções, entre as seis e meia da tarde e as nove da noite de uma segunda‑feira, numa cidade‑dormitório suburbana, eram limitadas.

 
Naquele verão, meu pai e eu nos hospedamos por uma semana num hotel perto de Oxford, onde à noite nos sentávamos num restaurante deserto, no qual eu comia meu bife ou meu frango mais ou menos em completo silêncio. Depois do jantar, íamos ver tevê com os outros hóspedes e meu pai bebia demais.

As coisas precisavam mudar.

Meu pai fez uma nova tentativa com o futebol naquele mês de setembro e deve ter ficado maravilhado quando topei. Nunca antes eu tinha dito sim pra nenhuma das sugestões dele, embora também raramente dissesse não. Apenas sorri, educado, e emiti um som cuja intenção era expressar interesse, mas não compromisso, um trejeito irritante que acho que inventei especialmente pra ser usado naquela época da minha vida e, por alguma razão, mantenho até hoje. Fazia dois ou três anos que ele vinha tentando me levar ao teatro; toda vez que convidava, eu simplesmente dava de ombros e sorria um sorriso idiota, e o resultado era que, no fim, meu pai ficava irritado e me dizia pra esquecer a ideia, que era o que eu queria que ele dissesse. E não era um problema só com Shakespeare: eu agia igualmente desconfiado com jogos de rúgbi e críquete, passeios de barco e um bate e volta a Silverstone ou Longleat. Não queria fazer absolutamente nada.

E não fazia isso com a intenção de punir meu pai por estar ausente: eu pensava, de verdade, que ficaria feliz indo a qualquer lugar com ele, com exceção de todos os que meu pai sugeria.

O ano de 1968 foi, acho, o mais traumático da minha vida. Depois da separação dos meus pais, mudamos pra uma casa menor, mas durante um tempo, por causa de alguma burocracia, ficamos sem teto e precisamos morar com vizinhos; fiquei seriamente doente, com icterícia; e comecei a frequentar a escola local. Eu precisaria ser muito incrédulo pra achar que a febre pelo Arsenal, que logo me possuiria, não teve nada a ver com todo esse caos. (E fico pensando quantos outros torcedores, se parassem pra pensar nas circunstâncias que os levaram a se tornar obsessivos, não encontrariam algum tipo de drama freudiano equivalente. Afinal, o futebol é um jogo sensacional e tal, mas o que diferencia aqueles que se contentam em ir a uma dúzia de partidas na temporada — ir aos grandes jogos, manter distância dos ruins, certamente uma decisão sensata — daqueles que são compelidos a ir a todas? Pra que viajar de Londres a Plymouth numa quarta‑feira, desperdiçando um precioso dia de folga, pra assistir um jogo que já estava decidido na partida de ida, no Highbury? E, se essa teoria da torcida como terapia tem alguma procedência, o que se passa no subconsciente desse pessoal que vai aos jogos do Troféu Leyland DAF? Talvez seja melhor não saber.)

 
Tem um conto do escritor americano Andre Dubus intitulado “O pai de inverno”, sobre um cara cujo divórcio o afastou dos dois filhos. No inverno, a relação dele com as crianças é sem graça e forçada: passam da matinê no clube de jazz ao cinema ao restaurante, o tempo inteiro um olhando pra cara dos outros. Mas, no verão, quando podem ir à praia, pai e filhos se dão bem. “A extensão da praia era, pra eles, o gramado de casa; a esteira, a própria casa; o isopor e a garrafa térmica, a cozinha. Voltavam a viver como uma família.” As sitcoms e os filmes há muito tempo perceberam essa terrível tirania dos espaços, retratando homens entediados indo a parques com crianças irascíveis e um frisbee.

Mas “O pai de inverno” significa muito pra mim porque ultrapassa isso: consegue enfocar o que é valioso nas relações entre pais e filhos e explicar, de forma simples e precisa, por que aquelas idas ao zoológico estão fadadas ao fracasso. Aqui neste país, até onde sei, Bridlington e Minehead não são capazes de proporcionar o mesmo tipo de sensação que as praias da Nova Inglaterra no conto de Dubus; mas meu pai e eu logo encontraríamos o equivalente perfeito em território inglês. As tardes de sábado no norte de Londres criavam um contexto no qual podíamos estar juntos. Podíamos conversar quando queríamos, o futebol nos dava assunto (e os silêncios não eram opressivos), os dias ganhavam uma estrutura, uma rotina. O campo doArsenal seria nosso gramado de casa (e, uma vez que se tratava de um gramado inglês, ficaríamos a observá‑lo, pesarosos, debaixo de chuva constante); o Gunner’s Fish Bar, na Blackstock Road, nossa cozinha; e o Setor Oeste, nossa casa. Era um esquema maravilhoso que mudou nossas vidas quando isso era mais necessário, mas era também um esquema exclusivo: meu pai e minha irmã nunca encontraram uma casa pra eles. Talvez hoje em dia isso não acontecesse; talvez, nos anos 90, uma menina de nove anos se sinta tão no direito quanto a gente de ir a um jogo de futebol. Mas em 1969, na nossa cidadezinha, não era uma ideia muito em voga, e minha irmã era obrigada a ficar em casa com a mãe e as bonecas.

Não lembro muito do jogo em si, naquela primeira tarde.

Um daqueles truques da memória me permite ver claramente o único gol marcado: o juiz anota um pênalti (corre pra área, aponta de forma dramática, ouvem‑se gritos); silêncio enquanto o Terry Neill se prepara pra cobrança; e um lamento quando o Gordon Banks mergulha e defende; a bola volta certinho no pé do Neill e desta vez ele marca. Mas tenho certeza de que criei essa sequência de imagens a partir do que ao longo de muito tempo registrei de incidentes similares e na verdade não tinha, então, consciência de nada disso. Tudo o que realmente vi naquele dia foi uma incompreensível série de eventos, ao final da qual todos à minha volta se levantaram e gritaram. Se fiz a mesma coisa, deve ter acontecido constrangedores dez segundos depois do resto do estádio.

 
Mas tenho, sim, outras lembranças mais confiáveis e, provavelmente, mais significativas. Eu me lembro da opressiva macheza por todo lado — charutos e cachimbos, linguagem chula (palavras que eu já tinha ouvido antes, mas não da boca de adultos, e não naquele volume), e foi somente anos mais tarde que me ocorreu que isso deve, necessariamente, ter tido consequências pra um menino que morava com a mãe e a irmã; e lembro que prestei mais atenção à torcida do que aos jogadores. De onde estava, eu provavelmente conseguiria contar umas 20 mil cabeças; só o torcedor (ou o Mick Jagger e o Nelson Mandela) pode fazer isso. Meu pai me falou que, naquele estádio, tinha quase o mesmo número de moradores da minha cidadezinha, o que me impressionou bastante. (A gente esquece que as torcidas de futebol ainda são espantosamente numerosas, sobretudo porque, desde a guerra, elas foram ficando cada vez menores. Os técnicos reclamam da apatia dos torcedores locais, particularmente quando seus times medíocres da primeira ou da segunda divisão conseguem evitar tomar uma lavada de algum adversário nas últimas rodadas; mas o fato de que, digamos, o Derby County tenha sido capaz de atrair um público médio de quase 17 mil pessoas na temporada 1990/91, o ano em que terminaram o campeonato na lanterna, é um milagre. Vamos dizer que 3 mil desses torcedores sejam do time visitante; significa que, dos 14 mil torcedores do Derby restantes, um bom número foi ao estádio pelo menos dezoito vezes assistir o pior futebol jogado naquela temporada, senão em muitas temporadas. Falando sério: por que se esperaria que um só desses torcedores comparecesse a qualquer um dos jogos?).

Não foi o tamanho da multidão o que mais me impressionou, porém, ou os adultos se permitirem gritar a palavra “VIADO!” o mais alto que quisessem sem que ninguém se virasse pra olhar. O que mais me impressionou foi simplesmente o quanto a maioria dos caras à minha volta odiava, mas odiava de verdade, estar ali. Até onde eu podia ver, ninguém parecia estar curtindo, no sentido em que eu entendia essa palavra, nada do que aconteceu a tarde inteira. Passados uns poucos minutos do apito inicial, já emergia um ódio verdadeiro (“Você é um MERDA, Gould. O cara é um MERDA!”; “Cem libras por semana? CEM LIBRAS POR SEMANA! Deviam pagar isso pra mim, por ser obrigado a te ver jogar”); à medida que o jogo avançava, o ódio virava indignação e, em seguida, se cristalizava num descontentamento silencioso e mal‑humorado. Sei, sei, conheço as piadinhas todas. O que mais eu podia esperar estando no Highbury? Mas fui aos estádios do Chelsea, do Tottenham e do Rangers e vi a mesma coisa: que o estado natural do torcedor de futebol é o de penosa decepção, não importa qual seja o placar.

Acho que nós, torcedores do Arsenal, temos profunda consciência de que o futebol jogado no Highbury muitas vezes não é muito bonito de ver e que, portanto, nossa reputação de time mais chato da história do universo não é tão distorcida quanto fingimos ser; mas, quando o time é vitorioso, muito disso é perdoado. O time do Arsenal que vi naquela primeira tarde era, há algum tempo, um espetacular fracasso. Na verdade, não ganhava nada desde a coroação da rainha, e esse histórico abjeto de derrotas era simplesmente como esfregar sal nas chagas dos torcedores. Muitos dos que estavam ali à nossa volta pareciam ser daqueles que tinham assistido todos os jogos de cada uma daquelas temporadas enfadonhas. O fato de estar me intrometendo num casamento que tinha azedado desastrosamente deu àquela tarde uma excitação particular (se fosse um casamento de verdade, as crianças teriam sido barradas na entrada): um dos parceiros rondava, arrastando‑se numa patética tentativa de agradar, enquanto o outro virava a cara pra parede, mal conseguindo olhar, de tão contrariado. Os torcedores que não lembravam os anos 30 (embora, naquele final dos anos 60, muitos lembrassem), quando o clube ganhou cinco campeonatos nacionais e duas Copas da Inglaterra, ainda assim lembravam os Comptons e Joe Mercer, de apenas uma década antes; o estádio em si, com suas lindas arquibancadas em estilo art déco e seus bustos assinados por Jacob Epstein, parecia desaprovar o time atual tanto quanto meus vizinhos de torcida.

 
Eu já tinha ido a espetáculos públicos antes, claro; tinha ido ao cinema e a peças de Natal, e visto minha mãe cantar no coral do White Horse Inn, no Salão Municipal. Mas aquilo era diferente. As plateias das quais eu havia feito parte até então pagavam o ingresso pra se divertir e, embora aqui e ali se pudesse flagrar uma criança impaciente ou o bocejo de um adulto, nunca antes eu vira rostos como aqueles, contorcidos de ódio, desespero e frustração. O sofrimento como entretenimento era uma ideia completamente nova pra mim, e parecia ser alguma coisa pela qual eu estava esperando. Talvez não seja exagero dizer que essa é uma ideia que moldou minha vida. Sempre fui acusado de levar a sério demais as coisas que amo — futebol, lógico, mas também livros e discos — e sinto, de fato, uma espécie de ódio quando ouço um disco ruim, ou quando alguém é indiferente a um livro que significa muito pra mim. Talvez tenham sido aqueles caras do Setor Oeste do Highbury, desesperados e amargurados, que me ensinaram a odiar desse jeito; e talvez seja por isso que parte da minha renda venha da atividade de crítico — talvez o que eu ouça, quando escrevo, sejam aquelas vozes. “Você é um MERDA, X!” “O Booker Prize? O BOOKER PRIZER? Deviam era dar um prêmio pra mim, por ser obrigado a ler o que você escreve.”

Aquela única tarde desencadeou todo o resto — não houve flerte prolongado — e vejo, hoje, que a mesma coisa aconteceria se eu fosse a White Hart Lane ou Stamford Bridge, tão arrebatadora foi a experiência daquela primeira vez. Numa tentativa consciente e desesperada de impedir o inevitável, meu pai rapidamente me levou pra ver o Tottenham. O Jimmy Graves marcou quatro na vitória por 5 a 1 sobre o Sunderland, mas o estrago já estava feito, e os seis gols e todos aqueles grandes jogadores não me comoveram: eu já estava apaixonado pelo time que bateu o Stoke por um único gol, no rebote de um pênalti.

Sobre Nick Hornby:

Nasceu em 1957, em Redhill, Inglaterra. Formado na Universidade de Cambridge, publicou uma dezena de livros, entre os quais Febre de bola, Alta fidelidade e Um grande garoto, que ganharam versões cinematográficas. Em 1997 fundou, com outros pais, um centro de excelência no tratamento de crianças autistas na Inglaterra, a TreeHouse.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Parabéns Telê Santana



Mais um ano sem Telê Santana, o técnico brasileiro que até hoje é lembrado em qualquer discussão que envolva a qualidade técnica e artística de um jogo. Mestre Telê estaria fazendo 82 anos no dia 26 de julho de 2013. Após nos deixar, no ano de 2006, muitas homenagens foram feitas.

Aqui, no Literatura na Arquibancada vários artigos para reverenciar Telê Santana.
Em 2012, a lembrança de sua vida eternizada na biografia “Fio de Esperança” (Cia dos Livros):


Na data em que partiu, 21 de abril, outra homenagem, desta vez pelas mãos do poeta Carlos Drummond:

Ainda em 2012, o lançamento de um livro que resgatou o trabalho de Telê na Copa de 1982, na famosa “Tragédia de Sarriá”:

Em 2011, no dia do professor, a reverência àquele que era tratado por mestre:


Neste ano, 2013, Literatura na Arquibancada apresenta uma raridade para os fãs do mestre Telê Santana. Nos anos 1950, fez enorme sucesso entre leitores do país, especialmente na cidade do Rio de Janeiro, a publicação da revista “Vida do Crack”. A cada edição um homenageado. Telê, no auge de sua carreira como jogador do Fluminense, acabou virando atração da revista.

O que você lê abaixo são as primeiras páginas da revista dedicada exclusivamente a Telê. Nelas, a fonte básica para a construção de sua futura biografia, “Fio de Esperança”, escrita pelo jornalista André Ribeiro. Detalhes que, felizmente, foram revelados na época por Telê. A publicação é da de número 30. Pena não existir em sebos brasileiros exemplares dessa verdadeira raridade.

Vida do Crack
Telê Santana

Itabirito, terra onde Telê nasceu.

Itabirito, e não São João Del Rey, a cidade natal de Telê

Na cidade mineira de Itabirito, viveram, conheceram-se e casaram-se, João Veríssimo da Silva e Corina Silva. A feliz união produziu uma apreciável prole, de dez rebentos, cujos nomes, pela ordem passamos a enumerar: Jorivê, Atiê, Telê, Goitê, Dalva, Alva, Ervê, Lindalva, Marialva e Clodovê.

Mas, naturalmente, nos deteremos na vida do nosso focalizado deste mês, o extraordinário craque do Fluminense Futebol Clube, Telê Santana Silva. Telê é o terceiro da série dos dez acima relacionados. Telê veio ao mundo na cidade de Itabirito, ao contrário do que muitos tem afirmado, de que São João Del Rey, a sua cidade natal.

Seu nascimento (coincidentemente também aniversário de Pirillo), deu-se em 26 de julho de 1931, no dia de Santana, daí, aliás, a inclusão em seu nome, do nome do santo. Aconteceu, porém, que ao completar Telê, um ano de idade, a família via-se aumentada com o nascimento de mais um menino tendo infelizmente, ambos ficado doentes, motivo pelo qual sua mãe, naturalmente, já com dois filhos, ainda pequenos além do de colo, recém nascido e doente, e Telê, de apenas um ano de idade e igualmente enfermo, solicitou à sua irmã, que era sua vizinha e solteira que residia em companhia de um irmão, também solteiro, que cuidasse do menino Telê, até que ele se restabelecesse.

Telê aos 2 anos de idade.

Mas ao verificar-se a cura do garoto, sua tia que se desdobrara em desvelos e dedicação para com o sobrinho e adquirindo por ele uma forte afeição e levando em conta a proximidade da moradia, o que naturalmente, facultava a seus pais o verem, diariamente, pleiteou da irmã, que deixasse a educação e manutenção do garoto a seu encargo. Houve a reunião entre os pais do futuro grande craque de futebol, para decidir sobre o assunto, concordando em que o menino, ficasse sendo cuidado por sua boníssima tia, Dona Maria Faustina da Silva e seu tio, Sr. Eurico Silva.

A infância de Telê

Telê teve uma infância relativamente calma. Tratado com todo carinho por sua querida tia, que lhe fazia todas as vontades, divertia-se, ora banhando-se nas águas mansas do rio, ora jogando peladas nas ruas, o que mais gostava de fazer, principalmente, quando seus pais transferiram sua residência para a cidade de São João Del Rey e o deixaram com seus tios, já que estes não admitiam a hipótese de se separarem do querido sobrinho, o que os pais de Telê, julgaram justo, mormente, porque, tratando-se de uma moça solteira, que se dedicou inteiramente ao garoto, naturalmente seria um rude golpe afastar de si o menino. Além do mais, a sua criação estava sendo tão bem cuidada como se o fosse por seus próprios pais. Mas nesta infância tranquila ocorreu um grave acidente com o pequeno Telê.

Telê na escola em Itabirito (na 1ª fila, terceiro da esquerda para a direita)

Como se sabe, no interior, as festas juninas são vivamente comemoradas, e Itabirito não foge a esta regra geral. Pois bem, quando Telê contava 5 anos de idade, em uma destas festas, em meio aos balões, fogueiras, batata doce e fogos, alguém menos avisado, soltou um foguete de grande poder explosivo próximo do garoto Telê. Não espoucando logo a bomba ou coisa parecida, Telê, o mais próximo, correu em sua direção sem que houvesse tempo para que alguém o impedisse, e colocou sua mãozinha esquerda, em forma de concha, sobre o explosivo. Em segundos toda a alegria presente a festa esvaiu-se, como por encanto no balanço trágico e registrava-se o fato de ter sido decepado o dedo indicador de sua mão esquerda e metade do polegar da mesma mão. Seus tios e seus pais, que também se encontravam presentes, ficaram quase doidos de dor e desespero, ante o inesperado e das consequências do triste acidente acontecido com o esperto garoto. Todavia, aos poucos, conformaram-se, embora, por muito tempo tristes em ver uma criatura que nascera sã, ficar repentinamente com um defeito físico. Além do mais, foram meses de sofrimento para Telê e de apreensão e desespero para seus entes queridos, mormente sua tia que não se afastava um minuto sequer de perto do querido sobrinho.

Este é um dos capítulos tristes da história da vida deste fabuloso craque do futebol brasileiro.

O primeiro emprego de Telê

Telê em frente a casa onde morava em Itabirito.

Ao terminar Telê, o ciclo primário, aos 11 anos de idade, seus tios queriam vê-lo continuar nos estudos, pois sonhavam para ele, com um futuro brilhante, do qual se orgulhassem e lhe fosse facultado viver uma vida de conforto. Todavia, Telê obstinava-se em não querer continuar seguir os estudos, assim é que fugia sempre do colégio em que seus tios o haviam matriculado. Sua tia, então, aborrecida e querendo impor-lhe um castigo, na esperança de que ao enfrentar a dureza do trabalho, o menino resolvesse voltar aos estudos arranjou-lhe um emprego. Foi, então Telê trabalhar em um armazém em Usina Esperança, localidade distante de Itabirito 4 quilômetros. Isto aconteceu em 1943. Telê, confessa, que embora o serviço que tinha para executar não fosse muito nem pesado, não era agradável e sentia-se mesmo, contrariado no trabalho. Entretanto, nada dizia a seus tios, pois não queria de modo algum voltar aos estudos. Assim, passou Telê, um ano em Usina Esperança, e, lamentando, principalmente, o pouco tempo de que dispunha, para os deliciosos banhos de rio, e principalmente para as famosas peladas, das quais era o astro principal.

O segundo emprego de Telê incluía a obrigação de jogar futebol

Telê no juvenil do Itabirense (agachado, 2º da direita para a esquerda)

Em 1944, Telê foi convidado a trabalhar como auxiliar de escritório em uma fábrica de calçados. Todavia, o emprego era condicionado a que Telê jogasse pelo time juvenil do Itabirense da cidade local. Telê, então com apenas 13 anos de idade, via-se elevado à condição de “craque mirim”, já usufruindo vantagens, inclusive, pelos seus dotes de jogador de futebol que começavam a manifestar-se. Assim é, que Telê, depois de pensar um pouco sobre o assunto, resolveu aceitar a oferta, não só por ter um emprego mais acessível e melhor remunerado, como também, mais perto, já que o estabelecimento ficava no centro da cidade.

Além do mais, existia a parte do futebol, pois, era a sua prática, a diversão predileta do menino de Itabirito. Foi a oportunidade para que Telê adquirisse o devido traquejo dentro da formação de um quadro de futebol, já que era esta a primeira vez que ele integraria um quadro devidamente uniformizado com a formação normal e de chuteiras. Neste grêmio pôde o jogador tricolor desenvolver suas qualidades futebolísticas formando na posição de centro-avante. Foi ele, quase cinco anos, a grande estrela do poderoso quadro de juvenis do Itabirense, onde era um verdadeiro ídolo, começando, pois, de modo auspicioso a sua carreira que – longe estava ele naquela época de supor – que abraçaria profissionalmente, pois, até então, só praticava o futebol como esporte e diversão.

Um rude golpe na vida de Telê, fê-lo mudar-se para São João Del Rey

Em 1948, Telê sofre um duro golpe em sua vida quando ainda bem jovem, pois ainda contava apenas 17 anos de idade. A vida prosseguia em sua rotina normal e feliz para Telê ao lado de sua querida tia, que nem mesmo se casou para melhor dedicar-se ao menino. Um dia, porém, quando o menino menos esperava, aquele coração boníssimo, o qual pertencia quase que totalmente a Telê, aquele coração que conheceu aflições e alegrias no decorrer da existência de Telê, parou de pulsar. O golpe foi rude e cruel para Telê, que, igualmente, adquirira por sua querida tia uma grande amizade como se fosse ela sua segunda mãe, Telê não esquecera os desvelos e carinhos com que Dona Maria Faustina da Silva se dedicara à sua criação.

O menino alegre que era, transformou-se em um rapaz taciturno e pensativo, curtindo a imensa dor que lhe causava a ausência da sua inesquecível tia. Entretanto, a vida teria de continuar e Telê transferiu sua residência para São João Del Rey, indo morar pela primeira vez, do seu primeiro ano de vida, em companhia de seus pais. Naturalmente não foi fácil a seus pais, convencê-lo a despertar para a vida, mostrando-lhe que era muito jovem e devia olhar o futuro que ainda tinha pela frente. Para começar, Telê foi pela primeira vez enfrentar um trabalho árduo, já que com família numerosa, “seu” João necessitava que seus filhos já rapazes, o ajudassem, nos serviços da chácara que adquirira na cidade de São João Del Rey.

Goitê, Telê, Atiê e Jorivê, no América Recreativo.

Mas o pai de Telê era um entusiasmado pelo esporte e havia fundado um clube de nome América Recreativo de Futebol. Três dos irmãos de Telê integravam o time e eram eles, Jorivê, Atiê e Goitê. Telê, também, passou a jogar no quadro na posição de centroavante ou meia-direita. É excusado dizer que o time cresceu muito em poderio com a inclusão daquele que seria o craque da família. Cada vez mais Telê se destacava; suas atuações entusiasmavam, não só os locais como os viajantes que por ali passavam ou que amiudamente visitavam a encantadora cidade mineira. A esta altura, Telê já se conformara com o infausto acontecimento do falecimento de sua veneranda tia, embora a recordasse sempre com saudade e angústia, compreendera enfim, através da orientação ponderada e inteligente de seus pais, que a morte era desígnio divino e que não cabia ao ser humano revoltar-se contra ela e sim procurar prosseguir na luta pela vida e encontrar lenitivo no trabalho e na pratica do seu esporte e diversão predileta, que era o futebol. Há acrescentar que sua progenitora foi sempre contra a que os filhos praticassem futebol. O pai de Telê, porém, era o sustentáculo, pois além de gostar de futebol, queria ver seus filhos satisfeitos, divertindo-se naquilo que lhes desse satisfação.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Djalma Santos: Gênio da Bola



Djalma Santos nos deixou no dia 23 de julho de 2013. Djalma não, Dejalma. Isso mesmo, o homem considerado um dos maiores laterais-direito do futebol mundial foi batizado assim. Mas foi Djalma, um paulistano da gema, nascido em 27 de fevereiro de 1929, no bairro da Luz, quem vestiu por mais de cem vezes a camisa da Seleção Brasileira.


Djalma Santos começou a jogar em um clube de bairro, na capital paulista. Foi para a Portuguesa, onde jogou durante onze anos. 

Também se consagrou no Palmeiras de 1959 a 1968. Foram 498 jogos, diversos títulos, pela equipe consagrada como “Academia de Futebol”.

Pela Seleção Brasileira, Djalma Santos fez história em quatro edições consecutivas, de 1954 a 1966. Na mais importante, a conquista do primeiro título mundial brasileiro, Djalma jogou apenas a final, mas acabou escolhido como o melhor lateral-direito da Copa.


Para conhecer melhor a vida de Djalma Santos, dentro e fora dos gramados, Literatura na Arquibancada recomenda a visita ao site do Museu do Futebol, que em parceria com a Fundação Getúlio Vargas, felizmente, gravou um longo e histórico depoimento do atleta e homem.


Uma entrevista imperdível que você pode acessar nesse link http://cpdoc.fgv.br/museudofutebol/djalmasantos.





Djalma Santos partiu sem ver a biografia lançada em abril de 2014, "Djalma Santos: Do porão ao palácio de Buckingham" (Editora Bellini Cultural), dos autores Flávio Prado, Adriana Mendes e Norian Segatto. Destacamos abaixo uma das crônicas do livro:




“Mário era um ponta esquerda fenomenal. Maluquinho, é verdade, adorava dar dribles desconcertantes nos adversários, não para humilhá-los, mas porque se divertia. Não tinha nenhuma objetividade. A torcida, porém, o amava e ia a loucura quando as tais jogadas aconteciam. Era sempre assim, todo domingo. Naquele domingo de verão de 1949, o Pacaembu fervilhava à espera do Corinthians e do seu divertido ponta, Mário.

“O adversário era a Portuguesa, e, na lateral direita, um desconhecido, Santos, “neguinho” troncudo, que estava lá prestes a ser a próxima vítima. E não deu outra. Não havia passado nem dez minutos do primeiro tempo quando Mário parou em frente a Santos (que ainda não tinha o Djalma no nome), gingou, brincou, ergueu a bola, deu um chapéu e saiu pelo lado, enquanto o estádio quase ia abaixo.

“Os torcedores do Corinthians ainda riam do lance quando, novamente, a bola para o lado esquerdo do ataque alvinegro. Dessa vez, Santos chegou primeiro. Poderia simplesmente se desfazer da bola. Mas para quê? Esperou por Mário. Gingou, brincou, ergueu a bola, deu um chapéu e saiu jogando com o requinte de fazer uma embaixadinha – que viraria a sua marca – antes de lançar a bola para o ataque.

“A torcida engoliu o riso. Mário não acreditou no que viu. “Que neguinho atrevido!” Os corintianos acabavam de ser apresentados àquele que se tornaria o maior lateral-direito da história. Aquele lance parecia dizer: “Muito prazer, meu nome é Santos. Djalma Santos”. Anos depois, Mário e Djalma se transformaram em grandes amigos e riam muito lembrando daquela ensolarada tarde de domingo.”




Mas, entre tantos escritos sobre ele, destacamos um especialíssimo, reproduzido no espetacular livro “Recados da Bola” (Cosac Naify, 2010), de Jorge Vasconcelos e Claudiney Ferreira.


Mais do que o depoimento do próprio Djalma detalhando momentos inesquecíveis de sua vida, dentro e fora dos gramados, o capítulo sobre o craque traz em sua abertura um texto fantástico escrito pelo craque da literatura Paulo Mendes Campos. Era assim que Djalma era visto por ele:

“Vê Djalma Santos, indo e vindo, saltando, disparando, correndo, chutando, cabeceando, apoiando, defendendo, corrigindo, ajudando, às vezes, inexplicavelmente, até sorrindo em seu combate. Vê Djalma Santos e reconhece logo: Ele acredita em Deus, é um servo de Deus, um lateral-direito de Deus”.

Abaixo, um pequeno trecho do depoimento de Djalma Santos concedido a outros dois craques, Jorge Vasconcelos e Claudiney Ferreira, que, felizmente, eternizaram histórias incríveis de um verdadeiro gênio da bola.


Aviação interrompida

Meu nome é Dejalma dos Santos. O negócio do Djalma Santos é porque fica mais fácil e rápido de falar. Além disso, quando fui convocado para a Seleção pela primeira vez, havia o Nilton Santos, então simplificaram para Djalma Santos e Nilton Santos.

Nasci em 27 de fevereiro de 1929, na cidade de São Paulo, no bairro da Luz, na rua Prates. Sou casado com Mercedes de Campos dos Santos, que me deu uma filharada. Em termos de estudos, fiz apenas o primário. Depois, comecei a estudar para entrar na aviação, mas não cheguei a me formar por causa de um acidente na fábrica de calçados onde trabalhava. Uma máquina prensou minha mão, me limitou os movimentos. Por isso, fui impedido de continuar na aviação. Tinha 17 anos.


Nasce um lateral

Desde 1945, eu jogava num time do bairro do Parada Inglesa, em São Paulo, o Parada Inglesa Internacional. Alguns anos depois, em 1948, apareceu um senhor, ex-jogador da Portuguesa de Desportos, que me levou para treinar no clube, onde viria a me firmar.

No início atuava como zagueiro central. Quando o diretor da Portuguesa nos visitou, disse que precisava de dois jogadores, um para o meio-campo, outro para o ataque. Nessa época eu ainda era amador. Então, o Barros, nosso treinador, foi até onde estava a garotada e falou: “Leva o Djalma e o Hugo”. Eu treinava como zagueiro. Quando cheguei na Portuguesa me puseram no meio, mas como queria jogar de qualquer maneira, aceitei.

Virei profissional e foi tudo muito rápido. Ainda em 1948 comecei a jogar no time principal, me acertei, dei sorte. Luisinho era o lateral-direito, jogávamos eu e o Hélio Leite no meio, além dos irmãos Piglia. Veio então a contratação do Brandãozinho, um dos jogadores mais caros que atuaram na Portuguesa Santista. Ele veio para a Portuguesa de Desportos, para jogar na posição dele, que era o meio-campo, exatamente onde eu jogava.

O treinador veio até mim e pediu que eu jogasse de lateral-direito. Também não reclamei. Graças a Deus funcionou e fiz minha carreira como lateral-direito.


Mãozinha

Na hora de bater os laterais, como a minha mão já não dobrava mais, por causa do acidente, era fácil arremessar a bola longe. De certa forma, foi bom. Machuquei a mão, ela estava meio boba, mas o bom é que pegava a bola e colocava onde queria.

Chapéu nos Matarazzo

Minha mãe havia morrido. Ficamos só eu e minha irmã, que trabalhava nas Indústrias Matarazzo. Quando fui a Santos jogar minha primeira partida contra o time da casa, usava dois chapeuzinhos. A gente pegava aquele trem da Cantareira que soltava muitas fagulhas. Os chapéus ficaram cheios de buraquinhos. Naquele dia, os outros jogadores da Portuguesa fizeram uma rifa dos meus chapéus; com ela, ganhei um dinheiro que não conseguiria em um mês de trabalho, e ainda peguei os chapéus de volta.

Esse jogo contra o Santos foi minha estreia na equipe profissional, na época ainda jogava no meio. A pedido do treinador, marquei o Antoninho, um dos melhores jogadores do time deles. Perdemos o jogo, mas minha atuação agradou e continuei na Portuguesa.

Após o episódio da rifa, conversei com minha irmã e pedi para ela deixar o trabalho na Matarazzo. Expliquei que precisava me alimentar melhor e caso ela continuasse a trabalhar, como é que eu faria para almoçar e jantar? Ela ficou meio sem graça, mas consegui convencê-la de que com o que eu ganharia no futebol daria para a gente viver.


Djalma na Seleção

Fiquei dez anos na Portuguesa. Saí para jogar no Palmeiras no fim de 1958. Na Seleção, minha primeira convocação foi para o Pan-Americano de 1952, no Chile. Quem me chamou foi o técnico Zezé Moreira. Eu era reserva do Arati, lateral do Botafogo. Ele disputou a primeira partida e não foi muito bem. Eu entrei e joguei o resto do campeonato. Vencemos o Uruguai (a famosa desforra da derrota de 1950), na final batemos o Chile e enfim fomos campeões.

Em 1953, joguei o Sul-Americano no Peru; em 1954, a Copa da Suíça; em 1956, o Sul-Americano no Uruguai; em 1957, voltamos ao Peru e, no ano seguinte, fiz a Copa da Suécia. Joguei na Seleção durante 16 anos, de 1952 a 1968.