sexta-feira, 21 de junho de 2013

Pelada: viagem pelo mundo da bola



Uma “viagem” pelo mundo da bola. É o que a ex-jogadora da liga universitária americana Gwendolyn Oxenham e ex-jogadora do Santos Futebol Clube, apresenta em mais um livro obrigatório para os amantes da literatura esportiva.  

“Pelada – Uma volta ao mundo pelo prazer de jogar futebol” (Editora Zahar), é quase um diário da vida de Gwendolyn, apaixonada pelo futebol. Uma história que muitos “marmanjos” brasileiros já fizeram mundo afora, mas que nunca as transformaram em livro. Um “golaço” de Oxenham.

Vale lembrar que antes deste livro, Pelada foi tema de um filme que pode ser acessado no link http://youtu.be/LnB8FVMmY5o
Há ainda uma entrevista disponibilizada pelo site da editora(http://www.zahar.com.br/blog-editora/post/pelo-simples-prazer-de-jogar). As fotos utilizadas neste artigo não fazem parte da obra, são meramente ilustrativas.

Sinopse (da Editora):

Apaixonada pelo esporte mais popular do mundo, ex-jogadora da liga universitária americana e peladeira incondicional, durante três anos Gwendolyn Oxenham correu 25 países atrás da bola e das histórias anônimas que cercam as peladas.

Jogou com barqueiros no meio do mar no Brasil e com executivos no topo de arranha-céus no Japão. Com destiladores ilegais na mais antiga favela da África e com peladeiros sem nenhum espírito esportivo na Alemanha. Participou de campeonatos de vila na Hungria e em Gana, e de uma partida entre judeus e árabes em Jerusalém. Bateu bola com iraquianos na Inglaterra, com mulheres de chador no Irã, com presidiários na Bolívia...

Com um talento surpreendente, que prende o leitor passe a passe, Gwendolyn dá vida aos jogos que descreve e às pessoas que conheceu. Um livro para quem gosta e para quem não gosta de futebol, uma viagem de encher os olhos e a prova de que, em campo e na vida, algumas coisas não precisam de tradução.

Pelada
Uma volta ao mundo
pelo prazer de jogar futebol
Por Gwendolyn Oxenham


Quando fui pra Califórnia ficar com Luke, ele foi o guia e eu, a turista. Quando chegamos ao Rio de Janeiro, parecia a Califórnia de novo, nós dois passeando por lugares que ele já conhecia e eu tentando acompanhar.

Ele falava a língua, conhecia as ruas, segurava os mapas. Ele nos levou ao quiosque com a água de coco mais gostosa e à praia onde aprendeu a jogar futevôlei, o voleibol com os pés. Nos supermercados, sabia onde pesar a fruta e onde achar pão quentinho. Quando passamos pelo balcão dos lanches, o homem de avental gritou: “Opa! Lucas!” e serviu a mesma coxinha de frango que Luke costumava pedir. Na terça à noite, estava chovendo quando aparecemos no campo embaixo do apartamento onde ele morava, e já tinham se passado três anos desde que ele havia jogado ali, mas nada havia mudado: os mesmos rostos, a mesma pelada a cada três semanas, o mesmo lento caminhar até o campo. “Lukie!”, eles gritaram, sorrindo. Um cara passou a mão no cabelo curto de Luke e disse: “Onde que tá o cabelo?”

Luke bateu na barriga do cara e respondeu, também em português: “Cadê o gordão?”
Todos riram e eu esperei enquanto Luke explicava que aquele cara, que só dava sinais de ser um brasileiro lindo, antes era gordo.

Ficamos hospedados no Leblon, porque é perto tanto de Copacabana quanto de Ipanema, e porque descobrimos que, para um grupo de quatro pessoas, saía mais barato alugar um apartamento ali do que ficar num albergue. Há ruazinhas de paralelepípedo ladeadas por árvores. Porteiros de pé nas escadas e velhos com as mãos às costas caminhando lado a
lado com seus cães pequenos. Mulheres de salto alto balançando sacolas de compras de lojas sofisticadas, e homens de suéteres em cafés bebericando cappuccinos. Há, ao mesmo tempo, a sofisticação de Manhattan e a brisa da praia. A pouco mais de quinhentos metros dali, estão milhares de barracos nos morros. O Rio de Janeiro tem um índice de assassinatos comparável a zonas de guerra; a maioria dessas mortes ocorre nas favelas, de frente para a cidade. Durante o verão que Luke passou no Rio, ele jogou numa pelada de sexta-feira entre duas favelas inimigas, vizinhas de seu prédio. (Meteram o cara loiro no gol para que ele pudesse provar seu valor.) Na quadra, não havia problemas.


A lenda diz que talvez tenha sido nas favelas do Rio que nasceu o futebol-arte. “Depois que os ingleses levaram para a América do Sul o que agora é o esporte mais popular do planeta, há mais ou menos 115 anos, ele foi inicialmente adotado pelas elites”, escreveu o arquiteto brasileiro Fernando Luiz Lara. “Mais ou menos na mesma época, a ocupação de um morro no centro do Rio gerou a primeira favela. Assim que o jogo chegou às periferias, ele se afastou do formalismo europeu e se transformou no jogo exuberante, tão famoso hoje em dia.” Muitas das estrelas brasileiras – Adriano, Ronaldo, Ronaldinho – cresceram nas favelas. Na quinta-feira, um amigo do amigo de Luke nos levaria à Rocinha para ver as peladas na maior favela da América do Sul.

No resto da semana, Luke foi nosso guia pela cidade. Subimos o Corcovado, cujo nome foi dado por lembrar uma pessoa encurvada. O Cristo Redentor, a estátua de Jesus Cristo de braços abertos, com 38 metros de altura, fica no topo. Escondemos nossa câmera atrás dos turistas japoneses e filmamos quando o segurança não estava olhando, sem saber se tínhamos que ter uma autorização. E então fomos andando até o topo do morro ali perto, para filmar a estátua com a cidade espalhada sob ela.

Deitei de bruços na grama perto de Luke e fiquei olhando os fiapos de nuvem passando rápidos em frente ao Cristo, enquanto Ryan e Rebekah filmavam cena após cena, experimentando efeitos e movimentos de câmera. Nos dias de filmagem livre, ficávamos mais relaxados. Se você perde um lance ou uma cena num jogo, não dá para voltar atrás; mas paisagem é algo que dá para filmar inúmeras vezes, até acertar.


Luke gosta de monumentos. Eu não. Mas a estátua do Cristo Redentor mudou meu jeito de pensar. Lá em cima, pairando a 2,3 mil metros, na ponta do Corcovado, sobre a praia, as favelas, o estádio do Maracanã e a ponte Rio-Niterói, ele parece estar abrindo os braços para todo o Rio de Janeiro... e estar prestes a mergulhar, sem medo.

No dia seguinte, passeando por Copacabana, vimos um homem de sunga de banho com os braços estendidos do mesmo jeito – como se dissesse “Mundo, estou pronto!”. Mais ou menos umas dez pessoas como ele – meditando ou chamando por Deus – pontuavam a praia, indiferentes aos olhares dos banhistas ao redor. Vendedores ziguezagueavam pela areia, carregando isopores cheios de cerveja e bolsas entupidas de cangas multicoloridas. Havia círculos de pessoas perto da água, mantendo o futebol vivo. Enquanto nos Estados Unidos jogamos paddleball e frisbees na praia, os brasileiros jogam bola, fazendo uma corrente pela orla. Os corpos são fortes como os de super-heróis, com os músculos do peito molhados, brilhando ao sol. As sungas, partes de baixo bem diminutas, deixam bastante as coxas de fora.

Eles chutam a bola cada vez mais alto, fazendo piruetas tipo kickboxing, calculando o giro de maneira que o calcanhar do pé bata na bola e a mande para cima. Uma menina estava jogando: tinha o cabelo igual ao da Gisele Bündchen, pele bem bronzeada e usava um biquíni branco mínimo que teimava em ficar encavado num bumbum que não imaginei que pudesse existir. E ela jogava bem, fazendo piruetas com as pernas e firulas mais bonitas que as dos homens.

Mais para cima da praia, perto da calçada, avistamos um jogo. Eu já tinha jogado na praia antes, mas sempre na areia firme, perto da água, não lá em cima, naquela areia fofa que trai os movimentos, que cede debaixo dos pés quando você tenta se mexer.


Não dá para driblar: a bola fica presa, você fica preso. Os outros jogadores entendem que não se movimenta a bola na areia, e sim no ar. Ela levita de pé para pé. Não consigo fazer isso. Nunca aprendi a levantar a bola por cima de alguém porque não parecia ser o tipo de coisa passível de ser aprendida. A pedalada, o drible de letra, todos os movimentos mais ligados ao solo – esses eu sabia de cor. Mas aquele pequeno e inesperado “puf ” com a bola – não era algo que fizesse parte do meu mundo.

Quando passei a bola pela areia, parecia uma pedra quicando na superfície de um lago. Nunca ia para onde eu queria. Então, tentei driblar de novo, mas a bola não rolava, morria, minha pedalada não fazia nada além de confundir as pernas. (Mesmo quando não estou na praia, dar uma pedalada sempre me deixa meio acanhada; é como quando falamos “hã” para ganhar tempo numa conversa – é o que faço para tentar pensar no que realmente quero dizer.) Os homens me chutavam a bola de voleio e ela voava sobre mim, à minha esquerda, à minha direita.

Updike não é o único a pintar o Brasil como um lugar encantado; todo o mundo do futebol pensa o mesmo. Os jogadores brasileiros têm magia.

Um cara de quadríceps fortes estava sempre com a bola, me provocando, mas quando fui atrás dela, a bola sumiu. Olhei para cima, com a cara para o sol, tentando achá-la. Mas não estava em lugar algum. Eu ainda estava desorientada, girando, quando ele reapareceu com a bola, gingando diante de mim.

Outro homem – cabelo grisalho no peito, pele negra e enrugada, músculos fracos – usava um calção de banho do tamanho de um guardanapo e tinha uma bandagem no joelho. Seus pés conseguiam pegar qualquer coisa. Ele ficava trocando passes para trás e para a frente com o sujeito de quadríceps grandes.

Pelada nas areias do Rio de Janeiro

Havia também um adolescente bravo jogando. No canto do campo, ele reclamava, se lamentava e então, de repente, deu uma bicicleta, uma bicicleta espetacular girando seu corpo cheio de fúria, como se fosse um acrobata. (Crescemos tentando dar bicicletas – geralmente esquecendo a parte do pulo, só caindo no chão e esperando que o pé atinja a bola – mas ninguém jamais conseguia dar uma durante um jogo.) Aqui, ninguém reagiu, como se fosse algo antiquado, como se, na verdade, esperassem que ele fizesse algo mais original da próxima vez.

Depois do fim do jogo, ficamos sentados numa muretinha de concreto. Com o dedo, peguei as gotas de suor que escorriam pelas minhas canelas. Pensava na primeira vez em que fui derrotada nos cem metros, correndo o máximo que podia e vendo que ficava para trás. Eu me sentira surpresa, impotente. E era assim que me sentia naquele momento. O homem mais velho e o homem forte estavam de pé à nossa frente, apertando uma garrafa e esguichando água no rosto.

O homem de coxas fortes me passou a garrafa. “Muito diferente, é?”, perguntou, sorrindo para mim. O “t” em português tem um som diferente do “t” em inglês, mais para “tch”, mas é parecido o suficiente para eu conseguir entender.

“Muito”, respondi, em português. Ele disse mais alguma coisa e olhei para Luke, dependente dele, e ele estava inclinado, jogando água no pescoço. “Ele disse que dá para perceber que você jogaria bem em campo.”

Fiquei olhando para o homem, para a expressão gentil e generosa que ele tinha no rosto. Por que isso é tão importante para mim? Por que preciso que as pessoas acreditem que sou boa?
Na pós-graduação, tentei não contar para ninguém que antes jogava futebol. Queria ver como seria. Mas não aguentei nem uma semana. Era uma noite de sábado e estávamos no Oyster Bar, e todos falavam sobre Moby Dick, livro que eu não tinha lido. Bebi um gim-tônica e anunciei: “Eu jogava futebol. Sou jogadora de futebol.” Queria que eles soubessem que havia pelo menos um assunto que eu dominava.

Voltamos a pé para o Leblon, pelo calçadão. “Você filmou aquela bicicleta?”, perguntei a Ryan. Percebendo meu tom de voz, tentei soar mais casual. “Acho que sim”, ele respondeu, meio irritado pelo tom de esperança que não consegui disfarçar. “Mas não ficou num ângulo perfeito e nem muito bem enquadrado”, avisou, ajustando as alças da mochila.

Enquanto andávamos, percebi pela primeira vez como estava quente. Durante o jogo, a brisa da praia contra a pele molhada ajudava a refrescar. Mas ali, com aquele monte de equipamento em cima do corpo, não dava para se sentir fresco. O cabelo de Ryan estava completamente ensebado, e sua camiseta, que antes era azul-marinho, agora parecia preta. Os ombros de Ferg estavam vermelhos. Fiquei pensando se ela não queria ter jogado. No meio do jogo, perguntei a ela se queria participar, e ela fez um gesto que não. Mas isso não
significava nada, necessariamente.

“Foi difícil ficar só vendo?”, perguntei.
“Um pouco. Mas aquela areia macia parecia um pesadelo. E estava tão quente, então... Naaa, deixa pra lá.”
“Gwendolyn”, disse Ferg. Era estranho, meio sinistro, ouvi-la pronunciar meu nome inteiro. Na faculdade, me chamavam de G, muito mais fácil de pronunciar durante um jogo.
“Quando você está jogando, você só precisa jogar.” Às vezes, no meio de um jogo, percebo detalhes que me fascinam. O menino que só usava um pé de sapato. A palavra carioca escrita na parte de trás da sunga de alguém. É irritante quando alguém diz o que você deve filmar, então tento ficar calada. Mas, às vezes, eu ainda dava uma corridinha para o lado e dizia: “O sapato!” Esses gritos, é claro, nem sempre eram bem recebidos.

Aterro do Flamengo

Continuei andando, minha cabeça processando o que ela tinha dito, achando que ela tinha razão. Um homem vendendo queijo frito passou por nós, e eu e Ferg ficamos com vontade. Comemos mais do que Ryan e Luke, que não pensam em comida até seus estômagos roncarem. Ficamos sentados nas cadeiras brancas de plástico do calçadão, sugando os palitos de queijo, observando aqueles rostos interessantes. Sempre que me pegavam observando-os, com o par de olhos me encarando de volta, os brasileiros sorriam, já acostumados com os olhares de admiração.

Durante toda minha vida, tive o hábito de, sempre que avistava um gol, apontar da janela do carro e anunciar meu achado: “campo”. No Brasil, mantive esse hábito, mas havia gols em todo lugar, então parecia mais um tique nervoso. “Campo, campo, campo”, eu dizia, enquanto caminhávamos do posto 1 até o 9. Cada quarteirão tinha um campo, cada campo tinha um jogo. Era difícil escolher um local, difícil continuar andando, difícil bolar um único plano. Luke falava do Aterro do Flamengo, citando fatos aprendidos em suas aulas de arquitetura: “É o maior parque urbano do Brasil.” Ele estudou o mapa e o nome da rua, descobrindo a melhor maneira para chegarmos lá, como se já tivéssemos concordado que era para lá que íamos. “É um lugar legal”, disse. E não falou mais nada. Luke sempre deixa o suspense no ar, como se o excesso de informação acabasse com o mistério do que você pode encontrar.

Enquanto estávamos planejando a viagem, sentados à mesa da cozinha em Asheville, ele nos falou sobre os campos que ficavam com as luzes acesas a noite toda, sobre os jogos entre porteiros e garçons que, depois de terminarem o expediente noturno, jogavam até três ou quatro da manhã... Mas ele se esqueceu de dizer que é no Aterro do Flamengo que esses jogos acontecem.

“Por que devemos ir para lá?”, perguntei.

“É uma boa noite para pegar os garçons jogando”, respondeu Luke, como se soubéssemos que íamos lá para isso.

Estava chovendo quando chegamos no Flamengo, primeiro de leve, depois forte, daquele jeito que te obriga a procurar abrigo debaixo da marquise. Ficamos encolhidos perto de pilares de mármore e das pessoas de capa de chuva e esperamos passar. A tempestade veio e foi. Aproveitamos o passeio até o parque, caminhando devagar. Ainda caía uma chuva fininha, e fiquei pensando se esses campos que Luke diz estarem sempre cheios não estariam vazios, mas, assim que chegamos, já pudemos discernir o barulho dos tênis na grama molhada e o som da bola quicando na água.



Andar pelo parque é como estar dentro de um daqueles livros da série Escolha sua aventura, que eu lia na infância. A cada curva ficávamos em dúvida de para que lado ir. Havia campos pequenos, grandes, gramados, com grama sintética, de concreto. Havia homens negros, brancos, velhos, fora de forma, halterofilistas, adolescentes com cabelo moicano. E aí avistamos um campo de futebol de meninas; parecia mais um treino, não uma pelada, mas mesmo assim fomos lá ver.

Todos nós avistamos a menina ao mesmo tempo e ficamos em silêncio. Ficamos observando o pequeno borrão que apareceu dançando com a bola, rindo toda vez que driblava alguém, como se tivesse acabado de contar uma piada incrível.

“Ela é muito boa, hein?”, disse Ryan, enquanto observávamos com os dedos enfiados no alambrado e tentávamos chegar mais perto.
“Quantos anos ela deve ter?”, perguntei.
“Deve ter uns oito, no máximo”, chutou Ferg.

O nosso filme ia ser sobre jogos informais, não superestrelas de oito anos de idade, mas continuamos olhando mesmo assim.
“Talvez a gente deva descobrir mais sobre ela”, sugeriu Luke.
Quando o treino terminou, ele ficou parado meio sem jeito perto dos treinadores, esperando que alguém o visse ali. Um cara magro e grisalho estava guardando cones e coletes na bolsa quando viu Luke, que pigarreou e apontou para mim. Ouvi-o dizer “futebol feminino” e “Santos”, então imaginei que estivesse dizendo “Minha namorada também joga futebol”,
na esperança de que isso pudesse nos ajudar.

Capa do filme de Gwendolyn

E aí Luke apontou para a menininha. O treinador nos surpreendeu ao responder em inglês: “Eles a chamam de Ronaldinha.” E jogou a bolsa com coletes por cima do ombro e disse:
“Vocês já comeram? Vamos jantar.”

Nós o seguimos, viramos a esquina e chegamos a um restaurante de comida chinesa (simples assim: somos convidados para jantar por uma pessoa que nunca vimos antes). Diante do frango agridoce que nunca teríamos escolhido (afinal, quem vai para o Brasil para comer comida chinesa?), contamos para ele que estávamos à procura de histórias de peladas. Às vezes é difícil explicar: as pessoas querem nos levar para os estádios, para os jogos de verdade, não para os jogos aos quais ninguém presta atenção. As peladas são uma parte natural da rotina diária. Para um brasileiro, fazer um filme sobre elas parece ser a mesma coisa que fazer um filme sobre uma caminhada depois do jantar. Mas Alejandro, o treinador, entendeu nossa intenção imediatamente.

“A Ronaldinha cresceu jogando bola com os meninos da vizinhança – foram eles que deram o apelido”, disse Alejandro. “Tem um campinho de terra logo atrás da casa dela. Vocês deviam aparecer lá.”

No guardanapo, ele desenhou para Luke um mapa até Niterói. Fez o desenho de uma ponte e escreveu o número do ônibus. “A Ronaldinha é especial”, disse. Pensei na esperança que o nome dela carrega. Ao sair pela porta, Luke perguntou: “Você conhece algum garçom que vai jogar hoje à noite?”

Alejandro nos deixou em frente a um toldo amarelo com os dizeres Pizza Gambino. “É aqui. Boa sorte”, disse. Nós o cumprimentamos com um aperto de mão e agradecemos. Provavelmente, nunca mais o veríamos, mas ele tinha nos ajudado mesmo assim.

Então Luke ficou atrás das famílias que estavam aguardando uma mesa e, quando chegou sua vez, disse “desculpe”, a palavra em português que quase sempre dá início às nossas conversas sobre futebol. Aguardei o som de limpar a garganta que vem depois, quando Luke tenta suavizar a voz rouca, prejudicada pelo nervosismo. “Cê joga futebol?”, disse finalmente.

O cara, que estava mexendo em cardápios, levantou os olhos. Era um homem com cor e formato de um duende irlandês. “Claro”, respondeu, quase na defensiva, como se se sentisse insultado por ser confundido com alguém que não joga.

“Cê vai jogar esta noite?”, continuou Luke. “Sim”, respondeu o homem, afirmando com a cabeça e batendo com os cardápios empilhados no balcão.

Pouco antes da meia-noite, o restaurante estava vazio. Antes, havia o ruído das famílias, bebês chorando, homens gesticulando e xingando enquanto assistiam ao jogo do Flamengo, mas agora estava tudo calmo.

Os garçons sentaram-se à mesa, ao redor da televisão, desfazendo as gravatas-borboleta, assistindo ao fim do jogo em silêncio... E ficaram assim até o gol, quando todos saltaram das cadeiras, que caíram no chão. O único garçom que ainda lavava o chão agitou o esfregão no ar, respingando água no piso.

À meia-noite, saímos do restaurante com Etevaldo e Reinaldo, dois dos garçons que iam jogar. Etevaldo tinha colocado uma regata e uma bermuda de surfista com estampa floral. Quando passamos por outro restaurante, Reinaldo bateu à janela. Um garçom abriu e pôs o corpo para fora. Reinaldo disse: “Estamos indo para a quadra.”

Juntei as palavras em português (“nós”, “indo”, “quadra”) e fiquei orgulhosa por entender o que estava acontecendo, mesmo que por um segundo.

Fomos andando juntos até o campo. Antes de o jogo começar, os homens ainda são educados, o silêncio ainda é vagamente incômodo. Durante o verão, jogando em Santos, eu tinha aprendido a fazer perguntas básicas, perguntas estranhamente pessoais que nunca usamos de imediato em inglês, como “Você tem irmãos ou irmãs?”. Então, resolvi tentar.
“Irmãos?”, perguntei. “Irmãs?”
“Sim”, respondeu ele. “Uma irmã, um irmão.”
“Mais vieux? Mais jeune?” eram as palavras que achava que lembrava. Ergui a voz, como se o volume pudesse ajudar na compreensão. Mas vieux e jeune são palavras em francês, uma língua que, na verdade, não falo (foram minhas piores notas na faculdade), mas que vive saindo quando tento falar português. Eu deveria ter dito “mais velho” e “mais jovem”.

Eles ficaram me olhando sem entender. Luke não fez nada para me ajudar. Só me olhou com um jeito de Ninguém está entendendo o que você quer dizer.

Então, tentei gesticular – ao dizer vieux, coloquei o braço acima da cabeça, e quando disse
jeune, coloquei o braço para baixo.

Todos – Ryan, Rebekah, Luke e os brasileiros – riram. Não entendi por que estavam rindo. “O que foi?”, perguntei em inglês, sorrindo.
“Os seus gestos”, explicou Ryan. “Parecia que estava perguntando: ‘Gigante? Ou anão?’”
Etevaldo colocou a mão perto da orelha, como se dissesse “de tamanho normal”. Eu ri, me sentindo derrotada.

Chegamos a uma passarela, uma ponte para pedestres que lembra um cartão-postal de Paris, exceto que, em vez do Sena lá embaixo, há um gramado que se estende para todos os lados. Já passava da meia-noite e muitas das quadras estavam vazias, cada uma delas chamando por nós.

Quando sentamos nos bancos da quadra mais próxima à praia, Reinaldo me passou um de seus fones de ouvido. Ouvíamos a música-tema de Rocky quando um grupo de garçons cruzou a passarela, acenando com os braços para nós e assobiando.

Um cara grande jogou um monte de coletes no chão e me cumprimentou com as duas mãos, balançando muito meu braço, como se estivesse fazendo a mímica exagerada de um aperto de mão. “Olá, olá”, disse.

“Caipirinha?” Ele ofereceu uma jarra com um líquido amarelo com gelo e rodelas de limão. “Sim, caipirinha”, ele mesmo respondeu. “Hora de beber!” Alinhou uns dez copinhos de plástico no banco.

Reinaldo vestiu o colete por cima da cabeça, segurando o cigarro entre os lábios, num movimento tão fluido que me fez pensar que é sempre assim que ele faz. Numa quadra de asfalto, debaixo das luzes, ficamos horas jogando.

Deu 1h, 2h, 3h, 4h da manhã. Eu estava bocejando, flutuando. Bati as mãos contra as de Etevaldo depois que combinamos nossos passes para driblar um garçom que trabalhava no Beer Haven. Vi o cara grande no gol assoar o nariz num lenço de papel amassado, e também Reinaldo, sentado no meio da quadra, gritando de brincadeira enquanto alguém pulava por cima dele.

Pouco antes de o sol nascer, o jogo chegou ao fim. Etevaldo sentou no banco, colocando as mãos sobre os braços musculosos. Luke fez perguntas e eu fiquei ouvindo o tom constante da voz cansada de Etevaldo. “Eu lavo os pratos, varro o chão, coloco as cadeiras em cima da mesa”, disse, “e aí venho jogar, viver.”

Favela da Rocinha

Um táxi nos deixou no pé da Rocinha, às 6h45 da manhã seguinte. Esta favela não é tranquila como aquela onde estivemos com Nike. A internet nos diz que o número de habitantes ali está em algum ponto da “estreita faixa” que vai das 50 mil às 500 mil pessoas.
Não queríamos nos atrasar, então acabamos chegando antes da hora.

Esta é a cidade onde ninguém para no sinal vermelho à noite, a não ser que queira ser assaltado, onde pessoas que cochilam na praia têm as sandálias roubadas, onde Luke foi assaltado a mão armada. E nós somos quatro turistas em frente a uma favela controlada pelos reis do tráfico.

Eu estava com Tropa de elite na cabeça, o filme brasileiro sobre o pelotão de polícia ortemente armado e treinado em combate urbano que vai até as favelas prender os traficantes. Mesmo antes de ser lançado, grande parte dos brasileiros já tinha assistido ao filme: cópias piratas de uma versão que havia vazado na internet foram vendidas nas ruas. Nós quatro assistimos, sendo que só Luke entendia o que se passava, mas acho que tudo o que se precisava ouvir eram os tiroteios.

Cidade de Deus, o outro famoso filme que se passa numa favela, mostrava toda a ação – os tiroteios, a guerra contra o tráfico – ao som de uma cuíca, instrumento de samba que lembra o grito de um mico, um som que dá a impressão de que algo está prestes a acontecer. E esse era o som que ecoava na minha cabeça enquanto estávamos ali de pé, esperando.

Os reis do tráfico eram a parte que me assustava, muito embora Luke tivesse explicado que, estranhamente, eram eles que deixavam a favela segura: todos obedeciam às suas leis. Inclusive para entrar na favela era preciso aprovação dos traficantes. Ficamos esperando Washington e Emerson, brasileiros com nomes que soam mais americanos que os nossos. Eles coordenavam um programa para crianças na Rocinha e estavam dispostos a conseguir para nós a permissão dos traficantes.


À nossa frente, vans esvaziavam e enchiam de novo; as pessoas passavam por nós, saindo da favela e indo para a cidade; mulheres rumo ao trabalho, meninos indo vender refrigerante ou óculos de sol na praia de Ipanema.
“Lucas?”, alguém chamou, enquanto dois caras se aproximavam. Nós os cumprimentamos com um aperto de mão e então Emerson disse: “Vamos?”

Contornamos homens que vendiam açaí, camisetas e celulares. Washington andava com as mãos às costas e assobiava uma música meio lúgubre que soava estranhamente familiar.
“Isso é o que eu acho que é?”, sussurrei para Ryan.
“Sim”, respondeu ele.
Ao som do assobio da trilha sonora de Kill Bill, entramos na Rocinha. Homens dos dois lados da rua carregavam armas tão grandes que mais pareciam de brinquedo. Na nossa frente, um adolescente se apoiava numa AK-47 como alguém se apoia num guarda-chuva numa foto antiga. Ele estava sorrindo e parecia sorrir para nós, mas eu evitei fazer contato visual, portanto fiquei meio insegura até ele finalmente dizer, num inglês perfeito:
“Olá, amigos. Bem-vindos à Rocinha, o lugar mais bonito do mundo.”

Minhas mãos seguravam as alças da mochila que levava a câmera e fiquei olhando para a frente enquanto entrávamos na favela. Era como entrar num misto de Alice no País das Maravilhas e uma obra de Escher.

Há uma casa atrás da outra, subindo pela lateral íngreme do morro, até onde os olhos alcançam – casas de tijolo, com concreto saindo por entre os blocos; casas de concreto, com manchas de mofo nas laterais; casas caiadas de cores berrantes. A maioria tem três ou quatro andares, amontoadas e meio tortas, umas em cima das outras, os andares de baixo muitas vezes menores do que os de cima.


A parte baixa da Rocinha é agitada, cheia de lojas: lan houses, bares locais e barracas cobertas com plástico azul que vendem doces, joias e eletrônicos. Fiquei olhando um poste telefônico com centenas de cabos que se cruzavam, parecendo um rabisco. Tinham umas dez motocicletas na base do morro, prontas para levar as pessoas para cima como se fossem táxis.

Todos os sons se mesclavam, formando uma massa nova. Carros com alto-falantes gigantes amarrados com corda no teto gritavam seus anúncios. Um homem vendia filmes piratas, repetindo “DVD, DVD, DVD”.

Tinha um frango sendo assado num espeto na calçada. Uma televisão em volume alto passava uma reprise do jogo do Flamengo, e o narrador gritava “Belllllleza”. Washington assobiava, eu ouvia o som da cuíca na minha cabeça e ainda conseguia ouvir a voz do traficante dizendo “o lugar mais bonito do mundo”.

A rua, embora larga no pé do morro, ia ficando menor à medida que subíamos, estreita demais para os carros. Caminhamos pelos labirintos das ruazinhas, que ficavam cada vez menores até se abrirem novamente.

O ruído diminuía quando virávamos nas ruas menores; ruídos delicados – o eco de crianças rindo, as vozes da novela escapando por uma porta, o barulho distante de uma lambreta descendo uma viela. Um menino de triciclo passou por nós, morro abaixo. Cruzamos uma entrada, descemos um corredor azul-turquesa e subimos uma escada em espiral que levava
até o telhado.

Lá em cima, olhamos para baixo, para a favela. Washington estava ao meu lado. Ele parecia ser difícil de decifrar. Não dava para saber no que ele estava pensando enquanto assobiava, com as mãos nos bolsos. Inclinei-me para o lado e observei o lugar onde ele morava, as torres de casas tortas, os telhados pontilhados por caixas-d’água, as mães prendendo camisetas nos varais.
“Você joga?”, perguntei a Washington, meu pé roçando a bola, mandando-a para ele.
“Não...”, ele respondeu, e fez uma pausa comprida. “Mas, mais tarde, levo vocês até o pessoal que joga.”

Por volta das 8h da noite, Emerson nos deixou no campo grande, perto do limite da favela. Lá havia homens vagando à toa, em grupos, nas laterais empoeiradas do campo. O sol acabara de se pôr. As luzes que iluminavam o campo não eram fortes. Cada uma delas devia iluminar um raio de uns quinze centímetros, dando a sensação de que íamos jogar à luz de velas. Estava escuro demais para filmar.

Um cara usava uma camiseta com listras verdes e brancas que fazia sua barriga parecer maior do que já era. Trazia uma corrente de ouro e um cronômetro rosa berrante pendurados no pescoço. Todos chegaram até ele, cumprimentando-o com o gesto do pulso fechado sobre a palma da mão. Parecia ser a figura central, quem estava no comando. O pessoal colocou Luke num time e eu no outro. O meu time estava de fora primeiro, então ficamos no banco, vendo o jogo. Não tentei conversar com ninguém. E não conversaria mesmo se soubesse falar português. Não é bom falar se ninguém te viu jogar ainda.

Vendo o jogo, percebi que havia uma grande chance de eu não ser boa o bastante para jogar. O futebol que acontecia na minha frente era tudo que o futebol brasileiro deveria ser. Os jogadores inventavam no chão de terra. Fiquei com inveja de Luke por ele poder jogar logo, enquanto eu ficava ali sentada, caraminholando. Nunca fui boa em ficar só assistindo.

Fico totalmente compenetrada, hipnotizada por todos os outros, me sentindo menos confiante. Não entendi o que fez o jogo terminar, mas terminou, e o meu time começou a entrar em campo. Alguém me deu um colete vermelho que dizia Família Valão, numa fonte que imitava gotas de sangue. Valão, Luke me explicou, é o nome da rua onde eles moram, na Rocinha. A palavra significa tanto “esgoto” quanto “cova a céu aberto”. Um grande esgoto corre embaixo da rua; imagino que a fonte que imita sangue se aproveita também do outro significado da palavra, mais ameaçador.
“Em que posição você joga?”, um cara me perguntou.
“Meio-campo”, respondi, em português, esperando que fosse o equivalente ao midfield do inglês. Ele apontou para o meio do campo. Com midfield eu indicaria a zona lateral, na ala, onde a disputa pela bola é mais mano a mano. Não tive a intenção de pedir o centro do campo, onde atuam todos os melhores jogadores.

Dei uma corridinha até o meio do campo, as batidas do meu coração descompassadas, fora de controle. Alguém apitou e o jogo começou. Um meia-armador precisa acompanhar a bola, ou seja, ele precisa achar que a merece. Eu sabia que, se conseguisse ganhar uma dividida, minha auto-confiança aumentaria o suficiente para que eu pudesse pedir a bola. Um jogador do outro time estava perto de mim e seu toque, embora não tenha sido desleixado, também não foi perfeito. Parti para cima da bola com vontade, raspei nela e escorreguei no chão de terra, mas consegui recuperar o equilíbrio para roubar a bola, colocando meu corpo entre ela e o cara. Toquei de primeira e mandei para o atacante. Avancei, e o atacante me devolveu. Chutei de primeira, com o pé esquerdo, e a bola pegou uma boa velocidade. O goleiro defendeu sem grande dificuldade, e voltei trotando, com o rosto inexpressivo, apesar de estar me sentindo inacreditavelmente sortuda.

Agora, precisava manter o ritmo. Minha mãe sempre me disse: “Finja que consegue até conseguir”, e eu nunca gostei muito da frase; achava que era engraçadinha demais – mas, no geral, é o que acabo fazendo. Finjo que pertenço a um lugar até conseguir acreditar que isso é verdade.

O meia-armador – a pessoa que está em todos os lugares, o tempo todo. Na ala, você pode passar um bom tempo sem ver a bola. É fácil cair em transe, ficar só olhando. No meio-campo, não há esse risco: todos os pontos se conectam através de você.

Uma hora tomei uma caneta – antes mesmo de eu saber o que estava acontecendo. A jogada foi tão fantástica que nem me senti mal. E, fora isso, eu estava jogando bem. Chegava aos atacantes e zagueiros e lançava a bola, com passes limpos. Não sou boba o suficiente para tentar driblar.

O meio de campo estava congestionado; dar mais do que dois toques era procurar encrenca. Alguém poderia vir do nada, se materializar bem na sua frente e roubar a bola. E, em campo, há pouca coisa pior do que isso.

É claro que queria driblar, era o que eu mais queria. É nisso que sou boa, muito embora pudesse soar ridículo dizer isso no Brasil. Sou boa, mas eles são melhores. Mesmo assim, queria impressioná-los. Mas precisava esperar. É preciso ocupar o campo com passes, de maneira tão sistemática que ninguém espere que você vá driblar – e aí partir para cima.

O cara grandalhão com o cronômetro rosa apitou. Nosso jogo acabou. Ninguém tinha feito gol. Voltei para o banco e Luke tocou minha mão quando passou por mim. Depois de jogar, não é ruim ficar assistindo; posso relaxar e só ver o jogo. Vi outra caneta. Um cara que estava correndo para o ataque de repente mudou de direção, ficando bem de frente para o jogador que corria atrás dele. Usando a sola do pé, ele tocou a bola por entre suas pernas, passando tão incólume pelo zagueiro que era como se o cara nem estivesse ali.

Quando entrei em campo de novo, não parecia mais que havia um terremoto no meu coração. Dessa vez, meu time me colocou na ala, área onde sei me movimentar. Fui dando passes, um, dois, três – e só aí tentei alguma coisa. Não sabia bem o quê, só estava me movendo, correndo pela lateral, fingindo cortar para a direita, mas continuando para a esquerda, as pernas dando voltas ao redor da bola até conseguir alguns centímetros de espaço. Chutei com força, o mais rápido que pude, com medo de ter dado toques demais e perdido o tempo da bola. Mas o chute foi certeiro. Ouvi a bola bater no travessão e a onda de surpresa.

Durante todo o resto do jogo, o cara que corria pela lateral comigo fazia uma jogada atrás da outra. Agarrei seu short e tentei não perdê-lo. Ele ganhou de mim várias vezes. Mas eu fiquei um pouco orgulhosa disso, como se tivesse provado que era boa o bastante para que ele quisesse me derrotar. Joguei o melhor que podia, aquele tipo de jogo que você nem sente.

À meia-noite, Anderson, o cara de camisa listrada verde e branca com o cronômetro rosa, cujo nome eu aprendi porque todos o chamavam no campo, apitou novamente, e dessa vez significava o fim de todas as partidas.

Todos estavam aglomerados, tirando meias e coletes, passando os dedos pelos cabelos suados. Um sujeito bateu no meu ombro e disse: “Você joga bem.” Era o cara que tinha me derrotado várias vezes na lateral. Eu estava com as mãos na cintura, e minha respiração ainda não tinha voltado ao normal. Até onde me lembro, esse futebol tem sido o que me faz
sentir plenamente viva.

Valão na Rocinha

Na rua do Valão, na manhã seguinte, fomos andando até a casa de Anderson. Espiando pelas portas, vi uma toalha de mesa de crochê e uma televisão de tela plana. Fiquei pensando na televisão. Achava que as favelas eram pobres e são, com um cômodo empoleirado em cima de outro... mas também há televisões de tela plana.

A casa de Anderson tem três andares, com uma geração diferente ocupando cada um – seus avós ficam na parte de cima, seus pais no meio, e Anderson embaixo. Há troféus de futebol em um canto; pipas coloridas, umas em cima das outras, ficam em outro. “Esse cara grandão ainda é um menino”, disse Emerson. “Está sempre soltando pipa.”

Tenho o mau hábito de projetar personalidades nas pessoas. Estava escuro na noite anterior. Anderson usava uma corrente de ouro grossa e tinha antebraços musculosos. As pessoas vinham até ele e faziam cumprimentos misteriosos. Seu apito sinalizava tanto o começo quanto o fim das partidas. Tudo isso me deu uma impressão meio de máfia. Achei que
ele fosse o tipo de cara com poder velado. Mas agora, encostada na porta, ouvindo sua voz suave enquanto falava sobre sua paixão por futebol e por pipas, era evidente que tinha interpretado tudo errado.

Anderson pendurou a bolsa atravessada no peito e foi se esgueirando por entre as ruas estreitas. Os jornais da manhã estavam presos com pregadores de roupa num barbante. Ele se espremeu atrás de um grupo de homens que lia as manchetes até conseguir ver: Marta, Marta, Marta /Brasil 4, Estados Unidos 0. Motocicletas buzinavam quando passavam
pela multidão que caminhava rumo aos afazeres do dia. Anderson parou no bar do avô; sua avó estava atrás do balcão, passando o café num filtro descartável. Ele bebeu uma xícara rápido, viu os melhores momentos do jogo do Flamengo e beijou a avó no rosto antes de sair do bar. Quando saímos da rua do Valão, ele apontou para palavras meio cobertas de
tinta, mas ainda visíveis:
Família Valão, Boa de Funk, Jujitsu, Mulher e Futebol.

O Furacão do Rio – pessoas com uma energia inacreditável aparecem na sua vida e depois somem, acenando enquanto descem a rua íngreme, a calçada ou a praia. As experiências se sobrepõem: Etevaldo batendo bola contra o concreto, meio sorrindo, meio bocejando; o mágico na praia, que olhou para mim como se soubesse o que eu amava – e ele sabia, porque aqui o futebol é a coisa que quase todos amam; o grafiteiro que colocou sua imaginação num caderno. (Luke chamou minha atenção para algo que eu não havia percebido – o fato de que, no desenho de Sandro, as estrelas e listras da bandeira dos Estados Unidos se mesclavam no círculo e losango da bandeira brasileira, como se eu estivesse me tornando brasileira.) E agora estávamos indo embora, rumo ao outro lado da baía, para ver o pequeno fenômeno.

Sobre Gwendolyn Oxenham:

Tem mestrado em escrita criativa pela Universidade de Notre Dame. Jogadora de futebol pela Duke University, atuou profissionalmente pelo Santos, no Brasil, em 2005. Vive no sul da Califórnia, onde leciona inglês e joga peladas.

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