segunda-feira, 10 de junho de 2013

O Futebol da Contracapa



Não é só de “famosos”, clubes e atletas, que deve tratar a literatura esportiva brasileira. Um ótimo exemplo de resgate de histórias vividas nos clubes chamados de amadores é o livro “O Futebol da Contracapa” (Editora Máquina de Escrever) lançado recentemente.

O trio de autores, Allan de Paula Oliveira, Hélder Cyrelli de Souza e João Castelo Branco Machado marcaram um gol de letra ao mergulhar nestes cenários fascinantes do futebol, onde a verdadeira paixão pela bola é revelada diariamente em campos e quadras de todo o país.

Sinopse (da editora):

Operário Ahú, uma das forças do futebol amador de Curitiba, décadas de 40 e 50.

“O Futebol da Contracapa apresenta um retrato do futebol amador em Curitiba a partir da pesquisa “O Verdadeiro Futebol da Comunidade”, feita, em 2010 e 2011, em alguns campeonatos amadores da cidade e região metropolitana, sobretudo junto ao principal deles, a Suburbana – que ocorre desde 1941. O livro convida o leitor a conhecer o universo do futebol amador em Curitiba e a Suburbana, mostrando como esta prática esportiva conjuga uma série de questões importantes, tanto em relação ao esporte (como as relações do futebol amador com o universo do futebol profissional) quanto ao meio urbano (como o fato do futebol amador envolver atividades de lazer que integram diversos bairros da cidade e município da região metropolitana de Curitiba, ou ainda, o fato desta prática esportiva aparecer como centro de articulação de práticas e discursos relacionados a etnias, gerações etárias, espaços de residência). Neste sentido, o livro mostra a importância do futebol amador e da Suburbana no cenário urbano de Curitiba e região metropolitana e o lugar que ocupam na vida de muitos de seus habitantes.

A pesquisa e o livro foram financiados com recursos obtidos via mecenato, através de aprovação no edital da Fundação Cultural de Curitiba (2008) e teve o apoio do Banco do Brasil”.

Literatura na Arquibancada destaca abaixo um trecho da obra:

O Futebol da Contracapa
Por Allan de Paula Oliveira, Hélder Cyrelli de Souza e João Castelo Branco Machado

Equipe do Santa Quitéria, campeã da Suburbana 2010.

“A página 6 do caderno de esportes do jornal Gazeta do Povo, na segunda-feira, dia 21 de dezembro de 2009, trazia a chamada em destaque: “Cobrador de ônibus garante festa do bicampeão Urano”. A reportagem, assinada por Gustavo Machado, relatava, em suas duas páginas, a partida final do Campeonato Metropolitano de Futebol Amador de Curitiba, conhecido popularmente como “Suburbana”. Em 2009, a final foi disputada pela Associação Clube Esportivo Urano – conhecida no meio por “Vila Urano” ou, simplesmente, “Urano” – e o Trieste Futebol Clube, chamado de “Trieste”. As duas equipes decidiram o título em três partidas. A primeira, realizada em 05 de dezembro, no Trieste Stadium – estádio Francisco Muraro, em Santa Felicidade – terminou com o placar de 2 a 1 para o time da casa. A segunda, realizada no sábado seguinte, dia 12, no estádio do Urano – estádio Manuel Garcia de Andrade, conhecido como Manecão, no Xaxim – terminou com a vitória do Urano pelo mesmo placar da partida anterior, o que forçou a realização de uma terceira partida, no dia 19, também no estádio do Urano. Esta terminou com o placar de 3 a 2 para o Urano, com o gol do título marcado por Flavinho, jogador que por profissão atuava como cobrador de ônibus.

As três partidas entre Trieste e Urano foram acompanhadas por dois jornais de Curitiba, com notícias sobre a preparação das equipes. Para apimentar ainda mais o ambiente, um dos jornais promoveu uma espécie de “diário das finais”, com um jogador de cada equipe relatando diariamente seu cotidiano durante a semana anterior ao primeiro jogo da final. As partidas também tiveram cobertura televisiva: seja com notícias em telejornais de três emissoras da cidade, seja com a transmissão das partidas pela TV Educativa do Paraná. Além disso, houve também cobertura pelo rádio, com as partidas sendo transmitidas por duas estações de Curitiba e uma de São José dos Pinhais.

Radialistas transmitindo partida do futebol amador

No entanto, poucos curitibanos viram ou ouviram falar da final da Suburbana. A própria partida final não ocupava a capa do caderno de esportes da Gazeta do Povo, já que na segunda-feira, dia 21, a manchete era “Coritiba refaz contas para 2010”. O Coxa – apelido do Coritiba Football Club, um dos principais times de futebol profissional da cidade – era a principal notícia do futebol paranaense em dezembro de 2009. Na partida disputada no dia 06 daquele mês, contra o Fluminense do Rio Janeiro, o Coritiba foi rebaixado à segunda divisão do campeonato brasileiro e teve seu campo de jogo invadido violentamente por um grupo de sua torcida, fato que recebeu ampla cobertura da imprensa em todo o país e teve repercussões em canais de notícias esportivas em todo o mundo. Durante todo o mês de dezembro de 2009, a situação do Coritiba foi a principal notícia dos meios esportivos na cidade e a manchete da Gazeta refletia isto. É interessante notar que a reportagem sobre a final da suburbana era a maior do caderno de esportes daquela edição, ocupando duas páginas inteiras. Porém, não era a capa. Talvez esta seja uma boa metáfora para o que seja a Suburbana em Curitiba e, por extensão, a prática do futebol amador na cidade: o tipo de fenômeno urbano que sempre ocupa a contracapa dos jornais, o “lado B”.

O que será apresentado neste livro é o resultado de um primeiro “mergulho” neste lado B da prática futebolística: o universo do futebol amador em Curitiba. Ele é fruto de um trabalho de investigação feito por um antropólogo flamenguista, um historiador gremista e um fotógrafo torcedor do Fluminense (tricolor) do Rio de Janeiro. Os três acompanharam a Suburbana no segundo semestre de 2010 – torneio vencido pela União Recreativa Esportiva Santa Quitéria – e aos poucos foram percebendo que a Suburbana era a porta de entrada de um universo muito mais amplo, o do futebol amador.

Torcida de partida da Suburbana

A Suburbana, embora seja o campeonato mais organizado (uma espécie de “elite de amadorismo” em Curitiba) é apenas um dos sem-número de campeonatos amadores que ocorrem na cidade durante todo o ano. Para os pesquisadores, acompanhar este campeonato significou perceber a existência de um universo extremamente amplo na prática de futebol amador.

Este mundo do amadorismo futebolístico engloba desde campeonatos organizados como a Suburbana – que reúne equipes registradas na Federação Paranaense de Futebol e que conta com uma pequena, porém constante, cobertura da mídia – até campeonatos que reúnem equipes sem registro algum na federação e que, até recentemente, eram apenas agrupamentos provisórios de pessoas interessadas na prática futebolística, ou ainda, meras equipes de pelada. Entre a pelada, verdadeiro mito no universo do futebol, e o amadorismo a distância é tênue e será comentada adiante neste texto. Por hora, a diferença entre ambas pode ser estabelecida em um nível mínimo de organização das equipes amadoras – quadro fixo de jogadores por um determinado período de tempo – bem como a participação em campeonatos que seguem as regras institucionalizadas da prática futebolística – quanto ao tempo de jogo ou número de jogadores, por exemplo.

                Foto na parede da sede do Iguaçu, equipe amadora de Curitiba. Este é o time de 1981 e o quarto jogador de pé, da direita para a esquerda, é Cuca, atual técnico do Atlético MG.   
A pesquisa acompanhou também outros campeonatos: Copa Folha de Tamandaré, tradicional torneio amador que reuniu, no primeiro semestre de 2011, equipes de Curitiba e de cidades da região metropolitana, como Almirante Tamandaré, Colombo, Piraquara e outros; Taça Paraná, uma espécie de “campeonato estadual” do amadorismo, que reúne as equipes campeãs de diferentes municípios de todo o estado do Paraná. Isto permitiu a observação dos diferentes “graus de amadorismo” dos clubes – há clubes “mais amadores” do que outros – bem como refinar algumas ideias advindas da observação da Suburbana. Além disso, foi feita também uma pesquisa documental junto a dois jornais tradicionais do município – Gazeta do Povo e Tribuna do Paraná – bem como a consulta a jornais comunitários disponíveis em acervos da Biblioteca Estadual do Paraná, da Casa da Memória de Curitiba e, em alguns casos, acervos eletrônicos. Um material valioso foi obtido com a compra de dois exemplares, em um sebo de Curitiba, do monumental e fora de catálogo “Futebol no Paraná: 100 anos de história”, de autoria dos jornalistas Levi Mulford e Heriberto Machado. Mulford acompanha o futebol amador desde 1953 e é citado dentro do universo amador como uma “enciclopédia viva” do futebol do Paraná, sendo dono de um dos maiores acervos sobre a prática do futebol no estado. Atualmente ele tem uma coluna sobre futebol amador no jornal Tribuna do Paraná.

À medida que a pesquisa foi sendo realizada, os pesquisadores foram percebendo também como o universo do futebol amador concentra muitos temas que interessam às ciências sociais e à história: lazer urbano, práticas corporais, construção de identidades, urbanismo, patrimônio e memória. O objetivo deste livro é uma apresentação destes campeonatos na sua relação com estes temas. Assim como diversos outros fenômenos urbanos, o futebol amador envolve a participação de diversas pessoas que ocupam diferentes funções – jogador, torcedor, comerciante, simpatizante, dirigente, jornalista – e observar este universo é perceber a experiência dessas pessoas em uma atividade que, para elas, é de suma importância. Tal experiência é também uma forma de viver o meio urbano, a cidade. Em nome do futebol amador, pessoas se deslocam, todos os dias, de um bairro a outro no município. Em nome desse futebol, há encontros sociais em clubes; brigas entre torcedores e jogadores; ofensas à arbitragem; afirmações de tradicionalidade (clubes que se orgulham da sua longevidade, de sua história, de sua vinculação com uma determinada etnia); e há expressões de rivalidade entre bairros, entre colônias de imigrantes, entre classes sociais. Em suma, esses campeonatos de futebol amador permitem a observação de um dos estilos de vida possíveis no meio urbano e é esse estilo que este livro tenta apresentar. Se esta obra conseguir convidar outras pessoas a conhecer um pouco mais do futebol amador em Curitiba e região metropolitana e convidá-las a prestar atenção em outras formas de viver a cidade, já terá realizado seu propósito”.

Sobre os autores:

Allan de Paula Oliveira, flamenguista, é antropólogo e realiza pesquisas sobre música popular. Tem vários artigos sobre o tema publicados em revistas especializadas e participou, em 2008, da produção do documentário “Curitiba ao Som da Viola”, sobre a música sertaneja em Curitiba. Desde 2008, é professor do curso de ciências sociais da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE).


Hélder Cyrelli de Souza, gremista, é historiador, com pesquisas sobre a relação entre a filatelia e a identidade nacional. Atualmente, é professor de história do Colégio Militar de Curitiba.


João Castelo Branco Machado, torcedor do Fluminense, é fotógrafo e cineasta, e, desde 2006, tem feito diversos trabalhos visuais e cinematográficos. Participou da produção e realização do livro e do documentário (2008 e 2010) “O Corte do Alfaiate”, sobre a prática da alfaiataria em Curitiba, bem como do documentário “Bolpebra” (2011), sobre uma cidade, com 40 habitantes, localizada na fronteira entre Bolívia (Bol), Peru (pe) e Brasil (bra). Atualmente, faz parte da equipe da Tui Tam Filmes.

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