sábado, 29 de junho de 2013

Megafone do esporte: a tragédia de Dinorah

Arte: Zuca Sardan


“Deixa Falar: o megafone do esporte”, espaço de debates que sai quinzenalmente, sábado sim, sábado não, aqui, no Literatura na Arquibancada, na Carta Maior (http://www.cartamaior.com.br) e no blog do Juca (http://blogdojuca.uol.com.br/ ), debatendo o esporte em geral e o futebol em particular, dialogando com a História, Política, Música, Economia, Literatura, Cinema, Humor, traz nesta edição artigo especial do historiador da música popular brasileira, Carlos Didier.

Campeão de 1910
Por Carlos Didier

Dinorah na Marinha.

Como militar, Dinorah Candido de Assis aspirava ser oficial  da Marinha; como jogador, era titular do Botafogo Futebol Clube.  Defendera o América até 1908, mas em agosto do ano seguinte, quando Euclydes da Cunha, autor de Os Sertões, entrou na casa na Estrada Real de Santa Cruz para matar seu irmão Dilermando, amante da esposa do escritor, Dinorah já se transferira para o futuro time da Rua General Severiano.

Esbelto em sua farda, craque em seu uniforme, a bala desferida por Euclydes da Cunha, quando Dinorah correu para pegar a arma, permaneceu alojada em sua espinha dorsal, próximo da nuca.

Em 1910, ainda com a bala no corpo, o jogador ajudou o Botafogo a conquistar seu primeiro campeonato.  Justamente o citado no hino:
                       
Botafogo, Botafogo
            Campeão de 1910.
            (Lamartine Babo, Hino do Botafogo)





Hino que teve, um dia, a preposição “de” expulsa de campo, substituída por “desde” - não sem um certo sacrifício melódico.  Porque torcedores rivais brincavam: teriam sido campeões apenas "de 1910".  Afinal, estava no hino.

Dinorah, no Botafogo de 1910: de pé, à direita.

Coggin, Pullen e Dinorah;  Rolando, Lulu e Lefévre; Emanuel, Abelardo, Decio, Mimi e Lauro. Esta foi a equipe que deu ao Botafogo a alcunha de glorioso. 

Dinorah atuava na zaga e chamava a atenção pelo vigor dos chutes, pelo bom posicionamento, pela calma e precisão dos passes.  Disputou nove das dez partidas.  Na "final" (o último jogo deste campeonato ainda sem Flamengo e Vasco foi mesmo contra o Haddock Lobo), seu time derrotou o Fluminense por 6 x 1.  E o irmão de Dilermando de Assis - o homem que matou Euclydes da Cunha - estava lá.

Com o tempo o projétil na coluna vertebral trouxe complicações, e apesar da intervenção cirúrgica de 1913 Dinorah tornou-se hemiplégico. A doença destruiu suas carreiras, no esporte e nas forças armadas. Teve um fim de vida trágico: entregue ao vício do álcool, infectado pela sífilis, paralítico, atirou-se às águas. No cais de Porto Alegre, em 1921. No lance menos divulgado da Tragédia da Piedade.

                     box inédito de Orestes Barbosa, repórter, cronista e poeta
                     reescrito especialmente para o Megafone do Esporte.

Sobre Carlos Didier:

É flamenguista, historiador da música popular brasileira e da cidade do Rio de Janeiro. Engenheiro e músico é autor de “Noel Rosa, uma biografia” (em parceria com João Máximo); de “Orestes Barbosa, cronista e poeta” (prêmio Jabuti de biografias) e “Nássara passado a limpo”, além de várias outras publicações. Foi um dos fundadores do grupo musical “Coisas Nossas” que fez história interpretando a obra de Noel Rosa.

No link, Carlos Didier (Caola) e o conjunto “Coisas Nossas” interpretando trechos inéditos de “Com que Roupa? de Noel Rosa, programa gravado em 1984: http://www.youtube.com/watch?v=aST0ywy3P7Y

Um toque do Megafone:



Na próxima terça feira o Megafone do Esporte publicará um artigo de Raul Milliet Filho intitulado: “Que tempos são estes em que temos que defender o óbvio?”(Bertold Brecht) - O equívoco dos megaeventos.

O autor acredita que o fausto arrogante do “padrão FIFA” dos estádios não somente é desnecessário como desfigura culturalmente as torcidas nas arquibancadas.

Como disse Afonsinho na Carta Capital esta foi a Copa das Manifestações. No artigo, a opção da Política de Esportes no Brasil em priorizar os megaeventos será escovada a contrapelo. Salientamos que o seu conteúdo não representa necessariamente a opinião de todos os integrantes do grupo.

Deixa Falar: o megafone do esporte – criação e edição de Raul Milliet Filho.

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