sexta-feira, 14 de junho de 2013

Futebol Magazine: o futebol em revista


Um artigo diferente do que você, leitor, está acostumado a ler aqui, no Literatura na Arquibancada. Não se trata de um livro, mas de um projeto espetacular: a revista online Futebol Magazine (www.futebolmagazine.com). Um espaço nobre do futebol mundial em que a memória se mistura ao presente de forma inteligente, informativa e com muita reflexão. É fácil entender a profundidade dos artigos publicados em Futebol Magazine a partir da leitura de sua apresentação aos leitores:

“O futebol é mais que um desporto. É mais que um elemento social e cultural fundamental para entender a evolução da história dos últimos 150 anos. O futebol é o espelho em movimento das sociedades modernas, reflexo da sua realidade econômica e social, eco do seu peso cultural e da sua influência política. Em pleno século XXI o futebol é o elo que une o mundo, elemento mais poderoso que qualquer marca multinacional, qualquer indústria cultural ou religião. Há mais praticantes de futebol, registrados e anônimos, do que cristãos e muçulmanos, amantes de cinema, música e literatura, espectadores da MTV ou da CNN e consumidores de Coca Cola ou McDonalds. Do interior da Amazônia ao asfixiante céu do Sahara, das praias mediterrânicas às colinas japonesas, a bola move-se com a mesma paixão e devoção, com a mesma certeza de sentir-se eterna.


O Futebol Magazine é uma revista online independente fundada em finais de 2008 e que tal como a bola é um espaço em constante movimento. Uma revista online que prefere discutir o peso político de um jogo capaz de acabar e começar guerras a debater as múltiplas interpretações da lei do fora de jogo. Com um olhar no passado e outro no futuro, o FM move-se entre reportagens, entrevistas, artigos de investigação e dissertações sobre as mil realidades onde a bola se move sem parar (...)”.

Para exemplificar tais definições, Literatura na Arquibancada destaca o artigo escrito por um dos criadores de Futebol Magazine, Miguel Lourenço Pereira, sobre “a importância do futebol para os zapatistas de Chiapas”. Uma história incrível, que atesta a importância e a força do futebol em qualquer canto do planeta. O texto, publicado originalmente neste link http://www.futebolmagazine.com/a-importancia-do-futebol-para-os-zapatistas-de-chiapas, foi gentilmente cedido pelos editores do Futebol Magazine. Literatura na Arquibancada, agradece.

A importância do futebol para os zapatistas de Chiapas
Por Miguel Lourenço Pereira


Na província de Chiapas, no México, 400 mil pessoas tentam viver longe dos paradigmas sociais contemporâneos. O governo local liderado pelo subcomandante Marcos, herdeiro direto do zapatismo que sacudiu o país no início do século XX, luta para manter a causa viva.  O futebol, para ele, tornou-se na forma perfeita de fazer com que o mundo não se esqueça que para eles a luta continua. No Inter de Milão, e em Javier Zanetti, os zapatistas de Chiapas encontraram o seu embaixador.

A solidariedade do Inter de Milão

Em abril de 2005 chegou uma carta à sede do Inter, em Milão. Dirigida à direção, vinha da província mexicana de Chiapas e estava assinada pelo subcomandante Marcos, figura mítica dentro dos grupos de esquerda que apoiam o movimento zapatista desde a sua formação. O líder do governo local, uma espécie de estado dentro do estado mexicano de 40 mil km quadrados, habitado por 400 mil indígenas locais, pedia ao clube italiano que lhes enviassem bolas de futebol porque as deles tinham sido destroçadas pelo último raide das tropas governamentais. Mas o pedido, inusual à primeira vista, tinha outro objetivo: não deixar que a imprensa italiana, sempre afim ao movimento, se esquecesse da sua crua realidade.

E se a carta chegou ao Inter, e não ao AC Milan, por exemplo, também não foi por acaso. Não só o clube é dirigido por Mássimo Moratti, um milionário do petróleo com um coração de esquerda – cuja mulher é vogal do partido dos verdes na câmara municipal da cidade – e uma paixão secreta pelo movimento. Mas também é o clube de Javier Zanetti, talvez um dos futebolistas mais preocupados com os problemas políticos e sociais da América Latina. O lateral argentino não é só dirigente de uma fundação destinada a apoiar movimentos como o zapatista do México por toda a América. É também um jogador a quem o mundo escuta quando decide sentar-se a falar. E como era de esperar, Zanetti tomou a carta e não só tratou de enviar as bolas, como foi pessoalmente a Chiapas para mostrar que o movimento não estava esquecido.


A influência de Javier Aguirre


Foi em 1994 que o movimento zapatista se declarou formalmente em rebeldia com o governo mexicano. Herdado o pensamento ideológico de Emiliano Zapatta, reformista do princípio do século XX e figura chave na revolução agrária mexicana, herdou-se também a política de guerrilha contra as forças governamentais. Durante esse ano, e nos seguintes, houve vários confrontos em Chiapas pelo controle da região entre o exército da capital e a recém-formada EZLN, liderada pelo subcomandante Marcos.

A partir desse momento começou a conquistar apoios mediáticos importantes, entre os quais o filósofo uruguaio Eduardo Galeano (também ele um amante do futebol, autor do livro Futebol ao Sol e a Sombra) e o treinador mexicano Javier Aguirre.

Filho de emigrantes bascos que deixaram Bilbao quando as tropas falangistas tomaram o País Basco, foi educado dentro da ideologia abertzale e desde jovem se destacou na universidade da Cidade do México como um dos mais profundos apoiantes dos movimentos de esquerda e dos grupos indígenas no país. A sua consciência social e conhecimento do espaço midiático levou-o a explorar o futebol como arma social para apoiar o movimento. Em 1999 organizou um encontro entre uma equipe do movimento e alguns dos veteranos jogadores que disputaram o Mundial do México de 1986 com a camisa “tricolor”, equipe da qual ele fazia parte. Que os homens da EZLN tenham chegado ao campo sem chuteiras e equipamento, diz muito da situação que vivem. Que Aguirre tivesse pedido à mulher para desenhar um equipamento específico para a ocasião, também. A partir desse momento o futebol seria, para sempre, uma das formas mais pacíficas e influentes, do EZLN chegar à opinião pública.

O testemunho foi rapidamente recolhido pelo muralista Banksy, que juntamente com uma equipe de futebolistas anarquistas de Bristol, no sul da Inglaterra, viajou até Chiapas para disputar um jogo amigável “anti-globalização”. Para comemorar o evento, o misterioso artista criou uma das suas obras mais emblemáticas, que serviriam igualmente de inspiração para que várias bandas musicais tomassem o movimento como uma das grandes inspirações para a sua música.

Na Itália, pela pressão dos partidos de esquerda, a causa dos indígenas de Chiapas tornou-se igualmente popular e Moratti e o seu diretor, Bruno Bartolozzi, foram dos primeiros a tomar cartas no assunto.


Zanetti, o porta-voz da EZLN

O Inter não só enviou o material solicitado como, a pedido de Zanetti, destinou todo o dinheiro acumulado das multas dos jogadores para ajudar a construir um hospital e uma escola na zona. O próprio Zanetti viajou pessoalmente para entregar o dinheiro e a partir daí a colaboração entre a sua fundação e o movimento tornou-se mais recorrente do que nunca.
O Inter, clube conhecido por ser um dos principais apoiantes de causas solidárias, continuou a enviar anualmente quantias de dinheiro consideráveis para os homens do subcomandante Marcos e por várias vezes ponderou a hipótese de viajar até à zona para disputar um jogo amigável, situação que ainda não se deu precisamente pela forte oposição do governo central mexicano.

Zanetti tornou-se, entretanto, numa das vozes mais solidárias e descontentes com a situação que se vive em Chiapas. O conflito armado não chegou ao fim, definitivamente, mas a violência de 1994 desapareceu de forma quase definitiva. A comunidade vive num modelo de auto-gestão mas numa zona tão agreste, é difícil sobreviver sem ajudas do exterior. Numa carta divulgada à imprensa, enviada a Marcos, o argentino escreveu que “acreditamos na não-globalização, num mundo melhor onde se respeitam as diferenças de todas as culturas e por isso declaramos o nosso apoio à vossa causa”.

Outros jogadores do plantel, como Esteban Cambiasso, juntaram-se ao apoio mais sentido dos neruazurri, um clube que começou a ser conhecido por se posicionar na extrema direita italiana (nos anos do fascimo) mas que com a família Moratti, e essencialmente o atual presidente, deu uma profunda reviravolta na sua política social, em contraste claro com o seu eterno rival, cujo o dono, Silvio Berlusconi, é também desde há muito um dos alvos ideológicos do zapatismo que em Chiapas prefere rematar a uma baliza do que disparar a um soldado.

Sobre Miguel Lourenço Pereira:

Nasceu no Porto (Portugal) há 29 anos, historiador dedicado ao futebol e diretor da revista online Futebol Magazine. É colaborador habitual da revista espanhola Libero e autor do livro “Cine Guia”.

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