quinta-feira, 23 de maio de 2013

Nilton Santos: O velho e a bola



Homenagear Nilton Santos, a “Enciclopédia” do futebol brasileiro, nunca será demais. Agora, mais um livro que entra para a lista de obrigatórios da literatura esportiva. Nilton Santos já tem um livro publicado sobre sua vida, mas muito distante do que mereceria. Aqui no Literatura na Arquibancada você pode conferir detalhes do “Minha bola, minha vida”, nos links a seguir:


Mas este, “O velho e a bola ” (Editora Maquinaria), é um golaço marcado pelo craque do jornalismo e da literatura esportiva Rafael Casé.  Livros de crônicas reunidas na literatura esportiva recente são raridades. 

Por isso, resgatar a trajetória de Nilton Santos, por intermédio das crônicas de Jacinto de Thormes, pseudônimo do jornalista Maneco Muller, publicadas no jornal Última Hora, torna-se um marco.

Abaixo, Literatura na Arquibancada apresenta a sinopse da obra, o texto de apresentação do livro que contem um depoimento inédito do craque Zizinho e uma das crônicas assinada por Maneco Muller.



Sinopse (da editora):


A Seleção Brasileira para a Copa de 1962 estava sendo montada. A convocação de Nilton Santos, na época com 37 anos, era contestada por muitos. Mas um momento mudou a história: um Maracanã lotado ovacionou, por vários minutos, o gol marcado pelo craque. A torcida carimbava o passaporte de Nilton rumo ao bicampeonato mundial.

Esta é apenas uma das muitas histórias contadas no livro O VELHO E A BOLA – A trajetória de Nilton Santos nas crônicas de Jacinto de Thormes, de Maneco Muller (o jornalista que deu vida ao pseudônimo).

São 40 crônicas escolhidas e organizadas pelo jornalista Rafael Casé, que também assina as notas que compõem o livro. Foram retiradas da série de crônicas que leva o mesmo nome do livro, publicada no jornal Última Hora no ano de 1963 e traçam um rico panorama do futebol brasileiro dos anos 1950 e 1960, com alegrias e dramas, talentos e malandragens, fama e decadência de craques inesquecíveis. Os textos têm na trajetória do jogador do Botafogo, conhecido como Enciclopédia – apelido, inclusive, dado por Maneco Muller – seu fio condutor.


Amigos, Nilton Santos e Maneco Muller mantinham longas conversas, principalmente em Petrópolis, onde os dois tinham casa de campo e jogavam animadas peladas. Foram estas conversas que geraram as crônicas selecionadas por Casé: um diálogo entre dois craques. Maneco com sua máquina de escrever e Nilton com a bola nos pés.

A ideia de compilar os textos de Thormes surgiu quando Rafael Casé fazia uma pesquisa no acervo da UH e se deparou com uma das crônicas. “Não parei mais de lê-las. Sabia que aquele material não poderia mais ficar escondido. Quando a família deu o sinal verde, tive a certeza de que aqueles textos preciosos voltariam a ser lidos por aqueles que amam a bola e as palavras”, conta o jornalista. Além do mais, se trata de uma bela homenagem, já que o craque acaba de comemorar seus 88 anos.

Maneco Muller

O VELHO E A BOLA também resgata o lado de cronista esportivo de Maneco Muller, que sempre foi muito mais conhecido como Jacinto de Thormes, o colunista que revolucionou o jornalismo social no Brasil: antes dele, as “crônicas sociais” eram meras descrições dos eventos. A partir de Thormes, virou colunismo social, com notas não apenas voltadas para o mundo socialite, mas que davam um panorama da sociedade (no sentido mais amplo) brasileira.

Entretanto, no mundo dos esportes, mais do que utilizar a objetividade jornalística, Muller fazia “literatura esportiva”, com uma narrativa descontraída em que conta “causos” em cima dos fatos. “É aí que se encontra o grande charme do livro: na narrativa de Maneco, na sua visão do futebol e de seus grandes protagonistas”, diz Casé.

Cerca de 30 fotografias de Nilton Santos, algumas clássicas, outras inéditas, complementam a história. E, em vez de um prefácio tradicional, Casé optou por um depoimento do lendário Zizinho retirado de uma das crônicas: ele afirmou, após ver uma partida do lateral do Botafogo e da Seleção Brasileira, que tinha presenciado a maior atuação de um jogador de futebol em toda sua vida. Uma partida que, de tão impecável, era quase impossível de ser repetida.

UM TESOURO REDESCOBERTO
Rafael Casé

Maneco Muller

Nas minhas pesquisas em busca da memória do futebol brasileiro e, em particular, do Botafogo, meu time de coração, me deparo com muitas preciosidades, mas, recentemente, vasculhando edições antigas do jornal Última Hora, meus olhos foram atraídos para uma coluna escrita por Jacinto de Thormes (pseudônimo do também botafoguense e jornalista de primeira, Maneco Muller). O título era “O VELHO E A BOLA”. O Velho em questão, como soube a seguir, tratava-se de Nilton Santos que, naquele ano de 1963, já bicampeão mundial pela Seleção, preparava-se para pendurar as chuteiras (fato que aconteceu no ano seguinte). Descobri, também que não se tratava apenas de uma crônica, mas cerca de 80.

Originalmente, a ideia de Maneco era lançar um livro, mas acabou sendo convencido por Samuel Wainer, dono do jornal onde já mantinha sua coluna social, a publicar todo o conteúdo em capítulos quase diários, de 4 de fevereiro a 22 de maio.

Os textos são envolventes e, mais do que a trajetória de um dos maiores defensores de todos os tempos, nos dão um panorama do futebol brasileiro dos anos 1950 e 1960.

Duas décadas que consolidaram, a nível mundial, o talento de nossos jogadores, e que para sempre ficarão marcadas pelas conquistas dos Mundiais da Suécia e do Chile. As crônicas, como o próprio autor explica, se baseiam em horas e mais horas de conversas do jornalista com Nilton e seus contemporâneos; material acumulado em blocos e mais blocos de anotações.


Meu trabalho, neste livro, foi selecionar as crônicas mais representativas, alinhavá-las com algumas observações que facilitem a compreensão do leitor e redigir notas de rodapé, para esclarecimentos de termos ou situações que, 50 anos depois, podiam não ser captados pelas novas gerações.

Todo o restante é fruto do talento de Jacinto de Thormes (ou melhor, de Maneco Muller).

Cheguei a tentar contatar alguns jogadores contemporâneos de Nilton Santos, para que algum deles pudesse descrever, na visão de um jogador, a importância dele para o futebol mundial, mas, infelizmente, por motivos variados, isso não foi possível. No entanto, quando já havia quase desistido da ideia, dei de cara com um depoimento de Zizinho (por sinal, o maior ídolo de Nilton) ao próprio Maneco Muller. De acordo com o craque (e que craque!), a maior partida de um jogador que ele presenciou, em toda sua carreira, foi protagonizada por Nilton Santos; um 0x0 entre Brasil e Argentina, em 1956 (1) . Com a palavra, o Mestre Ziza:

“Nesse dia, ele deixou de ser humano. Nos noventa minutos, dominou o grande ponteiro Corbatta e cobriu, por conta própria, as falhas de toda a nossa defesa. Mas não foi isso que me impressionou. Como velho profissional, o que me deixou besta foi que, no decorrer da partida, ele não perdeu uma bola, não falhou num passou, não deu um drible a mais, não teve nada para corrigir, não vacilou um instante, não enfeitou uma jogada.


Houve um momento, no segundo tempo, que parei em campo e fiquei de mãos na cintura apreciando. Cheguei a pensar: ‘Esse cara está ficando maluco. Será que ele pensa que é Deus?’ Vi Fausto, Domingos da Guia, Leônidas, Pedernera, Moreno, Di Stefano, Heleno, Ademir, Stanley Mathews, Finey, Jair, Ghiggia, Rossi, Puskas, Pelé, Garrincha e uma porção de grandes sujeitos, em dias memoráveis. Eu mesmo tive as minhas partidas de sorte, desses dias que o Anjo da Guarda ajeita a bola pra gente. Mas, mesmo estando em “estado de graça”, sempre há bolas perdidas, bolas que escapam ao pé, chutes imprecisos, alguma coisinha que sai errada aqui e ali. Nesse dia, contra o terrível ataque argentino, Nilton jogou o jogo impossível. Só quem já viveu do futebol sabe a distância que existe entre acertar com frequência e não errar nunca. Ele não errou nunca. Foi a obra-prima de um grande artista. Jamais verei ninguém jogar noventa minutos com aquela perfeição”.

(1)    Nessa época, o time argentino era o melhor do Continente. Seu ataque, formado por Corbatta, Cruz, Maschio, Angelillo e Sívori era conhecido como “Los Carasucias” (os caras sujas). A partida foi realizada no estádio do Racing, em Buenos Aires. Com o empate , a Taça Atlântico ficou sem dono.

REDONDINHA COMO CERTAS MULHERES
Por Jacinto de Thormes


Isso aconteceu lá pelo ano de 1962. Naquele tempo em que os homens pensavam que os animais não pensavam. Aconteceu em 1962, naquele tempo em que o homem tinha que pagar para comer. Era naquele tempo em que em troca de trabalho, força de vontade, horário, memória, se ganhava dinheiro, cheque, vale. Era no curioso tempo em que até quem ganhava mais dinheiro, podia ter mais coisas do que quem ganhava menos dinheiro. Pior ainda. Quem acumulasse muito dinheiro, mais do que a sua sede, mais do que a sua fome, o preço de seu sono, os livros dos seus filhos, os sonhos de sua mulher, quem possuísse mais do que podia gastar era importante, muito importante. Era no tempo em que existia paixão, polícia, pincel, pediatra, curativo, assassinato. Era no tempo em que se levava nove meses para ter um bebê. Havia, é verdade, sol e chuva, ambos incontroláveis. Maré e lua cheia, ambos incontroláveis. E alguma incontrolável poesia também. As canções ainda eram de amor, as horas tinham ponteiros. Muitas religiões para explicar um Deus só, muitas dívidas para um só ordenado. E de repente, a maçaneta enguiçava.

Naquele tempo de 1962, a maior conquista coletiva era o direito de fazer nada, para conseguir alguma coisa: greves de obediência, greves de advertência, greves de solidariedade. Os salários aumentavam, porque os preços aumentavam, porque os salários aumentavam, porque os preços aumentavam, porque os salários aumentavam. O coração morria com frequência e as células adoeciam no ato de sobreviver. Era no tempo em que existia Alfândega, língua de porco, soutien, holofote, Pátria, conjuntura econômica, canguru, hipoteca e pílula para dormir.


O Velho chamava-se Nilton Santos. Era alto e brasileiro. Falava com voz rouca, era calmo e às vezes usava bigode. O Velho era modesto e famoso.

Tinha um modo engraçado de encabular quando alguém dizia: “Você é o maior”. O Velho estava preocupado com seu futuro. Tinha mulher bonita e filho garoto.

Preocupava-se porque estava ficando velho. De que adiantava chegar onde chegou, fazer tudo o que fez, se enrugava a testa ao pensar no futuro? Dentro de algum tempo não poderia mais trabalhar no seu ofício. O Velho era velho porque tinha 37 anos.

Alguns ficam moços aos 80, como Picasso, que pinta cada vez mais menino. Outros têm filhos aos 70, como Chaplin. Usam o físico e a saúde para acordar cedo, para deitar tarde, para casar muito, mas o que vale na arte deles é a emoção do homem parado e pensando.

O Velho de que falo, esse Nilton Santos, era velho aos 37 porque sua arte era movimento. Dependia de correr e não corria sozinho, corria com outros e corria contra outros. Quanto mais velho ele corria, mais moços ficavam os outros. Se Chaplin e Picasso eram intelectuais musculosos, ou pelo menos saudáveis, ele era um corredor com sentimento, com sensibilidade, com coisas de grande artista. Só que o Velho não podia correr parado. Essa era a dificuldade do velho Santos: não poder correr parado.


Se pudesse, ele faria 80 anos de pintura e 70 anos de filhos, e não teria que pensar no futuro que viria aos 40.

Era irônico, brincalhão, às vezes desconfiado, e jogava futebol.

Jogar futebol. O ato de chutar a bola. 22 homens crescidos e um juiz de preto, correndo num campo de grama, enquanto centenas, milhares, às vezes milhões sofrem os caprichos do jogo. A bola cheia de ar, macia no couro, veloz como um tiro, bonita na cor, redondinha como certas mulheres.

Em volta da bola, em torno do jogo, um mundo de sentimentos, amores, superstições, negócios, intrigas.

Como a rosa, um jogador de futebol é um jogador de futebol, a menos que seja um Nilton Santos. Num país onde 70 milhões de pessoas chutam ou já chutaram ou vão chutar, ele era chamado de “Mestre”, “Enciclopédia” e “Professor”. Pessoas o cumprimentavam na rua, davam-lhe lugar no elevador, tiravam o chapéu quando ele passava. Neste país da bola, ele deu mais prazeres, durante mais tempo, a mais gente do que alguém poderia sonhar. O Presidente da República o abraçava carinhosamente e dizia: “Meu bom amigo”. Existia em relação a ele uma admiração nacional, que não era somente pelo jogador, pelo artista. Era o homem tranquilo.


Era o camarada quieto e bom. Alguns jornalistas o chamavam de “Premiê”, como se no país da bola não pudesse existir melhor escolha para um Primeiro Ministro.

Quero lembrar que foi preciso muita gente boa escrever sobre touros, toureiros e touradas para que os que não tinham sangue espanhol começassem a entender o fenômeno, a admirar a coragem do homem, a beleza do animal, o colorido da arena em tarde de sol. Foi preciso “traduzir” loucamente aquela arte muito especial e popular, para que o homem de fora da Espanha, o forasteiro, o marinheiro e, depois, o turista compreendessem aquele animal, que aquele animal matando aquele homem era mais do que um simples ato de matar em público. Quantas páginas foram escritas, de Blasco Ibañez a Hemingway, quantas cores foram necessárias, de Goya a Garcia Lorca, para explicar, aos de sangue não espanhol, que aquilo tinha sutilezas de poema, tinha luzes de mil canções, tinha todo o selvagem pressentimento do homem espanhol e do homem mouro.


Os tempos são outros, o sentido de coragem ou heroísmo mudou muito e na própria Espanha a “corrida” vai sofrendo a concorrência de outras emoções coletivas como o próprio futebol. No Brasil, entretanto, a bola é como o touro – uma questão nacional.

Será preciso muita gente “traduzir” esse amor pela bola para que os de fora, o forasteiro, o marinheiro, o turista percebam o que representa um simples jogo de futebol para
todos nós.

O Velho, a bola, isso acontecia no tempo em que os homens pensavam que os animais não pensavam.

Sobre Maneco Muller:


Maneco Muller foi um dos jornalistas de maior prestígio de sua geração. Elegante, dentro e fora das redações, criou o personagem Jacinto de Thormes e mudou a cara do jornalismo social no país. Também escreveu crônicas e se enveredou pelo jornalismo esportivo. Principalmente pelo futebol, sua grande paixão. Tentou até ser goleiro, mas o jornalismo venceu.






Sobre Rafael Casé:

Rafael Casé é jornalista, professor da Uerj e apaixonado pelo futebol e sua memória. Tem mais quatro livros sobre o tema: 100 anos gloriosos; O artilheiro que não sorria – biografia de Quarentinha; 21 depois de 21; e Como esta estrela veio parar no meu peito.

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