domingo, 26 de maio de 2013

Megafone do esporte: por que estádio João Saldanha?

Arte: Zuca Sardan
POR QUE ESTÁDIO JOÃO SALDANHA?
Por Raul Milliet Filho

O Megafone do Esporte vem a público manifestar seu apoio ao projeto de lei apresentado pelos vereadores Paulo Pinheiro, Renato Cinco e Eliomar Coelho, do PSOL, propondo que o Engenhão passe a ser Estádio Olímpico João Saldanha e convida todos para a audiência pública e debate no plenário da Câmara dos Vereadores – RJ, no dia 27 de maio, às 18 horas.

A campanha Sai Havelange, entra João Saldanha foi lançada pelo Núcleo de Estudos e Projetos Esporte e Cidadania (embrião do Megafone do Esporte), em 13 de julho de 2012, com apoio do blog do Juca Kfouri. E os seus frutos estão sendo colhidos agora.

João Saldanha, em toda a sua vida, não foi apenas o jornalista esportivo com atuação em rádio, jornal e televisão. Como diretor de futebol e técnico campeão do Botafogo em 1957, foi o maior responsável pela montagem do time que vive até hoje na memória de cariocas e brasileiros, do qual faziam parte Nilton Santos, Didi, Mané Garrincha e Quarentinha. Uma equipe que foi a base do bicampeonato mundial conquistado pelo Brasil em 1958 e 1962. Fato que poucos sabem é que, nessas duas jornadas, o preparador físico da seleção brasileira foi também do Botafogo: Paulo Amaral.


Em 1969, João resgatou a autoestima do futebol brasileiro como técnico e comandante da seleção que viria a ser tricampeã no México. Escalou e definiu as “feras do Saldanha”: Carlos Alberto, Brito, Piazza, Gerson, Jairzinho, Tostão e Pelé. Até ser demitido por não aceitar interferências diretas da ditadura militar, através do então presidente Médici, e por ter denunciado torturas e assassinatos no Brasil a jornais e revistas de todo o mundo.

No link a seguir, uma entrevista de Saldanha em Porto Alegre, 20 dias antes de sua demissão da seleção:  https://www.youtube.com/watch?v=X3gRDhJYX2w

Ao lado de outros grandes jornalistas esportivos, inovou com seu estilo coloquial a cultura e a linguagem da imprensa especializada.

João Saldanha tinha no humor seu principal ponto de apoio. Um humor onde a alegria e o sorriso maroto de João, extensão de sua própria vida, não eram inventados, mas vividos, gostados e praticados. O humor de João pode ser situado na linha do historiador e linguista russo Bakhtin. Um humor que se transmuta em riso como forma de bater no fígado do discurso oficial, impedindo que o sério se imponha com a prepotência de gala dos dominadores.


Uma pequena amostra desse espírito irreverente, durante o jogo Brasil x Venezuela, nas eliminatórias da Copa de 1970,  pode ser  visto no link:

Em contrapartida, tinha um temperamento explosivo, um pavio curto, o que lhe trouxe muitos problemas, como no episódio da invasão da concentração do Flamengo, para tomar satisfações do técnico Yustrich, que o ofendera em algumas entrevistas. Situações como essas o prejudicaram ao longo da vida, servindo de pretexto para seus adversários.

Ainda jovem, atuou em São Paulo e Paraná defendendo e organizando operários em greve e camponeses ameaçados de expulsão de suas terras.

Quando do planejamento do Aterro do Flamengo, foi o responsável, junto com Raphael de Almeida Magalhães, pela inclusão dos campos de pelada, esquecidos no projeto original. Mesmo sendo adversário político do lacerdismo, representado naquela conjuntura por Raphael, não hesitou em estabelecer essa parceria pontual, que redundou na construção de uma das maiores áreas para a prática esportiva na cidade.

Em 1985, convocado por Marco Maciel, primeiro Ministro da Educação da Nova República, a apresentar um projeto de política de esporte para o país, formou uma comissão composta por Juca Kfouri, Fernando Menezes, José Antônio Gerheim, com a assessoria do Núcleo de Estudos e Projetos Esporte e Cidadania.


Logo na primeira reunião, Saldanha, Juca e José Antônio decidem assumir como seu o documento “Uma Política de Estado para o Esporte no Brasil”, formulado pelo Núcleo Esporte e Cidadania, fruto de um longo trabalho de pesquisa e de projetos implantados na periferia do Rio de Janeiro nos anos 70.

As linhas gerais do documento são mais atuais do que nunca: “em um país como o Brasil, o esporte deve ser mais um instrumento na resolução da questão social, articulando-se com a educação, saúde e política alimentar”.

E vai adiante o documento: “uma política de esportes no país deve priorizar investimentos de pequeno e médio porte, mais condizentes com o perfil de uma sociedade cuja maior tarefa é diminuir as distâncias que separam a miséria e a pobreza do fausto arrogante de projetos suntuosos, de um Brasil que antes de pretender transformar-se em potência olímpica, deve almejar garantir o acesso de sua população a padrões mínimos de vida, sem os quais torna-se impossível construir uma política de esportes democrática.”

Não é preciso dizer que Marco Maciel engavetou o projeto. Foi preciso que o Núcleo Esporte e Cidadania articulasse com o Ministério da Previdência para por em prática essas diretrizes, o que só foi possível com a pressão e o apoio aberto de João Saldanha, como pode ser constatado nas crônicas abaixo, de 1985 e 1986.


Daí surgiu o Programa Recriança, que atendeu a mais de 500 mil crianças e adolescentes em todo o país. Uma iniciativa que, realizada pelo Ministério da Previdência em parceria com prefeituras, deixou frutos em dezenas de municípios brasileiros.

João Saldanha e seus parceiros acreditavam que, em uma política de esporte e cidadania, o esporte social – o esporte cidadão, voltado ao atendimento das camadas mais pobres da população, praticado em escolas, clubes e bairros populares – e o esporte de alto rendimento – o que busca desempenho e conquista de medalhas e campeonatos – não são excludentes, ao contrário, se complementam.

Entendiam que o poder público em um país como o Brasil tinha obrigação de investir a maior parte de seus recursos no Esporte Social.

Após a experiência do Programa Recriança, ficou patente que investimentos no esporte social têm uma capacidade de geração de emprego cinco vezes maior (custo per capita) do que no alto rendimento. Nesse caso, os recursos devem ser investidos quase que exclusivamente em custeio: pessoal (professores, estagiários, pedagogos etc.), material esportivo e alimentação.
Todos os levantamentos realizados apontam para uma subutilização das áreas esportivas existentes, que, em sua maioria, demandam, quando muito, pequenas reformas, solucionáveis com investimentos locais insignificantes.

Pois bem, só com o dinheiro gasto no Maracanã, no estádio Mané Garrincha e em Manaus, seria possível atender 1,5 milhões de crianças e jovens, três vezes por semana, em articulação com as escolas, em um programa esportivo, cultural, profissionalizante, oferecendo uma segunda merenda escolar.


E o governador Sérgio Cabral Filho sabe disso muito bem, pois conheceu de perto os resultados positivos do Programa Recriança.

Dar ao Engenhão o nome de João Saldanha não significa apenas firmar uma postura ética em relação a um importante estádio público, mas deixar claro uma oposição frontal a esta política dos megaeventos (Copa e Olimpíadas), que distancia o esporte da educação, elitiza o acesso aos estádios e dificulta a democratização da prática esportiva.

João Saldanha combateria enfaticamente esse estado de coisas, desancando a privatização do Maracanã entregue a interesses contrários àqueles que ele sempre defendeu em vida.  Sérgio Cabral Filho, Eduardo Paes, Eike Batista, Marin e Nuzman não escapariam de suas críticas afiadas e contundentes.

Como é possível entregar de bandeja a interesses poderosos um estádio que custou 1,2 bilhões de reais? Como é possível espalhar pelo Brasil uma manada de elefantes brancos?
O maior desperdício de recursos públicos reside exatamente na definição equivocada de prioridades. E tudo isso teve início quando o governo federal elegeu como ponto central de sua política de esportes a realização dos megaeventos, transformando a cidade e o esporte em mercadorias intercambiáveis, subtraindo o potencial gregário e educativo da prática desportiva.


O Estádio Olímpico João Saldanha é uma bandeira fincada na luta pela ética e democratização do esporte e não se restringe às quatro linhas, a um clube ou a um partido político. É uma homenagem ao papel que a cultura popular representa na construção da autoestima de um povo, de uma nação, ao potencial gregário e educativo do esporte.

Após a conquista da Copa do Mundo do México, Saldanha escreveu uma crônica, “A Vitoria da Arte”, onde dizia:
antes de mais nada, quero dizer que a vitória extraordinária do Brasil foi a vitória do futebol... fazendo da arte de seus jogadores a sua força maior... é pela vitória da arte, que continua sendo dentre as mais variadas concepções do futebol moderno, a verdadeira razão de se encherem os estádios e a identificação mais sólida e decisiva do futebol  do Brasil”.

Pouco tempo antes escrevera outra crônica onde afirmava:
Minha concepção para Copa do Mundo era de que poderíamos batê-los, aos grandalhões, com arte e habilidade. Jamais na força física. Convoquei Zé Carlos do Cruzeiro, pois já tinha ali no meio Pelé, Tostão, Dirceu Lopes e Rivelino...


Pelé e Tostão demonstraram amplamente ser a dupla certa. Jogando bola no chão desde as eliminatórias até as finais, fizemos cerca de 50 gols e só um de cabeça. Tudo por baixo, como sabe jogar o futebol brasileiro.”

Quando da inauguração da estátua de João Saldanha no Maracanã, em dezembro de 2009, sua irmã Elza Saldanha Milliet disse ao ex-presidente Lula diante de vários jornalistas: “presidente, se o João fosse vivo não gostaria nada de ver toda esta dinheirama gasta aqui no Maracanã. Tenho certeza que iria criticar.” 
Vida que segue.

11/05/1985 -Jornal do Brasil
JOÃO  SALDANHA


A segunda merenda escolar

Juro que estou ficando animado com a Seleção. Quiseram os fados que alguma coisa fosse modificada no meio-campo, ponto nevrálgico de qualquer time.  Mas não é disto que quero tratar hoje.  Vou falar do meu azar de não poder ver ao vivo os atletas soviéticos, poloneses e americanos que estão aí.  “Jogam” muito.  Jogam o máximo, mas nunca posso ver de perto.

Coincidentemente a Seleção vai por aí, “pelas Américas”, embora seja somente a do Sul.  Mas é como dizem nossos amiguinhos então que seja: pelas Américas.  Estarão competindo o Moses, a Szewinska, o Joaquim Cruz, a Esmeralda, puxa, que pena.  Logo eu que já gastei  do meu para ir ver na Europa competição em recinto fechado.  Não gostei mas valeu ter conhecido o Sebastian Coe naquele estádio de corridas de bicicleta.

Pretendo fazer reparos à nossa fraqueza nestes esportes, nos esportes olímpicos.  Precisam de muita ajuda e não há clube ou entidade esportiva atualmente capaz de fazer nós melhorarmos.  Estamos começando um bom caminho, mas é muito pouco.  A ajuda do Governo é fundamental,  decisiva e resolverá a questão do bom desempenho de nossos atletas nas competições olímpicas ou outras como esta.  O atletismo não pode desprezar este apoio e palavra que fiquei bronqueado quando o Joaquim Cruz rejeitou uma contribuição de 50 milhões de cruzeiros.  A ajuda era espontânea, fruto de entusiasmo.  A rejeição só pode ser levada a débito de ressentimentos outros e, naquela hora, com endereço errado.  Espero que nosso grande atleta já tenha percebido que fez apenas uma má-criação na empolgação da vitória fabulosa.  O esporte-competição é o reflexo da vida e saúde de um país e de seu povo.  O nosso não anda muito bem neste sentido, mas está muito aquém, mesmo das possibilidades atuais que são razoavelmente boas, mas que não podem ser aproveitadas.


Nosso potencial é imenso.  E quando fizemos o plano de esportes para o Ministro Marco Maciel, junto com o Juca, Fernando, Zé Antônio, Raulzinho e a turma da Fundação Roberto Marinho, plano amplamente divulgado na grande imprensa do Brasil, não pensem que a base foi o futebol.  Nada disto.  Nem dez por cento.  No futebol  apenas está sugerida a independência para os clubes se organizarem livremente, sem ingerência do pode público.

Como é lei constitucional o tal voto unitário, solicitamos mensagem ao Legislativo para acabar com esta pilantragem.  Além disto, apenas quinze por cento da Loteria.  Para o esporte de massa, de competição e lazer, solicitamos 35% da Loteria.  Dinheiro que não é do Ministério da Educação, mas necessita sê-lo.  Ou a Loteria não é esportiva? Uma das sugestões mais importantes é a da segunda Merenda Escolar aos meninos com a formação de um imenso quadro de monitores das Escolas de Educação Física para educá-los, moral e atleticamente.

A Loteria talvez não dê para isto.  Mas os gastos serão infinitamente menores do que os gastos com a polícia prendendo, espancando, deseducando e marginalizando estes meninos.  Transformando-os em marginais.  Esta rubrica de repressão é muito maior do que uma segunda merenda, acrescida da educação de princípios morais e físicos.


Solicitamos no plano a ajuda imprescindível das Forças Armadas, que possuem espaços e monitores experientes para a tarefa.  De passagem, devo dizer que isto causou a melhor receptividade.  E a curto prazo, como no futebol, estaremos nas primeiras linhas do esporte olímpico ou de massas.  Francamente nosso futebol não me preocupa.  Continua a ser nosso melhor PIB.  Com o fim do tal voto unitário e a melhoria da participação na sua própria Loteria com o término da ingerência do Poder Público, o futebol, que vai muito bem obrigado, irá muito melhor.

A vida dos clubes, atualmente quase todos quebrados e alienando patrimônio, se regularizará facilmente.  Os atletas, sim.  Me parece que seria importante que fizessem uma organização única de sindicato nacional, uma organização central de pecúlio e fundo de reserva para uma aposentadoria digna.  Como contribuem pouco, sua aposentadoria é um cascalho.

29/07/1986 -Jornal do Brasil
João Saldanha


Um gol da Previdência

Foi ontem na sede do antigo IAPC, ali na Rua do México, o Ministro Rafael de Almeida Magalhães lançou as tintas de mais um plano de ajuda aos esportes e às crianças brasileiras.  Ao esporte, no que se refere a uma justa reformulação da situação dos ex-atletas profissionais – do futebol e de outras atividades.  Já muitas vezes isso foi debatido mas no Brasil nunca foi posto em prática.

Essa profissão, a de atleta, além de exaurir os praticantes, termina muito cedo.  O jogador de futebol, o homem do circo, o artista de danças e outras profissões não de muita gente, quando terminam sua carreira nada têm no futuro e a aposentadoria é tão insignificante que não chega a 10% de um salário mínimo.  É fácil explicar: o aposentado em questão contribuiu por pouco tempo e não tem direito a nada.  Mas existem a Fugap, a Agap e outras que podem ajudar, se for organizado um pecúlio ou algo assim.

Essa foi uma parte do ato assinado pelo Ministro da Previdência, que, aliás, quando Governador do Estado da Guanabara, pegou dormindo dona Lota Macedo Soares, Burle Marx e Lúcio Costa, a turma do Aterro, e meteu ali aquele monte de campos de futebol que existem até hoje.  Mas acho que a parte mais importante do plano é aquela em que se projeta dar ainda este ano 200 mil merendas – “segunda merenda” escolar, se pode chamar assim – à enorme, à fabulosa população infantil brasileira carente de alimentação de prática educativa.  Rafael pede a ajuda dos clubes e já tem promessa do governo federal de aumentar a cota de merendas para a casa dos milhões.  Esse projeto tem sido objeto de longa e paciente luta.  O Raul Milliet Filho tem essa antiga mania, a de alimentar e educar as crianças carentes brasileiras.  Sua assessoria vai de encontro às intenções do Ministro que agora lança o ambicioso projeto.

Todos os que compareceram ao ato, gente de todos os partidos, dos grandes clubes do Rio e do Corinthians de São Paulo, o prefeito Saturnino, apoiaram e prometeram ajudar o plano do Ministério da Previdência.  Dinheiro aparece e penso que deve dar certo.

Foi um gol da Previdência.

Dois toques do Megafone:


1)    Apoiam  o Estádio Olímpico João Saldanha: Afonsinho, Juca Kfouri, Wilson Piazza, Hércules “Brito” Ruas, Paulo Cézar Caju, Lucio de Castro, Ronald Alzuguir, Adalberto, Leandro Konder, Emir Sader, Joel Rufino dos Santos, Chico de Oliveira, Luiz Gonzaga Belluzzo, Benílton Bezerra Júnior, Nelsinho Rodrigues, Wadih Damous, Milton Temer, José Mariani, Clóvis Neves Filho, Eduardo Vilela, Ricardo Salles, Cunca Bocayuva, Marcos Silva, Carlos Didier, Cesar Oliveira, Joana Milliet, Frente Nacional dos Torcedores e todos os 14 integrantes do Megafone do Esporte, dentre vários outros.

2)    Dia 29 de maio, às 19h, lançamento de três livros:

Olho no Lance: Ensaios sobre Esporte e Televisão. Organização de Bernardo Buarque de Hollanda, João Manuel Casquinha dos Santos, Victor Andrade de Melo e Luiz Henrique de Toledo.

Esporte e Lazer na África: Novos Olhares. Organização de Victor Andrade de Melo, Augusto Nascimento e Marcelo Bittencourt Domingos.

Pesquisa Histórica e História do Esporte. Organização de Victor Andrade de Melo, Mauricio Drumond, Rafael Fortes e João Manuel Casquinha dos Santos.
Um lançamento da Editora 7 Letras, no Botequim Vaca Atolada,  Rua Gomes Freire, 533 – Lapa – RJ.

Sobre Raul Milliet Filho: 

É botafoguense, mestre em História Política pela UERJ, doutor em História Social pela USP. Como professor, pesquisador e autor prioriza a cultura popular. Gestor de políticas sociais, idealizou e coordenou o Recriança, projeto de democratização esportiva para crianças e jovens. 


quinta-feira, 23 de maio de 2013

Nilton Santos: O velho e a bola



Homenagear Nilton Santos, a “Enciclopédia” do futebol brasileiro, nunca será demais. Agora, mais um livro que entra para a lista de obrigatórios da literatura esportiva. Nilton Santos já tem um livro publicado sobre sua vida, mas muito distante do que mereceria. Aqui no Literatura na Arquibancada você pode conferir detalhes do “Minha bola, minha vida”, nos links a seguir:


Mas este, “O velho e a bola ” (Editora Maquinaria), é um golaço marcado pelo craque do jornalismo e da literatura esportiva Rafael Casé.  Livros de crônicas reunidas na literatura esportiva recente são raridades. 

Por isso, resgatar a trajetória de Nilton Santos, por intermédio das crônicas de Jacinto de Thormes, pseudônimo do jornalista Maneco Muller, publicadas no jornal Última Hora, torna-se um marco.

Abaixo, Literatura na Arquibancada apresenta a sinopse da obra, o texto de apresentação do livro que contem um depoimento inédito do craque Zizinho e uma das crônicas assinada por Maneco Muller.



Sinopse (da editora):


A Seleção Brasileira para a Copa de 1962 estava sendo montada. A convocação de Nilton Santos, na época com 37 anos, era contestada por muitos. Mas um momento mudou a história: um Maracanã lotado ovacionou, por vários minutos, o gol marcado pelo craque. A torcida carimbava o passaporte de Nilton rumo ao bicampeonato mundial.

Esta é apenas uma das muitas histórias contadas no livro O VELHO E A BOLA – A trajetória de Nilton Santos nas crônicas de Jacinto de Thormes, de Maneco Muller (o jornalista que deu vida ao pseudônimo).

São 40 crônicas escolhidas e organizadas pelo jornalista Rafael Casé, que também assina as notas que compõem o livro. Foram retiradas da série de crônicas que leva o mesmo nome do livro, publicada no jornal Última Hora no ano de 1963 e traçam um rico panorama do futebol brasileiro dos anos 1950 e 1960, com alegrias e dramas, talentos e malandragens, fama e decadência de craques inesquecíveis. Os textos têm na trajetória do jogador do Botafogo, conhecido como Enciclopédia – apelido, inclusive, dado por Maneco Muller – seu fio condutor.


Amigos, Nilton Santos e Maneco Muller mantinham longas conversas, principalmente em Petrópolis, onde os dois tinham casa de campo e jogavam animadas peladas. Foram estas conversas que geraram as crônicas selecionadas por Casé: um diálogo entre dois craques. Maneco com sua máquina de escrever e Nilton com a bola nos pés.

A ideia de compilar os textos de Thormes surgiu quando Rafael Casé fazia uma pesquisa no acervo da UH e se deparou com uma das crônicas. “Não parei mais de lê-las. Sabia que aquele material não poderia mais ficar escondido. Quando a família deu o sinal verde, tive a certeza de que aqueles textos preciosos voltariam a ser lidos por aqueles que amam a bola e as palavras”, conta o jornalista. Além do mais, se trata de uma bela homenagem, já que o craque acaba de comemorar seus 88 anos.

Maneco Muller

O VELHO E A BOLA também resgata o lado de cronista esportivo de Maneco Muller, que sempre foi muito mais conhecido como Jacinto de Thormes, o colunista que revolucionou o jornalismo social no Brasil: antes dele, as “crônicas sociais” eram meras descrições dos eventos. A partir de Thormes, virou colunismo social, com notas não apenas voltadas para o mundo socialite, mas que davam um panorama da sociedade (no sentido mais amplo) brasileira.

Entretanto, no mundo dos esportes, mais do que utilizar a objetividade jornalística, Muller fazia “literatura esportiva”, com uma narrativa descontraída em que conta “causos” em cima dos fatos. “É aí que se encontra o grande charme do livro: na narrativa de Maneco, na sua visão do futebol e de seus grandes protagonistas”, diz Casé.

Cerca de 30 fotografias de Nilton Santos, algumas clássicas, outras inéditas, complementam a história. E, em vez de um prefácio tradicional, Casé optou por um depoimento do lendário Zizinho retirado de uma das crônicas: ele afirmou, após ver uma partida do lateral do Botafogo e da Seleção Brasileira, que tinha presenciado a maior atuação de um jogador de futebol em toda sua vida. Uma partida que, de tão impecável, era quase impossível de ser repetida.

UM TESOURO REDESCOBERTO
Rafael Casé

Maneco Muller

Nas minhas pesquisas em busca da memória do futebol brasileiro e, em particular, do Botafogo, meu time de coração, me deparo com muitas preciosidades, mas, recentemente, vasculhando edições antigas do jornal Última Hora, meus olhos foram atraídos para uma coluna escrita por Jacinto de Thormes (pseudônimo do também botafoguense e jornalista de primeira, Maneco Muller). O título era “O VELHO E A BOLA”. O Velho em questão, como soube a seguir, tratava-se de Nilton Santos que, naquele ano de 1963, já bicampeão mundial pela Seleção, preparava-se para pendurar as chuteiras (fato que aconteceu no ano seguinte). Descobri, também que não se tratava apenas de uma crônica, mas cerca de 80.

Originalmente, a ideia de Maneco era lançar um livro, mas acabou sendo convencido por Samuel Wainer, dono do jornal onde já mantinha sua coluna social, a publicar todo o conteúdo em capítulos quase diários, de 4 de fevereiro a 22 de maio.

Os textos são envolventes e, mais do que a trajetória de um dos maiores defensores de todos os tempos, nos dão um panorama do futebol brasileiro dos anos 1950 e 1960.

Duas décadas que consolidaram, a nível mundial, o talento de nossos jogadores, e que para sempre ficarão marcadas pelas conquistas dos Mundiais da Suécia e do Chile. As crônicas, como o próprio autor explica, se baseiam em horas e mais horas de conversas do jornalista com Nilton e seus contemporâneos; material acumulado em blocos e mais blocos de anotações.


Meu trabalho, neste livro, foi selecionar as crônicas mais representativas, alinhavá-las com algumas observações que facilitem a compreensão do leitor e redigir notas de rodapé, para esclarecimentos de termos ou situações que, 50 anos depois, podiam não ser captados pelas novas gerações.

Todo o restante é fruto do talento de Jacinto de Thormes (ou melhor, de Maneco Muller).

Cheguei a tentar contatar alguns jogadores contemporâneos de Nilton Santos, para que algum deles pudesse descrever, na visão de um jogador, a importância dele para o futebol mundial, mas, infelizmente, por motivos variados, isso não foi possível. No entanto, quando já havia quase desistido da ideia, dei de cara com um depoimento de Zizinho (por sinal, o maior ídolo de Nilton) ao próprio Maneco Muller. De acordo com o craque (e que craque!), a maior partida de um jogador que ele presenciou, em toda sua carreira, foi protagonizada por Nilton Santos; um 0x0 entre Brasil e Argentina, em 1956 (1) . Com a palavra, o Mestre Ziza:

“Nesse dia, ele deixou de ser humano. Nos noventa minutos, dominou o grande ponteiro Corbatta e cobriu, por conta própria, as falhas de toda a nossa defesa. Mas não foi isso que me impressionou. Como velho profissional, o que me deixou besta foi que, no decorrer da partida, ele não perdeu uma bola, não falhou num passou, não deu um drible a mais, não teve nada para corrigir, não vacilou um instante, não enfeitou uma jogada.


Houve um momento, no segundo tempo, que parei em campo e fiquei de mãos na cintura apreciando. Cheguei a pensar: ‘Esse cara está ficando maluco. Será que ele pensa que é Deus?’ Vi Fausto, Domingos da Guia, Leônidas, Pedernera, Moreno, Di Stefano, Heleno, Ademir, Stanley Mathews, Finey, Jair, Ghiggia, Rossi, Puskas, Pelé, Garrincha e uma porção de grandes sujeitos, em dias memoráveis. Eu mesmo tive as minhas partidas de sorte, desses dias que o Anjo da Guarda ajeita a bola pra gente. Mas, mesmo estando em “estado de graça”, sempre há bolas perdidas, bolas que escapam ao pé, chutes imprecisos, alguma coisinha que sai errada aqui e ali. Nesse dia, contra o terrível ataque argentino, Nilton jogou o jogo impossível. Só quem já viveu do futebol sabe a distância que existe entre acertar com frequência e não errar nunca. Ele não errou nunca. Foi a obra-prima de um grande artista. Jamais verei ninguém jogar noventa minutos com aquela perfeição”.

(1)    Nessa época, o time argentino era o melhor do Continente. Seu ataque, formado por Corbatta, Cruz, Maschio, Angelillo e Sívori era conhecido como “Los Carasucias” (os caras sujas). A partida foi realizada no estádio do Racing, em Buenos Aires. Com o empate , a Taça Atlântico ficou sem dono.

REDONDINHA COMO CERTAS MULHERES
Por Jacinto de Thormes


Isso aconteceu lá pelo ano de 1962. Naquele tempo em que os homens pensavam que os animais não pensavam. Aconteceu em 1962, naquele tempo em que o homem tinha que pagar para comer. Era naquele tempo em que em troca de trabalho, força de vontade, horário, memória, se ganhava dinheiro, cheque, vale. Era no curioso tempo em que até quem ganhava mais dinheiro, podia ter mais coisas do que quem ganhava menos dinheiro. Pior ainda. Quem acumulasse muito dinheiro, mais do que a sua sede, mais do que a sua fome, o preço de seu sono, os livros dos seus filhos, os sonhos de sua mulher, quem possuísse mais do que podia gastar era importante, muito importante. Era no tempo em que existia paixão, polícia, pincel, pediatra, curativo, assassinato. Era no tempo em que se levava nove meses para ter um bebê. Havia, é verdade, sol e chuva, ambos incontroláveis. Maré e lua cheia, ambos incontroláveis. E alguma incontrolável poesia também. As canções ainda eram de amor, as horas tinham ponteiros. Muitas religiões para explicar um Deus só, muitas dívidas para um só ordenado. E de repente, a maçaneta enguiçava.

Naquele tempo de 1962, a maior conquista coletiva era o direito de fazer nada, para conseguir alguma coisa: greves de obediência, greves de advertência, greves de solidariedade. Os salários aumentavam, porque os preços aumentavam, porque os salários aumentavam, porque os preços aumentavam, porque os salários aumentavam. O coração morria com frequência e as células adoeciam no ato de sobreviver. Era no tempo em que existia Alfândega, língua de porco, soutien, holofote, Pátria, conjuntura econômica, canguru, hipoteca e pílula para dormir.


O Velho chamava-se Nilton Santos. Era alto e brasileiro. Falava com voz rouca, era calmo e às vezes usava bigode. O Velho era modesto e famoso.

Tinha um modo engraçado de encabular quando alguém dizia: “Você é o maior”. O Velho estava preocupado com seu futuro. Tinha mulher bonita e filho garoto.

Preocupava-se porque estava ficando velho. De que adiantava chegar onde chegou, fazer tudo o que fez, se enrugava a testa ao pensar no futuro? Dentro de algum tempo não poderia mais trabalhar no seu ofício. O Velho era velho porque tinha 37 anos.

Alguns ficam moços aos 80, como Picasso, que pinta cada vez mais menino. Outros têm filhos aos 70, como Chaplin. Usam o físico e a saúde para acordar cedo, para deitar tarde, para casar muito, mas o que vale na arte deles é a emoção do homem parado e pensando.

O Velho de que falo, esse Nilton Santos, era velho aos 37 porque sua arte era movimento. Dependia de correr e não corria sozinho, corria com outros e corria contra outros. Quanto mais velho ele corria, mais moços ficavam os outros. Se Chaplin e Picasso eram intelectuais musculosos, ou pelo menos saudáveis, ele era um corredor com sentimento, com sensibilidade, com coisas de grande artista. Só que o Velho não podia correr parado. Essa era a dificuldade do velho Santos: não poder correr parado.


Se pudesse, ele faria 80 anos de pintura e 70 anos de filhos, e não teria que pensar no futuro que viria aos 40.

Era irônico, brincalhão, às vezes desconfiado, e jogava futebol.

Jogar futebol. O ato de chutar a bola. 22 homens crescidos e um juiz de preto, correndo num campo de grama, enquanto centenas, milhares, às vezes milhões sofrem os caprichos do jogo. A bola cheia de ar, macia no couro, veloz como um tiro, bonita na cor, redondinha como certas mulheres.

Em volta da bola, em torno do jogo, um mundo de sentimentos, amores, superstições, negócios, intrigas.

Como a rosa, um jogador de futebol é um jogador de futebol, a menos que seja um Nilton Santos. Num país onde 70 milhões de pessoas chutam ou já chutaram ou vão chutar, ele era chamado de “Mestre”, “Enciclopédia” e “Professor”. Pessoas o cumprimentavam na rua, davam-lhe lugar no elevador, tiravam o chapéu quando ele passava. Neste país da bola, ele deu mais prazeres, durante mais tempo, a mais gente do que alguém poderia sonhar. O Presidente da República o abraçava carinhosamente e dizia: “Meu bom amigo”. Existia em relação a ele uma admiração nacional, que não era somente pelo jogador, pelo artista. Era o homem tranquilo.


Era o camarada quieto e bom. Alguns jornalistas o chamavam de “Premiê”, como se no país da bola não pudesse existir melhor escolha para um Primeiro Ministro.

Quero lembrar que foi preciso muita gente boa escrever sobre touros, toureiros e touradas para que os que não tinham sangue espanhol começassem a entender o fenômeno, a admirar a coragem do homem, a beleza do animal, o colorido da arena em tarde de sol. Foi preciso “traduzir” loucamente aquela arte muito especial e popular, para que o homem de fora da Espanha, o forasteiro, o marinheiro e, depois, o turista compreendessem aquele animal, que aquele animal matando aquele homem era mais do que um simples ato de matar em público. Quantas páginas foram escritas, de Blasco Ibañez a Hemingway, quantas cores foram necessárias, de Goya a Garcia Lorca, para explicar, aos de sangue não espanhol, que aquilo tinha sutilezas de poema, tinha luzes de mil canções, tinha todo o selvagem pressentimento do homem espanhol e do homem mouro.


Os tempos são outros, o sentido de coragem ou heroísmo mudou muito e na própria Espanha a “corrida” vai sofrendo a concorrência de outras emoções coletivas como o próprio futebol. No Brasil, entretanto, a bola é como o touro – uma questão nacional.

Será preciso muita gente “traduzir” esse amor pela bola para que os de fora, o forasteiro, o marinheiro, o turista percebam o que representa um simples jogo de futebol para
todos nós.

O Velho, a bola, isso acontecia no tempo em que os homens pensavam que os animais não pensavam.

Sobre Maneco Muller:


Maneco Muller foi um dos jornalistas de maior prestígio de sua geração. Elegante, dentro e fora das redações, criou o personagem Jacinto de Thormes e mudou a cara do jornalismo social no país. Também escreveu crônicas e se enveredou pelo jornalismo esportivo. Principalmente pelo futebol, sua grande paixão. Tentou até ser goleiro, mas o jornalismo venceu.






Sobre Rafael Casé:

Rafael Casé é jornalista, professor da Uerj e apaixonado pelo futebol e sua memória. Tem mais quatro livros sobre o tema: 100 anos gloriosos; O artilheiro que não sorria – biografia de Quarentinha; 21 depois de 21; e Como esta estrela veio parar no meu peito.