domingo, 7 de abril de 2013

Idosos, o esporte e a vida

Marcelinho
O Brasil trata com respeito seus “velhos” ídolos do esporte? O edito Cesar Oliveira faz interessante reflexão.

UM PAÍS JOVEM, CHEIO DE IDOSOS, QUE TRATA MAL OS SEUS VELHOS
E OS NEM TANTO. POR QUÊ?
Por Cesar Oliveira

Pessoas que chegam aos 60 ou 70 anos em plena saúde física e mental devem se aposentar? O que leva o brasileiro a descartar a experiência dos idosos, no esporte e na vida?

Ao longo dos últimos 50 anos, a população brasileira quase triplicou: passou de 70 milhões, em 1960, para 190,7 milhões, em 2010.

O crescimento do número de idosos, no entanto, foi ainda maior. Em 1960, 3,3 milhões de brasileiros tinham 60 anos ou mais e representavam 4,7% da população. Em 2000, 14,5 milhões, ou 8,5% dos brasileiros, estavam nessa faixa etária. Na última década, o salto foi grande, e em 2010 passou para 10,8% da população (20,5 milhões).


Essa informação está baseada nos censos demográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 1960, de 2000 e de 2010, e foi divulgada recentemente pelo site G1, da Infoglobo.

E por que estou escrevendo isso num blog sobre literatura esportiva?

O motivo é o desabafo do atleta Marcelo Elgarten, o Marcelinho, experiente levantador e capitão do Vivo/Minas, que foi eliminado ontem na semifinal da Superliga pela equipe do OGX/Rio de Janeiro.

Entrevistado ao final da partida, Marcelinho desabafou, entristecido e quase revoltado, cobrando que a imprensa esportiva brasileira pare com a lamentável e obscurantista mania de indicar a idade de um atleta como se isso foi empecilho para um desempenho de alto nível, como ele sempre apresentou.

Os títulos dele demonstram quem ele é: foi três vezes campeão da Superliga Masculina (1996/1997, pelo Report/Suzano; 1998/1999, pelo Olympicus/Telesp e em 2003/2004, pelo Unisul/Florianópolis); foi campeão carioca em 2000, pelo Vasco da Gama/Três Corações; e foi campeão da Copa Europeia atuando pelo Sisley Treviso. Pela Seleção Brasileira, foi bicampeão da Liga Mundial em 2006/2007); campeão mundial em 2006; prata nas Olimpíadas de 2008; e bronze no Pan de 2003.

Nilton Santos

É impressionante como os jovens repórteres brasileiros estão sempre com a palavra “aposentadoria” na boca, como se todos os veteranos atletas devessem perdurar as chuteiras, os tênis, as raquetes, as sapatilhas, as luvas etc. porque já estariam velhos demais para continuar competindo.

A história esportiva brasileira está coalhada de veteranos vitoriosos. Nilton Santos foi bicampeão carioca e mundial com 37 anos. Isso sem falar no piloto Emerson Fittipaldi, na saltadora Aída dos Santos, no boxeador Fernando Barreto.

Uma grande corporação jornalística, com atuação em todas as mídias, tem por hábito demitir seus colaboradores quando eles completam 60 anos. Raros escapam da incompreensível guilhotina. Na contramão disso, a ESPN homenageou, no mês de março, nos seus programas Loucos por Futebol e Pontapé Inicial, os veteranos jornalistas Roberto Porto, João Máximo e Fernando Calazans, todos setentões que comemoraram 50 anos de jornalismo esportivo em atividade, com produção de altíssimo nível.


E não é só no esporte. Ano passado, o ministro Massami Uyeda, do Superior Tribunal de Justiça, completou 70 anos e, como manda a Constituição Federal, terá que se aposentar. Ano passado, os ministros Cezar Peluso e Ayres Britto, do Supremo Tribunal Federal, em pleno controle de suas funções físicas e mentais, também foram compulsoriamente aposentados por idade. Uma perda enorme para a Justiça Brasileira, que abriu mão de sua larga experiência para decisões de grande importância para o País.

“Se olharmos para o modo como os orientais tratam seus idosos, perceberemos que seus conhecimentos milenares os possibilitam enxergar no ‘ultrapassado’ um grande exemplo para o futuro. Sabiamente valorizam as experiências, os ensinamentos, a visão do que já foi vivido e experienciado em suas vidas e suas relações. É uma grande honra ter em seu lar um idoso da família. Isto, porque são muitas as possibilidades de aprendizado! Uma delas é a oportunidade de poder evitar desperdício de tempo, energia e disposição em alternativas já desgastadas e que nos levam a situações de fracasso”. (Karine Dutra Mesquita Nalini, psicóloga, in Casa de Eurípedes, site espírita).

Somos um País jovem demais para desprezar tudo o que os mais velhos têm para dar e aconselhar. Já passou da hora de pararmos de falar a idade das pessoas (ou o sexo, ou orientação sexual, ou condição social, ou raça ou o que quer que seja...) para desvalorizar seu trabalho e atuação.

Espero, sinceramente, que o recente desabafo do Marcelinho Elgarten, seja um divisor de águas nessa mania da imprensa brasileira. No meu trabalho de editor, mal comparando, prefiro privilegiar a história e as biografias dos grandes atletas, aqueles que performaram com grande qualidade, que conquistaram títulos e glórias, e que foram exemplo para as futuras gerações.

Sobre Cesar Oliveira:
Carioca, quase 60tão, editor de livros de futebol, botafoguense militante, mangueirense apaixonado, tarado por bossa nova, sushi e sorvete, cozinheiro razoável. É editor da www.livrosdefutebol.com , formado na Escola Superior de Propaganda e Marketing, no Rio de Janeiro.


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