domingo, 21 de abril de 2013

Friedenreich: a saga de um craque



Conhecer a história. Perpetuar seus ídolos. É isso o que a literatura esportiva nas últimas décadas tem procurado ofertar ao público leitor-torcedor. E, finalmente, o primeiro de seus grandes ídolos, Arthur Friedenreich, entra em pauta novamente. Primeiro foi Alexandre da Costa com “O Tigre do Futebol” (DBA, 1999) e agora, com o belíssimo “Friedenreich – A saga de um craque nos primeiros tempos do futebol brasileiro” (Casa Maior Editorial), de Luiz Carlos Duarte. E ainda há o projeto da autobiografia, descoberta pelo editor Cesar Oliveira.

Fried, como é conhecido no meio do futebol, merece muito mais. O primeiro grande ídolo do futebol brasileiro, lá do céu, agradece. Literatura na Arquibancada apresenta abaixo, um dos capítulos da obra de Luiz Carlos Duarte, onde vemos o ídolo após o encerramento de carreira e as diversas polêmicas que se formaram em torna de sua trajetória, especialmente, a do recorde de gols marcados.

Nova vida, novos mitos e lendas
Por Luiz Carlos Duarte

 
Beneficiado pelos laços estreitos que sempre manteve com a comunidade germânica, Friedenreich recebe uma proposta para iniciar uma vida profissional longe do futebol. A Companhia Antarctica Paulista, dirigida por alemães, o contrata como propagandista com um salário mensal de 600 mil réis, após indicação feita pelo jornalista Cásper Líbero, fã declarado do ex-craque. A empresa também teria comprado a casa em que Fried vivia, na rua Cunha Gago, 678, em Pinheiros, e a transferido para ele.

Admitido no dia 1º de setembro de 1938, ele iria percorrer muito chão, como certa vez descreveu em carta ao amigo Max Valentim, “carregando os jornais como distração nas constantes viagens de trem e de ônibus, conduzindo-me ao faroeste do Estado, quando não no próprio sertão de Minas, Goiás, Mato Grosso, Paraná e Santa Catarina”.

Seu modo de trabalhar seguia um ritual. Sempre bem-vestido, de terno e gravata e sapatos lustrosos, entrava em um bar ou restaurante, sentava-se à mesa e pedia uma bebida da empresa que representava. Caso o estabelecimento não a tivesse, insistia alegremente no pedido até convencer os proprietários a prometerem fazer uma encomenda de refrigerantes e cervejas.

 
Certa vez ele é flagrado em Blumenau (SC), no Café Pinguim, tradicional ponto que reunia os torcedores de futebol. Numa mesa servida por extensas rodadas de copos duplos de cerveja, Fried dá entrevista a um repórter do jornal Cidade de Blumenau. Relembra o único tropeço da histórica excursão do Paulistano à Europa. Diz que o Cette era uma equipe inferior, mas entusiasta, em um campo diminuto e coberto de neve. E afirma que o Paulistano teve 35 escanteios a favor somente no primeiro tempo, “número jamais registrado no futebol”, enfatiza. Trata-se obviamente de uma situação inverossímil. Naquele tempo, o jogo de futebol era dividido em dois tempos de 40 minutos. Não cabem 35 escanteios em um tempo só!

Os exageros também vão moldar uma passagem de Friedenreich em Presidente Prudente, no oeste do Estado de São Paulo, onde encara o desafio de enfrentar a mulher mais beberrona da cidade, que também era dona de um bar. Por mais de seis horas, ambos esvaziam alguns engradados de cerveja, até que a mulher desiste e Fried vence a prova ao beber a 55a garrafa.

Mas havia quem visse o velho El Tigre em situação mais serena, sem arroubos, como o cronista Rubem Braga, na crônica intitulada “O Emprego de Friedenreich”. Em um texto de reminiscências sobre a São Paulo antiga, por volta de 1941, ele se lembra de um café que frequentava no largo São Bento.

 
O café o atraía por duas coisas especiais. “No fundo, várias mesas em que sempre estavam surdos-mudos a conversar com as mãos. Era o ponto de encontro deles. À direita de quem entrava, sentado atrás de um balcão, um mulato vendia passagens de ônibus interurbanos, jardineiras. O nome dele: Arthur Friedenreich.”

Braga conta que haviam arranjado aquele emprego por Friedenreich ter “sido o melhor jogador brasileiro, sem discussão: um grande nome nacional, temido e respeitado em todo o mundo do futebol.”

Não há registro de que Friedenreich tivesse trocado o emprego na Antarctica. O mais crível é que, por estar sempre viajando, tornara-se um habitué de estações de trens, de pequenas rodoviárias e de pontos de partidas de ônibus. Nesses locais, poderia ajudar algum parceiro ou até exercer algum bico.

Seu nome ainda seria lembrado nas efemérides e nas comemorações de várias passagens do futebol brasileiro, como em janeiro de 1954, numa festa grandiosa do Flamengo para celebrar a conquista do Campeonato Carioca, em partida contra o Botafogo. A solenidade no Maracanã transcende os limites do regionalismo e reverencia os velhos e os novos tempos do futebol brasileiro.

 
Após a entrega de faixas aos flamenguistas, entram em campo os campeões do Pan-Americano de 1952, vestindo o novo uniforme da seleção brasileira — camisas amarelas, calções azuis e meias brancas —, que se perpetuaria até os nossos dias. No céu, surge um helicóptero trazendo uma bandeira brasileira, um oferecimento da Academia Militar de Agulhas Negras à delegação que iria disputar a Copa do Mundo de 54, na Suíça.

Ao som do hino nacional, a bandeira é hasteada diante dos atletas perfilados. Em seguida, uma cena tocante: os alto-falantes anunciam os campeões sul-americanos de 1919, e um a um eles vão se apresentando no gramado: Marcos, Píndaro, Bianco, Amílcar, Neco, Heitor e por fim, diz a crônica, “o lépido e elegante Arthur Friedenreich, aplaudidíssimo pelo público”.

A apoteose acontece quando três jogadores começam a dar a volta olímpica, representando diferentes épocas do futebol brasileiro. Arthur Friedenreich, Leônidas da Silva, ambos vestidos de terno e gravata, e Ademir de Menezes, com o novo uniforme da seleção, são aplaudidos demoradamente em uma homenagem antológica diante da multidão de cem mil torcedores.

 
À medida que Fried vai se firmando no panteão dos grandes nomes do futebol, mitos e lendas também são criados e disseminados em torno de supostas passagens de sua vida.

Uma delas trata do gol que teria marcado no jogo em que o Paulistano realizou contra a seleção da Inglaterra, em Londres. O jogo estava empatado por 1 a 1 e, no último minuto, Fried arranca, dribla os zagueiros, o goleiro e manda a bola para a rede. O juiz decide anular o golaço. O brasileiro o interpela em francês e recebe como resposta que um jogador não poderia fazer algo semelhante na frente do rei e da rainha da Inglaterra. Na verdade, nunca houve essa partida e tampouco o gol. O Paulistano nunca foi a Londres.

Outra lenda famosa que correria o país fala de uma bandeira brasileira queimada. Segundo uma de suas versões, em um jogo na Argentina, após a vitória do Paulistano por 1 a 0, a torcida revoltada ateou fogo em uma bandeira brasileira que estava hasteada. Friedenreich subiu no pequeno mastro e salvou o pavilhão, apertando-o contra o peito para debelar as chamas. O herói guardaria a bandeira até os últimos dias de sua vida. A história seria repetida durante anos pelos jornais e acabaria sendo impressa no catálogo da exposição que a Pinacoteca do Estado fez em homenagem ao centenário de nascimento de Fried, em 1992. Até no dia do enterro do craque, a bandeira se tornaria um mistério.

 
Entre as várias cidades visitadas por Friedenreich em suas viagens a trabalho, Santos recebe um carinho especial e torna-se um destino frequente nos fins de semana de lazer. Adepto da pescaria com os amigos, seu lugar predileto é a ilha das Palmas, sede do Clube de Pesca de Santos.

“Se me demoro um pouco mais a rever Santos, a dor da saudade se torna tão insuportável que o remédio mesmo é entrar num ônibus, descer a serra gigante e vir abraçar essa cidade a quem tanto e tanto quero”, disse ele em uma entrevista ao jornalista De Vaney, em uma tarde de janeiro de 1957, no Café da Bolsa, no coração da cidade. Na roda de amigos que o cercavam estava Mario Andrada, seu ex-parceiro do Paulistano, que havia se transferido para a Baixada Santista após abandonar o futebol.

De Vaney será o responsável pela criação do maior mito sobre Friedenreich. Nascido em Ribeirão Preto, ele perdeu o pai aos 11 anos, quando se mudou com a família para o Rio de Janeiro. Ingressou no jornalismo logo cedo, atuou em vários jornais e cobriu as Copas de 1930 e 1934. Optou por morar em Santos após ser aprovado em um concurso público. Além de escrever para A Tribuna, dedicou-se intensamente a pesquisar a história do futebol, o que o fez vencedor de um concurso sobre os 60 anos de história do futebol paulista, superando os conceituados Tomás Mazzoni e Paulo Varzea.

 
A conversa com Friedenreich, no Café da Bolsa, rendeu a De Vaney uma página de exaltação à carreira do craque, mas nenhuma novidade ao que já se sabia dele. O único detalhe a chamar a atenção é a descrição que Friedenreich faz do histórico gol sobre o Uruguai, em 1919. Na sua nova versão, ele diz que matou a bola no peito antes de chutar para o gol, contrariando o relato que havia feito nos anos 40 ao jornalista Max Valentim. Seis meses após esse encontro no Café da Bolsa, Mario Andrada morreria de infarto, em 6 de agosto de 1957.

Apaixonado pela história do futebol, De Vaney começa a publicar uma série de perfis biográficos de grandes craques, na seção Os Imortais do Nosso Futebol, nas páginas de A Tribuna, no período de 21 de agosto de 1962 a 29 de janeiro de 1963. Posteriormente, todo esse material seria editado no livro Os Imortais do Nosso Futebol, de 488 páginas, em 1963.

O segundo capítulo do livro é dedicado a Friedenreich, sob o título “Um Nome Legenda”, e traz os principais momentos da carreira do craque, além de estatísticas. A certa altura, De Vaney apresenta seus dados: “Nos 24 campeonatos paulistas em que tomou parte, e dos quais foi, durante vários anos, o principal goleador, Arthur Friedenreich marcou 354 tentos. No selecionado paulista assinalou 62 gols e na representação brasileira anotou 13 pontos, num total de 429 oficiais. Somados os amistosos, Fried marcou mais de mil gols.”

 
A maior surpresa, porém, viria no livro Gigantes do Futebol Brasileiro, de João Máximo e Marcos de Castro, lançado em novembro de 1965, com os perfis de 15 grandes jogadores brasileiros. Friedenreich é o primeiro deles.

Os autores citam “estudos sérios” do jornalista Adriano Neiva da Mota e Silva, o De Vaney, para dizer o seguinte: “Nenhum outro jogador no futebol sul-americano alcançou, até hoje, o número de gols por ele conquistados, desde sua primeira partida oficial: 1.329 gols registrados pela CBD, reconhecidos pela Fifa e admirados por várias gerações de futebol.”

A grande questão que fica no ar é a seguinte: por que De Vaney não publicou esses dados no perfil que escreveu sobre Friedenreich no livro Os Imortais do Nosso Futebol, lançado dois anos antes?

Não há uma explicação plausível para isso. Anos depois, em um texto publicado em 1978, na seção “Minhas Memórias”, em A Tribuna, De Vaney relembra a história da suposta lista de gols de Friedenreich.

“Eu estive com essa relação nas mãos. Ela pertencia, por cópia, a um seu amigo e colega da equipe do Paulistano, o Mario Andrada, que me prometeu tirar uma cópia (não havia, ainda, o xerox). Não chegou a transcorrer um mês que Mario Andrada me fizera esse oferecimento, e eis que ele, ao vir dirigindo seu carro, de São Vicente para Santos, em cuja praça cafeeira era corretor, sofreu um infarto que o matou logo após estacionar o automóvel. Deixei transcorrer três meses e pouco e fui à casa de Mario. Foram baldados todos os esforços de sua viúva e de seu filho no sentido de ser encontrado o envelope, tipo ofício, em que Mario guardava a relação dos gols de Friedenreich.”

 
Relata ainda que percorreu escolas de datilografia de Santos e de São Paulo, presumindo que Mario tivesse deixado a relação em uma delas para copiá-la.

Entre outros esforços, ele conta que procurou o pai de Friedenreich. “Avisteime com o sr. Oscar Friedenreich, que reafirmou a existência da lista com os 1.329 gols (muitos deles por clubes do interior de São Paulo, de Minas, do Paraná e de clubes de Curitiba, Florianópolis, Espírito Santos etc.). Indicou-me um senhor chamado Faria, grande amigo de Fried, mas a quem jamais consegui localizar.”

É nesse parágrafo que reside o grande lapso da história de De Vaney. Era impossível ele ter se avistado com o pai de Fried, já que Oscar Friedenreich havia morrido em fevereiro de 1929, 28 anos antes da morte de Mario Andrada.

A própria família de Mario mostra-se refratária à hipótese da existência da lista. O jornalista Mario Andrada e Silva, neto do jogador, ao ser questionado sobre o assunto pelo historiador Domingos D’Angelo, respondeu: “Minha avó nunca falou do caso. Não creio que seja totalmente verdadeira a história de ela jogar tudo fora. Minha avó era uma intelectual. Escreveu livros de educação infantil e tinha a mania de guardar jornais e papéis velhos (todo texto de jornal de que ela gostava, por um motivo ou outro, ela guardava). Quando ela não tinha tempo de ler o jornal em um dia, ela guardava para ler no dia seguinte. O programa dela nos sábados era ler os jornais que não teve tempo de ler na semana”.

 
Essa versão de De Vaney, de que teria procurado a família três meses após a morte de Mario Andrada, ou seja, no final de 1957, também reforça a pergunta. Se sabia dessa história, por que não a publicou no perfil que produziu em Os Imortais do Nosso Futebol, publicado seis anos depois?

O resultado é que o mito dos 1.329 gols se propagou por décadas, conferindo a Friedenreich a lenda de ter marcado mais gols do que Pelé. Essa versão correu por incalculáveis páginas de jornais, livros e sites da internet, espalhando-se por todo o planeta. O ex-jogador Franz Beckenbauer, antes da Copa de 2006, chegou a citar a lenda em conversa com jornalistas brasileiros. O escritor uruguaio Eduardo Galeano, no livro Futebol ao Sol e à Sombra, dedicou um texto a Friedenreich. “Ninguém fez mais gols que ele na história do futebol. Fez mais gols que o outro grande artilheiro, Pelé, também brasileiro, que foi o maior goleador do futebol profissional. Friedenreich somou 1.329 gols. Pelé, 1.279.”

A polêmica motivou o jornalista Alexandre da Costa a realizar um levantamento minucioso dos gols nas coleções de jornais antigos. No livro O Tigre do Futebol, lançado em 1999, ele apresentou seus números: foram 554 gols em 561 partidas. Pelos seus cálculos, a média de gols de Friedenreich por partida (0,987) é superior à de Pelé (0,931). Nos mais recentes levantamentos, Costa confere 568 gols em 580 jogos para Fried (média de 0,98). Por sua vez, Pelé anunciou 1.282 gols, confirmando a média de 0,93 por jogo.

 
Em 2011, quando saiu a segunda edição do livro Gigantes do Futebol Brasileiro, os autores retiraram o trecho que falava do levantamento de De Vaney. “Outra lenda sobre o artilheiro, em cuja armadilha a primeira edição deste livro caiu, foi o levantamento divulgado pelo pesquisador Adriano Neiva da Mota e Silva, o De Vaney, sobre os títulos conquistados e gols marcados por Friedenreich. Os gols, 1.329!”, diz um trecho do livro, que acaba citando
o levantamento feito por Alexandre da Costa como “mais perto da verdade”.

O mito dos 1.329 gols, ao enfatizar apenas o lado artilheiro de Fried, acabou por encobrir a real importância do jogador na gênese do futebol brasileiro. Friedenreich foi um dos pioneiros a contribuir para a criação do DNA da escola brasileira de futebol. Ele e demais craques de sua geração, como Neco, Heitor e Formiga, entre outros, criaram um estilo, uma forma de jogar baseada em uma variedade de dribles criativos, troca rápida de passes, toques de primeira, infiltrações e arrancadas fulminantes ao ataque.

Fried foi o primeiro grande centroavante a executar dribles curtos que lhe permitiam abrir espaços para os chutes com efeito, que também fizeram história. Tinha também uma notável mobilidade para recuar, buscar o jogo e sair distribuindo passes para os companheiros de frente. Traços e propriedades que ajudaram a formatar o modo brasileiro de jogar futebol.

Sobre Luiz Carlos Duarte:
 
É jornalista, formado na Fundação Armando Alvares Penteado. Ocupa o cargo de editor-geral do jornal “Agora São Paulo” desde o lançamento da publicação, em 1999. Também no Grupo Folha, já desempenhou as funções de repórter e de editor-assistente na “Folha de S. Paulo”. Foi coordenador de reportagem na sucursal de Brasília e coordenador assistente da Agência Folha. Também foi secretário de Redação do Departamento de Esportes da TV Cultura (1988-1989).

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