quarta-feira, 17 de abril de 2013

A biografia de Roger Federer

Roger Federer, considerado por especialistas um dos maiores jogadores de tênis de todos os tempos, mesmo estando na ativa, já tem uma biografia publicada e com tradução para o português.

Não são poucas as conquistas deste suíço. Federer foi o primeiro tenista da história a vencer os torneios de Wimbledon e o US Open na mesma temporada por quatro anos seguidos (entre 2004 e 2007), dividindo com André Agassi o título de maior campeão de Grand Slams, ao vencer os quatro maiores campeonatos em pisos diferentes.


O livro “A biografia de Roger Federer” (Editora Évora, 2011) foi escrito pelo jornalista suíço René Stauffer, um dos mais respeitados no mundo do tênis, e que acompanha Federer desde a adolescência. A trajetória de Federer é contada por depoimentos e entrevistas exclusivas de amigos, familiares e do próprio tenista.

Mais do que conhecer a vida de Federer, o livro é inspirador para aqueles que sonham trilhar os caminhos de um verdadeiro campeão.

E é assim, pelo começo de tudo, que René Stauffer, começa a contar essa história.

Um encontro com um garoto de 15 anos
Por René Stauffer


Foi no dia 11 de setembro de 1996. Eu estava a trabalho pela Tagest-Anzeiger e tinha de escrever uma matéria sobre a World Youth Cup, um tipo de Copa Davis para a categoria juvenil. Estava um tanto descrente. Uma matéria sobre um torneio de times envolvendo tenistas desconhecidos de 15 e 16 anos de idade – o que poderia ter de interessante nisso? Eu encarava essa tarefa como algo cansativo e enfadonho, graças à Federação Suíça de Tênis, pois eles haviam, caridosamente, assumido o torneio, pelo seu aniversário de 100 anos. Não, realmente, essa não seria uma missão muito motivadora.

Nesse dia, eu encontrei com Roger Federer pela primeira vez. Ele jogava em uma quadra distante, rodeada por uma cerca de arame, em um local chamado Guggach, destinado para o tênis e a recreação em geral. Oficiais da Federação Suíça de Tênis me disseram que Federer era um ótimo jogador e que havia pouco para se criticar, com exceção de, às vezes, ser temperamental demais. Ele tinha completado 15 anos havia pouco tempo e era, na verdade, muito novo para esse torneio, mas as suas credenciais eram impressionantes – ele havia ganhado 5 torneios nacionais suíços na categoria juvenil, era o melhor jogador da categoria sub-16 do país e já era o número 88 da Suíça.


Nesse dia, Federer jogou contra um italiano chamado Nohuel Fracassi, de quem, depois desse encontro, eu nunca mais ouvi falar. Fracassi era um ano e pouco mais velho que Federer, também maior e mais forte, e já tinha ganhado o primeiro set quando cheguei. O clima me lembrava o de um torneio insignificante de clube. Havia dois ou três espectadores, um juiz e nenhum pegador de bolas. Os próprios jogadores tinham de pegá-las. Embora estivesse fascinado com o estilo elegante de Federer, eu já tinha visto alguns jogadores ir e vir em meus 15 anos como jornalista esportivo de tênis, mas tive a impressão de que um talento extraordinário estava amadurecendo bem na minha frente. Ele colocava com tanta facilidade efeitos na bola, de maneira que o italiano – mesmo o jogo sendo em uma quadra lenta de saibro –, frequentemente, apenas assistia às bolas passarem por ele para tornarem-se pontos. Quase sem fazer esforço, Federer dava golpes vencedores com sua raquete preta, movendo-se rápida e graciosamente. As suas jogadas eram harmoniosas e tecnicamente brilhantes.

A sua tática era incomum, também. Não havia similaridades com a segura e consistente “Escola Sueca”, que tem como característica o tênis de fundo de quadra, o que era muito comum naquela época e normalmente resultava em jogadores promissores em quadra de saibro. Federer não tinha nada disso. Procurava finalizar o ponto o mais rápido possível a cada oportunidade. Parecia já ter dominado todos os golpes, o que era bastante incomum para jogadores de sua faixa etária. Ele controlava com seu saque e com o seu forehand, porém o seu poderoso backhand de apenas uma mão e os ocasionais voleios também pareciam algo tirado de um livro didático sobre tênis.


Roger Federer era, sem dúvida, um diamante ainda a ser lapidado. Eu fiquei surpreso e espantado por ninguém, até então, ter visto ou escrito alguma coisa sobre o jovem tenista. Será que isso se devia ao fato de a mídia ter escrito tão efusiva e prematuramente sobre jovens jogadores talentosos apenas para descobrir, mais tarde, que eles não davam conta de competir no tênis internacional? Nem todo jogador de tênis suíço poderia ser um novo Heinz Güthardt, Jakob Hlasek ou Marc Rosset, provavelmente os 3 melhores tenistas da Suíça, tendo em vista que o pequeno país estava muito bem representado por Marc Rosset, o campeão olímpico de 1992, e também pela jovem de 15 anos, ainda em desenvolvimento, Martina Hingis, já campeã em Wimbledon nas duplas e semifinais no US Open.

No entanto, talvez a razão estivesse também no contraste entre a maturidade atlética de Federer e o seu comportamento. Ele era muito irritadiço. Nessa tarde de setembro, o seu temperamento explodiu até mesmo nos erros mais comuns. Em várias ocasiões, ele arremessou a raquete pela quadra, em um gesto de revolta, e constantemente repreendia a si mesmo. “Duubel!” ou “Idiota!”, ele exclamava, quando uma de suas bolas ia para fora, muito próxima à linha. Por vezes, criticava-se em voz alta quando, embora houvesse ganhado o ponto, não estava satisfeito com a jogada.


Federer parecia não perceber o que estava acontecendo ao seu redor. Era somente ele, a bola, a raquete – o seu temperamento difícil – e mais nada. Por ser tão nervoso, teve de lutar mais consigo próprio que com o seu oponente do outro lado da rede, nesse dia. Essa luta contra dois adversários o levou ao limite, e eu presumi que perderia, apesar da sua superioridade técnica. Eu estava errado. Federer venceu a partida por 3-6, 6-3 e 6-1.

Descobri mais tarde que Federer já havia ganhado uma disputa difícil: uma partida de 3 sets, no dia anterior, contra um jovem australiano tenaz, chamado Lleyton Hewitt, com Federer tendo de defender um match point para ganhar de 4-6, 7-6 e 6-4. A partida entre eles aconteceu em frente a 30 espectadores, que tiveram de comprar ingressos para assistir ao jogo – além de mais 4 pessoas que já haviam adquirido ingressos para a série de torneios da temporadas toda. Ninguém poderia imaginar que esses jogadores figurariam entre os melhores – ambos alcançando a primeira posição do ranking mundial e competindo nos maiores palcos do esporte, com lotação máxima e em frente a milhões de telespectadores pelo mundo todo.

Eu queria saber mais sobre Federer, então pedi que ele me concedesse uma entrevista. Ele me surpreendeu mais uma vez quando se sentou de frente para mim em uma mesa de madeira no vestiário. Eu receava que o rapaz pudesse se intimidar, ficando reservado e taciturno – na presença de um repórter com quem ele não estava familiarizado e de um jornal de cobertura nacional –, e que ele dificilmente dissesse algo relevante, que valesse a pena ser citado. Porém esse não foi o caso. Federer falou com fluidez e convicção, sempre com um sorriso maroto no rosto Ele explicou que o seu ídolo era Pete Sampras e que já estava treinando fazia 1 ano no Swiss National Tennis Center, em Ecublens, no Lago de Genebra. Ele também disse que, provavelmente, estava entre os 30 ou 40 melhores jogadores do mundo em sua faixa etária e que tinha o desejo de se tornar um tenista profissional top de linha, mas que ainda precisava melhorar o seu jogo – e o seu comportamento.


“Eu sei que não posso sempre reclamar e gritar, porque isso me deixa chateado e faz meu jogo piorar”, disse. “Eu dificilmente me perdoo quando cometo erros, mesmo sendo erros comuns.” Federer olhou para o nada e falou para si mesmo: “Alguém tem de ser capaz de fazer um jogo perfeito”.

Fazer um jogo perfeito – era isso que o motivava. Ele não queria apenas derrotar os seus oponentes e ganhar troféus, ainda que gostasse da ideia de se tornar rico ou famoso, ou ambas as coisas, como admitiu. Para Federer, instintivamente, a jornada era importante e consistia em rebater e colocar as bolas na quadra com a sua raquete o mais perfeitamente possível. Parecia estar obcecado por essa ideia, o que explicava a sua irritação mesmo depois de ter conseguido vencer o ponto. Ele não queria apenas dominar o seu oponente naquele retângulo com uma rede no meio que o fascinava tanto – queria dominar a bola, que odiava e amava, ao mesmo tempo.

Federer tinha grandes expectativas – muitas das quais, naquela época, já seria capaz de alcançar. Suas emoções o agitavam nesse conflito entre expectativa e realidade. Ele parecia saber do seu grande potencial e de que era capaz de fazer coisas grandiosas – mas ainda não era capaz de transformar o seu talento em realidade.


O seu comportamento incomum com relação à perfeição tinha um lado positivo, na medida em que não considerava os seus adversários como rivais que queriam “roubar a manteiga de seu pão”, como às vezes costumava dizer o recluso Jimmy Connors. Os seus oponentes eram vistos como companheiros no mesmo caminho. Essa atitude o tornou popular e querido dentro dos vestiários. Ele era sociável, uma pessoa com quem você poderia brincar e fazer piadas tranquilamente. Para Federer, o tênis não era um esporte individual, com adversários que precisavam ser intimidados, mas uma atividade de lazer comum com colegas de mesma opinião que, como parte de um grande time, estavam perseguindo os mesmos objetivos.
Federer ficava muito irritado com os seus próprios erros, mas tinha a capacidade de questionar as coisas, observá-las à distância e colocá-las na perspectiva correta, à medida que suas emoções se dissipavam. Ele também admitia suas fraquezas. “Eu não gosto de treinar e também sempre jogo mal nos treinamentos”, fazendo uma observação casual durante a entrevista: “Eu sou muito melhor nas partidas de campeonato.”

Essa frase me surpreendeu. Enquanto muitos jogadores se paralisavam quando sob pressão, ele aparentemente mantinha uma mentalidade de vencedor. Essa força, que transbordava nas partidas, nas situações mais importantes do jogo, levava muitos oponentes à distração e permitia a Federer escapar de situações a princípio impossíveis. Isso também o ajudou a estabelecer um dos recordes mais inacreditáveis na história do esporte – 24 vitórias em simples consecutivas em finais no tênis profissional, entre julho de 2003 e novembro de 2005 – dobrando os recordes de John McEnroe e Björn Borg.


Os êxitos de Federer na World Youth Cup foram em vão. O time suíço, por ter a carência de outro jogador de simples mais forte e de uma dupla mais experiente, foi derrotado e terminou o torneio em 15º lugar. Roger Federer venceu, mas a Suíça perdeu – um cenário que se repetiria mais tarde, por muitas vezes, durante anos, na própria Copa Davis. O rapaz de pavio curto, no entanto, recebeu os parabéns do então técnico do time australiano na World Youth Cup, Darren Cahill, que já fora uma vez semifinalista do US Open e era responsável por Lleyton Hewitt, naquela época. “Ele tem de tudo para ser bem-sucedido no futuro”, disse Cahill.

Eu pude retornar para a redação com material suficiente para uma boa matéria. Seria a minha primeira sobre Roger Federer – porém, não seria a última. O título do artigo era: “Alguém Tem de Ser Capaz de Fazer um Jogo Perfeito”.

Sobre o autor:
René Stauffer cobre o circuito internacional de tênis há muitos anos e é um dos principais jornalistas especializados do esporte no mundo.

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