sábado, 23 de março de 2013

Megafone: João Cabral e o futebol

Arte: Zuca Sardan


“Deixa Falar: o megafone do esporte”, espaço de debates que sai quinzenalmente, sábado sim, sábado não, aqui, no Literatura na Arquibancada, na Carta Maior (http://www.cartamaior.com.br), no blog do Juca (http://blogdojuca.uol.com.br/ ) e no Centro Esportivo Virtual (CEV) (http://cev.org.br/), debatendo o esporte em geral e o futebol em particular, dialogando com a História, Política, Música, Economia, Literatura, Cinema, Humor, apresenta nesta sua sexta edição, artigo especial do cineasta e mestre Ney Costa Santos.

Como o tema do artigo de mestre Ney é João Cabral, Literatura na Arquibancada recomenda também leitura de artigo já postado por aqui sobre o poeta:

João Cabral de Melo Neto e o Futebol
Por Ney Costa Santos

 
O poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, um dos grandes da poesia brasileira, gostava de futebol e chegou a jogar como meio de campo no juvenil do Santa Cruz, onde foi campeão em 1935.

Sua poesia era a das coisas em si. 

O que o interessava era aquilo de dentro, o interno, o miolo das coisas e, assim falando, falava do mundo, daquilo que nele observava e vivia.

Embora dissesse que o seu interesse por futebol tenha durado dos oito anos até a adolescência, os poemas sobre esse assunto em sua obra revelam o olhar agudo de quem vê o jogo por dentro e não se fixa tão somente às suas exterioridades: o espetáculo, o rumor das torcidas, a plasticidade das jogadas, a fantasia criativa de um gol raro ou decisivo.

 
No livro Museu de Tudo, publicado em 1975, há quatro poemas sobre o futebol: O torcedor do América F.C.; Ademir da Guia; Ademir Menezes; O Futebol Brasileiro evocado da Europa.

No poema sobre o torcedor do América de Recife, tradicional clube pernambucano ainda em atividade, Cabral desvenda o gosto raro daquele torcedor que não convive com as vitórias, que torce pelo time pequeno nos estádios vazios.

                               O TORCEDOR DO AMÉRICA F.C

                               O desábito de vencer
                               não cria o calo da vitória
                               não dá à vitória o fio cego
                               nem lhe cansa as molas nervosas.
                               Guarda-a sem mofo: coisa fresca,
                               pele sensível, núbil, nova,
                               ácida à língua qual cajá,
                               salto do sol no cais da Aurora.
               
Os cariocas ao lerem esse poema pensarão logo no América do Rio, matriz dos Américas do Brasil, quase todos padecendo desse “desábito de vencer”. Pessoalmente, penso na saga do América, o “Mequinha”, tão caro às tradições do futebol carioca, time de meus tios-avós tijucanos, um time grande na minha infância, que vi no Maracanã, na arquibancada atrás do gol, aos dez anos, ser campeão carioca de 1960. Cabral fala do América do Recife e de todos os Américas, de todos aqueles que torcem pelos times pequenos e carregam essa paixão machucada pelas várzeas e estadinhos Brasil a fora, sofrendo e ansiando por uma vitória que raramente vem, mas quando chega é saboreada como “coisa fresca, pele sensível, núbil, nova, ácida à língua qual cajá”, tal um sol brilhante e repentino.

 
Seria essa fruição rara o segredo da persistência da paixão do torcedor pelos clubes sem glórias?

Os dois poemas seguintes são sobre ritmo: Ademir da Guia e À Ademir Menezes.

                                




                                ADEMIR DA GUIA

                               Ademir impõe com seu jogo
                               o ritmo do chumbo (e o peso),
                               da lesma, da câmara lenta,
                               do homem dentro do pesadelo.

                               Ritmo líquido se infiltrando
                               no adversário, grosso, de dentro,
                               impondo-lhe o que ele deseja,
                               mandando nele, apodrecendo-o.

                               Ritmo morno, de andar na areia,
                               de água doente de alagados,   
                               entorpecendo e então atando
                               o mais irrequieto adversário.

Ademir da Guia era freqüentemente acusado de lento e de atrasar o jogo. Pura inverdade. Filho do lendário zagueiro Domingos da Guia. Ademir começou no Bangu em 1960, foi para o Palmeiras em 1962 e lá jogou até 1977, participando de times como a célebre Academia. Seu ritmo era diferente, pensado e calibrado, sempre atento às variações e alternâncias do jogo ao qual Ademir ia impondo o seu ritmo. Organizava o meio de campo e a saída de bola. Quando seu time era atacado, ele sabia desarmar o adversário e passar rapidamente da defesa ao ataque. Sempre o pensamento em movimento, a cadencia exata e necessária a cada circunstancia do jogo. Ademir fazia o passe médio e longo, era capaz de correr com a bola dominada, ir à linha de fundo e cruzar com precisão, tinha presença na área para uma cabeçada ou o arremate final. Seu repertório rítmico era variado e por isso se impunha à correria adversária. A alegada lentidão não era a pouca velocidade, mas a capacidade de pensar e alternar a cadencia de jogo, era o ardil e não o espalhafato, futebol inteligente e não ornamental. Ademir da Guia foi um artista sereno e refinado. Quem não o viu jogar ou está cansado de ouvir essa conversa fiada de lentidão, deve ver o documentário “Um Craque chamado Divino”.

Ademir Menezes
                                
                               A ADEMIR MENEZES

                               Você, como outros recifenses,
                               nascido onde mangues e o frevo,
                               soube mais que nenhum passar
                               de um para o outro, sem tropeço.

                               Recifense e, assim dividido
                               entre dois climas diferentes,
                               ambidextro do seco e do úmido
                               como em geral os recifenses,

                               como você, ninguém passou
                               de dentro de um para o outro ritmo
                               nem soube emergir, punhal, do lento.
                               secar-se dele, vivo, arisco.

Ademir Marques de Menezes, craque famoso dos anos 40 e 50, foi artilheiro da Copa de 1950 com nove gols. Jogou a maior parte de sua carreira no Vasco da Gama, no famoso time do Expresso da Vitória. Em 1946 e 1947 jogou no Fluminense, sagrando-se campeão carioca na sua primeira temporada.

Não vi Ademir jogar e as poucas imagens que restam dele são aquelas da Copa de 50. Lembro-me bem de quando era garoto e ouvia as conversas dos mais velhos, que tomavam cervejas nos quintais enquanto as crianças zuniam pela casa nos aniversários. Eles descreviam os rushes de Ademir, arrancadas fulminantes em dribles rápidos, sua capacidade de sair da imobilidade e disparar em direção ao gol adversário. Contavam que era um artilheiro agudo e preciso.

Ademir Menezes

João Cabral, em Ademir Menezes, fala dessa dualidade rítmica, própria dos recifenses. 

O ritmo do mangue, que ata, e o do frevo, que dispara; a capacidade de passar de um a outro, sem tropeço, tal um punhal “vivo e arisco”.

Nesses dois poemas Cabral fala da beleza que a mescla de habilidade técnica e capacidade de variação rítmica desses jogadores-artistas proporcionava ao espectador. 

É um olhar para o “dentro” do futebol e não apenas para os seus aspectos externos.







                               O FUTEBOL BRASILEIRO EVOCADO DA EUROPA

                               A bola não é a inimiga
                               como o touro, numa corrida;    
                               e embora seja um utensílio
                               caseiro e que se usa sem risco,
                               não é o utensílio impessoal,
                               sempre manso, de gesto usual:
                               é um utensílio semivivo
                               de reações próprias como bicho,
                               e que, como bicho, é mister
                               (mais que bicho, como mulher)
                               usar com malícia e atenção
                               dando aos pés astúcias de mão.

Há uma expressão entre os boleiros que bem define o perna-de-pau: “Esse não tem intimidade com a bola...” A proximidade carinhosa com ela, a atenção aos seus caprichos, como os de uma mulher, está no DNA do futebol brasileiro. Ao contrário de Lima Barreto e Graciliano Ramos que viram o futebol como um estrangeirismo passageiro, João Cabral percebe o modo original do estilo brasileiro e define poeticamente essa maneira de jogar “com malícia e atenção/dando aos pés astúcias de mão”. Entre essas astúcias estão o passe longo e preciso ao vislumbrar o deslocamento do companheiro, a capacidade de antever a jogada, a fantasia do drible e da resolução rápida, as trajetórias surpreendentes da bola nas cobranças de faltas.


Em um poema do livro Agrestes (1985), João Cabral fala de outra característica do futebol brasileiro clássico. Digo clássico, pois em tempos de ênfase em times de guerreiros, primeiro combate, volantes de contenção e outras expressões de infantaria, a arte do passe parece em decadência. Telê Santana dizia que “o passe é um gesto de amizade”. É por aí.

                               
DE UM JOGADOR BRASILEIRO 
A UM TÉCNICO ESPANHOL
                              
                               Não é a bola alguma carta
                               Que se levar de casa em casa:

                               é antes telegrama que vai
                               de onde o atiram ao onde cai.

                               Parado, o brasileiro a faz
                               ir onde há-de, sem leva e traz;

                               com aritméticas de circo
                               ele a faz ir onde é preciso;
                              
                               em telegrama, que é sem tempo
                               ele a faz ir ao mais extremo

                               Não corre: ele sabe que é a bola,
                               telegrama, mais que voa.

É uma descrição precisa do que é ou foi a arte do passe no futebol brasileiro. Penso logo em Gerson, Didi, Zico, Ademir da Guia. Talvez hoje no futebol brasileiro apenas Deco e Ronaldinho Gaúcho, quando quer, sejam os herdeiros e praticantes dessa arte requintada. Passe, sim, e não assistência, como quer o jargão do atual jornalismo esportivo que importou o termo do basquete. Assistência lembra sirene, socorro, ambulância...

Na arte do passe brasileiro, o craque faz a bola chegar ao seu destino com cálculo de engenheiro e “aritméticas de circo”. Ciência e fantasia.


Os dois poemas seguintes, publicados em Crime na Calle Relator (1987), tratam da liberdade absoluta em um futebol utópico, livre dos esquemas táticos, um futebol que não mais seria jogo e sim brincadeira absoluta.

                               BRASIL 4 X ARGENTINA 0

                               Quebraram a chave da gaiola
                                e os quadros-negros da escola.

                               Rebentaram enfim as grades
                               que os prendiam todas as tardes
                               Nos fugitivos, é a surpresa,
                               vendo que tomaram-se as rédeas

                               (dos técnicos mudos, mas surpresos
                               brancos, no banco, com medo).

                               Estão presos os da outra gaiola
                               que não souberam abrir a porta:

                               ou não o puderam, contra o jogo
                               dos que estavam de fora, soltos.

                               De certo também são capazes
                               de idênticas libertinagens

                               uma vez soltos, porém como
                               se liberar daquele tronco

                               em que os aprisionaram os táticos
                               argentinos, também gramáticos.

                               E enquanto os fugitivos seguem
                               com a soltura, a sem lei que os regem,

                               nos bancos é uma a indignação:
                               dos que vão vencendo e dos que não:

                               “Voltamos ao futebol de ontem?
                               Voltou a ser um jogo dos onze

                               Voltou a ser jogar de pião?
                               Chegou até cá a subversão?

                               Como é possível haver xadrez
                               Sem gramática, bispos, reis?”

João Cabral e a camisa do América

Nesse Brasil e Argentina as gaiolas das táticas e estratégias foram abertas e jogou-se sem gramática, bispos e reis, um anti-xadrez, um jogo de invenção e criatividade permanente, tão destituído de qualquer calculo ou planejamento, que nem a múmia que vivia na Capelinha da Jaqueira precisou ser convocada.








        
        A MÚMIA

                               Na Capelinha da Jaqueira
                               uma múmia sobrevivera.

                               A de Bento José da Costa
                               ou de alguma amante preposta?

                               Ela não fazia fantasma:
                               era mais bem alma gorada,

                               ovo encruado, infermentação,
                               que nunca pode assombração.

                                                         *

                               Caminho do Campo do América
                               se ensaiavam dribles em sua pedra.

                               Se imitavam chutes sem bola
                               na pedra anônima em que mora.

                               E fosse de dia ou de noite
                               nunca foi de acenar a foice,

                               nem com gesto armado de morte
                               acenar-se sequer, de chofre.

          *

                               Na Capelinha da Jaqueira,
                               a múmia, amiga e companheira,

                               punha-se acima de quem joga:
                               nunca envergou a negra toga,

                               ridícula, de juiz de futebol,
                               de calças curtas como um sol

                               castrado, já antes do apito
                               epilético; é Meritíssimo.
                                                
                                                               *

                               Talvez porque a múmia era cega?
                               Nunca ela torceu pelo América.

                               Também nunca acendemos vela
                               para que ela, com suas trelas,

                               driblasse a defesa contrária,
                               o juiz, e até as arquibancadas,

                               e entrasse só no gol do Esporte,             
                               num “gol de chapéu”, com a Morte.

Talvez só Garrincha, algum dia, tenha jogado esse futebol da ludicidade absoluta, o prazer de jogar uma doce pelada cósmica.
                 
Sobre Ney Costa Santos:

É Flamengo, Mestre em Comunicação Social e Professor da PUC-Rio. Cineasta, dirigiu os filmes Heleno e Garrincha, Meu Glorioso São Cristovão, O Pulo do Gato, Cinema Interior, Cole in Rio e Padre-Mestre.

Ney Costa Santos é um convidado especial do Megafone que certamente passará a ser membro efetivo. Apoia enfaticamente “Fora Marin”.





Três toques do Megafone:

1) Como disse o autor sobre Ademir da Guia,  “quem não o viu jogar ou está cansado de ouvir essa conversa fiada de lentidão, deve ver o documentário Um Craque chamado Divino.” No link o trailer do filme. Um colírio para os admiradores do futebol arte:
http://www.youtube.com/watch?v=SplZHzOUEDY

2) João Cabral de Melo Neto teve seu poema Morte e Vida Severina, musicado por Chico Buarque de Hollanda, a pedido de Roberto Freire, diretor do teatro TUCA da PUC de São Paulo. A peça encenada em 1966 se tornou um sucesso, recebendo premiação no festival universitário de Nancy, na França. João Cabral foi o poeta brasileiro que mais se dedicou ao futebol.

No link você pode ver a força e a beleza do poema (parte 8) de João Cabral musicado por Chico:
http://www.youtube.com/watch?v=uL9cDmQxMwo

3) Ney Costa Santos voltará em breve ao Megafone com o artigo Heleno e Garrincha, tema de um de seus filmes.

Deixa Falar: o megafone do esporte, criação e edição de Raul Milliet Filho.

Sobre os autores do “Deixa Falar: o megafone do esporte”


Ademir Gebara Graduado em História e Educação Física, mestre em História pela USP, PH D em História pela London School of Economics and Political Science., ex-diretor e coordenador de Pós da FEF Unicamp, professor visitante da Universidade Federal da Grande Dourados.


Antonio Edmilson Rodrigues – é América, livre docente em História, professor da UERJ e da PUC-RJ, pesquisador de História do Rio de Janeiro, escritor de temas vinculados à história urbana, coordenador do projeto Conversa de Botequim e autor de João do Rio, a cidade e o poeta.


Bernardo Buarque – professor da Escola Superior de Ciências Sociais (FGV) e pesquisador do CPDOC/FGV. `É editor da coleção Visão de Campo (7 Letras). Em 2012, publicou o livro ABC de José Lins do Rego (Editora José Olympio).


Flavio Carneiro – É botafoguense, além de escritor, roteirista e professor de literatura na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).www.flaviocarneiro.com.br.

 
José Paulo Pessoa – é botafoguense, ator, advogado, que achava o Didi mais impressionante que o Garrincha (que foi o maior que já vi!). Diretor, cantor e compositor do Bloco das Carmelitas, de Santa Teresa (RJ).


José Sebastião Witter – é torcedor do São Paulo, professor emérito da USP e professor normalista.


Luiz Carlos Ribeiro é professor do Departamento de História da UFPR e coordenador do Núcleo de Estudos Futebol e Sociedade.


Marcelo W. Proni – economista, doutor em Educação Física pela Unicamp, professor do Instituto de Economia da Unicamp, torcedor do Botafogo de Ribeirão Preto.


Marcos Alvito - É carioca de Botafogo e Flamengo até morrer.  É um antropólogo que dá aula de História na UFF desde o longínquo ano de 1984.  Perna-de-pau consagrado, estuda um jogo que nunca conseguiu jogar direito: o futebol. Mas encara qualquer um no futebol de botão. Acaba de publicar A Rainha de Chuteiras: um ano de futebol na Inglaterra (www.clubedeautores.com.br)


Raul Milliet Filho – é botafoguense, mestre em História Política pela UERJ, doutor em História Social pela USP. Como professor, pesquisador e autor prioriza a cultura popular. Gestor de políticas sociais, idealizou e coordenou o Recriança, projeto de democratização esportiva para crianças e jovens.


Ricardo Oliveira – é Vasco, jornalista, educador da prefeitura do Rio de Janeiro e pesquisador da História do futebol. Coordenador da pesquisa do livro Vida que Segue: João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970.


Wanderley Marchi Jr – doutor em Educação Física e Sociologia do Esporte e professor da Universidade Federal do Paraná/BRA e da West Virginia University/USA.


Zuca Sardan (Carlos Felipe Saldanha) – É torcedor do Vasco, nasceu no Rio de Janeiro em 1933, mas vive em Hamburgo, na Alemanha. Estudou arquitetura, mas fez diplomacia. Estudou desenho, mas fez letras. Hoje dedica-se a desenhos, vinhetas, poesias e folhetins. Entre seus livros, estão: Ás de coletepoesias, desenhos e Osso do Coração.


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Arte: Zuca Sardan

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