quarta-feira, 20 de março de 2013

150 anos de futebol



A literatura esportiva brasileira acaba de ser presenteada com uma “pequena” grande obra. “Pequena” porque os livros são de leitura rápida (80 páginas cada um) e “grande” pela qualidade do conjunto. Trata-se da série “150 anos de futebol”, composta por cinco livros que formam a coleção “Atleta do Futuro” da Sesi-SP Editora. Todos os livros são assinados por um craque do jornalismo, José Eduardo de Carvalho.

Os três primeiros títulos, “O Jogo”, “Geopolítica” e “Dinheiro”, que já estão a venda, revelam não só a evolução do futebol, mas também o seu notável impacto nas relações internacionais e também na economia mundial. Além desses, em breve, também comporão a coleção dois novos títulos: “Fantasia” e “Gente”, que abordarão o aspecto humano do esporte mais popular do nosso tempo.


E antes que alguém pergunte a razão da efeméride, o dia 26 de outubro de 1863 é considerado o dia da criação do futebol. Foi nessa data que, ao fim de seis reuniões na Freemason's Tavern, em Londres, nasceu a The Football Association.

Sinopse do livro “O jogo” (da Editora)


A disputa de dois times no teatro entre as linhas do gramado pode ser encarada como uma metáfora da própria vida: a luta diária de cada um de nós pela sobrevivência à custa de esforço e sacrifício, e também de muita criatividade e esperteza.

Em “O Jogo”, livro que abre a coleção que comemora os 150 anos do Futebol, José Eduardo de Carvalho faz uma análise detalhada do esporte que tem o poder de fazer o mundo parar. Considerado por alguns como uma oportunidade de ascensão social, e por outros como um instrumento de alienação ideológica, o futebol provoca controvérsias que envolvem a própria vivência humana, a economia, política e as relações internacionais. 





Sinopse do livro “Dinheiro” (da Editora)

O futebol talvez seja o esporte mais popular do mundo – e não demorou para se tornar também uma verdadeira mina de ouro, das mais disputadas. Cifras impressionantes são movimentadas a cada campeonato, ao ponto de causar impacto mesmo nas economias mais sólidas, e a riqueza produzida por uma única Copa do Mundo é capaz de transformar o PIB de um país. Os salários pagos pelos grandes times tornam a carreira de jogador de futebol uma das mais cobiçadas por meninos mundo afora, e os contratos de publicidade e merchandising que enriquecem ainda mais esses jovens atletas chamam a atenção para a força dessa indústria nascida do esporte.

Sinopse do livro “Geopolítica” (da Editora)


As Copas do Mundo são exemplos de como conflitos históricos podem ser reencenados sem armas, num combate de noventa minutos dentro de uma arena gramada.  Já assistimos a soldados e bombas serem trocados por jogadores e uma bola numa condensação de diferenças étnicas e políticas nem sempre conciliadas. A diferença entre o campo de batalha e o estádio era que o único alvo permitido era o gol.

Em “Geopolítica”, José Eduardo de Carvalho faz uma análise detalhada do esporte que deflagrou conflitos e também superou guerras, tornando-se peça essencial do intrincado jogo da diplomacia e da geopolítica mundial.

Literatura na Arquibancada destaca dois textos do livro “O jogo” que comprovam a qualidade desta série espetacular: o prefácio, assinado pelo mestre Tostão; e a “introdução” do autor, José Eduardo de Carvalho, uma prosa leve, envolvente e repleta de informação.

Mais que um jogo
Por Tostão


Uma partida de futebol é muito mais que uma disputa esportiva, de técnica, tática, habilidade e criatividade. É também um espetáculo lúdico, de grande emoção, em que estão presentes todos os sentimentos e contradições humanas. É uma metáfora da vida.

Os esquemas táticos servem de referência e de repressão para os atletas. É um aviso de que eles não podem ultrapassar certos limites, que nem tudo o que se deseja é permitido e que as ambições individuais não podem estar acima do coletivo. O mesmo ocorre na vida. O esquema tático é a consciência, o alter ego dos jogadores.

Na vida e no futebol, paga-se também um preço por isso. A repressão excessiva inibe a espontaneidade, a criatividade e empobrece o ser humano.

Zico diz que a maior dificuldade que teve como treinador, no Japão, foi convencer os disciplinados japoneses de que eles poderiam também improvisar e inventar. Japoneses e americanos aprenderam todos os detalhes táticos do futebol, melhoraram bastante a técnica, mas não conseguiram dar um salto de qualidade, por falta de habilidade e de criatividade.


No futebol, diferentemente do vôlei, as improvisações e os acasos são também decisivos. No vôlei, quase tudo que é ensaiado pode ser repetido no jogo. No futebol, quando um jogador domina a bola, há milhares de possibilidades.

Além da técnica, da habilidade e da criatividade, os grandes atletas são os que convivem bem com a emoção de um jogo. “Quem ganha e perde as partidas é a alma” (Nelson Rodrigues).

A Seleção de 1970, considerada por muitos a melhor do mundo de todos os tempos, uniu o talento individual com o jogo coletivo.

Não há espetáculo sem a participação do torcedor. Eles influem também no resultado das partidas. A principal razão de os times da casa terem mais chances de vencer, quando não há uma grande diferença técnica, é o apoio dos torcedores e a pressão sobre os adversários.
Os torcedores levam também para o campo todas as suas angústias, frustrações, alegrias e tristezas. É uma verdadeira catarse.


Os treinadores, apesar de supervalorizados pelos torcedores e pela imprensa, são também importantes. O jogo precisa ter uma ordem, uma estratégia, um comando.

O técnico tem de escolher os melhores e colocá-los nos lugares certos. Não existe uma estratégia ideal para todas as partidas, tudo depende das características dos jogadores, do adversário e do momento. O bom técnico não é o que sabe mais detalhes táticos, e sim o que sabe comandar e executar melhor o que foi planejado.

Neste belo livro, José Eduardo de Carvalho conta a história do futebol, como ele surgiu, se desenvolveu na Inglaterra, se espalhou pelo Brasil e pelo mundo e como se tornou tão popular. Conta também como o futebol, para crescer, precisou se estruturar, dentro e fora do campo, criar regras, rituais e uma linguagem própria. Mostra ainda como se tornou um espetáculo e as suas relações com a sociedade.

O futebol é mais do que um jogo. Vocês vão gostar.

Introdução
Por José Eduardo de Carvalho


Tem sido uma tarefa árdua, e prazerosa, tentar desvendar o futebol. Primeiro um jogo, depois um esporte, hoje uma instituição, esse fenômeno que completa 150 anos no momento justo em que o Brasil constrói sua Copa do Mundo parece não ter limites em seu gigantismo, que ao mesmo tempo seduz multidões e alimenta adversários ideológicos. Meio bilhão de pessoas tiram seu sustento do futebol, direta ou indiretamente. Cerca de 1 bilhão e 200 milhões são ou foram praticantes do esporte e o número de seguidores já ultrapassou o patamar espantoso de 4 bilhões, quase 60% da população do planeta. Como contestar esse poder?

Nascido no coração da Revolução Industrial, o futebol atravessou todas as turbulências do mundo contemporâneo, adaptou-se às diversas conjunturas sociais, consolidou suas regras, sobreviveu a duas guerras mundiais e a inúmeras convulsões sociopolíticas, religiosas e raciais neste século e meio de vida. Não só reforçou seu estigma de aglutinador de povos como multiplicou as adesões e foi vorazmente adotado pelas diversas camadas da sociedade a partir das classes mais humildes – contrariando sua própria origem aristocrática. Ainda assim, é acusado de ser instrumento de dominação e pretexto para se fugir da realidade. Em função de seu afã conquistador que não conhece fronteiras, atrai injúrias. A maior de todas, que aponta para o uso indevido do futebol pelos diversos poderes constituídos e forças políticas, pode ser apenas uma grande falácia. Não será o contrário? Não será o futebol, em sua grandeza absoluta, quem na realidade usa instrumentos da política para fazer valer suas verdades, sua alucinante capacidade de comunicação e identificação?


Não há, definitivamente, em qualquer setor do conhecimento humano uma atividade que, semana após semana, reúna pequenas multidões de forma tão sistemática e apaixonada, nem mesmo as grandes manifestações religiosas. Autobatizado ‘país do futebol’, o Brasil usualmente questiona, pela mídia ufanista e por milhões de torcedores, a existência de outros ‘países do futebol’. Mas eles existem, a história é testemunha, até mesmo se levarmos em conta apenas as últimas décadas. A Itália consolidou a posição de país do futebol ao organizar em 1990 a Copa do Mundo que mais abarrotou estádios e paralisou a nação por um mês. O país também ignorou suas diferenças orgânicas entre norte-rico e sul-pobre ao chorar, em uníssono, pela derrota contra o Brasil em 1994, ou pela vitória na Copa de 2006, na Alemanha.

Três milhões de franceses desafiaram a postura clássica de seu perfil blasé e saíram, histéricos, às ruas de Paris no dia 14 de julho de 1998, numa proporção 20 vezes maior do que nos outros anos para as comemorações de seu Dia Nacional, a Queda da Bastilha. A explicação: dois dias antes, Zidane e sua turma haviam destroçado o Brasil e conquistado o primeiro Mundial do país, o que turbinou a festa da Pátria. Somente 17 anos após a queda do Muro de Berlim os alemães conseguiram virar de vez uma página traumática de sua trajetória política e, sob o cartão de visitas da Copa de 2006, reconquistaram a simpatia de vizinhos e outros desafetos, enterrando o espectro do divisionismo e os ecos da Guerra Fria. A Espanha também saboreia esse gostinho de ser país do futebol e não só por ser neófita em conquistas mundiais, mas pelas demonstrações históricas de fanatismo em torno de uma tradicional rivalidade, Real Madrid-Barcelona, que paralisa três quartas partes de seu território e um pedaço generoso do mundo a cada clássico. Sem contar os ingleses, que inventaram tudo isso.


A rigor, os rituais futebolísticos são continuamente reinventados por milhares de pequenos grupos em qualquer lugar do planeta onde exista um espaço e uma bola – seja nas várzeas brasileiras e argentinas, que insistem em desafiar as transformações urbanas das grandes cidades, seja nos modernos gramados europeus ou nos cantões africanos de terra batida. A bola também rola, constante, sobre a neve dos estádios russos e nas politicamente corretas arenas no Extremo Oriente, com seus torcedores high-tech, bem-comportados e sistemáticos, como se manejassem um vídeo game. É o script habitual dos domingos, também dos sábados, das quartas e quintas-feiras. Em matéria de futebol, todo dia é dia.

É preciso levar em conta, além de tudo, as particularidades que tornam o próprio jogo atraente. O sociólogo francês Roger Caillois elaborou um estudo aprofundado sobre a função primordial dos passatempos. Embora tenha formulado de uma maneira velada hipóteses nem sempre reais sobre o papel do futebol, ao mesmo tempo dá elementos que decifram os segredos de sua universalização como linguagem e acontecimento grandioso. Callois enquadra os jogos como atividades livres, delimitadas em espaços fixos, incertas (com resultados imprevisíveis), improdutivas (por não gerarem bens ou riqueza específica), regulamentadas (sob o domínio de convenções ou regras) e fictícias (que correm de forma paralela à vida real). Em seguida, os divide e classifica em quatro categorias fundamentais: o agonismo (voltados para as tensões da competição); o aleatório (ligados ao acaso, à sorte e ao azar); a simulação ou mímica (que trabalham com disfarces, estratégias e blefes); e a vertigem (produtos de ansiedades, emoções e medo).


Ainda que procurasse em suas análises abranger todo tipo de jogo – do carteado à patinação –, Caillois fez involuntariamente uma obra adaptável quase por completo ao futebol, pela simples razão de que se trata de um coquetel explosivo que mescla todos os jogos em um só. Exceto pelas qualificações de ‘atividade improdutiva’, que obviamente hoje em dia está longe da verdade do futebol, e de ‘atividade fictícia’, um legado dos pobres tempos em que esse esporte ainda era taxado de ‘ópio do povo’, as definições e categorias são todas aplicadas à risca ao jogo das multidões. No futebol há comprovadamente competição – física e mental –, a sorte e o acaso são componentes usuais, a simulação legítima é ingrediente-chave do encanto do jogo (o que é um drible se não enganar, blefar, dentro da regra?), a mímica é recurso obrigatório do gestual dos atores (a comemoração de um gol, o juiz sinalizando com seus cartões, o craque do time pedindo apoio do torcedor) e a emoção/tensão paira sobre todas as outras características. É o que conduz o ritual, escreve a história e mantém viva a chama, estimulando imagens, sons e sentimentos.

De tal forma o futebol é concreto e real que suas mazelas representam com precisão o arsenal de dificuldades e obstáculos, inclusive éticos, com que nos deparamos no dia a dia. Mais do que isso, são mazelas potencializadas pela vivência esportiva. Violência, doping, corrupção, conchavos políticos e truques escusos de mercado também marcam as relações humanas no futebol, abalam suas estruturas e criam alguns monstrengos. A própria existência dos adversários ideológicos, que muitas vezes se aproveitam da visibilidade do futebol para destilar seus interesses duvidosos e estabelecer cruzadas morais demagógicas, funciona como referendo à grandeza do jogo. Nenhuma novidade, se comparado ao que enfrentamos em nossa trajetória individual e familiar, no processo educacional, no trabalho e nas relações interpessoais ao longo de nossa existência. Tudo é uma questão de interpretar, depurar e incorporar o pacote completo, desde que inclua os prazeres e o entretenimento que possa proporcionar – o “escoamento das emoções”, segundo a tese aristotélica, ou o ato simples de desfrutar dos momentos marcantes “em que uma sociedade se mexe, ri, chora e grita”, na visão do etnólogo francês Christian Bromberger.

Sobre José Eduardo de Carvalho:

Foi repórter, redator e editor de esportes do Jornal da Tarde, correspondente internacional do Grupo Estado em Madri, correspondente no Brasil do Diário AS, da Espanha; colaborador de várias publicações esportivas, editor chefe da PSN Sports no Brasil e professor de cursos de especialização em Jornalismo do Senac-São Paulo. Participou da coleção “Formação e Informação – Jornalismo para Iniciados e Leigos”. O livro trata de um dos grandes temas da mídia: o jornalismo esportivo. José Eduardo participou com o artigo "O discurso esportivo", onde fala das evoluções e involuções do linguajar da imprensa. O texto pode ser acessado neste link:

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