terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Paulo Luna: No compasso da bola



Música e Futebol. Futebol e Música. A tabelinha perfeita na literatura esportiva nas mãos de um craque. Paulo Luna escreveu o que se pode definir como “joia rara”. “No compasso da bola” (Irmãos Vitale Editores, 2011) é leitura obrigatória para os amantes da bola e da música. Uma pesquisa histórica espetacular, feita com paciência e detalhamento necessários para se transformar em livro.  

Literatura na Arquibancada destaca abaixo a apresentação do autor e o prefácio da obra feito pelo presidente do Instituto Cultural Cravo Albin, Ricardo Albin. Outros trechos da obra podem ser acessados também pelo link http://www.vitale.com.br/sistema/produtos/produto.asp?codigo=36369

Apresentação
Por Paulo Luna

Arte Luciana Mello e Monika Mayer
  
“É missão das histórias selecionar e é de sua natureza incluir excluindo, e iluminar lançando sombras. É um grave equívoco, além de uma injustiça, culpar as histórias por favorecerem uma parte do palco e negligenciarem outra. Sem seleção não haveria história”. (Zygmunt Bauman).

Esporte e arte. Som e movimento. Futebol e música. Consagração do instante em momento mágico. O futebol e a música se aproximam na graça do movimento. A música leva à dança e o futebol é um jogo que propicia o acontecer de um balé no campo. Ondulações cintilantes que extasiam. Em sua curta trajetória no planeta Terra, a espécie humana tem perpetrado mistérios variados. Fome, guerra, exclusão e miséria são situações que exploram as mais altas consciências na tentativa de descobrir os seus porquês. Por outro lado, a espécie humana é a mesma capaz de produzir as coisas mais espetaculares, as obras mais fantásticas. Num exercício de imaginação, digamos que daqui a cem mil anos a vida humana já tenha sido extirpada do planeta e alguma espécie de outro sistema solar aqui chegar e, tendo a capacidade do raciocínio e da compreensão tal qual a conhecemos, encontre entre destroços algumas partituras musicais, alguns velhos discos ou CDs e, quem sabe, imagens de jogos de futebol. Que impressão levaria da extinta raça que habitara o belo planeta azul? Talvez rissem, talvez chorassem ou, quem sabe, levassem de volta a seu planeta natal amostras desse enigmático povo capaz de matar e criar belezas em proporções semelhantes.

A música popular, tal qual a concebemos hoje, e o futebol são fenômenos que possuem certa contemporaneidade, pois são fruto da série de transformações ocorridas, primeiramente, em várias sociedades europeias e, posteriormente, espalhadas pelo mundo, a partir da chamada Revolução Industrial. Assim, embora existindo desde remotas eras como parte de práticas rituais religiosas e profanas, a música popular ganhou impulso com o desenvolvimento das cidades e suas variadas formas de diversão e maneiras de se ganhar a subsistência diária.


No Brasil não foi diferente o processo, mas sim o resultado dessas transformações, uma vez que em nossa terra variados fatores quase nunca pacíficos terminaram por propiciar uma mistura, um mestiçamento tal, que as forças criadoras de negros, brancos e indígenas se amalgamaram para criar possibilidades novas que continuam a intrigar os mais conceituados estudiosos. E essa força nova, criativa, se fez presente de forma avassaladora na música popular e no futebol, campos em que, por diferenciados aspectos, foi possível mais rapidamente aos mestiços e negros romperem barreiras, o que em outros campos da sociedade brasileira permaneceram intransponíveis.

Este livro se dedica a estabelecer um paralelo, observar as sincronicidades, as convergências e divergências entre a música popular e o futebol no Brasil. Como ocorre com todo o trabalho de pesquisa na área da cultura não se pode reivindicar nenhum ineditismo ao tema, mas sim reconhecer os trabalhos pioneiros sobre este. Porém, o pesquisador que se debruça sobre o estudo da cultura, ainda mais em um imenso mosaico que não permite conclusões definitivas, nem superlativas. As maneiras de jogar e de fazer música no Brasil possuem, inevitavelmente, as tonalidades locais, regionais, assim como a maneira de olhar sobre cada uma dessas duas facetas aqui investigadas.

Este trabalho teve início com uma observação sobre a grande quantidade de canções existentes no repertório de variados artistas que evocam o futebol. Evidente que tal observação em si nada tem de original, mas possibilitou o ponto de partida para a busca da ampliação desse campo investigativo para um pouco além do trivial, ou classicamente já conhecido, e buscar resgatar outras criações e relações sobre a temática do futebol ainda não devidamente investigadas.


Logo, foi possível ampliar gradativamente nosso campo investigativo, o que possibilitou a listagem de mais de 300 composições tendo o futebol como tema ou por ele passando de forma incidental. Não consideramos, evidentemente, que a pesquisa factual esteja encerrada, pois se assim estivesse, estaríamos contradizendo nossas palavras iniciais. Por estarmos no Rio de Janeiro, ainda guardamos resquícios do passado e temos a mania de ver a cidade maravilhosa como o centro civilizador do Brasil, o que impede uma melhor observação sobre os fenômenos culturais das demais regiões do país. Apenas como exemplo: músicas tendo como referência o Rio de Janeiro são entendidas por muitos como se fossem músicas nacionais, enquanto as variadas musicalidades de outros estados são tidas genericamente como regionais.

Evidente que as dimensões continentais do nosso país, o avassalador volume de produção cultural, bem como o precário estado de guarda de boa parte desse acervo impedem qualquer tentativa de buscar uma investigação definitiva. Não pretendemos, por certo, realizar tal tarefa e conhecemos, de antemão, muitas de nossas lacunas. Buscamos traçar, porém, uma radiografia das relações entre a música popular e o futebol no Brasil, procurando seus pontos de encontro e recortes comuns. Não tivemos nenhuma preocupação estética que guiasse nossa investigação em torno de criações mais ou menos elevadas musicalmente. Deixamos essa tarefa a quem dela quiser se ocupar. Escalamos nosso time e o pusemos em campo, ou melhor, em pauta para atuar e esperamos que o concerto possa servir de inspiração a outros investigadores que, a partir do nosso levantamento, deem continuidade a pesquisa e cheguem a novas conclusões. Na música, as notas musicais se volatizam no ar e se dissolvem no ato da audição. No futebol, o gol (momento maior desse esporte) é uma quimera que se dissolve no olhar e no grito de alegria ou de dor de quem o vê. Músicas ficam registradas em discos, CDs e outras formas mais modernas de registro, enquanto o futebol se eterniza em filmes e videoteipes, mas ambas as artes, a música e o futebol, se notabilizaram por lidarem com o efêmero e é desse sutil equilíbrio que essas artes possibilitam o surgimento daquilo que possuem de mais belo, genial e duradouro.


Foram cerca de dez anos de pesquisa, em parte de forma sistemática e dirigida e, por outro lado, contando com a sorte e com o modo aleatório. A tarefa foi realizada em arquivos particulares, bibliotecas, livros e sites sobre música em geral, além do nosso acervo particular de LPs e CDs, e, naturalmente, no respeitado conjunto de informações sobre o assunto constituído pelo Dicionário Cravo Albin da música popular brasileira, o qual conta com nossa participação na equipe de pesquisa.

Para se descobrir a grande quantidade de músicas aqui listadas foram necessárias inúmeras audições, isso sem falar no acaso que, muitas vezes, colocou diante dos nossos olhos LPs ou CDs que continham alguma música de acordo com o tema da pesquisa. Isso sem mencionar ainda toda a nossa experiência de anos a fio frequentando as arquibancadas do Maracanã (Estádio Mário Filho), do Estádio Mané Garrincha, do Caio Martins, da Arena Ilha do Governador e, finalmente, do Engenhão (Estádio Olímpico João Havelange). Creio que avançamos um pouco no tema, embora muito ainda tenha ficado de fora; algumas coisas por não caberem nas nossas possibilidades temporais e outras porque não conseguimos chegar até elas, e porque tínhamos, por força da própria caminhada, que chegar a um ponto final.

Como bem explicitado na epígrafe deste livro, esta é uma história e como toda história, ela foi criada a partir de uma seleção que clareou alguns pontos e deixou outros obscurecidos, em que, afinal de contas, não seria possível fazer diferente. Que a magia das vozes, das mãos e dos pés possa falar mais alto nessa dança.

Prefácio
Por Ricardo Cravo Albin


São duas – e muito claramente aceitas, reconhecidas e apregoadas – as paixões do brasileiro.
Nem há como discutir sobre a verdade consolidada que defere à música e ao futebol as preferências nacionais. Preferências, paixões? Mais que isso: são uma e outra, por isso mesmo, as consolidações mais afetuosas da alma deste país, miscigênico, inquieto e criativo. Até porque música e futebol redefinem e colocam nosso temperamento nacional no seu devido lugar sociológico, embora aqui ou acolá narizes retorcidos (de intelectuais metidos a besta, que sempre os há...) tentem em vão apregoar o oposto, negando-lhe sua grandeza e colocando o dedo sujo nas feridas dos preconceitos.

O pesquisador Paulo Luna – que já por dez anos presta serviços acadêmicos ao nosso Dicionário Cravo Albin da música popular brasileira, online (e em papel desde 2006) – apresenta neste livro uma das mais bem cuidadas sínteses do relacionamento das duas vertentes. Ambas são historicamente frutos de preconceitos e do pouco apreço das elites pela miscigenação deste país. Elas – a música e o futebol – são vistas por Paulo Luna com olhar fraterno, até piedoso, mas não menos categórico, aprofundado e rigoroso. No que ele faz muitíssimo bem. E no que não decepciona – muito antes pelo contrário – este seu velho orientador.

Paulo faz ambas as paixões percorrerem caminhos conjuntos, convergentes e intensamente interligados. Desse modo, o leitor – aficionado ou não por futebol ou música (existe, de fato, no Brasil quem não seja ao menos por um deles?) – se encantará com as conexões entre eles. Que em determinado momento passam a redefinir a argamassa da quintessência da brasilidade.


Claro que música e futebol não têm a mesma idade. Nossa MPB se maturou lentamente, forjada pela miscigenação desde o século XIX. Já o futebol se instala no Brasil basicamente a partir das fraldas do século posterior, o XX.

Mas ambos convergem, e se depuram, a partir de um inimigo comum que tentou ir contra a essência do melhor deles e que sempre foi o exercício da liberdade: o preconceito, especialmente o mais abominável entre todos, o racial.

Paulo Luna investiga fragmentos preciosos, especialmente aqueles escritos por Ruy Barbosa vociferando contra a “ignomínia” de a primeira-dama do país, dona Nair de Teffé (esposa do marechal Hermes da Fonseca), adentrar com o “Corta jaca”, de Chiquinha Gonzaga, nos salões do Palácio do Catete.

Quase ao mesmo tempo, aliás, o célebre “conselheiro da República” brame indignação pela possibilidade de ter que viajar no mesmo “vapor” a Buenos Aires com a nossa delegação de futebol, que disputaria o histórico “Primeiro Campeonato Sul-Americano de Seleções” (julho de 1916).


Em resposta ao ministro do Exterior Lauro Müller – episódio citado por Lóris Baena em A verdadeira história do futebol brasileiro, pp. 56-57 – irrompe Ruy: “Saiba o Senhor que eu, minha família e meus auxiliares não viajamos com essa corja de malandros. Futebol é sinônimo de vagabundos. E pode escolher, Senhor Ministro, ou eles ou eu!”.

A identidade nacional, mesmo em suas origens ofendida por preconceitos tolos e desparafusados, é uma construção alegórica, forjada a partir do imaginário coletivo e sedimentar. Por isso, poucos países do mundo ostentam tamanhas conexões entre sua música popular e seu futebol, origens da nossa ascensão miscigênica, que define a criatividade, a ginga dos dribles num estádio ou a manemolência do samba, quando não os desafios improvisados num choro.

Aliás, outro belo fragmento recolhido por Luna nos capítulos iniciais é o de Gilberto Freire, que ao escrever a introdução de O negro no futebol brasileiro, de Mário Filho, testemunha: “A capoeiragem e o samba, por exemplo, estão presentes de tal forma no estilo de jogar futebol [...] que foram com esses resíduos que o futebol brasileiro afastou-se do bem ordenado futebol britânico, para tornar-se a dança cheia de surpresas irracionais e de variações dionisíacas que é”.

Esse amontoado de qualidades de essência anímica que compreende ligeireza, improvisação, manha, ginga, exacerbações individuais (fugindo do coletivismo frio da Europa) – além de astúcia e malandragem – liga os jogadores de futebol do Brasil aos executantes da MPB.
Este livro – em capítulos convenientes e muito originais – destila toda a adesão da música popular ao seu irmão mais novo, o futebol, década a década do século XX. Desde o primeiro registro histórico que remeteu diretamente ao tema futebol, como a marcha “Foot-ball” (ainda com a grafia inglesa), de Francisco de Oliveira Lima, gravada para a Odeon Talking Machine pelo Grupo Lima Vieira e Cia., até ao primeiro hino para um clube carioca, o do Fluminense Football Club, escrito por Oswaldo Cardoso de Menezes (pai da pianista Carolina Cardoso de Menezes) e que também foi o maestro do célebre Rancho Carnavalesco Kananga do Japão.

Partitura de 1x0, Pixinguinha.

Paulo perfila com maestria o desabrochar da adesão factual da MPB ao futebol, ao começo dos anos 20, partindo do Campeonato Sul-Americano de Futebol no Rio (campo do Fluminense).

E traz de volta pepitas como o one step de Eduardo Souto “Sul-Americano”, com letra de uma misteriosa Mlle. Tell: “Filhos da Terra do Sol / Lutemos até morrer / Que o Brasil, nosso país / Há de vencer”. A que logo se seguiu o choro clássico de Pixinguinha “1 x 0” (composto logo depois da vitória contra o Uruguai) e também o Tango “El rey de la pelota”, do citado Oswaldo Cardoso de Menezes, em honra a Friedenreich, o primeiro craque homenageado individualmente pela MPB.

Não há dúvida que – ao ler o livro e desfiando cada década com prazer – revi meu desabrochar para o mundo e, eu tricolor doente, pude sentir – um pouco a contragosto – a força do Flamengo como centro preponderante de paixões. Eu próprio cantarolei sambas de Wilson Batista, como aquele que ainda hoje guardo de cor: “Flamengo joga amanhã / Eu vou pra lá / Vai haver mais um baile no Maracanã / O Favorito tem Ruben, Dequinha e Pavão / Eu vou rezar pra São Jorge / Pro Mengo ser campeão...”. Depois, como não deixar de aqui me referir ao encantador, especialmente para mim, samba do Chico Buarque “Receita pra virar casaca de neném”, espertíssima resposta musical do tricolor Chico a seu amigo rubro-negro Cyro Monteiro (o grande cantor) que enviara um perigoso presente a sua primogênita recém-nascida (Silvia): uma camisa do Flamengo.


Berço – todas essas evocações musicais perfiladas na pesquisa de Paulo Luna – do mais aceso grito da paixão pelo futebol na “Terra do samba e do futebol”. Aquele do Miguel Gustavo que projetava – e nem a hora política de tantas dúvidas e desencontros conseguiu inutilizar – o grito de esperança para a conquista do tricampeonato em 1970: “Oitenta milhões em ação / Pra frente Brasil / Do meu coração”.

Selo definitivo, malgré tout, da congregação das duas cristalinas paixões brasileiras: sua música e seu futebol.



Sobre Paulo Luna:

Pesquisador. Professor. Historiador. Poeta. Licenciado em História em 1987, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro-UERJ.
(acessar o perfil completo na página do autor em http://www.pauloluna.net/perfil.php )

Um comentário:

  1. Este blogue é demais!
    Voltarei com tempo para explorar mais.
    E é cloro, compartilhar...
    Beijo querido.

    ResponderExcluir