terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O futebol explica o Brasil?



Se você, leitor, quer conhecer historicamente a importância do futebol na sociedade brasileira tem que ler o livro do jornalista e historiador Marcos Guterman. “O futebol explica o Brasil - Uma História da Maior Expressão Popular do País(Editora Contexto, 2009) traça um arco que vai da introdução do futebol no país, no final do século 19, até a conquista do pentacampeonato em 2002. Uma viagem centenária repleta de informações e curiosidades.

Sinopse (da editora)

Charles Miller (centro, sentado) e o SPAC, em 1904.

De esporte de elite a entretenimento das massas; do amadorismo ao profissionalismo; dos salários modestos à globalização-exportação; o uso político do esporte e o uso da política pelo esporte. Quando se estuda futebol no Brasil, não se fala "só" de um jogo, mas da própria história do país, emaranhada com a evolução nas quatro linhas do campo.

O jornalista e historiador Marcos Guterman mostra a trajetória do futebol no país desde sua chegada da Inglaterra, a formação dos primeiros clubes, os craques, os grandes fracassos, as peculiaridades. O livro narra os acontecimentos do último século no Brasil, mas principalmente mostra como política, economia, sociedade e futebol estão muito mais associados do que costumamos imaginar. Assim, o esporte mais popular do mundo, se lido corretamente, consegue explicar o Brasil.

Introdução
Por Marcos Guterman

 
O futebol é o maior fenômeno social do Brasil. Representa a identidade nacional e também consegue dar significado aos desejos de potência da maioria absoluta dos brasileiros. Essa relação, de tão forte, é vista como parte da própria natureza do país – as explicações para o fenômeno geralmente vão mais na direção da Antropologia que da História. O que este livro mostra é que o futebol, pelo contrário, não é um mundo à parte, não é uma espécie de “Brasil paralelo”. É pura construção histórica, gerado como parte indissociável dos desdobramentos da vida política e econômica do Brasil. O futebol, se lido corretamente, consegue explicar o Brasil.

O esporte aparece primeiro como atividade da elite, importado e jogado por estrangeiros aristocráticos ou ligados aos investidores europeus que exploraram as oportunidades abertas pelo desenvolvimento do país no final do século XIX. Negros e operários só teriam vez ou nos campos de várzea ou quando passaram a ser decisivos para que os times de brancos ricos ganhassem títulos.

 
Os muros erguidos em torno do futebol não resistiram à formação das metrópoles brasileiras. Foram demolidos pela massa de trabalhadores que encontrou nesse esporte a essência democrática que lhe era negada em todas as outras áreas. A profissionalização do futebol foi uma consequência óbvia disso – as competições começaram a atrair grande público, e os
melhores jogadores passaram a ser disputados e remunerados por clubes cada vez mais interessados em competir para vencer. O futebol deixava de ser dândi e blasé.

Com a massificação, o futebol passou a ter também importância política. Sua capacidade de mobilização logo se impôs como elemento muitas vezes decisivo para definir o humor de um eleitorado crescentemente menos controlável. O mundo do poder político e ideológico também se reproduziu dentro dos campos de futebol – a Copa do Mundo da Itália, no auge do fascismo, em 1934, é talvez o melhor símbolo disso.

Quando se tornou global, o futebol passou rapidamente a ser o campo das disputas por hegemonia planetária. Ter o “melhor futebol do mundo” virou uma obsessão brasileira, perseguida como um projeto de afirmação nacional. A realização da Copa de 1950 no Brasil traduziu esse sonho, mas a força da ideia ficaria mais clara na Copa de 1970, quando a Ditadura Militar transformaria cada vitória brasileira em sintoma das nossas imensas possibilidades.

 
Mais tarde, porém, em meio a crises econômicas e à bagunça administrativa, o futebol brasileiro se transformou em exportador de craques no final dos anos 1980 – a chamada “década perdida”. O fenômeno coincidiu com a “desnacionalização” do futebol por meio da formação de times europeus a partir da colheita de atletas de todas as partes do mundo. A globalização entrou em campo e exigiu como premissa a descaracterização do elemento nacional. Para ver seus melhores jogadores em campo, os brasileiros não precisavam mais ir ao estádio. Bastava ligar a tv e assistir a qualquer campeonato da Europa. A seleção brasileira se transformaria, a partir dos anos 1990, em seleção “estrangeira”.

Mas a vitória brasileira na Copa de 2002, com a conquista do pentacampeonato, mostrou que ainda existia um “primus inter pares” no futebol, isto é, mesmo com toda a pasteurização das táticas e técnicas e a pulverização das fronteiras culturais, restava algo que ainda fazia o Brasil “superior entre os iguais”. O triunfo no Mundial disputado na Coreia e no Japão, simbolizado por um Cafu orgulhoso de sua origem social miserável, coincidiu com um momento de transformação do país, em que a afirmação nacional, ainda que tímida diante dos desafios, somou-se à maturidade da democracia brasileira e à promessa do resgate de séculos de dívida social.

Este livro, portanto, é otimista. Eu o escrevi por acreditar que, tanto no futebol como na vida brasileira, mesmo um time mais fraco é capaz de vencer.

Sobre Marcos Guterman:
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É jornalista profissional desde 1989. Trabalhou por 15 anos na Folha e desde 2006 está no Estadão, onde edita a Primeira Página. É historiador, com graduação e mestrado pela PUC-SP. Atualmente faz doutorado em História na USP, tendo o nazismo como tema de pesquisa. É autor do livro "O Futebol Explica o Brasil". Sua pátria é o Santos Futebol Clube.

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