sábado, 23 de fevereiro de 2013

Megafone: Goya e a sociologia dos esportes

Arte: Zuca Sardan


“Deixa Falar: o megafone do esporte”, espaço de debates que sai quinzenalmente, sábado sim, sábado não, aqui, no Literatura na Arquibancada, na Carta Maior (http://www.cartamaior.com.br) e no blog do Juca (http://blogdojuca.uol.com.br/ ), debatendo o esporte em geral e o futebol em particular, dialogando com a História, Política, Música, Economia, Literatura, Cinema, Humor, apresenta nesta sua quinta edição, artigo do mestre Ademir Gebara.

UMA PINTURA DE JOGADA DE UM ESPANHOL CHAMADO GOYA,
OU UMA PRÉVIA PARA A SOCIOLOGIA DOS ESPORTES.
Por Ademir Gebara


Para Johan Huizinga, historiador holandês, autor do clássico “Homo Ludens”, a brincadeira precede a cultura posto que os animais também brincam; porém não jogam e tampouco praticam esportes, eis aí uma questão central para pensar o esporte moderno. Iniciemos pelos jogos e brincadeiras.

“El Pelele”, é um dos mais populares e conhecidos cartões de tapeçaria de Goya (1746 – 1828). Carlos IV da Espanha, fez esta encomenda para sua sala de despachos solicitando quadros com temas campestres e jocosos.  Este tema carnavalesco, retrata um jogo no qual quatro jovens executam movimentos ritmados com uma manta, de tal maneira que um boneco, neste caso uma figura masculino, é manuseado, ou manipulado, sendo jogado para o ar sucessivamente.

Não é uma atividade competitiva, pelo contrário é solidária, pois é imperativa a coordenação motora entre as participantes no sentido de executar a brincadeira. A presença de um juiz é absolutamente dispensável, bem como não existem regras, embora possam ser sugeridas tentativas de movimentos diferenciados para o boneco, o que implica em um grau de coordenação crescente, já próximo de malabarismos. Talvez aqui possamos compreender a distancia entre uma atividade de passa tempo da elite, e uma atividade que implica em treinamento e, em um futuro próximo, uma certa dose de profissionalismo (esporte?). Brincar ou jogar para, e com o seu grupo, é diferente, nesta medida de buscar espectadores para uma determinada habilidade possivelmente profissional. 


O vestuário elegante das participantes indica um modo de vida refinado, com expressões de prazer e intensa participação, brincam tendo ao fundo um possível bosque de um castelo, divisando uma de suas torres. Sintomaticamente quatro mulheres, e apenas mulheres, manipulam um boneco vestido como palhaço. Tal situação seria simbolicamente impensável em passado não muito remoto. Nitidamente temos um universo onde a posição da mulher é indicadora de uma participação mais acentuada no jogo de poder entre os gêneros. Neste quadro, os passatempos sugerem um requinte e uma sofisticação que nem de longe apontam para qualquer participação popular.

Modelos desenvolvidos por Goya, também para tapeçaria, neste mesmo período, sugerem uma outra abordagem quando os estratos urbanos da população são focalizados, no caso seguinte, o grupo ou ação que centraliza o evento é apresentado tendo em segundo plano uma pequena multidão, a vida e a emoção das pessoas comuns tem um universo de compartilhamento permeado pela presença de inúmeros outros homens comuns, anônimos ou não, freqüentadores do cotidiano e das ruas das cidades.

Vejamos mais detidamente esta questão relativa aos jogos/brincadeiras populares, em relação à forma pela qual a elite foi retratada no quadro anterior. Na decoração da mesma sala de despachos, Goya pinta “Los Zancos” onde dois jovens usando longas pernas de pau, e acompanhados de dois outros a pé, tocando cornetas, se movimentam no interior de uma cidade, aparentemente anunciando um evento ou portando uma mensagem digna de se tornar pública. A ação retratada é, nitidamente, focada no sentido de chamar a atenção, do maior número de pessoas possível para o intento das quatro figuras em primeiro plano.


No segundo plano, observando a cena, temos uma grande quantidade de pessoas. O vestuário, os trajes e a atitude indicam claramente tratar-se de trabalhadores em atividades do seu dia a dia, contrastando com a auto-suficiência do grupo em foco no desenho anterior.

Neste quadro há um elemento novo que é a presença de pessoas envolvendo a cena, alguns, como as duas crianças mais centradas na movimentação da pintura, participando ativamente, outros, apenas olhando a distancia e com distancia. É visível um misto de participação e distanciamento das pessoas envolventes, estabelecendo-se assim uma nítida diferenciação entre o segundo plano de Los Zancos em relação a e El Pelele, onde a natureza é retratada inicialmente como moldura mais inóspita e depois já civilizada, este recurso à natureza que permite sobrelevar os altos estratos da elite é no último quadro substituído pela presença da população movimentando-se no seu cotidiano. Contudo, aqui também não temos atividade competitiva, tampouco regras ou mesmo a perspectiva de um eventual árbitro.

As emoções retratadas são diferentes das presentes no quadro anterior. Essencialmente a presença dos tocadores de corneta em ação, visa chamar mais ainda a atenção do entorno para a presença dos dois figurantes com as pernas de pau, todos os quatro convenientemente trajados, como se fossem uniformizados, de tal maneira que a performance em pauta deve referir-se a algum ritual encomendado, eventualmente até mesmo pago.

Há uma percepção pela direção das imagens segundo a qual os “zancos” estariam se dirigindo a jovem no balcão, poder-se-ia supor que a ela alguma mensagem pudesse estar sendo entregue, da mesma maneira, e o conjunto do movimento retratado assim o sugere, trata-se de uma atividade para a qual o grupo necessitaria ter algum tipo de treinamento, dada a presença de elementos de imprevisibilidade no decorrer da ação motriz retratada.

Como avançamos destas imagens do Século XVIII para os esportes modernos, com regras, juízes, records, prêmios e tudo o mais que se configuraria a partir dos anos 1850?

O nascimento dos esportes modernos na segunda metade do século XIX, será abordado em outras oportunidades, aqui no Deixa Falar: o Megafone do esporte, em paralelo às  inúmeras  transformações econômicas, sociais, políticas e culturais ocorridas nesta conjuntura histórica..

Sobre Ademir Gebara :

Graduado em História e Educação Física, mestre em História pela USP, PH D em História pela London School of Economics and Political Science., ex-diretor e coordenador de Pós da FEF Unicamp, professor visitante da Universidade Federal da Grande Dourados.




Dois toques do Megafone:

1)    Ademir Gebara ao lado de José Sebastião Witter faz parte do time dos precursores da análise e da pesquisa dos esportes/futebol na Universidade brasileira.

Gebara é autor de diversos artigos e livros, dentre os quais indicamos:

“Considerações para uma história do lazer no Brasil”. In: BRUHNS, Heloísa Turini (org.). “Introdução aos Estudos do Lazer”. Campinas, São Paulo. Unicamp. 1997

“Conversas sobre Norbert Elias”(depoimentos para uma História do Pensamento Sociológico), com apresentação de Eric Dunning - Biscalchin Editor - 2005.

2)    Na apresentação mencionada diz Eric Dunning: "a publicação de Ademir Gebara Conversas sobre Norbert Elias é, sob qualquer aspecto imaginável, um evento notável e significativo. O livro sinaliza o fato de que, sob a liderança do Professor Gebara, os historiadores e sociólogos brasileiros colocaram-se na dianteira, no continente americano, do envolvimento acadêmico com o pensamento de Elias".

Por fim além do que já foi dito acrescentamos que Ademir Gebara é torcedor apaixonado do São Paulo e um churrasqueiro de mão cheia.

* Deixa Falar: o megafone do esporte: criação e edição de Raul Milliet Filho.

Sobre os autores do “Deixa Falar: o megafone do esporte”


Antonio Edmilson Rodrigues – é América, livre docente em História, professor da UERJ e da PUC-RJ, pesquisador de História do Rio de Janeiro, escritor de temas vinculados à história urbana, coordenador do projeto Conversa de Botequim e autor de João do Rio, a cidade e o poeta.


Bernardo Buarque – professor da Escola Superior de Ciências Sociais (FGV) e pesquisador do CPDOC/FGV. `É editor da coleção Visão de Campo (7 Letras). Em 2012, publicou o livro ABC de José Lins do Rego (Editora José Olympio).


Flavio Carneiro – É botafoguense, além de escritor, roteirista e professor de literatura na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).www.flaviocarneiro.com.br.


José Paulo Pessoa – é botafoguense, ator, advogado, que achava o Didi mais impressionante que o Garrincha (que foi o maior que já vi!). Diretor, cantor e compositor do Bloco das Carmelitas, de Santa Teresa (RJ).

 
José Sebastião Witter – é torcedor do São Paulo, professor emérito da USP e professor normalista.


Luiz Carlos Ribeiro é professor do Departamento de História da UFPR e coordenador do Núcleo de Estudos Futebol e Sociedade.


Marcelo W. Proni – economista, doutor em Educação Física pela Unicamp, professor do Instituto de Economia da Unicamp, torcedor do Botafogo de Ribeirão Preto.


Marcos Alvito - é carioca de Botafogo e Flamengo até morrer.  É um antropólogo que dá aula de História na UFF desde o longínquo ano de 1984.  Perna-de-pau consagrado, estuda um jogo que nunca conseguiu jogar direito: o futebol. Mas encara qualquer um no futebol de botão. Acaba de publicar A Rainha de Chuteiras: um ano de futebol na Inglaterra (www.clubedeautores.com.br)


Raul Milliet Filho – é botafoguense, mestre em História Política pela UERJ, doutor em História Social pela USP. Como professor, pesquisador e autor prioriza a cultura popular. Gestor de políticas sociais, idealizou e coordenou o Recriança, projeto de democratização esportiva para crianças e jovens.



Ricardo Oliveira – é Vasco, jornalista, educador da prefeitura do Rio de Janeiro e pesquisador da História do futebol. Coordenador da pesquisa do livro Vida que Segue: João Saldanha e as Copas de 1966 e 1970.


Wanderley Marchi Jr – doutor em Educação Física e Sociologia do Esporte e professor da Universidade Federal do Paraná/BRA e da West Virginia University/USA.


Zuca Sardan (Carlos Felipe Saldanha) – É torcedor do Vasco, nasceu no Rio de Janeiro em 1933, mas vive em Hamburgo, na Alemanha. Estudou arquitetura, mas fez diplomacia. Estudou desenho, mas fez letras. Hoje dedica-se a desenhos, vinhetas, poesias e folhetins. 

Entre seus livros, estão: Ás de coletepoesias, desenhos e Osso do Coração.




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