quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Parabéns Zico



Zico completa 61 anos, segunda-feira, dia 03 de março de 2014. Literatura na Arquibancada apresenta abaixo uma série especial sobre a vida do Galinho de Quintino, publicada por aqui em 2012. No futebol brasileiro, Zico é uma das figuras mais populares e premiadas por tudo que fez dentro dos gramados até quando parou de jogar definitivamente no ano de 1994. Não é a toa que Zico, pela primeira vez em sua vida, é o homenageado da escola de samba Imperatriz Leopoldinense.  

Zico é dono de marcas impressionantes em sua vida profissional. É quase um Deus para a torcida do Flamengo. E não é à toa. Tornou-se o maior artilheiro na história do Maracanã com 333 gols. Foi eleito como o terceiro maior jogador de futebol brasileiro do século 20, pela Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol (IFFHS). As honrarias não param por aí. Zico é um dos quatro brasileiros a figurar no Hall da Fama da Fifa (os outros são Pelé, Garrincha e Didi). A Fifa também o considerou o oitavo maior jogador do século 20 e no Brasil a revista Isto É colocou-o em nono lugar como Brasileiro do Século no esporte. Na Inglaterra, a revista World Soccer colocou-o em décimo lugar no ranking dos melhores jogadores de todos os tempos.

Não é pouco. Apesar de todas essas conquistas Zico encerrou a carreira sem conseguir conquistar um título mundial pela Seleção Brasileira. 

No Japão, onde foi jogador e treinador, ganhou o apelido de “Deus do futebol”. Até estátua recebeu em homenagem por tudo que fez por lá.

Apesar de todas essas façanhas e o prestígio acumulado ao longo da carreira, Zico talvez tenha se tornado tão carismático entre os torcedores brasileiros por conta de uma característica pouco vista no mundo do futebol: a simplicidade. 

Na entrevista exclusiva, abaixo, Zico relembra seu início de vida no subúrbio carioca em Quintino, as decepções e alegrias na longa carreira como técnico e jogador e várias outras histórias. E para aqueles que ainda sentem saudades do futebol arte da seleção brasileira de 1982 da qual ele fez parte, Zico revela o que faria se pudesse voltar no tempo e mudar a história daquele dia em que o Brasil acabou desclassificado pela Itália. No final desta entrevista, Literatura na Arquibancada recomenda a leitura dos outros posts feitos sobre a vida de Zico, o "galinho de Quintino".

Literatura na Arquibancada:
Passados 60 anos (agora 61), quando você se lembra dos tempos do Juventude, de Quintino, o que lhe vem a cabeça?

Zico no Juventude de Quintino.
Zico:
As peladas de rua, coisas boas, naturais, descontraídas e onde a gente começa a dar os primeiros passos. As peladas na calçada, no paralelepípedo, e onde a gente foi formando o time do Juventude até chegar no time do futebol de salão, que hoje é o futsal. Quintino foi uma grande escola, o fato de você jogar todos os sábados e domingos aquelas peladas – e modéstia a parte eu era bom – me chamavam pra jogar em todos os times...Sábado e domingo eu jogava em tudo quanto é lugar.

Toda hora tinha uma pelada, em campo de terra, campo de 11, mas de terra. Tinha futsal, tinha pelada em terreno baldio, pelada no meio da rua com aqueles paralelepípedo de gol, era de tudo...Foi assim que a gente aprendeu a tabelar com o meio fio, a parede, tinha reflexo para a bola bater no buraco e ir para um canto e outro e você saber para onde ela ia...Então, os campos do Americano, Bariri, Volta Redonda para mim não eram problema (risos).

L.A:
Qual foi sua maior decepção pessoal e profissional? (tanto como jogador, treinador e dirigente)

Zico:
Pessoalmente, graças a Deus não tivesse decepções. As coisas que não foram favoráveis eram rotinas da vida mesmo.  Mas a grande decepção no futebol foi a não ida à Olimpíada, em 1972. Pelas circunstâncias, pelo fato de eu ter feito o gol da classificação do Pré-Olímpico, na Colômbia, por estar jogando bem a ponto do treinador ter ido falar comigo para voltar a jogar nos juvenis, para eu me manter em atividade e ele poder me convocar. 

Eu voltei, fomos campeões, eu fui o artilheiro e meu nome não estava na lista. Essa foi minha maior decepção que me fez quase parar de jogar futebol.

Zico e o irmão Edu.
Eu só não parei porque tive dois irmãos que jogaram e que passaram por momentos tão difíceis quanto esse e me fizeram perceber que o Flamengo não tinha culpa de nada, que eu tinha compromisso é com o Flamengo...Mas a decepção com o futebol é grande. A gente na família já teve um exemplo do meu irmão Antunes que por causa de meu pai não querer assinar um contrato de gaveta, o diretor do Fluminense, que também era da Seleção Brasileira, não o levou para a Olimpíada de 1964. O Edu, eleito por toda a imprensa, melhor jogador do Brasil em 1969, não foi à Copa de 1970. Então a família tinha meio que essas coisas. Foram eles que me fizeram seguir em frente.

Zico, técnico do Olympiakos.
Como treinador não tive problemas. Tive essas coisas de sair de um lugar e que acabou gerando um fato inédito. Eu fui demitido por um Oficial de Justiça em casa !!! Eu nunca tinha visto isso. Aconteceu no Olympiakos, da Grécia. Mas isso é falta de, não vou dizer de escrúpulo, mas de conhecimento de futebol. Você ter um diretor de futebol que trabalhava com metrô e não sabia nada de futebol só poderia dar nisso. Ele disse, simplesmente, que queria conversar comigo para que eu pedisse demissão e eu disse a ele que não ia pedir, porque nosso time estava em segundo lugar, e eu achava que perder um jogo não tinha nada a ver.

Ainda mais com o campeonato na segunda rodada do returno. E disse também que acreditava que o time ainda tinha condições de disputar a Champions League, fato que acontecia pela segunda ou terceira vez na história do clube. Aí ele falou que seu eu não pedisse demissão não cumpriria nada que estava no contrato. Então eu disse a ele: “então está bom, amanhã, se o senhor não me mandar algum documento, vou lá dar o treino”.  Aí ele mandou o Oficial de Justiça. Perdeu tudo, coitado, porque teve de pagar, não ele, porque todos os dirigentes foram embora, e depois o presidente foi até preso. Eu levei o caso a Fifa e aí entrou uma diretoria nova no clube. Para não ter problema, pagaram tudo.

Como dirigente, também não. 

Esse negócio que aconteceu no Flamengo, isso aí das pessoas serem infiéis é mais do que normal. 

O que fica de tristeza é que mesmo por tudo o que você fez no Flamengo foi aberto um inquérito de desconfiança, de eu querer lesar o Flamengo através de um contrato que até hoje, quem assinou, nunca veio a público para dizer se o contrato era ou não lesivo ao Flamengo.
  
L.A:
O que você faria novamente em sua vida para corrigir algum erro do passado? E qual teria sido (se é que existiu) o grande erro em todos esses anos?

Zico:
Eu acho que hoje é muito fácil, depois de as coisas acontecerem, você chegar e corrigir o que aconteceu. Eu acho que se tivesse alguma coisa que eu não fiz e gostaria de ter feito teria sido, por exemplo, o gol de empate contra a Itália, naqueles 3 a 2, na Copa de 1982. Aí sim valeria a pena voltar no tempo. Por tudo que aquela seleção representou e marcou eu acho que são resultados que acontecem no futebol, mas se tivesse alguma coisa que eu gostaria de ter feito teria sido isso, nem a vitória precisava, o empate já bastava. 

L.A:
Existe alguém (exceto familiares) que já tenha falecido, mas ainda te faça chorar só de lembrar nesta pessoa? Se existe, fale um pouco sobre ela.

Dr. Giuseppe Taranto e Zico.

Zico:
Não que me faça chorar, porque os momentos vividos foram tão bons que não seria motivo para chorar. Faz parte da vida você ter sido levado.  Eu falo do Dr. Giuseppe Taranto, uma pessoa que realmente representou muito na minha vida, como médico, como pai, como amigo, mas faleceu. Viveu muito bem, muito tempo, chegou aos 74 anos. Fazia aniversário no dia seguinte ao meu (04/03), sempre comemorávamos juntos. Fazíamos ceia na minha casa, convidava ele e quando passava da meia-noite comemorávamos juntos.

Outra pessoa foi o Geraldo, ex-jogador, grande amigo, morte prematura. 

L.A:
O que o Zico de hoje, experiente, tem a dizer para o Zico de Quintino?

Zico:
A mesma coisa que eu digo para os jovens. Gosta de alguma coisa, quer seguir em frente, você deve se entregar de corpo e alma para o resultado acontecer. Porque, às vezes, você nasce com um dom mas se não intensificar isso, não se dedicar, e achar que com aquilo só já está bom não vai chegar a lugar algum. É o que eu falo ainda hoje para os jovens, que eles tem que estar querendo sempre aprender alguma coisa, fazendo daquilo a sua grande atividade. Porque o que eu vejo muito hoje é que vários profissionais que tem outras atividades e não se dedicam a dele específica, que faz ele conseguir tudo na vida. Futebol o que eu aprendi foi isso. Graças a exemplos dentro de casa, como o meu pai, como alfaiate e eu via a dificuldade que ele tinha para sustentar os seis filhos, trabalhar de manhã a noite, para não deixar faltar nada pra gente. Isso tudo foi um grande aprendizado para mim.

L.A:
Qual é a sua maior virtude e o seu maior defeito?

Zico e o irmão Edu comemorando o título pelo Fenerbahce.
Zico:
Acho que minha maior virtude é a determinação. Aquilo que eu me proponho a fazer eu me entrego de corpo e alma. Defeito a gente tem vários. Um deles é querer botar as coisas todas nos seus devidos lugares. Um perfeccionista, talvez.

L.A:
Financeiramente você é um profissional resolvido. O que lhe falta conquistar na vida? Tem algum sonho a realizar tanto na vida pessoal quanto na profissional?

Zico:
Na vida profissional muito além do que eu esperava. Hoje o que eu quero é estar mais juntos dos meus netos do que eu estive com os meus filhos.

Muitas coisas eu não pude acompanhar de perto, festas dos dias dos pais, porque estava concentrado...viajando e todos os pais estarem lá e o meu sogro lá, no meu lugar...Poder buscar e levar as crianças na escola...Hoje eu estou fazendo isso muito mais com meus netos. Ainda bem que meus filhos entenderam tudo isso. (Zico havia acabado de chegar da escola onde fora buscar o neto Felipe quando deu essa declaração)

L.A:
Se tivesse “poderes” especiais o que gostaria de mudar no futebol?

Zico:
A violência. Gosto do jogo limpo. Aquela coisa de entrar no campo para matar jogada, entrar no campo para fazer falta não tem nada a ver. O futebol tem que ser jogado. Essa é uma das coisas boas que o Telê deixou. Ensinar os jogadores a jogar futebol. 

L.A:
Até quando pretende ser treinador de futebol?

Zico:
Não sei. Até quando tiver “saco”, prazer ou quando deixarem. 

Porque a gente nunca sabe. 

O futebol é muito imprevisível, a gente é sempre interino.

Hoje, principalmente por causa de muita gente que se sente dona dos clubes, uns são verdadeiramente e então eles fazem disso uma brincadeira, não tem respeito aos profissionais, não tem respeito a ninguém, simplesmente, tomam decisões sem critérios, sem nada, por ser nada, por ser o bambambam, por ter dinheiro. No futebol, também existe aquela coisa hoje de te atravessarem. O dia que eu quero contratar um jogador eu tenho de falar com empresário, não pode ser de presidente para presidente, sempre ter que ter um intermediário...  

L.A:
Você gosta de ler? Quais são os livros que citaria? (da literatura esportiva e em geral)

Zico:
Leio vários livros. De tudo um pouco. Futebol, biografia, romance, leio tudo. Ganho muitos livros. Leio tudo, ainda mais eu que viajo muito, viagens longas, aí já viu...Do esporte, o que me marcou muito foi a biografia do Garrincha, escrita pelo Ruy Castro. Apesar de eu ter visto muita coisa do Garrincha, porque peguei ele no Flamengo. Fui visitá-lo quando ele já estava no final. Não tinha assim tanta amizade, mas muita coisa eu não conhecia e acabei descobrindo neste livro. Me marcou bastante por tudo o que ele representou. Eu acho que ele não merecia ter o final que ele teve. Eu acho que quiseram tirar ele do habitat onde ele se sentia feliz. Era um cara para viver no campo, viver na fazenda, no mato, porque ali era a vida dele. Quiseram trazer ele para o centro da cidade para fazer coisas que não davam prazer a ele, porque ele ser o Garrincha, para se aproveitarem da fama, prestígio. O negócio dele era ficar lá, com os amigos, com os passarinhos, com a vida dele tão gostosa. Acho que poderiam ter dado essa felicidade para ele.

Complete as frases:

Jogar com Sócrates foi...maravilhoso, exigia inteligência.

Ser treinado por Telê foi...aprender a disciplina no esporte.

                        A Copa no Brasil vai ser...uma incógnita.


Ser brasileiro é...ser criativo, corajoso e determinado.

Dinheiro é bom, mas...sempre ajuda.

                           Ser Flamengo é...um estado de espírito, 
                              uma paixão, minha segunda casa.


Confira abaixo os outros três artigos da série especial sobre Zico, que completa 60 anos, dia 3 de março:


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

O futebol explica o Brasil?



Se você, leitor, quer conhecer historicamente a importância do futebol na sociedade brasileira tem que ler o livro do jornalista e historiador Marcos Guterman. “O futebol explica o Brasil - Uma História da Maior Expressão Popular do País(Editora Contexto, 2009) traça um arco que vai da introdução do futebol no país, no final do século 19, até a conquista do pentacampeonato em 2002. Uma viagem centenária repleta de informações e curiosidades.

Sinopse (da editora)

Charles Miller (centro, sentado) e o SPAC, em 1904.

De esporte de elite a entretenimento das massas; do amadorismo ao profissionalismo; dos salários modestos à globalização-exportação; o uso político do esporte e o uso da política pelo esporte. Quando se estuda futebol no Brasil, não se fala "só" de um jogo, mas da própria história do país, emaranhada com a evolução nas quatro linhas do campo.

O jornalista e historiador Marcos Guterman mostra a trajetória do futebol no país desde sua chegada da Inglaterra, a formação dos primeiros clubes, os craques, os grandes fracassos, as peculiaridades. O livro narra os acontecimentos do último século no Brasil, mas principalmente mostra como política, economia, sociedade e futebol estão muito mais associados do que costumamos imaginar. Assim, o esporte mais popular do mundo, se lido corretamente, consegue explicar o Brasil.

Introdução
Por Marcos Guterman

 
O futebol é o maior fenômeno social do Brasil. Representa a identidade nacional e também consegue dar significado aos desejos de potência da maioria absoluta dos brasileiros. Essa relação, de tão forte, é vista como parte da própria natureza do país – as explicações para o fenômeno geralmente vão mais na direção da Antropologia que da História. O que este livro mostra é que o futebol, pelo contrário, não é um mundo à parte, não é uma espécie de “Brasil paralelo”. É pura construção histórica, gerado como parte indissociável dos desdobramentos da vida política e econômica do Brasil. O futebol, se lido corretamente, consegue explicar o Brasil.

O esporte aparece primeiro como atividade da elite, importado e jogado por estrangeiros aristocráticos ou ligados aos investidores europeus que exploraram as oportunidades abertas pelo desenvolvimento do país no final do século XIX. Negros e operários só teriam vez ou nos campos de várzea ou quando passaram a ser decisivos para que os times de brancos ricos ganhassem títulos.

 
Os muros erguidos em torno do futebol não resistiram à formação das metrópoles brasileiras. Foram demolidos pela massa de trabalhadores que encontrou nesse esporte a essência democrática que lhe era negada em todas as outras áreas. A profissionalização do futebol foi uma consequência óbvia disso – as competições começaram a atrair grande público, e os
melhores jogadores passaram a ser disputados e remunerados por clubes cada vez mais interessados em competir para vencer. O futebol deixava de ser dândi e blasé.

Com a massificação, o futebol passou a ter também importância política. Sua capacidade de mobilização logo se impôs como elemento muitas vezes decisivo para definir o humor de um eleitorado crescentemente menos controlável. O mundo do poder político e ideológico também se reproduziu dentro dos campos de futebol – a Copa do Mundo da Itália, no auge do fascismo, em 1934, é talvez o melhor símbolo disso.

Quando se tornou global, o futebol passou rapidamente a ser o campo das disputas por hegemonia planetária. Ter o “melhor futebol do mundo” virou uma obsessão brasileira, perseguida como um projeto de afirmação nacional. A realização da Copa de 1950 no Brasil traduziu esse sonho, mas a força da ideia ficaria mais clara na Copa de 1970, quando a Ditadura Militar transformaria cada vitória brasileira em sintoma das nossas imensas possibilidades.

 
Mais tarde, porém, em meio a crises econômicas e à bagunça administrativa, o futebol brasileiro se transformou em exportador de craques no final dos anos 1980 – a chamada “década perdida”. O fenômeno coincidiu com a “desnacionalização” do futebol por meio da formação de times europeus a partir da colheita de atletas de todas as partes do mundo. A globalização entrou em campo e exigiu como premissa a descaracterização do elemento nacional. Para ver seus melhores jogadores em campo, os brasileiros não precisavam mais ir ao estádio. Bastava ligar a tv e assistir a qualquer campeonato da Europa. A seleção brasileira se transformaria, a partir dos anos 1990, em seleção “estrangeira”.

Mas a vitória brasileira na Copa de 2002, com a conquista do pentacampeonato, mostrou que ainda existia um “primus inter pares” no futebol, isto é, mesmo com toda a pasteurização das táticas e técnicas e a pulverização das fronteiras culturais, restava algo que ainda fazia o Brasil “superior entre os iguais”. O triunfo no Mundial disputado na Coreia e no Japão, simbolizado por um Cafu orgulhoso de sua origem social miserável, coincidiu com um momento de transformação do país, em que a afirmação nacional, ainda que tímida diante dos desafios, somou-se à maturidade da democracia brasileira e à promessa do resgate de séculos de dívida social.

Este livro, portanto, é otimista. Eu o escrevi por acreditar que, tanto no futebol como na vida brasileira, mesmo um time mais fraco é capaz de vencer.

Sobre Marcos Guterman:
Adicionar legenda

É jornalista profissional desde 1989. Trabalhou por 15 anos na Folha e desde 2006 está no Estadão, onde edita a Primeira Página. É historiador, com graduação e mestrado pela PUC-SP. Atualmente faz doutorado em História na USP, tendo o nazismo como tema de pesquisa. É autor do livro "O Futebol Explica o Brasil". Sua pátria é o Santos Futebol Clube.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Megafone: Fora Marin e a tragédia de Oruro

Arte: Zuca Sardan


Deixa Falar : o megafone do esporte sai em edição extraordinária para abordar dois assuntos: o abaixo-assinado pedindo a saída de José Maria Marin e o homicídio culposo de um adolescente no jogo Corinthians x San Jose.

Literatura na Arquibancada esclarece que o “Megafone do esporte” é um espaço aberto para discussões e reflexões sobre o esporte sem, contudo, concordar com artigos assinados por seus autores. No caso do item 2 deste artigo, “Homicídio Culposo”, LA deixa claro que, respeita, mas não concorda com os argumentos de seu autor, especialmente, na questão sobre a exclusão do Corinthians da Libertadores.

Dois toques do Megafone:

1) Fora José Maria Marin!

Deixa Falar: o megafone do esporte vem a público subscrever integralmente as palavras e o abaixo-assinado José Maria Marin fora da CBF!, elaborado por Ivo Herzog, presidente do Instituto Vladimir Herzog e filho do jornalista morto sob tortura nas dependências da OBAN, em São Paulo, em 1975.

“José Maria Marin tem sua vida ligada àqueles que sustentaram a ditadura brasileira. Fez discursos publicamente em favor do assassino, sequestrador e torturador Sérgio Fleury. Apoiou os movimentos que levaram à tortura, morte e desaparecimento de centenas de brasileiros. O caso mais notório é do jornalista Vladimir Herzog. Se a justiça não consegue processar estas pessoas por conta de uma lei de Anistia torta, não podemos permitir que Marin viva a glória de estar à frente do maior evento mundial da nossa história”.

Clique aqui para ler mais a respeito e assine.

2) Homicídio Culposo
Por Raul Milliet Filho (historiador, criador e editor do Megafone do esporte)

Kevin Espada, torcedor morto na Bolívia.
Sobre a violência que culminou com a morte de um adolescente de 14 anos no jogo Corinthians x San Jose, trata-se evidentemente de um homicídio culposo e como tal deve ser julgado, tanto pela justiça comum quanto pela desportiva.

O regulamento da Conmebol é claro e prevê o afastamento de clubes da Libertadores em situações como esta. As punições anunciadas até o momento são brandas e paliativas. Não advogo ritos sumários, nem tribunais de exceção, mas diante de um acontecimento desta gravidade impõe-se a exclusão do Corinthians da competição, a bem da ética e dos valores gregários do esporte.

A promiscuidade entre diretorias de grandes clubes e torcidas organizadas é conhecida e comprovada. Tudo isso remete a questões estruturais, mas que exigem medidas também de imediato. Li em vários lugares e concordo que Dr. Sócrates apoiaria o afastamento do Corinthians. Lembro do episódio da final da Copa Europeia em Bruxelas (Juventus x Liverpool), temporada 84/85, em que morreram 39 torcedores.

Após o incidente, a neoliberal Margaret Thatcher pressionou e acabou excluindo seis clubes ingleses durante cinco anos das copas europeias.

O que farão os mandatários do futebol brasileiro e sul-americano?

E o ministro Aldo Rebelo, ficará circunscrito a uma tímida e inócua nota de pesar?

Arte: Zuca Sardan
Acompanhe as outras edições do Deixa Falar: o megafone do esporte nos links abaixo: