terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Rivellino: o "reizinho" do futebol brasileiro


No primeiro dia de 2014, o aniversário de um dos maiores craques da camisa 10 do futebol mundial: Roberto Rivellino. São 68 anos de paixão pelo futebol. Não é a toa que a biografia publicada há 15 anos ganhou o título: Sai da rua Roberto (Master Book, 1999, Osvaldo Paschoal).

Rivellino é um daqueles jogadores que, para quem teve o privilégio de o ver “desfilando” talento pelos gramados, jamais se esquecerá. Riva é eterno.


Em 2006, ele não poderia ficar de fora do livro que reuniu a maior seleção de todos os camisas 10 no mundo: A Magia da Camisa 10 (Verus Editora), também teve os encantos de Rivellino. Abaixo, o texto de Vladir Lemos e André Ribeiro.





Rivellino
Por André Ribeiro e Vladir Lemos


Rivellino era um legítimo camisa 10, mas na Copa que jogou ao lado de Pelé, no México (1970), ninguém teria o direito de quebrar o encanto daquela camisa. Suceder o reinado de Pelé não era missão para qualquer um. Haveria de existir alguém capaz de suportar o peso que aquela simples camisa com dois números às costas representava.

Na Copa de 1974, Rivellino já era um jogador experiente e acostumado com a pressão sofrida pelos craques dos grandes clubes. Estava com 28 anos e era o ídolo do Corinthians, clube paulista com uma das torcidas mais fanáticas de todo o Brasil.


Roberto Rivellino era um garoto nascido no pós-guerra, em 1946, e que muito cedo descobriu o futebol. Tanto que a frase mais proferida por sua mãe naqueles tempos acabou virando título de sua biografia: “Sai da rua, Roberto!”. Sem imaginar, a mãe pedia o impossível, pois era nas ruas que o menino podia aprimorar seu grande dom. A infância e boa parte da adolescência foram passadas não só nas ruas jogando bola, mas também em campos de várzea e, principalmente, em quadras de futebol de salão. Aos 12 anos tentou pela primeira vez um lugar em uma equipe de futebol de campo, o São Paulo, e não foi aproveitado. Os três anos que ainda passaria longe dos gramados foram decisivos para amadurecer um estilo diferente, que seria sua marca registrada no futuro. A intimidade com o futebol de salão permitiu a Rivellino jogar em outra dimensão, em espaços menores, e transformar-se  no dono de um drible curto mortal, sem falar no chute potente de sua perna esquerda.

Em 1962 o Palmeiras, time da capital paulista, esteve perto de ser a equipe que levaria Rivellino para os campos, mas o treinador demorou a perceber o que aquele canhoto poderia fazer. Ao acompanhar sua atuação na final de um campeonato juvenil de futebol de salão, tentou voltar atrás, mas era tarde. O rival Corinthians, ao contrário, viu talento de sobra no menino e, no início de 1963, ele passou a integrar o time juvenil do alvinegro.

A falta de um meia-esquerda levou o garoto para a equipe de aspirantes um ano depois. Foi a oportunidade perfeita para mostrar o que sabia fazer. Como os jogos eram realizados antes de o time profissional entrar em campo, Rivellino criou um laço quase inseparável com a torcida. Em janeiro de 1965 estreou na equipe principal enfrentando o Santa Cruz, do Recife, e marcou um dos gols na vitória por 3 a 0. Curiosamente, entrou em campo com a camisa 8, mas o tempo, a técnica e a vocação para os lances de bola parada transformaram o jogador em ídolo e craque da camisa 10.

Em 1974 Rivellino era o Reizinho do Parque, uma alusão ao campo do time, o Parque São Jorge, na zona leste da cidade, e à herança do trono de Pelé. Foi nessa condição que entrou em campo para enfrentar o arquirrival Palmeiras. O Corinthians, que não conquistava o título do Campeonato Paulista havia 20 anos, não esteve bem na segunda fase do torneio; mas, depois do empate por 1 a 1 no primeiro jogo da decisão, a torcida acreditou que era chegada a hora. No jogo decisivo, porém, um gol sofrido aos 24 minutos do segundo tempo deu o título ao Palmeiras. Naquele mesmo torneio, o camisa 10 havia marcado um dos gols mais rápidos da história. Ao ver o goleiro adversário distraído, usou a potência de seu chute para fazer 1 a 0 em cima do América, time do interior de São Paulo, antes que o cronômetro marcasse cinco segundos de jogo. O confronto terminou em 5 a 0.


Mas o passado recente, marcado por momentos brilhantes, de nada adiantou. Torcedores e dirigentes viram em Rivellino o grande culpado pela perda do título estadual, e tamanha cobrança tornou inviável a permanência dele no time. O que poucos sabiam Rivellino revelou tempos depois:

Deus sabe tudo o que fiz e quanto eu queria ganhar aquele título, quanto eu queria ser campeão com a camisa do Corinthians...Pouca gente sabe que saí do Estádio do Morumbi a pé e fui andando pelas ruas até meu apartamento. As pessoas olhavam, mas não acreditavam que era eu mesmo. Saí com cabeça erguida. Tinha perdido um título, muitos outros poderiam vir, mas ninguém iria me tirar o orgulho de ter vestido a camisa branca do Corinthians

Rivellino acabou negociado com o Fluminense, do Rio de Janeiro. Os 50 mil torcedores que fizeram questão de ir ao Maracanã, no dia 8 de fevereiro de 1975, foram um reflexo da expectativa que cercava sua estreia. Era um sábado de carnaval, e o confronto não passava de um amistoso contra o ex-clube. Mostrando uma disposição incrível, Rivellino tomou conta do jogo, fazendo belos lançamentos e, mais do que isso, marcando três gols, dois deles ainda no primeiro tempo. Quando as duas equipes voltaram a se encontrar pouco depois, o ex-corintiano mais uma vez foi hostilizado pela torcida. Mais uma vez a resposta veio em campo. Com um gol do camisa 10, o Fluminense venceu de virada por 2 a 1.


Por mais que os torcedores enxergassem aquelas vitórias como vingança, não era disso que se tratava. O jogador, capaz de dribles cruéis e chutes espantosos, seguiu sua trajetória e levou o Fluminense ao bicampeonato estadual em 1975 e 1976. Na “máquina tricolor”, como ficou conhecido aquele time, continuou mexendo com a emoção dos torcedores por um longo período. Era agora chamado de dono da patada atômica e não tinha nada a provar, sendo capaz de lançamentos precisos e muito mais.

Certo dia, quando ainda nem jogava no time principal do Corinthians, viu Sérgio Echigo, um companheiro de clube, descendente de japoneses, dar um drible curto que alterava rapidamente a trajetória da bola. Demorou um pouco até entender o que tinha visto, mas gostou tanto do movimento que o aprimorou e o incluiu em seu repertório. Não foram poucas as vezes em que os adversários, no afã de pará-lo, se viram desconcertados pelo drible, eternizado como elástico. Consistia em levar a bola para um lado com a parte de fora do pé e depois, repentinamente, trazê-la de volta, quando os olhos já custavam a acreditar que isso seria possível. Mesmo quando deixou de ser uma novidade, a sensibilidade de saber a hora exata de aplicá-lo não permitiu que se transformasse em um truque comum.


A velha herança do talento forjado nos espaços exíguos do futebol de salão acompanhou Rivellino em todos os cantos, e não foram poucos. No início da década de 1980, após aceitar um convite para jogar na Arábia Saudita, venceria a Copa do Rei e seria bicampeão do torneio local. Ao retornar ao Brasil, ensaiou defender o São Paulo, mas, como tinha o passe preso ao clube saudita, não pôde levar o propósito adiante. A história com a seleção havia terminado três anos antes, no Mundial da Argentina, em 1978.

Rivellino, aos 32 anos, demonstrou nos gramados sentir falta dos companheiros de sua geração. Contundido, jogou apenas três partidas; a última delas, uma vitória contra a Itália que daria o terceiro lugar ao Brasil. Despediu-se invicto do torneio e só não foi além porque os argentinos, donos da casa, tiveram a trajetória facilitada pelos peruanos, vítimas de uma goleada histórica por 6 a 0, placar exato para eliminar o Brasil da disputa pelo título:

Quando saí do vestiário, depois do jogo diante da Itália, não falei nada com ninguém, estava emocionado, decidido. Na seleção não jogaria mais. Saí andando pelo corredor em direção ao ônibus e nem vi se havia pessoas na minha frente, eu só queria sair dali. Foram os cem metros mais longos e mais tristes da minha vida. No meio do caminho chorei, um misto de dever cumprido com o orgulho ferido de estar saindo de uma Copa sem ter apresentado o que pensava”.

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