terça-feira, 15 de janeiro de 2013

José Roberto Torero: "Nove contra o 9"


Mais um livro da dupla José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta chega ao mercado: “Nove contra o 9” (Editora Objetiva). E como sempre, leitura prazerosa. “Ele”, Zé Cabala, eterno personagem das histórias de Torero está de volta. Um livro obrigatório na estante dos amantes da boa literatura esportiva. Literatura na Arquibancada destaca a sinopse e trechos da obra disponibilizados também na página da editora Objetiva. http://www.objetiva.com.br/livro_ficha.php?id=1208 . As artes utilizadas neste artigo (Rogério Doki) podem também ser encontradas no blog de José Roberto Torero (arquivo 2007) http://blogdotorero.blog.uol.com.br/arch2007-12-01_2007-12-31.html

Sinopse (da Editora):

Pimenta e Torero, a dupla.

A tabelinha entre José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta retorna com um romance policial dotado de duas marcas registradas da dupla: o humor inteligente e a paixão pelo futebol. Mas também estão de volta em Nove contra o 9 o vidente Zé Cabala.


Um cartola enciumado. A enlouquecedora mulher do cartola. A enlouquecida filha do cartola. O eterno reserva do centroavante. A alegre viúva. Um irado jornalista esportivo. Um apaixonado torcedor-símbolo. Um irmão humilhado. Um zagueirão viril e gay do time adversário. Estes são os nove suspeitos da morte de Beleza, o maior ídolo do Banânia Esporte Clube, assassinado em pleno campo após marcar seu milésimo gol.

Beleza era amado pela cidade inteira – ou quase. Alguns habitantes da provinciana Banânia e das redondezas tinham suas razões para querer ver o camisa 9 comer o gramado pela raiz. E foi o que aconteceu, justamente em seu momento de maior glória. Inconformadas com a morte de um dos mais fiéis clientes, as prostitutas locais decidem contratar uma dupla que passava por acaso pela cidade.


E a dupla era justamente Zé Cabala e Gulliver: o vidente especializado em prever os resultados do futebol, acompanhado por seu auxiliar – baixo em estatura, mas alto em QI. Diante das contradições que aparecem durante a investigação do caso, eles terão de usar todo o seu jogo de cintura para esclarecer o mistério.


Nove contra o 9 não é um romance convencional. O projeto foi ao ar pela primeira vez através do blog de José Roberto Torero, onde o futebol é assunto de destaque, em formato de folhetim. O esporte bretão não é novidade para a dupla, que, além de escrever constantemente sobre o tema, é roteirista de (fdp), série do canal HBO que acompanha os passos de um árbitro brasileiro.

Para esclarecer o crime cuja investigação marca as páginas do romance, Torero e Pimenta não poupam Zé Cabala e Gulliver do envolvimento em circunstâncias de perigo, além de trocadilhos infames e situações cômicas. Com grandes doses de humor, futebol e aventura policial, os autores prendem o leitor até a última página.

Capítulo 1
A morte do matador


Sou um anão. Anão, não. Deficiente vertical. Meu nome é Gulliver. E não é apelido. É que meu pai gostava de fazer piadas. Por conta dessa sua gracinha, desde pequeno (desculpe o trocadilho) tive que aguentar gracejos do mais baixo nível (desculpe este também).


Trabalho como assistente de um sujeito chamado Zé Cabala. Ele é que é o cérebro da equipe. Para você ver como estamos mal. Formamos uma dupla singular. Zé Cabala é magro e alto, e eu sou razoavelmente rechonchudo, de forma que, de longe, parecemos um “10”, ou melhor, um “1o”.

Você já deve ter ouvido falar de Zé Cabala. Foi um célebre nigromante ludopédico. Ou seja, ele adivinhava os resultados dos jogos para apostadores, benzia atletas, recebia espíritos de craques do passado, fazia trabalhos para clubes ganharem campeonatos etc. Tivemos fregueses famosos, como aquele técnico com nome de país pequeno. Não, não é Liechtenstein.

Mas chega de introdução. Vamos aos fatos. No último Campeonato Brasileiro, Zé Cabala foi contratado por torcedores de um certo time para que não caísse para a segunda divisão. Ele não caiu. Despencou. E a torcida não aceitou muito bem as desculpas. Na verdade, mal terminou o jogo e recebemos uma ligação avisando que iriam quebrar os nossos ossos.

Meus ossos são pequenos mas tenho certo apego a eles, de modo que sugeri  a Zé Cabala que  saíssemos da  cidade. Cinco minutos depois entrávamos na Vovó (que é como chamamos nossa Kombi 68) e disparávamos pela estrada.

Disparávamos é modo de dizer, porque ela não passa dos cinquenta. A ideia era ficar um tempo no Paraguai, na Bolívia ou em outro paraíso tropical, mas nosso pneu furou em Banânia, uma daquelas cidades tão pequenas que não têm semáforo nem loja de R$ 1,99.

Enquanto trocava o pneu, Zé Cabala ligou o rádio para escutar alguma coisa. Estavam transmitindo um jogo de futebol.


“Que demais, ouvintes, que demais! Fogos estouram e bandeiras tremulam! É o esquadrão aurinegro que vem adentrando o gramado do Pacóvio Costa! É dia de decisão: Banânia Esporte Clube de um lado, Grêmio Recreativo Laranjal do outro! Vai que vai, Alaor!”

“Vou que vou, Nestor! Mas olha, está a maior confusão aqui embaixo. É todo mundo em volta dele.”
“Você está falando do maior ídolo da história do Banânia?”
“Do próprio.”
“Aquele que já fez 999 gols pelo clube?”
“Ele mesmo.”
“E qual é o nome dele, Alaor?”
“Bê de bola, e de estádio, ele de lance, e de escanteio, z de zorra e a de habilidade. É Beeeeeeeeleza!”
“Que demais!”
“Até o juiz está pedindo autógrafo. E nesse momento o capitão da equipe adversária oferece um galho de laranjeira para ele. Eu vou tentar me aproximar. Não empurra, cacete!”
“Oi, Alaor?”
“Vai você se foder!”
“Olha o microfone aberto, Alaor.”
“Peço desculpas ao ouvinte, mas está complicado trabalhar  aqui. Deve ter mais gente no gramado do que na arquibancada, Nestor.”
“Eu sei, eu sei, é toda uma ansiedade, é toda uma expectativa em torno da marcação do gol mil. A cidade está em polvoro... Bzzzzzzzzz!”
“Que foi isso?”, perguntou Zé Cabala.
“O rádio pifou.”
“Que chato...”
“Chato é trocar pneu.”

Naquela altura eu já tinha tirado o pneu furado, colocado o estepe no lugar e girado a manivelinha até minhas mãos ficarem cheias de bolhas.

“Você se importa de terminar o serviço?”, perguntei.

Quando Zé Cabala apertou as porcas, o rádio voltou a funcionar. Milagre? Não. Carro velho é assim, você aperta uma coisa e liga outra.


“Um minuto de bola rolando. Viriato cerca, Fefê se livra; tem Beleza na entrada da área. Fefê lança, Beleza recebe a bola, domina, chuta... E é gol! Gooooooooooooool! É mil, é mil! Uma cla-mo-ro-sa falha do goleiro Nove Dedos! Beleza corre para o alambrado. É mil! Ele dá socos no distintivo do Banânia! Que demais! Agora está sendo carregado nos ombros! Nunca um atacante da quinta divisão obteve essa marca! Mil! Eu repito: mi... minha nossa Senhora! O que aconteceu?”

“Ele caiu no meio do gramado.”
“Vai até lá, Alaor.”
“A polícia não deixa, Nestor. Daqui da beira do gramado não dá para ver nada. Os companheiros estão em volta dele. Sai da frente, pessoal!”
“Deve ser a emoção, Alaor. Não é todo dia que se faz mil gols.”
“Com certeza, Nestor, com certeza. O doutor Penteado está indo para lá. Foi emoção, doutor?... Ele passa correndo. Daqui a pouco nós pegamos o depoimento dele.”
“É o Capacho ali no aquecimento, Alaor?”
“Exatamente, Nestor. Tudo indica que o Beleza não tem condições de seguir jogando.”
“Está me parecendo distensão, Alaor. Na hora do chute ele estava meio desequilibrado.”
“Agora a polícia forma um cordão de isolamento, a gente não consegue se aproximar... Ah, meu Deus! Tem jogador chorando ali!”
“É de sirene esse barulho?”
“Acho que é. Vou tentar falar com o Fefê. Oi, Fefê, por favor... Não, o Fefê não quer falar. Vou tentar o Mingau.”
“Olha a ambulância à sua direita, Alaor.”
“Pois é, Nestor, a ambulância se dirige até o local. Ela está parando agora e os funcionários descem com a maca! Só um minuto que o doutor Penteado vem vindo. Doutor Penteado, por
favor, uma palavrinha.”
“Ah, Alaor, é uma tragédia, uma tragédia... Eu peço a todos que tenham força espiritual nesse momento, porque o nosso querido Beleza acaba de mor... Bzzzzzzzzzz!”

Capítulo 2
Um velório sem lágrimas nem defunto


“E agora? Não deu para saber o que aconteceu com o cara”, lamentou Zé Cabala.

“Como não? Você não ouviu o locutor?”
“Ouvi. Ele disse: ‘o Beleza acaba de mor...’”
“Então?”
“Esse ‘mor...’ pode ser muita coisa. Vai ver ele acabou de ‘mor...’der a língua e não pode dar entrevista.”

Trabalho há muito tempo com Zé Cabala, mas confesso que até hoje não sei se ele é um sujeito brilhante que se faz de bobo ou um tolo que se faz de gênio. Olhei para ele para ver se descobria a resposta e vi que estava dando cabeçadas no rádio para que voltasse a funcionar. O pior é que deu certo.

“Que coisa incrível, Alaor, quer dizer que nosso ídolo está morto?”
“Pois é, Nestor, o Beleza agora vai ver o gramado pelo lado da raiz.”
“Caramba, o cara morreu mesmo!”, disse Zé Cabala dando um soco na direção e fazendo o rádio parar de funcionar mais uma vez.
“Isso pode ser interessante para nós”, pensei e falei.
“Por quê?”
“Ora, por quê! Porque vamos até o velório oferecer seus serviços de carteiro espiritual, de internet das almas. Aposto que a viúva vai querer falar com o falecido.”

Como estávamos sem dinheiro no bolso nem comida no estômago, na mesma hora Zé Cabala aprovou a ideia. Entramos na Kombi laranja-ferrugem (meu parceiro evita tirar a ferrugem porque tem medo de que não haja mais carro debaixo dela) e fomos até o Velório Municipal. Foi fácil achá-lo. Era só seguir a multidão.

Do lado de fora o lugar mais parecia uma feira. Havia barraquinhas de sucos naturais, de frutas, pipoqueiros, sorveteiros, vendedores de cachorro-quente etc. Mas a maioria dos vendilhões comercializava um item especial: camisas do Banânia.


Aliás, aqui vai uma descrição do manto sagrado: a cor principal é o amarelo berrante, porém a gola, as mangas e os números são pretos. O distintivo é o desenho de uma folha de bananeira, com uma banana de cada lado, costurada à moda antiga, com linha preta. Ao pé dessa folha, a sigla B.E.C., que quer dizer Banânia Esporte Clube. Não vi ninguém vendendo o calção do clube ou seus meiões, mas aqui fica a nota para a posteridade: ele é preto; eles, amarelos.


A multidão de torcedores foi mantida do lado de fora por um cordão de isolamento. Todos estavam tristes e muitos vertiam lágrimas. Expliquei que éramos assessores espirituais e nos deixaram entrar. Quem iria barrar um anão e um cara de turbante?

O ambiente do lado de dentro era o oposto do do lado de fora. Havia pouca gente (umas quarenta pessoas) e quase nenhum clima de pesar. Outra coisa estranha é que não havia corpo no caixão. No lugar de honra, solitária, via-se a viúva, uma mulher magra e de longos cabelos negros. Vez por outra, alguém lhe transmitia os pêsames.

Estávamos caminhando em direção a ela para oferecer nossos serviços quando um sujeito deu-me uma barrigada na testa. Era um japonês que usava um cavanhaque à la barba de bode. Após subir numa cadeira, ele começou a falar. Falar não, berrar:

“Pessoal, olhem aqui, prestem atenção: para quem não me conhece, eu sou o delegado Fukuda. É o seguinte: quero ver todo mundo circulando. É isso mesmo, podem ir embora.
O corpo do Beleza não vem para cá. Ele vai passar a noite no Instituto Médico Legal. Foram feitos uns exames preliminares e, bom, eu não deveria falar de uma coisa que ainda é segredo de investigação, mas o fato é que ele foi... assassinado.”

Um “oh!” ecoou pelo recinto. “Isso mesmo. Veneno!”, completou o sujeito. Puxei a manga da camisa de Zé Cabala e perguntei:
“Ainda vamos oferecer os préstimos espirituais para a viúva?”
“Faremos melhor que isso”, ele respondeu. “Vou oferecer nossos serviços de detetives particulares.”
“Bom, eu até já vi uns filmes e li uns livros sobre isso, mas você entende do assunto?”, perguntei.
“Fiz um curso por correspondência.”
“Sério?”
“Sério. Li quase metade da apostila.”


Então Zé Cabala subiu numa cadeira e falou em alta voz:

“Por favor, um minuto da sua atenção. Sou o detetive Zé Cabala e este é Gulliver, meu altivo auxiliar (ah, como odeio esses trocadilhos!). Estávamos de passagem por esta aconchegante cidade quando soubemos deste triste acontecimento. Como somos especialistas em crimes esportivos, gostaria de oferecer nossos serviços aos interessados e em especial à senhora viúva.”
Ela nem titubeou e respondeu um seco “Não, obrigada”.
“Não!?”, espantei-me e interroguei-me. “A senhora não quer saber quem envenenou seu marido?”
“Não.”
“Nem como?”
“Não.”
“Nem quando?”
“Não.”
“Nem por quê?”

Sobre os autores:

José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta já escreveram diversas histórias para crianças. Mas não fazem só livros. Torero é de Santos. Considerado um dos grandes talentos da nova ficção brasileira, é autor do best-seller O Chalaça (prêmio Jabuti em 1995) e de Xadrez, truco e outra guerras (Coleção Plenos Pecados), entre outros. Foi um dos roteiristas do curta-metragem Uma história de futebol, indicado ao Oscar em 2001, e que se tornou livro infanto-juvenil em 2002, conquistando o prêmio de Altamente Recomendável pela FNLIJ. Em parceria com o escritor Marcus Aurelius Pimenta, escreveu Terra Papagalli e Os vermes. Santista, durante seis anos escreveu uma coluna sobre futebol na Folha de S. Paulo.


Um comentário:

  1. Leitura divertidíssima...
    O livro parece pronto para virar filme!
    Abraços
    João Ricardo, blog Fut Pop Clube

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