segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

A Rainha de Chuteiras


Não é incomum um garoto brasileiro gostar e saber mais sobre os jogadores do campeonato inglês do que sobre os nossos “brazucas”. Há até fã-clubes das principais equipes, como Manchester, Liverpool e Chelsea espalhados por nossas terras. Para muitos, a Liga dos Campeões é mais importante (e talvez até mais assistida) do que o Campeonato Brasileiro.

Marcos Alvito, professor de história e doutor em antropologia, apaixonado pelo futebol, começou essa ligação com o futebol inglês muito tempo atrás quando os ídolos dos gramados da Rainha eram outros.

Hooligans

Decidido a conhecer e a entender melhor tudo isso, Alvito resolveu estudar para valer o futebol inglês, especialmente, o fenômeno dos “hooligans”, torcedores organizados que levaram medo e terror às arquibancadas.

Nada de teoria. Marcos Alvito foi “beber direto da fonte” e o resultado pode ser encontrado e lido no belo “A Rainha de Chuteiras: um ano de futebol na Inglaterra” (Clube dos Autores, 2013). Você, leitor, mesmo que não curta muito o futebol inglês, vai gostar de conhecer os bastidores do berço do futebol mundial.

Abaixo, Literatura na Arquibancada destaca o texto de apresentação e um trecho do capítulo 6, exatamente sobre os “hooligans”. Mas há também outros trechos que podem ser “degustados” antes da compra no link http://www.clubedeautores.com.br/book/139046--A_Rainha_de_Chuteiras

Apresentação ou de como a rainha calçou chuteiras
Por Marcos Alvito

Kevin Keegan

Até hoje me lembro dela. Era uma caixinha de papelão branco. Na tampa, eu havia recortado e colado uma foto da seleção inglesa pisando o solo sagrado de Wembley. Lá dentro, meus craques de galalite, o material com que eram feitos os times de botão naquela época. Muita atenção para o número 7, o diabólico ponta-direita Kevin Keegan. Eu devia ter uns doze anos e sonhava com o futebol inglês. Claro que gostava do futebol brasileiro e também tinha outro time com a seleção de 70. Destaque para Tostão, um botão amarelado e mais alto do que os outros, mas que gostava de fazer gols de longe. Mas o futebol da terra da rainha não me saía da cabeça.

O tempo passou, os botões ficaram guardados na caixinha. Eu me formei em História, tornei-me professor universitário e doutor em Antropologia. Em 2005 comecei uma pesquisa chamada "A paixão vigiada". Seu objetivo era comparar o policiamento de torcedores no Brasil e... adivinhem?  Na Inglaterra. Afinal os ingleses tinham enfrentado e aparentemente resolvido o problema dos "hooligans". Fiz dois anos de pesquisa no Brasil e em julho de 2007 fui para a Inglaterra passar um ano. A pesquisa me "obrigou" a assistir jogos de todo o tipo, desde Liverpool x Arsenal até partidas da 8ª ou 9ª divisões. Assisti a jogos da Champions League, da FA Cup e do Campeonato Escocês. Acompanhei até mesmo as aventuras de um time de futebol feminino. Entrevistei policiais e torcedores, fui com ambos a jogos no frio, na chuva e até na neve.


Este livro é um relato daquele ano maravilhoso na forma de pequenas crônicas, sobre os hooligans, sobre os fanzines, sobre os clubes semi-profissionais, sobre projetos educacionais utilizando o futebol, sobre a atuação da polícia, as grandes rivalidades e por aí vai. Enfim, é um livro sobre a cultura do futebol inglês. Há também uma ou duas crônicas sobre outras paixões inglesas: as apostas, o rugby, o cricket... Sempre em um enfoque antropológico e bem humorado.

O leitor também vai ganhar oito "faixas bônus" com uma breve história do futebol inglês, das batalhas campais da Idade Média até a Premier League. É por aqui que começamos o nosso A Rainha de Chuteiras - um ano de futebol na Inglaterra.

Os hooligans e a grande crise do futebol inglês
(capítulo 6, pp. 40-42)
Por Marcos Alvito


No início da década de 1960, os jovens estavam revolucionando a maneira de torcer nos estádios britânicos. Passaram a se concentrar nos terraces localizados atrás do gol, onde os ingressos eram mais baratos e a distância da parte “respeitável” do público era maior.

“You will never walk alone”, uma música tocada por um grupo local, Gerry and the Pacemakers, foi transformada pelos torcedores do Liverpool F.C. em um verdadeiro hino do clube. Cantavam, criavam gestos e roupas próprios, sobretudo para diferenciarem-se dos adultos, mas também dos outros grupos de jovens. Esses estilos viajavam rapidamente pela mídia, influenciando outros jovens por todo o país.

Os terrace ends são cada vez mais exclusivamente frequentados por jovens, que começam a percebê-los como um território particular, onde eles afirmavam sua identidade e seus valores. As rivalidades futebolísticas eram apropriadas por esses jovens, resultando em disputas e conflitos entre os grupos. Antes de mais nada, havia a agressão verbal do tipo:

        “Oxford boys we are here
        Shag your women
        Drink your beer”

        (Chegaram os caras de Oxford
        Transamos com suas mulheres
        E bebemos sua cerveja)

        Ou então:

        “You're gonna have your fuckin' heads kicked in”
        (Vocês vão ter suas cabeças chutadas)


Além de ofensas, xingamentos e ameaça, as brigas entre torcedores rivais, as invasões de campo e o arremesso de objetos tornavam-se a cada dia mais frequentes. Já em novembro de 1963, o Everton F.C. é o primeiro clube a colocar cercas atrás do gol, chamadas pelos jornais de “hooligan barriers” (barreiras contra os hooligans).  Ao mesmo tempo, estava havendo uma diminuição do público que frequentava o estádio, causada pelas transformações em curso na sociedade, mas também agravada por esse aumento na violência.

Confrontos entre grupos de jovens ocorriam também fora do futebol, e o público começa a ficar extremamente sensível a este tipo de notícia, o que é amplamente explorado pela imprensa, cada vez de forma mais sensacionalista. Os jornais do final da década de 1960 passaram a vender a idéia de que havia uma “guerra” em curso nos estádios, o que sem dúvida contribuiu para afastar ainda mais o público bem-comportado e para tornar o sábado à tarde ainda mais excitante para os jovens.

Começava assim um círculo vicioso que logo iria resultar na criação de pequenos grupos de jovens torcedores voltados exclusivamente para a violência e o combate entre si, as chamadas “firms” ou “crews”. No início da década de 1970 os jornais populares já publicavam rankings dos grupos de torcedores mais violentos. E as “firms” começaram a ousar cada vez mais, buscando aumentar a sua “reputação”. A violência no futebol começa a fazer parte do cardápio de atrações da televisão que começa a focalizar os confrontos entre as torcidas, os palavrões e desafios obscenos em um verdadeiro estímulo ao à agressividade exibicionista.


De início a “brincadeira” era tomar o end da torcida adversária, pois a invasão do território inimigo era a suprema humilhação dos contrários. Mas a polícia começa a prever estes incidentes e a prender os envolvidos. A minoria de jovens interessados somente em brigar começa a planejar outros tipos de ação, muitas vezes encontrando os grupos rivais fora do estádio. Ao mesmo tempo, começam a ser tomadas medidas para prevenir a violência, mas que transformam os estádios em verdadeiras prisões: são levantadas cercas em torno de todo o campo e o estádio é dividido em pens (“chiqueirinhos”) separados por grades.

De ambos os lados, as torcidas estavam enjauladas. Esta divisão e segregação dos torcedores aumenta ainda mais o clima e as manifestações de rivalidade e de agressão verbal. Os torcedores visitantes passam a ser escoltados pela polícia desde o seu desembarque dos trens e marcham como se fossem um exército inimigo até o local do jogo. Cada vez mais a polícia usa cães e cavalos, é montada uma verdadeira “operação de guerra” a cada sábado. Os torcedores passam a ser revistados à entrada, mas os interessados em violência conseguem ludibriar a polícia com uma maligna criatividade: afiam moedas até torná-las pontudas, enrolam jornais até transformá-los em armas e por aí vai. A presença de enormes contingentes policiais o clima belicoso tornam tudo aquilo ainda mais atrativo para os torcedores patologicamente violentos, ao mesmo tempo em que a frequência aos estádios cai assustadoramente.

Sobre Marcos Alvito:

É carioca de Botafogo e Flamengo até morrer.  É um antropólogo que dá aula de História na UFF desde o longínquo ano de 1984. Perna-de-pau consagrado, estuda um jogo que nunca conseguiu jogar direito: o futebol. Mas encara qualquer um no futebol de botão. Participa, aqui, no Literatura na Arquibancada, do “Deixa Falar: o megafone do esporte”, criado e editado por Raul Milliet Filho.

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